quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anunciação - Revista "Ordem Nova" - Vol.1 - nº1


"Não queirais conformar-vos com este século, mas reformai-vos em a novidade do vosso espírito"S. Paulo, aos Rom., XII, 2



"Não queirais conformar-vos com este século". As palavras intimativas do Apóstolo são ainda hoje a declaração de guerra que nós fazemos ao mundo moderno, - a isso que para aí se está desfazendo, cheio de todos os pecados, corroído por todos os vícios e tresandando odores fétidos de podridão.
Corpos podres, estigma miserável da humanidade decaída, arrastando pela terra desolada a sua marcha de forçados da eternidade! Restos do pecado antigo, lepra da matéria que se revoltou contra o Espírito e ficou a sofrer o tropeçar dos séculos, apedrejando os profetas, abafando a voz dos justos, calcando o desespero iluminado dos visionários de Deus, atirando aos céus os braços impotentes que não puderam amparar a derrocada de Babel. E pela caminhada dos tempos, o mal ficou profundo, alastrando como uma maldição maior à negativa dos filhos de Caim, obstinados na farsa macabra de desafiar a justiça divina...



E as almas dormindo; um sono pesado, um sono de cocaína, com visões delirantes conduzindo à região desolada das quimeras mortas... Não há vozes possantes que as restituam a si; não há verdades evidentes que lhes facilitem a razão. Só um chamamento sobrenatural as poderá restituir à sua finalidade. Só a quebra violenta de todos instrumentos que servem à absorção do veneno, só a destruição bárbara de tudo o que contribui para a embriaguez, só ministrando forçosamente contravenenos poderosos, nós conseguiremos extinguir o mal.



Não nos iludamos; esta sociedade que contempla embevecida as suas últimas conquistas científicas, que goza a rebolar-se na comodidade dos “maples” as maravilhas dos aviões e da telefonia sem fio, esta sociedade que procura aflita quatro membros para se atirar às upas na carreira poeirenta do ginete do Progresso, esta sociedade sem senso de moral, feita de novos inconscientes ou pedantes e de velhos dum caquetismo precoce; esta sociedade de judeus ávidos, com um olho sempre no cofre forte e outro na face de Antônio espreitando o momento de lhe tirar as duas onças de carne. Esta sociedade de gente facilmente enriquecida, de filósofos amorais, de literatos pretenciosos ou cabotinos, de moços sem ideias, de mulheres sem pudor e de profissionais sem profissão, de homens cúpidos, gananciosos, ignorantes e cretinos; esta sociedade não ouve verdades que lhe não sejam ditas em voz bem alta, não recebe reclamações que lhe não sejam feitas ao som dos canhões, não atende pedidos senão quando se vê perdida e busca aflita por qualquer preço uma tábua de salvação!

Desapareceram as boas maneiras, foi-se a honra e o cavalheirismo, apenas invocados quando dois sujeitos sem coragem para defrontarem corpo a corpo e arrostarem com a opinião pública, se deliberam arranhar com uns arames aguçados. A magnificência cedeu lugar à perdulariedade, a grandeza foi substituída por ouropéis falsos de companhia de circo; em vez de valentia, a bravata, em vez de direitura imposta pela consciência reta, a conveniência e a oportunidade, - uma coisa muito relativa a que hoje se chama a "seriedade dos negócios".



Homens em quem a dignidade viril cedeu lugar a uma relaxação torpe feita de falsetes na voz e de covardias na alma. Mulheres prostituindo-se, oferecendo os corpos desnudos a quem os quer ver e as almas já sem o perfume da inocência, a quem as quer possuir.

Americanismos soezes, ecos dos batuques dos antepassados da Libéria, exotismos idiotas dum oriente de caixas de charão, fumos dum ópio fabricado nas boticas de Montmartre, toda uma civilização de requintes grotescos e canalhas a perturbar a vida, a atirar de novo à superfície da terra a crápula de Roma do baixo império que o rolar vingador dos bárbaros reduziu a pó!



Indisciplina completa, confusão turbulenta no campo das ciências e da filosofia; perdem-se as elementares noções sobre que deve assentar o conhecimento humano, para se substituírem por outras que uma filosofia falsa, não digna do seu nome, impõe fundada em certos palavrões sonoros.

Sofrem deste mal as ciências positivas, invadidas por um materialismo torpe; sofrem dele, num grau altíssimo, as ciências sociais que são completamente transtornadas e falseadas pelas ideologias concebidas por desvairadas imaginações; enfim, a própria filosofia deixando de ser a "ancilla theologiae", enveredando por caminhos tortuosos, entronizando a razão para divinizar o homem, - chegou ao momento mais grave duma crise que tem fatalmente de resolver-se, negando-se a si mesma, confundindo tudo e falindo estrondosamente, louca como o pobre Zaratrusta que é bem a sua personificação, o Anticristo que no auge do delírio, assinava as suas últimas cartas - o Crucificado!



Será preciso que apontemos o drama que se desenrola pelo mundo afora no governo dos povos? Será preciso que revivamos mais uma vez essa tragédia baixa, sem grandeza e com cenas de mágica-bufa que tem sido a democracia com as suas mentiras danosas e sangrentas - o sufrágio universal, a soberania nacional, o parlamentarismo, a opinião pública? Para quê nova exibição do seu culto do Supremo Arquiteto, dos seus conselheiros do Constitucionalismo, veneráveis incrustações impantes de cordura e mais dos "supremos magistrados" do barrete frígio, moderados poderes moderadores, lamparinas frouxas que o azeite das maiorias alimenta mal e deixa consumir no morrão?...



Quem em face deste quadro, - das famílias dissolvidas, dos governos impotentes e corruptos caminhando para a anarquia, dos homens mais do que nunca pervertidos, da vida artificializada, da matéria triunfante, da razão falseada - quem em face de tudo isto, desde que tenha uma alma sensível e uma inteligência clara, se recusará a ouvir as palavras do Apóstolo: "Não queirais conformar-vos com este século"?


...


- "Sou homem", - dizia Terencio, o comico. "Sou homem e não julgo alheio à minha personalidade nada do que é humano". Se pensarmos bem, os sinais que nós vemos manifestarem-se pelo mundo fora de reação contra o que é moderno, não são mais do que consequências da revolta do homem contra o anti-humanismo desta civilização da máquina que tem por seus patronos o ouro, a carne e o poder.

