domingo, 16 de julho de 2017

A Crucifixão - Pe Frederick William Faber

A Crucifixão


    O mundo é um mistério. A vida, o tempo, a morte, a dúvida, o bem e o mal e a incerteza que pairam sobre nosso destino eterno são mistérios. Ardem ocultamente no coração dos tempos. Mas o Crucifixo é seu significado, a solução para todos eles. Ele põe as questões, e responde a elas também. É a solução de todos os enigmas, a certeza de todas as dúvidas, o centro de todas as fés, a fonte de todas as esperanças, o símbolo de todos os amores. Revela o homem a ele mesmo, e Deus ao homem. Lança luz ao tempo, para que possa contemplar a eternidade e acalmar-se. É uma vista doce de olhar em tempos de alegria, pois torna a alegria mais terna sem reprová-la, eleve-a sem extenuá-la. Na dor não há vista como esta. Ela arranca nossas lágrimas, e fá-las cair mais rapidamente, e tão suavemente, que se tornam mais doces que sorrisos. Dá luz na escuridão, e o silêncio de sua pregação é sempre eloquente, e a morte é vida em face da grave seriedade da vida eterna. O Crucifixo é sempre o mesmo mas sempre varia sua expressão segundo nossa disposição, conformando-se ao que mais queremos e a que é melhor para nós. Não é surpreendente que os santos se tenham agarrado ao Crucifixo com tais transes de amor satisfeito. Mas Maria é parte da realidade deste símbolo a Mãe e o Apóstolo ficam, por assim dizer, ao pé do Crucifixo ao longo de todas as eras, símbolos do grande mistério, da única religião verdadeira, do que Deus fez pelo mundo que criara. Assim como não podemos pensar no Menino de Belém sem a sua Mãe, assim tampouco os Evangelhos nos permitem imaginar ao Homem no Calvário sem sua Mãe. Jesus e Maria eram sempre um; mas havia uma união peculiar entre eles no Calvário. A esta união chegamos agora, à quinta dor de Maria, à Crucifixão.
    A Via-Crúcis acabara, e eles chegaram ao cimo da colina um pouco antes do meio-dia. Se a tradição é verdadeira, aquele lugar era um memorial apropriado para ser o santuário do mundo; pois se diz que foi o lugar do túmulo de Adão, o lugar onde repousou quando a misericórdia de Deus o acolheu e encerrou seus novecentos anos de penitência heroica. Próximo estava a cidade de Davi, que era antes a cidade de Deus, o centro de uma história tão maravilhosa, o objeto de um amor divino tão patético. A cena por representar agora descoroaria a cidade real; mas apenas para coroar com uma coroa muito mais gloriosa de luz, de esperança, de verdade e de beleza de todas as cidades do mundo onde o Cristo Crucificado seria pregado e onde o Santíssimo Sacramento moraria. Passou pouco tempo, talvez uma hora, desde a última dor; e assim passaram somente quatro horas desde a quarta dor até a consumação da quinta. Mas, com respeito ao sofrimento e à santificação, foi o período mais longo que os dezoito anos de Nazaré. Com respeito a nenhuma outra coisa isto é mais verdadeiro que com respeito à nossa santidade: para Deus mil anos são apenas um dia. Estas horas estavam repletos de mistérios tão divinos, de realidades tão vibrantes, que o passar do tempo não era um elemento da agonia da alma de Maria. Ela chega à Crucifixão como uma maravilha da graça e um milagre de sofrimento maiores que quando, uma hora antes, encontrara a Jesus com a Cruz na esquina da estrada.
    Despiram-No de Suas vestes, e por causa disso Sua Natureza humana foi diminuída inexprimivelmente. Para sua Mãe a indignidade era uma tortura em si, e ver o Coração descoberto de seu Filho foi um horror e uma agonia que as palavras não podem expressar. Puseram-No na Cruz, cama mais dura que a Manjedoura de Belém onde primeiro fora posto. Entrega-se às mãos dos soldados com tanta docilidade como uma criança que se entrega a uma mãe que o prepara amavelmente para dormir. Parece, e foi realmente assim, que Sua vontade, e não a sua, era cumprida. Belo na desfiguração, venerável na vergonha, o Deus Eterno jaz na Cruz, com os olhos fitos nobremente nos céus. Nunca, pensava Maria, Ele tinha parecido tão adorável, tão manifestadamente Deus, como agora que estava esticado, vítima impotente, mas pronta; e ela adorava-O com o mais profundo culto. Os carrascos esticam Seu braço direito, e colocam-no na Cruz. Martelam o cravo áspero na palma de Sua Mão, na Mão de onde fluem as graças do mundo, e a primeira pancada seca do martelo é ouvida em silêncio. O tremor da dor excessiva passa a Seus membros sagrados, mas não remove a expressão doce de Seus olhos. Agora, um golpe se segue a outro, e ecoam vagamente em algum lugar. Madalena e João fecham os ouvidos; pois o som é insuportável: é pior do que se o martelo de ferro golpeasse seu coração vivo. Maria ouve a tudo. O martelo golpeia seu coração vivo; pois seu amor há muito morreu para si, e só vive para Ele. Ela olhou para o Céu. Não conseguia falar. Palavras não diriam nada. Somente o Pai entendia a oferta daquele coração, agora quebrantado tantas vezes. Para ela a Fixação dos Cravos não foi uma só ação. Cada martelada era um martírio diferente. O martelo tocava seu coração como a mão de um músico aperta variavelmente as teclas de seu instrumento.