    Anti-humano sim, consideramos nós esse liberalismo estúpido que se apossou de todas as camadas sociais, querendo quebrar todas as disciplinas, negando a força do sangue, a voz dos antepassados, pondo de parte a tradição; repudiando as regras espirituais e querendo que a alma se guie ao sabor do seu mesmo imperativo e a razão fique à mercê das regras que a si mesma queira conceder; finalmente, aborrecendo a hierarquia e o poder e buscando uma fórmula pela qual a tirania se justifique pela soberania dos oprimidos. Ridículos e risiveis os libertadores! Superiores a eles, sem se importarem com as suas declarações verborraicas, os seus gestos de bacharéis, os seus raciocínios que pretendem ser engenhosos e não passam afinal de grosseiros sofismas ou de alucinações sonâmbulas, as leis da natureza permanecem inalteráveis, as verdades eternas não deixam de o ser - e o mundo continua a sua marcha no Universo, e a ordem divina continua a realizar-se, pronta porém, a fazer-nos pagar caro a sua violação. "Natura medicatrix": - A natureza resolve muitas vezes por si as doenças que nela surgem. Não duvidem os liberais: as suas arremetidas violentas contra a ordem natural das coisas hão de ser tão ineficazes como a pedra que se atira a uma estrela. E quando, extenuados, julgarem ter derrogado a ordem do universo, mais forte e mais equilibrada ela surgirá, deixando-os tão esmagados como ficaria o homem que na praia sobre uma cova na areia julgasse ter bebido o Oceano e depois se erguesse e deparasse com os olhos brilhantes de triunfo, a imensidade sonora das vagas...
    Mas,

    Entre ceux que j'aspire a ne pas voir souvent
    je compte des premiers ces amples personnages
    ces doctes et ces forts, qui, pleins de verbiages
    vont la tête en arrière et le ventre en avant

    Je les trouve partout gonflés du même vent;
    ils savent qu'ils sont gros, ils savent qu'ils sont sages
    et fiers de tant peser, épanchant des adages
    estiment de nul prix tout autre être vivant...

    Sim! São anti-humanos esses burgueses asquerosos que tranquila e comodamente se instalaram na vida e que agora a vêem passar, só perturbados pela leitura sobressaltada nos jornais das cotações da bolsa e das alterações da ordem pública, que amam só o imediato, Sanchos Panças sem a coragem de irem atrás dos D. Quixotes, raciocinando pelo critério da simplicidade, - "homens práticos" se dizem - racionalistas ignorantes ou católicos com medo do Inferno, (disfarçado, já se vê, para não parecer mal), que respeitam todas as opiniões e não são pelo que eles chamam os exageros - est modus in rebus! - que fazem concessões nos dogmas e restrições na crença. Gente sem fé, sem ideal, sem elevação, preocupada apenas com as suas doenças gástricas e só desejando que não perturbem o aconchego do cobertor de papa e da botija elétrica; funcionários públicos que nunca souberam o que fosse auto-iniciativa, assegurado o ordenado certo, mal puderam acolher-se à sombra protetora do Estado, - espécie de ama recém-chegada da província - que diferente da burguesia que nós queremos formada de elites, classe social bem definida mas ativamente colaboradora das classes inferiores quer nos mestres, quer na finança, quer na burocracia, classe de dirigentes próximos orientada e dirigida superiormente pelo escol intelectual e moral da nação - a nobreza rural, a Igreja, a tradição e a inteligência!

    E que diremos desses pretensos intelectuais que para ai pululam - dos poetas de nervos aguçados no deleite das sinfonias mórbidas, dos prosadores sem probidade moral nem artística, todos os que fazem "arte pela arte" ou "arte pela vida" sem saberem o que é a vida! E esses jornalistas obscenos que relatam todas as porcarias passionais, todas as misérias que o crime revela numa sociedade decadente, com copiosos pormenores, revelações sensacionais e tiradas românticas duma pretensão impossível e dum mau gosto inultrapassável? A solidariedade que entre si mantêm todos estes mestres cantores a que nem sequer faltam canções da primavera aparentando mocidade e frescura, a solicitude com se defendem, o carinho com que se amparam, a satisfação com que mutuamente encobrem as suas faltas sem se importarem com a justiça e pondo acima de tudo a camaradagem, é um sintoma que não ilude da qualidade casta.

     Esses jornais de grande circulação, baluarte da opinião pública e do bom-senso, que de vez em quando apelam para as energias da raça do meio dos anúncios dos criadas a servir e dos concursos de cegádas, gente cordata, amiga de Deus e do diabo, ao serviço de quem dá mais e satisfazendo à lista os gostos perversos do público, esses magazines que se ocupam de futilidades ridículas, que servem de albergue a modernismos falidos e que ilustram a história com a grande, a sensacional "documentação gráfica", essas revistas que nos dão páginas semanais de pornografia, - merecem-nos o mais fundo, o mais sentido desprezo!


    Contra eles nunca é bastante a nossa indignação! Nunca são demasiadas as nossas invectívas! Nunca são tão brutais como deviam ser, as nossas palavras violentas!

    "Sou homem", confessava o cómico. O humano protesta contra o anti-humano. A nossa é a revolta humanista em face do tudo o que contra a nossa humanidade se ergue. A Ordem Nova é a ordem humana, a ordem natural, a ordem divina, a única ordem.

     De todos os lados bocas sequiosas procuram dessedentar-se; de todos os lados inteligências procuram a verdade; de todos os lados almas inquietas buscam o Bem: é o humano a manifestar-se.

     Mas assim como se tenta matar a sede com vinhos esquisitos, esquecidas as nascentes de água puríssimas, assim como as complicações da civilização vieram dar requintes novos à satisfação das necessidades primárias da vida, - assim as inteligências cansadas de materialismo se lançam num falso e ilusório espiritualismo e as almas sem verem claramente o Supremo Bem, se ficam em princípios vagos de altruísmo, humanitarismo, solidariedade...

   Há uma sede intensa de sobrenatural; busca-se o espírito ativa e febrilmente. Pois não o demonstra toda a vida que se passa à margem da Igreja Católica, desde as mesas do espiritismo e as sociedades teosóficas até à moderna psicanálise, a tentativa dum médico austríaco para achar as razões da nossa vida moral no fundo sombrio do inconsciente?