    A Mão Direita está pregada na Cruz. A Esquerda não alcança o outro lado. Ou erraram no cálculo do orifício que abriram para facilitar a passagem do prego, ou o Corpo se contraiu pela agonia. A cena que se seguiu é temível, como os santos a descrevem em sua revelação. Os carrascos puxaram o braço esquerdo com todas as suas forças; mas ainda não alcançava o outro lado. Ajoelharam-se sobre suas costelas, que rechaçavam, conquanto não quebrassem, pela pressão violeta, e, deslocando Seu braço, conseguiram esticar a Mão até o lugar. Não se pode arrancar de Jesus mais que um olhar amável, e a expressão doce ainda estava em seus olhos. Mas para Maria - quem consegue imaginar o horror daquela vista, daquele som, para ela? Oh! Havia mais pesar neles que em todos os santos que ainda não tinham sido canonizados! Os golpes secos do martelo começavam novamente, variando o som conforme golpeavam carne ou músculo, ou a madeira dura, onde o prego abria seu caminho cruel. Suas pernas também estão esticadas pela violência; um Pé está cruzado sobre o outro, esses Pés que tantas vezes sofreram dor e a massa sólida dos músculos contraídos, vagarosamente e com uma agonia indizível, por causa da oscilação dos pés nesta posição. É inútil falar da Mãe; é inútil compadecer-se dela. Nossa compaixão não é nada em comparação com tal excesso terrível de agonia. Mas Deus susteve sua criatura, ela sobreviveu.
    Agora a Cruz está erguida da terra, com Jesus jacente nela, a mesma expressão doce nos olhos, e a cruz é levada para perto do buraco que cavaram para receber o pé da cruz. Amarraram cordas à cruz, e, prendendo-as à extremidade do buraco, começaram a levantá-la perpendicularmente por meio das cordas. Quando estava de pé, empurram a base gradualmente até a extremidade da cova, até que caiu na cavidade com um salto veemente, que deslocou todos os ossos, e quase rasgou o Corpo nos cravos. De fato, alguns contemplativos mencionam uma corda pendurada ao redor de Sua cintura tão cruelmente apertada que se escondia na carne, para impedir que o Seu Corpo se despregasse da Cruz. Assim, um horror sobrepuja outro, explorando, com impressões ardentes, como as vibrações de um terremoto, todas as capacidades sobrenaturais do sofrimento, que são como um abismo no coração arruinado da Mãe. Não comparemos seu sofrimento a nenhum outro. É único. Podemos contemplá-lo e chorá-lo com amor, com um amor que é também sofrimento. Mas não ousamos fazer nenhum comentário sobre ele. Mãe Dolorosa, bendita seja a Santíssima Trindade pelos milagres de graça realizados em vós nesta hora tremenda!
[...]
    É difícil para uma mãe ficar imóvel do lado do leito de morte de um filho. O pesar tem de mover alguma coisa. As necessidades do sofredor são a luxúria do pranteador. É preciso amaciar novamente os travesseiros, tirar o cabelo da frente dos olhos, enxugar da testa úmida as gotas da morte, umedecer continuamente os lábios exangues, esfregar as mãos pálidas, afastar uma cortina para que entre mais ar, proteger os olhos da luz, remover as roupas que dificultam a respiração. Ainda quando é claro que o toque mais leve, o mais gentil desses serviços, é causa de dor para o sofredor, a mão da mãe não consegue refrear-se; pois seu coração está em todos os dedos. Ficar imóvel é uma desolação para sua alma. Ela pensa que não é a habilidade ou experiência da enfermeira o que deve ditar seus movimentos, mas sim sua teimosia, pois a enfermeira não é a mãe desse belo menino; e assim se rebela contra a autoridade da enfermeira, ainda que as possibilidades de ser cruel lhe refreiem as mãos. É certo que se deve retirar a espuma da sua boca, é verdade que o longo cacho de cabelos está coçando ao cair entre os olhos e dividir sua visão, é certo que se deve trazer de volta, com delicadeza, com muita delicadeza, o sangue à mão gelada. E assim ela se senta murmurante, condensada toda a sua dor na imobilidade obrigatória. Pensai, então, quanto Maria sofreu nas três longas horas sob a Cruz! Existiu alguma vez leito de morte tão incômodo, tão desconfortável como aquele madeiro áspero? Existiu alguma vez postura mais torturante do que estar dependurado com cravos nas mãos, sendo puxado mais e mais para baixo pelo peso do Corpo? Onde estava o travesseiro para Sua cabeça? Se tentasse repousar sobre o Título da Cruz, a coroa de espinhos empurrava-O para frente de novo; se se prostrasse sobre o Peito, não poderia alcança-lo, e o peso despregaria o Corpo dos cravos. Correntes vagarosas de Sangue escorriam sobre seu Corpo ferido, fazendo-O tremer a seu toque, com irritação e desconforto muito dolorosos. O Sangue lhe irritava os olhos, um líquido quase congelado. Sua Boca, tremendo de sede, era também tocada pelo Sangue, que Sua respiração umedecia cada vez menos. Não havia membro que não reclamasse a mão terna da Mãe, e sua mão não conseguia alcançar tão alto. Seu toque aliviaria multidão de dores. Ó mães, há algum nome para expressar o desejo intolerável de Maria de alisar aquele cabelo, de limpar aqueles olhos, de umedecer aqueles lábios que havia pouco tinham dito palavras tão belas, de soltar as mãos latejantes e de segurar por um tempo a sola dos pés esmagados e lacerados?



Ao Pé da Cruz - Pe Frederick William Faber

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Programação - Santa Missa


Sábado - 01/07 - (Primeiro do mês - Festa do Preciosíssimo Sangue de N.S.J.C):

17:30 - Rosário, Confissões e Meditação dos mistérios do rosário
19:00 - Santa Missa

Após a Missa haverá adoração ao Santíssimo Sacramento durante toda a madrugada.

Domingo - 02/07

09:00 - Rosário, Confissões
10:00 - Santa Missa

Aos que puderem, pedimos ajuda para os gastos com as passagens do padre.

Meditações - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 30º dia

Meditações - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 30º dia


Aproximemo-nos da santa Mesa: ali acharemos o Coração de Jesus desejoso de nos comunicar suas graças.  

     Na derradeira noite de sua vida, nosso amantíssimo Redentor, vendo que era chegado o tempo dele morrer pelos homens, tempo pelo qual tão ardentemente suspirava, não pode consentir em nos abandonar sós neste vale de lágrimas; para que nem a morte o separasse de nós, quis deixar-nos em alimento no Sacramento do altar seu corpo, sangue, alma e divindade. 
    Mas qual é seu intento dando-se a nós deste modo? Ah! sabemos que é próprio daquele que ama querer bem a pessoa amada. O Cora­ção de Jesus quer então vir a nós para nos fazer bem; ele tem, para isto, todas as riquezas do Pai eterno. Assim, quando ele visita nossas almas sacramentalmente, vem com tesouros imensos de graças. Depois da comunhão bem podemos dizer: Todos os bens me vieram com ela. O efeito principal operado pelo Sagrado Coração neste divino banquete, é entreter em nós a vida da graça. Dai o nome de Pão de vida dado á Eucaristia, porque, assim como o pão material sustenta a vida do corpo, assim o pão espiritual sustenta a vida da alma, mantendo-a na graça de Deus.
    Mas, para um organismo doentio não basta o pão; necessários lhe são ainda remédios próprios para combater eficazmente as causas que destroem a saúde. A comunhão satisfaz também a esta necessidade de nossas almas, cuja vida é posta em perigo pelos pecados veniais e pelas paixões. Este alimento divino e, com efeito, conforme o Concilio de Trento, o antidoto que nos livra das faltas veniais e nos preserva dos pecados mortais. A Comunhão nos livra das faltas veniais, porque este divino Sacramento leva o homem a fazer atos de amor que apagam os pecados veniais; preserva-nos também das faltas graves, pelo aumento da graça que ela produz em nós. Uma fonte d'agua sai do Coração de Jesus e pára o fogo das paixões que nos consomem: aquele que sente arder em si este fogo, chegue-se á comunhão, e verá logo sua paixão, se não morta, ao menos muito amortecida. Se algum entre nós, dizia S. Bernardo, sente-se menos vezes e menos violentamente levado á ira, á inveja, a impureza e a outros vícios, dê graças ao Sacramento de amor: ele é que opera estes felizes efeitos.
     Não contente de extinguir em nós os impuros ardores da concupiscencia Jesus, na Eucaristia, acende ainda em nossas a mas a celeste chama do divino amor, o qual é o mais seguro preservativo contra o pecado. Deus é amor;" é um jogo que consome em nossos corações todas as afeições terrestres ; ora, o Filho de Deus declara que que veio trazer fogo sobre a terra, e que todo seu desejo é ver todas as almas abrasadas. Com efeito, quão salutares ardores o Coração ardente de Jesus faz experimentar aqueles que comungam com fervor! Quando deixamos esta sagrada mesa, diz S. João Crisostomo, as chamas d' amor que se erguem de nossos corações, nos tornam temíveis ao inferno mesmo. Então, não somente os demônios fogem logo que nos veem, mas os santos anjos vem colocar-se em torno de nós.
     Enfim, pela santa comunhão, o Coração de Jesus nos eleva a dignidade tal, que apenas podemos conceber, porque o pão celeste tornase a mesma coisa conosco se é que assim me posso exprimir, como o alimentocorporal se muda em nosso sangue; mas com esta diferença que os alimentos terrestres tomam nossa natureza, ao passo que, recebendo este alimento divino, nós tomamos a natureza de Jesus Cristo. Nosso Senhor, convidando-nos ao celeste banquete, parece dizer-nos : Comei, e sereis por minha graça o que eu sou por natureza. Tais são as palavras que ele se dignou dizer certo dia a Santo Agostinho : Eu não serei mudado em ti, mas tu serás mudado em mim. Assim é que o Sagrado Coração virá reformar todo nosso ser, dando-nos, segundo sua promessa, um coração novo.
     Se a comunhão é tão vantajosa, d'onde vem, pergunta o Cardeal Bona, que tantas almas tiram dela tão poucos frutos? Não é falta de virtude no alimento, responde ele, mas é falta de disposição no que o recebe. O fogo pega depressa na madeira seca e dificilmente na verde, porque esta não está disposta para arder. Se os santos tiraram tão grandes frutos de suas comunhões, é porque punham muito cuidado em se preparar. S. Luiz de Gonzaga empregava três dias nesta preparação, e outros três dias na ação de graças ; nesta mesma intenção ele oferecia a Jesus Cristo todas as ações do dia.