    Por outro lado é ainda um grito da humanidade o regresso às disciplinas tradicionais que por esse mundo se vai notando. Por toda a parte o clamor se ergue pedindo um chefe. Entoa-se pela Europa afora o elogio da Autoridade. Reconhecida a gravidade do momento requere-se que no cortejo que passa o chefe seja precedido do fascio símbolo da justiça, no qual o machado simboliza o jus vitae, et necis.

    É também em nome do que é humano que nós nos proclamamos católicos e monárquicos, - colocados já nos dois termos da evolução espiritual da humanidade que acorda do seu sono profundo!
    Monárquicos somos e bom é que claramente fique assente que o somos de uma forma integral e completa. Somos contra-revolucionários e vemos na reação o único remédio para nosso mal. Monárquicos, não que nos contentemos com um Rei que reine e não governe, mas porque queremos um Rei que reine e tenha a obrigação de governar, um Rei que governe embora não administre, que seja verdadeiramente o chefe, chefe econômico, chefe político, chefe nacional. Um Rei que com seu poder concentrando, rodeado pelas suas elites, assistido pelos conselhos técnicos, aconselhado pelas Cortes-gerais, seja, parafraseando a frase de Maurras - o chefe das repúblicas portuguesas.

    Monárquicos porque somos nacionalistas: queremos, não um regresso ao passado, mas um demorado olhar a consultá-lo sobre a direção dos nossos passos para o Futuro, queremos que a nação se una num mesmo ideal coletivo e que todas as forças nacionais, nas letras, nas artes, nas ciências, nas indústrias e nos campos, - se congreguem servindo esse ideal, tendo por fito aquela "nacionalização integralista" que Fialho lastimava que os escritores do século passado desconhecessem quase completamente.

    Mas não é a tradição que nos leva à profissão de fé católica: não! Mais alto do que a voz dos mortos, ouvimos nós a voz de Cristo. E neste momento de ansiedade e inquietação, sem querer, os nossos olhos buscam a cidade eterna esperando dela a lição inspirada que nos orientará.

    Não nos satisfazem essas soluções meio-termo que se propõem à grave crise que atravessamos.
São ilusórias satisfações ao anseio enorme que se sente no mundo e que só podem satisfazer aqueles cuja sede é de fácil extinção, os que não tem coragem para ir mais longe e os que entendem que se deve pôr à margem, adotando atitudes que uma estética convencional lhes aconselha e olhando o mundo indiferentemente com uma impassibilidade rebuscada de super-homens.

    "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" são as palavras do Senhor. E só na sua doutrina nós encontraremos toda a paz e toda a certeza de que as nossas almas estão carecidas e que as nossas inteligências estão suplicando.

    Mais alta do que a névoa de morte que anestesia as almas uma claridade de infinito acorda nos corações doloridos dos homens a saudade de Deus.

    A melancolia indefinida dos que não tem esperança, a dor morta dos que se perderam da verdade, a fome dos pobres e dos desgraçados, o desespero surdo dos que se obstinam em negar a Deus, - toda essa mancha sombria estremece e oscila ao contato irresistível dum vento novo, dum vento eterno, sopro divino que agitou o caos, separando a luz das trevas e arrancando ao Nada o assombro do Infinito!

    Que a estrela alta dos tempos bíblicos se não afaste dos olhos ansiosos dos que não esqueceram ainda a paisagem inefável que no dia sobre todos triste da queda o homem foi forçado a abandonar. Uma saudade sem fim atravessa os séculos; viveu a angústia indisível dos tempos abandonados da graça que a voz dos Profetas animava de longe em longe; arrastou-se desde o cativeiro do povo eleito numa esperança baldada até à terra da Promissão. Cria novo alento quando a estrela de elém anunciou aos homens a vinda do Redentor; agora o caminho ilumina-se: é uma vereda de sonho aberta pelos passos doloridos do Filho de Deus que enfim reconduz a humanidade ao paraíso perdido.

    É o momento supremo: começa mais desesperada, mais bárbara, mais cruel, a luta entre a Matéria e o Espírito iniciada com o grito da rebelião dos anjos, e que, neste momento, no limiar rasgado donde o amor do Pai nos chama ansioso por encontrar de novo os filhos transviados, atinge o auge da crise.

    Duelo entre a Verdade e o Mal, eco da primeira luta que chega até nós ampliado pela ressonância dos tempos, - que a Graça de Deus descça do alto em nossas almas, as tempere na firmeza dos bronzes eternos contra os quais se quebram as potências tenebrosas, concedendo-nos a força viril para detonar o Erro e para, como o Arcanjo, o prostra vencido a Seus pés!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

15 de Agosto - Assunção de Nossa Senhora

Morte e Assunção de Maria

Como terminou a vida da SS. Virgem?

    Como a de todos os filhos de Adão, a vida da SS. Virgem terminou com a morte.
    Maria Imaculada deveria ser isenta da morte que é consequência do pecado. Deus, porém, quis que ela morresse a fim de que sua Mãe imitasse Jesus morto na cruz, e para dar-nos o exemplo da morte ideal, a que devemos aspirar.

Como morreu Maria Santíssima?

    Maria não morreu de doença ou de velhice; consumiu-a a veemência do amor a Jesus que ardia em seu coração.
    São Bernardo diz que era preciso um milagre contínuo para que os laços naturais que o uniam a alma de Maria ao seu corpo pudessem subsistir, tal era a chama de amor divino. Pela cessação desse milagre, ela terminou os seus dias.
    Maria tinha cerca de 72 anos de idade quando o anjo Gabriel - conta o histórico Nicéforo - lhe apareceu e lhe anunciou estar próximo o dia em que poderia unir-se para sempre ao Filho querido.
    Como terá vibrado o seu coração! Com que alegria terá repetido o "fiat" decisivo da Encarnação! 
    Os apóstolos, milagrosamente reunidos, se entristeciam ao pensar que muito em breve teriam de separar-se daquela a quem chamavam Mãe..
    Maria, conta São João Damasceno, consolou-os, encorajou-os a perseverar nos esforços compreendidos em prol da conversão dos gentios e prometeu que do céu os protegeria. Aproximava-se o momento supremo; a Virgem, com os olhos voltados para o alto, rezou assim: "Meu Filho, esta alma por ti preservada de toda mancha e que te é tão cara, eu a ponho nas tuas mãos. Este corpo, incorruptível porque foi a tua morada, eu te confio. Fruto bendito do meu seio, atrai-me para ti, tu que tantas vezes procuraste descanso nos meus braços! Consola, ó meu Filho, estes a quem chamaste irmãos e amigos e que agora choram a minha partida. Que a minha mão se erga para os abençoar e tu enchas de graça esta bênção!"
    Aqui se ouviu a voz de Jesus: "O Mãe bendita, santa entre todas as criaturas, ergue-te e vem comigo para a glória".
    A esse doce convite de Jesus, Maria estendeu os braços e, num supremo transporte de amor, sem dor e sem agonia, adormeceu na paz do Senhor.
    Os Apóstolos depositaram com grande pompa aquele corpo venerável num sepulcro do Getsêmani.