Prática

    Preparar-me-ei com todo o cuidado para a comunhão, primeiro desapegando-me cada vez mais das criaturas, e depois, desejando vivamente crescer no amor divino. Desde a véspera, suspirarei pela vinda de meu Deus, dizendo:Ó Coração de Jesus, vinde, minha alma suspira por vós. - Para Ação de graças direi muitas vezes durante minhas ocupações : Ó doce Coração de Jesus, não permitais que eu me separe jamaisde vós pelo pecado: fazei, ao contrário, que eu vos ame cada vez mais.

Afetos e Súplicas

    Ó Senhor, cheio de bondade, amabilíssimo Salvador meu, com que amor me visitais, quando vindes á minha alma pela santa comunhão! então, vós não me honrais somente por vossa presença, mas vos tornais meu alimento, vos unis e vos dais inteiramente a mim, de sorte que eu posso dizer com verdade: Meu Jesus, pois que vos dais todo a mim, justo e que eu me dê todo a vós. Mas ai! eu sou um miserável verme, e vós, vós sois meu Deus! Deus de amor, ó amor de minha alma, quando e que me verei todo vosso, não somente de palavra, mas de fato? Ah! e o que podeis fazer, Senhor : aumentai em mim, pelos merecimentos de vosso Coração a confiança de que tenho necessidade, a fim de que obtenha de vós esta grande graça de me ver todo vosso antes de morrer, todo para vós e mais de modo nenhum para mim mesmo. Meu Deus, que atendeis a todos aqueles que vos invocam, escutai hoje a oração desta pobre alma que deseja vos amar verdadeiramente. Eu quero vos amar com todas as minhas forças, quero vos obedecer em tudo, sem interesse, sem consolação, sem recompensa; quero vos servir por amor, unicamente para vos agradar, para satisfazer vosso Coração de que sou tão ternamente amado. Minha recompensa será vos amar. Ó Filho querido do Padre eterno, apoderai-vos de minha liberdade, de minha vontade, de tudo o que me pertence, de todo o meu ser, e dai-vos a mim; eu vos amo, eu vos busco, por vós suspiro, e desejo ser todo vosso! Ó Mãe de meu Redentor, rogai por mim, a fim de que, por vossa assistência, eu receba vosso divino Filho com amor perfeito, e minha alma se torne segundo o seu Sagrado Coração.

Oração Jaculatória

Amante Coração de meu Jesus, fazei que meu coração seja todo para vós. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Meditação - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 29º dia

Mês do Sagrado Coração de Jesus - 29º dia

   Aproximemo-nos da santa Mesa: ali acharemos o Coração de Jesus desejoso de se unir a nós muito frequentemente. 


      O amor tende naturalmente a união com o objeto amado, ou antes, segundo o pensamento de santo Agostinho, o amor é uma cadeia de ouro que une o coração da pessoa que ama, e o da pessoa amada. E como esta união não se pode efetuar de longe, aquele que ama, deseja sempre a presença da pessoa amada. A esposa sagrada, quando separada do seu Amado, enlanguecia, e rogava a suas companheiras para que lhe contassem seus padecimentos, afim de obrigar a consola-la por sua presença: eu vos conjuro, filhas de Jerusalem, se encontrardes meu Amado, dizei-lhe que enlangueço de amor. 
    Ora, a união do homem com seu Deus faz-se na santa comunhão, como a palavra o indica. Mas notemos aqui um prodígio de ingratidão e outro de amor. De um lado, o coração do homem, apesar da extrema necessidade que tem de seu Deus, separa-se da mesa santa, ou se aproxima o mais raramente que pode; e de outro lado o Coração amante de Jesus deseja, busca, solicita esta união de todas as maneiras possíveis.
    Ele manifesta neste sentido o mais vivo desejo. Ardentemente desejei, diz ele, comer esta
pascoa convosco. Estas palavras foram pronunciadas na ultima ceia; mas o fogo que abrasava então o Coração de Jesus, não é menor hoje. Eis porque ele não cessa de nos fazer os mais ternos convites: Vinde, comer o pão e beber o vinho que eu vos preparei. Não contente de nos convidar, Jesus nos impõe obriga­ção d'isto por um preceito formal : Tomai e comei, este é meu corpo. De mais ,  ele nos atrai pela promessa da vida eterna: Aquele que come este pão, viverá eternamente. Chega até a nos ameaçar de nos excluir do paraíso se recusamos comer sua carne sagrada. Se não comeis da carne do Filho do homem, não tereis a vida em vós. Que nos dizem estes convites, estas promessas, estas ameaças? Revelam-nos o desejo que tem o Coração do Jesus de se unir a nós na Eucaristia, desejo que nasce do grande amor que ele nos tem. E evidente que só a comunhão frequente pode satisfazer tal desejo. 
     Mas não é verdade que o coração do homem evita o mais que pode a doce união solicitada pelo Coração de seu Deus? Ó insensatos partidários do mundo, exclama santo Agostinho, desgraçados, aonde ides para satisfazer os desejos de vosso coração? Vinde ao Coração de Jesus, único que pode vos dar a felicidade que buscais. Ó vós que ledes estas linhas, não sigais estes transviados; vinde ao banquete sagrado buscar este único bem em que se acham todos os bens. Temeis! Ah! durante os primeiros seculos da Igreja, os fieis rompiam todos os dias este pão celeste em suas reuniões, como no-lo ensina S. Lucas dos de Jerusalem. Sim, este é o nosso pão quotidiano, nos diz Santo Ambrósio ; ide então recebe-lo quotidianamente, a fim de que cada dia vos seja ele proveitoso.
    Se não podeis comungar todos os dias, como os fervorosos cristãos dos grandes seculos de fé, comungai ao menos todas as vezes que puderdes. Não vos esqueçais, principalmente, da comunhão da primeira sexta feira de cada mês, a qual o Coração de Jesus concede as maiores graças. Fazei-apenas três intenções já citadas, isto é: 1°. em reconhecimento do dom inefável que Jesus nos fez na Eucaristia, de seu corpo, de seu sangue, de sua alma, de sua divindade, de seu Coração ; 2°. em compensa­ção da negligência que tinheis outrora em vos aproximar da santa mesa. Pedi o ardor de uma santa Catarina de Sena, que ia ter-se com seu confessor, exclamando : Ó meu Pai, dai a minha alma seu nutrimento muito amado ; dai a minha alma seu nutrimento. Pedi a fé de uma santa Maria Magdalena de Pazzi, que chorava de dor vendo desprezar-se a comunhão : Eu antes quisera morrer do que faltar a uma só das comunhões que meu confessor me concede; 3º em reparação de vossas faltas e de tantos sacrilégios ·que se cometem contra este adorável Sacramento. Nosso divino Salvador se dignou um dia dizer estas consoladoras palavras a venerável Irmã Prudenciana Zagnoni: Se comungardes muitas vezes, esquecerei todas as vossas ingratidões. Obriga-vos também a vos aproximar do divino banquete a compaixão para com o Divino Salvador. Santa Teresa percebeu, certo dia, com horror um desgraçado sacrilego cer­cado de dois demônios que tremiam diante do Santissimo Sacramento ; e então ouviu, do meio da hoótia, Jesus dirigir-lhe estas pala nas: Vê, Teresa, até onde chega minha bondade, pois que, para teu bem e para o de todos os homens, consinto em me pôr assim entre as mãos de meu inimigo.