Quanto tempo o corpo de Maria permaneceu no sepulcro?

    O corpo de Maria devia ser poupado à humilhação infligida ao homem pecador: "Tu és pó e em pó voltarás".
    E assim foi: três dias depois da morte, seu corpo ressuscitou, belo e glorioso. Reuniu-se à alma e foi transportada em triunfo para o céu.
    Conta São João Damasceno que, segundo uma tradição, só o Apóstolo São Tomé faltou à morte da Virgem.
    Chegou três dias mais tarde, triste por não ter presenciado os últimos instantes da Mãe do seu Divino Mestre. Pediu aos Apóstolos que o deixassem ver os despojos mortais da Virgem Santíssima.
    O seu pedido foi atendido; mas quando removeram a pedra que fechava a entrada do sepulcro, procuraram em vão o corpo de Maria; encontraram só os linhos que o tinham envolvido, cobertos de rosas e de lírios de suave perfume. Os Apóstolos, admirados, buscavam uma explicação para o acontecido, quando lhes chegou aos ouvidos uma melodia dulcíssima. Ergueram os olhos para o céu e viram os anjos que, entoando cânticos de alegria, transportavam para o céu a sua Rainha.

Por que Maria mereceu a honra da ressurreição antecipada?

    Mereceu-a pela sua maternidade divina e pela sua pureza. 
    "O corpo sagrado da Virgem, diz Bossuet, o trono da castidade, o templo da Sabedoria Encarnada, aquele corpo do qual o Salvador tirou o seu, não devia permanecer no túmulo; do contrário, o triunfo da redenção teria sido incompleto."

A Assunção de Maria é verdade de fé?

   Sim, a Assunção de Maria é verdade de fé definida no dia 1º de novembro de 1950 pelo Papa Pio XII.

Com que honras Maria foi recebida no céu?

    Maria entrou no céu como Rainha. A sua chegada o próprio Jesus foi recebê-la para introduzi-la na Jerusalém celeste, no meio de aclamações, cantos e harmonias. Jesus a fez sentar à sua direita, num trono resplandecente, colocou-se na cabeça a dúplice coroa das Virgens e dos Mártires, deu-lhe um cetro e lhe disse: "Reina soberana sobre todos os anjos e os santos, minha Mãe, reina sobre todas as criaturas com a sua bondade".
    Naquela dia Maria foi constituída:
    1) Onipotente junto de Deus, podendo, com suas preces, obter tudo o que desejar. No céu, apesar de não ter sobre o Filho autoridade que tinha na terra, os seus rogos são sempre de mãe e não recebem recusas.
    2) Dispensadora de todas as graças: "Deus, diz Bossuet, tendo querido, uma vez por todas, dar-nos Jesus por Maria, não modificará mais essa ordem; por isso, aquele que nos deu o princípio universal da graça, também nos dará as diversas aplicações desta, nos diversos estados de vida".

A que grau foi elevada Maria Santíssima?

    Superior por sua maternidade divina e por sua eminente santidade a tudo aquilo que é Deus. Maria foi elevada na glória acima de todos os coros dos anjos e dos santos.
    A glória, ou felicidade eterna, consiste essencialmente na visão de Deus, visão mais ou menos perfeita segundo o grau de santidade e do mérito de cada um.
    Ora, sendo a santidade de Maria superior à de todos os eleitos reunidos, a sua glória é por conseguinte superior à de todos.
    Maria vê Deus mais claramente; ama-o mais perfeitamente e goza dele abundantemente.

Em que dia se celebra a festa da Assunção?

    A festa da Assunção - uma das mais belas solenidades marianas estabelecidas pela Igreja - celebra-se, desde os tempos mais remotos, no dia 15 de agosto.
    Maria pode fazer-nos bem porque é onipotente sobre o coração de Jesus. Maria quer fazer-nos bem porque é nossa mãe. Ela vê em Deus, como num espelho, todas as nossas necessidades. Ouve as nossas preces. Como não termos confiança nela?