Prática

     Farei a comunhão reparadora na primeira sexta feira de cada mês. O Coração de Jesus é que m'o pede. Poderei recusar-lhe uma coisa que redundará toda em meu proveito?

Afetos e Súplicas

     Ó Coração de meu amadissimo Jesus, ó mais terno e generoso de todos os corações, que coisa então vos levou a vos dardes todo a nós em nutrimento? e depois deste dom inefável, que vos resta ainda fazer para nos obrigar a vos amar? Ah! esclarecei-nos e fazei-nos conhecer este excesso de amor que vos transformou em alimento para vos unirdes a nós, pobres pecadores! Mas se vos dais todo a nós, justo é que nós também nos demos inteiramente a vós. ó Coração de meu Redentor, como pude vos ofender vendo que me tendes amado tanto, e nada haveis poupado para ganhar meu amor! Vós vos fizestes homem por mim, vós vos fizestes meu nutrimento; dizei-me, que poderieis fazer ainda? Oh! eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, amor infinito : vinde, Senhor, vinde muitas vezes á minha alma: quero unir-me muitas vezes a vós na santa comunhão, para me desapegar de tudo, e para amar a vós somente, que sois minha vida. Ó Maria, por vossa intercessão, tornai-me digno de receber muitas vezes vosso divino Filho no Sacramento de seu amor.

Oração Jaculatória

Coração amável de meu Jesus, bem pobre e desgraçado é o coração que vos não ama. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Meditação - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 28º dia

Meditação - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 28º dia


Aproximemo-nos da santa Mesa: ali acharemos o Coração de Jesus desejoso de se unir estreitamente a nós.


    Quão belo é o pensamento de São Lourenço Justiniano, quando exclama: Ó Deus de amor, vós quisestes que nosso coração fosse um só com o Vosso! 
   Um só coração! Ó santa fé ! falai : Aquele, diz Jesus Cristo, que come minha carne, mora em mim e eu nele.  Assim, aquele que comunga, está verdadeiramente em Jesus, e Jesus nele. Jesus está no meu coração, e meu coração está no Coração de Jesus.
    Um só coração ! Sim, diz São Cirilo de Alexandria, da mesma sorte que dois pedaços de cera derretidos se unem, assim aquele que comunga, torna-se a mesma coisa com Jesus Cristo.
    Um só coração! Ah! quem então fez esta maravilha inefável? é o amor. S. Dionisio Areopagita diz que o efeito principal do amor é produzir a união ; também o Coração amante de Jesus quis instituir a santa comunhão precisamente para se unir ás nossas almas da maneira a mais íntima. Corno ele nos amava ardentemente quis se unir a nós na eucaristia, a fim de que fossemos uma só coisa com ele. Tal é o pensamento de S. João Crisóstomo.
    Um só coração! Vede como esta união é estreita; Jesus se nos tinha dado como vítima, exemplar e mestre; restava-lhe ainda transpor o último grau de amor: era dar-se a nós em alimento, a fim de tornar-se a mesma coisa conosco, como o alimento se torna uma só coisa com quem o toma. Ora, é o que ele fez instituindo, sob a forma de pão, este admirável Sacramento de amor. Não, dizia S. Francisco de Sales, arrebatado por amor tão prodigioso, não, o Salvador não pode ser considerado n'alguma ação nem mais amorosa nem mais terna que esta, na qual ele se aniquila, para assim dizer 1 e se reduz a comida, a fim de penetrar nossas almas e unir-se intimamente ao coração e ao corpo dos fiéis.
    Um só coração!Cumpre exclamarmos aqui com S. Lourenço Justiniano: Vimos um Deus, que é a sabedoria mesma, feito como insensato pelo autor excessivo que tem aos homens. tal excesso não convinha a vossa majestade, ó meu Senhor! Convinha a meu Coração cheio de amor, responde Jesus pela boca de S. Pedro Crisologo: ignorais então que quando um coração está apaixonado, não atende ao que convém? Vai, não aonde a razão o chama, mas aonde o leva seu amor.
    Um só coração!  E irei comungar sem amor ? É então possível ocultar fogo no seio sem queimar as vestes? Nosso Deus é fogo consumidor, diz S. Paulo ; pela comunhão ele vem a minha alma para a abrasar com seu amor, e no meio deste fogo divino minha alma ficaria gelada? Não, quando eu receber meu Salvador, pensarei que ele me diz como a sua fiel serva Margarida de lpres: Vê, minha filha, a bela união que existe entre nós, entre meu Coração e o teu, consagra-me, pois, o teu amor, fiquemos sempre unidos pelo amor e não nos separemos mais.
     Um só coração! Disto não me esquecerei jamais. Um só coração no tempo! E depois, um só coração na eternidade! porque a eucaristia é o penhor da gloria futura: Pignus futurre glorire.