EXEMPLO

Guido de Fontgalland

    Guido de Fontgalland, almazinha privilegiada, amava Nossa Senhora como uma segunda mãe.
    Em 1924, o conde e a condessa de Fontgalland levaram seus filhos a Lourdes. Guido entusiasmou-se: comungou dois dias seguidos na gruta, bebeu muitas vezes à fonte de Massabielle. Ali de joelhos, com os braços em cruz, teve com Nossa Senhora, a sua mãe celeste, colóquios dos quais voltava com os olhos radiantes de alegria.
    Na véspera da partida de Lourdes, à mesa, enquanto se desdobrava o guardanapo, disse, muito sério e grave:
    - Nossa Senhora confiou-me um segredo!
    - Conta-me, logo qual foi, meu tesouro, disse a mãe.
    - Não, os segredos são para dois e não para três, por isso, eu não conto.
    De volta de Lourdes, Guido tornou-se de repente mais piedoso. Todas as noites, na cama, recitava uma parte do Rosário, falava mais vezes de Nossa Senhora. Solicitou que a linda imagem da Virgem da Libertação fosse colocada sobre a mesa da cabaceira "para vê-la melhor". A cabeceira, pendurou um quadro da gruta.
    No campo, muitas vezes durante o dia, viam-no recolhido diante de uma imagenzinha de Maria que ela enfeitava com flores.
    Passaram-se pouco mais de quatro meses. Na noite de 7 para 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição e aniversário de seu batizado, Guido, contava então onze anos, caiu improvisadamente doente.
    A doença era mortal.
    Empregaram-se todos os meios para salvá-lo. Mas Guido desde o primeiro dia, com serenidade admirável, teve com a mãe, uma séria conversa.
    - Mamãe, minha mãezinha querida, vem para os meus braços para que eu te aperte bem forte; quero confiar-te um segredo que vai te fazer chorar. Eu vou morrer... A Virgem vem buscar-me... Tu te lembras quando em Lourdes eu te disse que Nossa Senhora me tinha contado um segredo? Ela me disse "Meu querido Guido, dentro em pouco virei buscar-te; tu morrerás muito jovem; virei à tua procura para levar-te para o céu!".
    Depois de Lourdes, todas as noites eu recitei muitas Ave-Marias na cama, antes de adormecer, porque não sabia se a minha Mãe celeste viria buscar-me durante a noite. Agora que estou doente, eu lhe digo muitas vezes de dia e de noite: "ora por mim agora que chegou o momento da minha morte..." Aprendi muitas coisas bonitas recitando lentamente a Ave-Maria.
    Passaram-se dois meses em recaídas e melhoras sensíveis. Os médicos chegaram a acreditar que estivesse curado.
    O pequeno porém não se iludia.
    Um dia, despertou com a cabeça encostada ao ombro da mãe e lhe disse:
    - Que boa ideia teve o Menino Jesus levando a Mãe para o céu com o corpo também! Assim lá em cima, eu poderei apoiar a cabeça sobre o seu coração para dizer-lhe mais de perto que a amo.
    Na manhã de 24 de janeiro Guido perguntou:
    - Mamãe, que dia é hoje?
    - Hoje é sábado, 24 de janeiro.
    - Ah! É sábado! Hoje vou morrer... Hoje, no seu dia, a Virgem vem tirar-me dos teus braços.
    Ao meio-dia começou a agonizar. De quando em quando a mãe fazia-o beijar o crucifixo. Depois, repentinamente, foi visto abrir os olhos e fixá-los, como se visse alguma coisa muito linda; seus lábios pronunciaram baixinho: "Jesus, eu te amo... Mamãe..."
    Seus belos olhos, tão luminosos e puros, ficaram abertos, tinham visto Nossa Senhora, a mãe celeste que fiel à sua promessa, vinha buscá-lo para levá-lo consigo para o céu.


Na escola de Maria - André Damino -Edições Paulinas - 1º Edição, Imprimatur de 1961.-  Pág. 132 a 138

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Festa de Santo Afonso Maria de Ligório - 2 de Agosto


Timenti Dominum bene erit in extremis – “Aquele que teme o Senhor será feliz no fim” (Eclo 1, 13)
(2) Or. Fest.


Sumário. Afiguremo-nos que presenciamos a morte de Santo Afonso. Morre todo desapegado dos bens terrestres, com perfeita paz de consciência, com certeza da glória eterna, assistido por grande número dos seus filhos espirituais, e sobretudo, consolado pela doce presença da Santíssima Virgem. Ó morte preciosa! Se desejamos uma morte semelhante à do Santo, imitemos a sua vida. Sejamos devotos de Jesus Sacramentado e de Maria Santíssima, e, à imitação do Santo, procuremos promover estas devoções também nos outros.


I. A vida do nosso santo não foi senão uma preparação continua para a morte, e nos seus escritos pede inúmeras vezes a graça de bem morrer. Não é, pois, de admirar que Deus tenha atendido aos rogos do seu Servo e no-lo proponha hoje como modelo da morte preciosa, que será também a nossa, se soubermos imitar o Santo.
Santo Afonso morre todo desapegado dos bens terrestres, com paz perfeita de consciência e com a certeza da glória eterna. – Conforme seu desejo manifestado incessantemente vê ao redor do seu leito, não parentes interessados, mas os irmãos da sua congregação, que não têm outro interessem senão o de o ajudarem a bem morrer. Qual novo Jacó abençoa os seus filhos amados, recomenda-lhes a santa perseverança e fica inundado de consolação ao pensar que deixa atrás de si tantos operários na vinha mística do Senhor.
Durante a sua vida, Afonso sempre foi devotíssimo da Santíssima Virgem e muitas vezes lhe tinha dirigido este pedido:
“Senhora, perdoai minha audácia; antes da minha morte, vinde vós mesma consolar-me com a vossa presença; concedestes esta graça a tantos devotos vossos; também eu a quero e desejo obtê-la. Ó Maria, espero-vos; não me deixeis ficar desconsolado.”

Assim é que o Santo rogara à Virgem Maria. E esta Mãe amorosa atende agora ao pedido do seu Servo, consolando-o pela sua doce presença. O Santo, ao vê-la, regozija-se, e, com o rosto infamado, sorri-lhe docemente, fala-lhe e fica longo tempo em atitude de êxtase, tendo um antegozo do paraíso.
Entra finalmente em agonia, e, por entre as orações, as ternuras, as lágrimas de todos, como que adormecendo suavemente, exala a sua bela alma no seio de Deus. Como defensor da Igreja, morre na festa de São Pedro ad Vincula (“São Pedro acorrentado”); como amante entranhado de Maria, numa quarta-feira, dia de São José; como grande devoto do mistério da Encarnação, ao som do Angelus. – Alegra-te com o Santo, agradece a Deus em seu nome, e põe-te debaixo da sua proteção especial. Para ganhares mais a sua benevolência, pede a Deus aumente o número de seus filhos espirituais e lhes conserve sempre o bom espírito.
II. Se desejas uma morte semelhante à de Santo Afonso, aplica-te à imitação das suas virtudes, e especialmente daquelas doze que nas Regras ele inculca tanto aos membros da sua Congregação. Imita-o sobretudo na sua devoção a Jesus Sacramentado e a Maria Santíssima, a protetora dos agonizantes, e também, à imitação do Santo, procura promover o mais possível estas devoções nos corações dos outros. – O que não se sentir com forças suficientes para imitar um modelo tão perfeito, implore a intercessão do próprio Santo Doutor.
 Ó Santo Afonso, meu glorioso e amado Protetor, que trabalhastes e sofrestes tanto para assegurar aos homens os frutos da Redenção! Vede a miséria da minha pobre alma e tende piedade de mim. pela vossa poderosa intercessão junto de Jesus e Maria, obtende-me, com um sincero arrependimento, o perdão das minhas faltas passadas, um vivo horror do pecado, e a força de resistir sempre às tentações. Comunicai-me, eu vo-lo suplico, uma faísca da ardente caridade com que foi sempre abrasado o vosso coração, e fazei, que à vossa imitação, a vontade divina seja a única regra da minha vida. Obtende-me também um ardente e constante amor a Jesus Cristo, e uma terna e filial devoção a Maria, a graça de orar sem cessar, e de perseverar no serviço de Deus até à hora da minha morte, para que um dia unir-me a vós no céu, para cantar os louvores de Deus e Maria por toda a eternidade (1).
“Ó Deus, que, pelo bem-aventurado Afonso Maria, vosso confessor e pontífice, inflamado de zelo pela salvação das almas, destes novos filhos à vossa Igreja, concedei-nos, nós vo-lo pedimos, que, instruídos pelos seus salutares avisos, e fortificados pelos seus exemplos, possamos chegar felizmente a Vós” (2). Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.
Referências:

(1) Indulgência de 200 dias

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 343-345)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Carta a um devoto do Coração de Maria - Santo Antonio Maria Claret

    
     Agosto é o mês dedicado ao Imaculado Coração de Maria, considerando que a devoção ao Imaculado Coração de Maria é um desejo de Nosso Senhor e um remédio para os últimos tempos, nós da Capela São José, com muito carinho disponibilizamos uma carta de Santo Antonio Maria Claret a um devoto, escrita em 1864. Santo Antonio Maria Claret escreveu a carta como uma resposta a um devoto que humildemente lhe pediu que o ajudasse a crescer mais na devoção ao Imaculado Coração de Maria.

    A carta original autografada se encontra em Mss. Claret, VIII, 521‑535. Deste original se fizeram as seguintes edições: Carta inédita do Beato Claret sobre o Coração de Maria: Boletim Secretariado Claretiano, janeiro-março 1940, n. 67‑69 pp. 2‑4; Carta inédita do Beato Pe. Claret sobre o Coração de Maria: Iris de Paz 56 (1942) 1157‑1158 49‑50 (assim a numeração do tomo); Carta a um devoto do imaculado Coração de Maria: Boletim interno da Prov. da Catalunha CMF, número extra, 67‑69, julho‑setembro 1949, pp. 47‑52; Carta a um devoto do puríssimo e imaculado Coração de Maria em Santo Antônio Maria Claret, Escritos autobiográficos e espirituais (BAC, Madrid 1959) pp. 766‑772; Lozano, J. M.,O Coração de Maria em Santo Antônio Maria Claret (Ed. Coculsa, Madrid 1963) pp. 223‑239; Gil, J. M., Epistolário de Santo Antônio Maria Claret (Ed. Coculsa, Madrid 1970) vol. 2 pp. 1497‑1506 (edição crítica); No centenário de Santo Antônio Maria Claret, apóstolo da devoção ao imaculado Coração de Maria; texto íntegro de uma carta de Santo Antônio Maria Claret sobre o amor que devemos a Maria Santíssima: Cruzado Espanhol 13 (1970) 167‑168.

    Segue abaixo a carta.