Prática

     Cada vez que eu for comungar, direi: Ó Maria, minha mãe, dai-me vosso terno Jesus, como outrora o destes aos Pastores e aos Magos. Quisera ter vosso Coração para o amar. Dizei-lhe que sou vosso servo dedicado, e ele me unira mais estreitamente a seu divino Coração.

Afetos e Súplicas

    Verdadeiro e único amigo de minha alma, ó meu Jesus, que mais podeis fazer para serdes amado de mim? Não vos contentastes de morrer para mim: quisestes ainda instituir este augusto Sacramento para vos dardes todo a mim, e, d'ste modo, vos unir intimamente, coração com coração, a uma criatura tão desprezível e ingrata como eu; ainda mais, vós mesmo me convidais a vos receber, ardentemente o desejais! Ó amor imenso, amor incompreensível, amor infinito! Um Deus quer se dar a mim! Tu, minha a ma crês este prodígio de amor, e que fazes? Que dizes? Ó Deus! Ó Deus! Ó amabilidade infinita, único objeto digno do amor de todas as criaturas! Eu vos amo de todo meu coração, eu vos amo mais que a mim mesmo, mais que minha vida! Oh! quem me dera vos ver amado de todo o mundo ! Oxalá pudesse vos fazer amar de todos os corações quanto o mereceis! Eu vos amo, í Deus infinitamente amável e uno o amor de meu pobre coração ao amor dos serafins,  ao amor do Coração de Maria, ao amor do Coração de Jesus, vosso Filho amantíssimo, de sorte que eu vos amo, ó bondade infinita, com o amor que abrasa os santos, a Maria e a Jesus ; eu vos amo unicamente porque mereceis ser amado, e para vos agradar.
    Sai de meu coração, afetos que não sois para Deus. Ó Mãe do belo amor, amável Virgem Maria, ajudai-me a ter amor a este Deus que tão ardentemente desejais ver amado.

Orações Jaculatórias

   Ó belas chamas do Coração ardente de Jesus, infiamai meu coração.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Meditação - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 27º dia

Meditações - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 27º dia

Aproximemo-nos do tabernáculo : ali acharemos o Coração de .Jesus esperando de nós uma visita de amor.