    "Estimado senhor: acabo de receber sua estimadíssima carta, com que me pede que diga alguma coisa para crescer cada dia mais e mais na devoção do Imaculado Coração de Maria. Querido amigo, não podia pedir-me coisa melhor, do que mais gosto. Eu gostaria que todos os cristãos tivessem fome e sede desta devoção. Ame, amigo meu, ame e ame muitíssimo a Maria 
E para que possa aumentar em pontos a sua devoção e satisfazer seus desejos, lhe direi que devemos amar Maria Santíssima: primeiro, porque Deus o quer. Em segundo lugar, porque ela o merece. E em terceiro, porque nós precisamos, por ser ela um poderosíssimo meio para obter todas as graças corporais e espirituais e finalmente, a salvação eterna 
    1. Deus o quer
Devemos amar Maria Santíssima porque Deus o quer. Amar é querer bem ao amado, é fazer-lhe bem, é fazer-lhe participante de seus bens, pois o mesmo Deus nos dá exemplo e nos excita a amar Maria. O eterno Pai a escolheu por Filha sua muito amada; o Filho eterno a tomou por Mãe e o Espírito Santo, por Esposa; toda a Santíssima Trindade a coroou como Rainha e Imperatriz dos céus e terra e a constituiu dispensadora de todas as graças 
Você deve saber, amigo meu, que Maria Santíssima é obra de Deus e é a mais perfeita que saiu de suas mãos depois da humanidade de Jesus Cristo; nela brilham de um modo particular a onipotência, a sabedoria e a bondade do mesmo Deus.
É próprio de Deus dar as graças necessárias a cada criatura, segundo a finalidade a que a destina e como Deus destinou Maria para ser a mãe, filha e esposa do mesmo Deus e mãe do homem, daqui se imagina que tipo de coração lhe daria e com que graças a adornaria.
2. Ela o merece
     Devemos amar Maria Santíssima porque ela o merece. Maria Santíssima o merece pelo acúmulo de graças que recebeu sobre a terra, pela eminência da glória que possui no céu, pela dignidade quase infinita da Mãe de Deus a que tem sido sublimada e pelas prerrogativas próprias desta sublime dignidade.
     Maria foi como o centro de todas as graças e belezas que Deus tinha distribuído aos anjos, aos santos e a todas as criaturas. Maria tinha que ser Rainha e Senhora dos anjos e dos santos e, por isto mesmo, devia ter mais graças que todos eles, já no primeiro instante do seu ser. Maria tinha de ser a Mãe do mesmo Deus. É um princípio de filosofia que entre a forma e as disposições da matéria deve existir certa proporção; a dignidade de Mãe de Deus é aqui como a forma e o coração de Maria é a matéria que deve receber esta forma. Oh! Que acúmulo de graças, virtudes e outras disposições se agrupam naquele santíssimo e puríssimo coração!
     Desde que Deus determinou fazer-se homem, fixou a vista em Maria Santíssima e desde então dispôs todos os preparativos necessários, a fez nascer dos patriarcas, profetas, sacerdotes e reis , e todas as graças destes reuniu em Maria e quis que Maria fosse a nata e a flor de todos eles. Ainda, a preparou com bênçãos de doçura e colocou sobre sua cabeça uma coroa de pedras preciosas, isto é, graças e belezas; mas muito mais enriqueceu seu coração.
     No Coração de Maria devem ser consideradas duas coisas: o coração material e o coração formal, que é o amor e vontade.
     O coração material de Maria é o órgão, sentido ou instrumento do amor e vontade; assim como pelos olhos vemos, pelos ouvidos ouvimos, pelo nariz cheiramos e pela boca falamos, assim pelo coração amamos e queremos.
     Dizem os teólogos que as relíquias dos santos merecem veneração e culto: 1º porque foram membros vivos de Jesus Cristo. 2º porque foram templos do Espírito Santo. 3º porque foram órgãos da virtude. 4º porque serão instrumentos da graça e de milagres. 5º porque eles serão glorificados depois da ressurreição.
     O coração de Maria reúne estas propriedades e muitas outras: 1º O coração de Maria não só foi membro vivo de Jesus Cristo pela fé e pela caridade, mas também origem, manancial de onde se tomou a humanidade. 2º O coração de Maria foi templo do Espírito Santo e mais que templo, pois do preciosíssimo sangue saído deste imaculado coração o Espírito Santo formou a humanidade santíssima nas puríssimas e virginais entranhas de Maria no grande mistério da encarnação. 3º O coração de Maria foi o órgão de todas as virtudes em grau heróico e singularmente na caridade para com Deus e para com os homens. 4º O coração de Maria é um coração vivo, animado e sublimado no mais alto da glória. 5º O coração de Maria é o trono de onde se dispensam todas as graças e misericórdias.
     Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. Do mesmo modo como uma mulher, que deu à luz um homem, é chamada e é mãe daquele homem, assim também Maria Santíssima é e se chama, com toda propriedade, Mãe de Deus, porque o concebeu e o deu à luz; a mulher que deu à luz o homem se chama e é mãe daquele homem, que é um composto de alma e corpo e embora a alma venha somente de Deus, assim também Maria Santíssima é Mãe de Deus, porque este divino composto de pessoa divina, alma racional e corpo natural é o termo da geração nas puríssimas e virginais entranhas de Maria. Esta dignidade de Mãe de Deus é a que mais a enaltece, porque é uma dignidade quase infinita, porque é mãe de um ser infinito; é mais de quanto possui em graça e em glória. Os Doutores e Santos Padres dizem que pelos frutos se conhece a árvore, segundo consta no Evangelho; pois, que diremos de Maria, que deu à luz aquele bendito Fruto que tanto elogiou Isabel quando disse: “Bendito o fruto do teu ventre! De onde me vem tanta honra, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” .
     Diz Santo Tomás que o fogo não pega na lenha até que esta tenha os mesmos graus de
calor que aquele; pois bem, se para que do sangue do coração de Maria se formasse a humanidade à qual se devia juntar a divindade era preciso que tivesse uma disposição quase divina, que diremos agora de Maria se, além de ser considerada Mãe de Deus, juntamos as demais graças que depois recebeu de Jesus? Jesus por onde passava fazei o bem a todos, mais ou menos segundo a disposição com que os encontrava; que pensaremos das graças e benefícios que dispensaria a Maria, em quem passou não rapidamente, mas que esteve em suas entranhas por nove meses e a seu lado por trinta e três anos, e achando-se sempre com as melhores disposições e preparação para receber os benefícios de Jesus? A estas graças devem juntar-se também as que recebeu do Espírito Santo no dia de Pentecostes e, além disso, devem ser acrescentadas as que ela conseguiu com o exercício de tantas e tão heróicas virtudes em todo o decurso da sua santíssima e longa vida, acompanhada daquela contínua e fervorosa meditação em que, segundo o profeta, se acende a chama do divino amor. Ao considerar São Boaventura a graça de Maria, exclama dizendo: “A graça de Maria é uma graça imensa, múltipla”: Gratia Mariae, gratia est immensissima, gratia multiplicissima *.
     Não só devem ser consideradas as graças que Maria obteve para ser e por ter sido Mãe de Deus e as graças que recebeu de Jesus Cristo, do Espírito Santo e ela conseguiu com sua cooperação, mas também é indispensável fixar a atenção na multidão de incomparáveis prerrogativas que tão grande dignidade lhe tem dirigido. Faremos referência a algumas:
     1ª De ter sido preservada do pecado original, ao qual estaria sujeita se não tivesse sido destinada para ser Mãe do mesmo Deus; para isto, Deus a dotou de um coração imaculado, puríssimo, castíssimo, humilíssimo, mansíssimo, santíssimo, pois do sangue saído deste coração formou o corpo do Deus feito homem.
     2ª De ter concebido e dado à luz no tempo aquele mesmo Filho de Deus que o eterno Pai havia gerado na eternidade. Não duvide, diz São Boaventura, o eterno Pai e a Virgem sagrada tiveram um mesmo e único filho.
     3ª Assim como o eterno Pai teve este divino Filho sem perder nada da sua divindade, assim também a santíssima Virgem Maria concebeu e deu à luz este mesmíssimo Filho sem o menor detrimento da sua santíssima virgindade.
     4ª De ter tido um legítimo poder para mandar no Senhor absoluto de todas as criaturas, pois este é um direito que a natureza dá a todas as mães; direito ao qual quis sujeitar-se com gosto, pois disse que tinha vindo não para derrogar a lei, mas para cumpri-la com mais perfeição que os demais homens; e o evangelista São Lucas nos dá testemunho de como obedecia a sua Mãe e a São José: Et erat subditus eis. Mas este direito é uma honra a Maria Santíssima, que São Bernardo diz que não sabe o que é mais digno de admiração, se Jesus obedecer a Maria ou Maria mandar em Jesus; porque, diz o Santo, que Deus obedeça a uma mulher é uma humildade única e que uma mulher mande em um Deus é uma elevação sem igual.
     5ª Ter sido a esposa do Espírito Santo de uma maneira infinitamente mais nobre que outras virgens, pois, as outras somente merecem ser aliadas a este divino esposo quanto à alma, enquanto que Maria tem sido não só quanto à alma, mas também quanto ao corpo, embora da maneira mais casta. A aliança que existiu entre o Espírito Santo e as virgens castas só tem servido para a produção dos atos de virtudes, mas a aliança entre este divino Espírito e Maria Santíssima tem produzido de uma maneira inefável o Senhor das virtudes, Cristo Senhor Nosso.
     6ª Tem sido como o termo, por assim dizer, e a coroação da Santíssima Trindade: Maria universum sanctae Trinitatis complementum, porque produziu o mais excelente fruto da sua fecundidade ad extra, como dizem os teólogos; quer dizer, produziu um Deus homem. Maria produziu um sujeito capaz de dar à Santíssima Trindade uma honra tal como a Santíssima Trindade merece; honra que todas as criaturas juntas, e mesmo estas se multiplicando muitíssimas vezes, não eram capazes de pagar como o faz o Filho de Maria, Deus e homem verdadeiro.
     7ª Em ter sido feita Rainha e Senhora de todas as criaturas por ter concebido e dado à luz o Verbo divino, por quem foram feitas todas as coisas, como diz São João .
   3. Eficácia desta devoção
     Devemos amar Maria e ser seus verdadeiros devotos porque a devoção a Maria Santíssima é um meio poderosíssimo para alcançar a salvação. É a razão pela qual Maria pode salvar seus verdadeiros devotos, porque quer e porque o faz. Maria pode, porque é a porta do céu; Maria quer, porque é a mãe de misericórdia; Maria o faz, porque ela é a que obtém a graça justificante aos pecadores, o fervor aos justos e a perseverança aos fervorosos; por isto, os Santos Padres a chamam de resgatadora dos cativos, o canal da graça e a dispensadora das misericórdias. Por isto se disse que o ser devoto de Maria é um sinal de predestinação, assim como é uma marca de reprovação o não ser devoto ou adversário de Maria.
     A razão é muito clara. Ninguém pode salvar-se sem o auxílio da graça que vem de Jesus, como cabeça que é da Igreja ou corpo, e Maria é como o pescoço que junta, por assim dizer, o corpo com a cabeça; e assim como o influxo da cabeça no corpo deve passar pelo pescoço, assim, pois, as graças de Jesus passam por Maria e se comunicam com o corpo ou com os devotos, que são seus membros vivos: In Christo fuit plenitudo gratiae sicut in capite fluente; in Maria sicut in collo transfundente.
     Maria pelos Santos Padres é chamada escada do céu, porque por meio de Maria Deus desceu do céu e por meio de Maria os homens sobem ao céu. E quando a Igreja diz que esta Rainha incomparável á a porta do céu e a janela do paraíso, nos ensina com estas palavras que todos os eleitos, justos ou pecadores, entram na mansão da glória por seu intermédio; com esta única diferença, que os justos entram por ela como pela porta diretamente, mas os pecadores pela janela, que é Maria; pela escada, que é Maria. Portanto, amigo meu, em Maria, depois de Jesus, devemos colocar toda nossa confiança e esperança da nossa eterna salvação. Haec peccatorum scala, haec mea maxima fiducia est, haec tota ratio spei meaeUnica peccatorum advocata, portus tutissimus, naufragantium omnium salus. Peccatorem quantumlibet foetidum non horret... donec horrendo Judici miserum reconciliet.
     Oh! Feliz é aquele que invoca Maria com confiança, pois alcançará o perdão dos seus pecados, por muitos e por graves que sejam; alcançará a graça e, finalmente, a glória do céu, que tanto desejo a você e a todos."