 
     O padre Baltasar Alvares chorava vendo os palácios dos grandes cheios de pessoas que vão fazer corte a um homem de quem esperam alguma miserável satisfação, ao passo que ficam abandonadas as Igrejas as onde habita o soberano Senhor do mundo.Que triste solidão, de ordinário, ao redor de nossos tabernáculos! Vinde, alma piedosa, vinde fazer companhia a Jesus Cristo, vinde consolai-o por vossa presença: seu divino Coração e quem vo-lo pede, prometendo-vos a abundância de suas graças, se lhe dais esta consolação.
    Vinde a este amante Coração; ele vos receberá com bondade e a toda hora. Ai está ele para quem o deseja. Eu sou, nos diz ele no livro dos Cânticos, eu sou a flor dos campos e o lírio dos vales. Ele se chama o lírio dos vales, para nos dar à entender que ele é humilde de coração, e não se deixa achar senão pelos humildes. Ele se chama flor dos campos, porque é acessível a todos. As flores dos jardins são reservadas e cercadas de muros; nem a todos é permitido colhei-as nem vê-las. As flores dos campos, ao contrário, são expostas aos olhos de todos que passam, e cada um pode toma-las : assim é que o Coração de Jesus está ao alcance de todos os que desejam acha-lo. Quando se quer entrar nos palácios dos grandes, encontra-se muitas vezes á porta um guarda que diz : Não é hora: mas quando se quer entrar no Coração de Jesus, basta dirigir-se a Maria; no mesmo instante a audiência é dada.
    Vinde a este Coração tão acessível, que está no tabernáculo para vos enriquecer, porque ele é tão bom, diz Santo Agostinho, que deseja mais nos dar suas graças do que nós recebe-las. De outro lado, no Santissimo Sacramento é que ele atende mais de vontade nossos rogos, como afirma o Bemaventurado Henrique Suso. Jesus, na Eucaristia, está ansioso por nos comunicar seus favores, mais ainda do que a mãe que tendo leite em extraordinária abundância, deseja descarregar-se desse doce peso. Santa Teresa dizia que este Rei de glória se ocultou sob as espécies do pão deste Sacramento do altar, e velou assim sua majestade para nos animar a nos aproximarmos de seu adorável Coração com mais confiança. Aproximemo-nos, pois, dele com muita confiança, e peçamos-lhe suas graças.
    Vinde a este Coração tão rico e tão bom: ele lá está para vos consolar. Ah! se o houvésseis experimentado , ouvir-se-vos-ia dizer com a condessa de Feria, apelidada esposa do Santissimo Sacramento : eu ficaria lá toda a eternidade! Se, pois, quereis agradar ao Coração amantíssimo · de vosso Deus, procurai entreter-vos com ele as mais vezes que poderdes, e falar-lhe com toda a confiança possível; de seu lado, ele não desdenhara vos responder e entreter-se convosco. Jesus não fará ouvir sua voz de modo exterior e sensível, mas falar-vos-a interiormente uma linguagem que vosso coração compreendera bem, uma vez que vos separeis do comércio das criaturas para tratardes de coração a coração com vosso Deus: eu a conduzirei á solidão, diz ele pela boca do profeta, e falarei a seu coração.  Então ele vos falará pelas inspirações, pelas luzes interiores, pelos testemunhos de bondade, pelos toques suaves que penetram o coração pelas seguranças de perdão, pelos penhores de paz, pela esperança da felicidade eterna, pelas alegrias intimas, pelas carícias de sua graça, pelos abraços afetuosos. Jesus vos fará ouvir as palavras de amor, que sempre compreendem as almas que o buscam e são por ele amadas. Numa :palavra, na solidão das Igrejas, achareis o Coração do Verdadeiro e Único Eterno Amigo.
    Não deixeis então de agora em diante passar dia algum sem irdes a uma Igreja para vos entreter algum tempo ainda que seja um quarto de hora só, diante do Santíssimo Sacramento. Oh! quão delicioso é ficar ao pé d'um altar com fé ! oh! quão salutar e consolador é derramar o próprio coração no Coração de Jesus!


Prática

    O Coração de Jesus é fiel e constante no seu amor, pois que nunca deixa nossas Igrejas, apesar dos ultrajes que recebe nelas. Porque eu não seria constante no meu? Se ele o merece hoje, porque não amanhã e depois de amanhã? Visita-lo-hei cada dia, e para lhe agradar mais, darei a mesma homenagem a sua santa Mãe e a S. José.

Afetos e Súplicas

    Permiti que eu vos fale, ó Coração amantíssimo de meu Jesus, de onde sairam todos os Sacramentos, e principalmente este Sacramento de amor! Quisera vos dar tanta honra e glória quanto rendeis nas Igrejas ao Padre eterno. Sei que vosso amor para comigo, neste altar, é o mesmo de que me destes prova quando sacrificastes vossa vida na cruz num abismo de dores. Ó Coração adorável, esclarecei aqueles que não vos conhecem, e fazei que eles vos conheçam. Livrai por vossos merecimentos, ou ao menos aliviai nas suas penas as almas do purgatório, que são já vossas esposas eternas. Eu vos adoro, agradeço e amo, com todas as almas que, neste momento, vos amam na terra e no céu. Ó Coração puríssimo, purificai meu cora­ção de todo o apego ás criaturas, e enchei-o de vosso santo amor. Ó Coração ternissimo, tornai-vos tão por completo senhor de meu coração, que ele seja todo para vós, e possa eu dizer: Nada é capaz de me separar do amor de Deus que é um em Jesus Cristo.  Ó Coração santíssimo, gravai no meu coração as penas acerbíssimas de vossa vida mortal; vós as sofrestes por mim durante tantos anos e com tão grande amor! Isto me fará desejar ou ao menos suportar com paciência por amor de vós todas as penas desta vida. Coração humilimo, ensinai-me vossa humildade. Coração mansíssimo, comunicai-me vossa mansidão. Tirai de meu coração tudo o que vos não é agradável; convertei-o tão perfeitamente a vosso amor, que ele não queira e não deseje senão o que quereis. Fazei, em suma, que eu via unicamente para vos obedecer, amar e agradar. Reconheço que não me é possível amar-vos como devo : vós me haveis cumulado de tantos benefícios; pouco é que eu me sacrifique e me consuma inteiramente por vós.

Oração Jaculatória

Ó Amadíssimo de meu coração, quanto desejo que todos os homens conheçam a ternura do amor que lhes tendes. 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Meditação - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 26º dia

Meditações - Mês do Sagrado Coração de Jesus - 26º dia


Aproximemo-nos do tabernáculo : ali acharemos o Coração de Jesus esperando de nós uma visita de reparação. 


     Oh! Quem me dera ter o coração, a voz e as lágrimas de um S. Francisco de Assis, para bradar por todo o mundo:  O amor não é amado! O amor não é amado! Não há pena mais cruel para um coração amante do que ver seu amor desprezado e seus benefícios pagos com ingratidão. Se o Coração de Jesus pudesse ainda agradecer agora como na sua vida mortal, a maior parte de nossos tabernáculos seriam para ele outros tantos jardins de Oliveiras. 
   Notai os extremos de seu amor para com os homens! Por causa deles, o divino Coração chegou a velar no Santíssimo Sacramento sua majestade, a obscurecer sua glória; chegou a consumir, aniquilar sua vida sagrada; numa palavra, sobre os altares, ele parece não ter outra ocupação que amar os homens. Mas que reconhecimento lhe testemunham esses ingratos?
    Sim, sua ternura é excessiva, pois ele preferiu nossa vantagem á sua própria dignidade. Não sabia Jesus então a que desprezos devia expo-lo esta invenção de seu amor? Nós somos testemunhas, e ele bem o viu antes de nós, a maior parte dos homens não o adoram e não querem reconhece-lo por aquilo que ele é n'este Sacramento. Mais de uma vez, sabemos, estes mesmos homens ousaram calcar aos pés as hóstias con­sagradas, lança-las na terra, atira-las no fogo. Vemos ainda que grande número daqueles que creem n'ele, ó Céus! Longe de repararem tantas injúrias, por suas piedosas homenagens, aumentam suas penas por suas irreverencias nas Igrejas, ou ao menos o abandonam só sobre os altares, algumas vezes até sem lâmpada e sem os ornamentos necessários.
     A esta lembrança, um grito deve repercutir no fundo de toda alma generosa: Reparação! Reparação! Aliás qual é o meio mais eficaz de reparar tantos ultrajes? é prostrarmo-nos muitas vezes ao pé dos altares, e rogarmos ao Coração de Jesus a conversão daqueles que o ofendem. Com efeito, quando um pecador se converte, quando lava seus pecados passados nas lágrimas de seu arrependimento, e começa uma vida toda nova, faz a mais bela das reparações Aquele que veio entre nós, não tanto para os justos como para os pecadores, Aquele cuja gloria é salvar as almas. O Senhor dizia um dia á santa Maria Magdalena de Pazzi: Almas queridas de meu Coração, a vós é que confiei a cidade de Refúgio (isto é a Paixão, ou a memoria a Eucaristia renova continuamente) a fim de que saibais aonde podeis vir em socorro as minhas criaturas; ide então e dai vosso socorro a essas pobres almas que perecem, oferecendo vossa vida por elas. Dai, inflamada em ardente zelo, a santa oferecia a Deus cinquenta vezes por dia, o sangue do divino Redentor pela salvação dos pecadores, e não deixava quase passar uma hora do dia sem orar por eles; muitas vezes ainda, ao bater meia noite, ela ia aos pés do Santíssimo Sacramento interceder em favor deles. Apesar de tanto fervor encontraram-na um dia toda em lacrimosa, e como lhe perguntassem a causa de sua dor, respondeu: Choro, porque me parece que não faço nada pela salvação dos pecadores. Ela se oferecia muitas vezes como vítima, chegando a dizer: Senhor, fazei-me morrer e reviver bastantes vezes para satisfazer a vossa justiça em favor deles. Assim é que esta grande santa compreendia a reparação dos ultrajes feitos ao Coração de Jesus Cristo.
    Reparação! Reparação! Tal deve ser o grito de toda alma que se lembra de ter sido outrora ingrata para com Jesus no seu Sacramento. E se, no futuro, tivéssemos ainda a desgraça de lhe causar mágoa, excelente meio de consolação seria irmos, com inteira confiança, lançar-nos a seus pés para lhe pedirmos perdão. O Coração de Jesus é fonte aberta para todos os homens, fonte onde podemos, quantas vezes quisermos, limpar nossas almas de todas as manchas que contraimos cada dia pecando. O mais pronto remédio nas faltas em que cai o christão, é recorrer logo ao Sagrado Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento.

Prática

     Nas minhas visitas de cada dia ao Santíssimo Sacramento farei reparação ao Sagrado Coração de Jesus pelos pecados que se cometem no mundo, principalmente por tantos sacrilégios, que nascem quer da falta de sinceridade na confisão; quer da falta de verdadeira conversão. 
Direi muitas vezes, como reparação, a seguinte oração jaculatória: Meu .Jesus, misericórdia ! (100 dias de indulg., 23 Setembro de 1846.) 

Afetos e Súplicas

     Ó Jesus, meu amabilíssimo, dulcíssimo e amadíssimo Salvador, vida, esperança, tesouro, único amor de minha alma, quanto vos tem custado ficar entre nós neste Sacramento! foi necessário que morresseis para permanecerdes sobre nossos altares. E depois, neste Sacramento mesmo, quantos ultrajes tendes sofrido para nos dardes o beneficio de vossa presença! Tudo cedeu ao vosso amor e ao desejo que tendes de ser amado de nós. Ah! Meu terno Salvador, quem me dera poder lavar com minhas lágrimas e até com meu sangue esses tristes logares em que vosso Coração cheio de amor recebeu tantos ultrajes no Santíssimo Sacramento! Mas se esta consolação não me é concedida, desejo ao menos, Senhor, e proponho visitar-vos muitas vezes para vos adorar, em compensação dos desprezos que recebeis da parte dos homens n'este divino mistério. Dignai-vos, ó Padre eterno, acolher esta fraca homenagem que vos rende hoje o mais miserável dos homens, em reparação das injúrias feitas a vosso divino Filho sobre nossos altares: aceitai-a, dignando-vos uni-la a honra infinita que Jesus Cristo vos deu na Cruz, e vos dá ainda todos os dias no seu Sacramento. Ó meu Jesus, pudera eu inspirar a todos os homens o mais ardente amor para com vosso Sacramento de amor.


Oração Jaculatória

Ó meu Salvador, em amor para convosco ardam todos os corações, como o Vosso arde em amor para conosco!