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Em defesa dos planetas - GK Chesterton


Em defesa dos planetas

    Certa vez, chamou-me a atenção um livro intitulado Terra Firma: a Terra não é um Planeta. O autor era um certo sr. D. Wardlaw Scott, e citava com muita seriedade as opiniões de um grande número de outras pessoas, das quais nunca ouvimos falar, mas que são evidentemente muito importantes. O Sr. Beach de Southsea, por exemplo, pensa que o mundo é plano; e em Southsea talvez seja mesmo. Não é minha intenção neste momento, entretanto, seguir em detalhes os argumentos do Sr. Scott. Ao longo desses argumentos pode-se demonstrar que a terra é plana e, para todos os efeitos, que é triangular. Alguns exemplos bastarão.

    Uma das objeções do Sr. Scott era que se um projétil é disparado de um corpo em movimento, há uma diferença na distância a que chega de acordo com a direção em que é lançado. Mas como na prática não há a menor diferença seja qual for a direção escolhida, no caso da Terra "temos uma forçosa derrubada de todas as fantasias relativas ao movimento, e uma admirável prova de que esta não é um globo."Este é, em realidade, um dos argumentos mais estranhos que já vimos. Parece nunca ocorrer ao autor, entre outras coisas, que quando o disparo e a queda de um tiro ocorrem todos sobre o corpo em movimento, não há nada com que os comparar. Aliás, é claro que um tiro dado em um elefante de fato frequentemente move-se na direção do atirador, mas muito lentamente do que o próprio atirador se move. O Sr. Scott provavelmente não gostaria de contemplar o fato de que é o elefante, propriamente falando, que gira e atinge a bala. Para nós é algo repleto de um rico humor cósmico. Darei apenas mais um exemplo das provas astronômicas: "Se a terra fosse um globo, a distância ao redor da superfície, digamos, em 45º de latitude sul não poderia ser maior do que na mesma latitude ao norte; porém, como os navegadores constataram que a distância é duas vezes - para dizer o mínimo - ou seja, o dobro da distância que deveria ser de acordo com a teoria global, isto é uma prova de que a terra não é uma esfera". Esta espécie de frases reduz minha mente a pó. Mal posso resistir quando um homem afirma que se a terra fosse redonda os gatos não teriam quatro patas; mas, quando afirma que se a terra não fosse redonda os gatos não teriam cinco patas, sinto-me aniquilado.     

    Porém, como já indiquei, não é o aspecto científico desta notável teoria o que me interessa no momento. Interessa-me mais a diferença entre o mundo plano e o redondo como conceitos na arte e na imaginação. É algo extraordinário que nenhum de nós sejamos realmente copernicanos em nossa perspectiva real das coisas. Estamos intelectualmente convencidos de que habitamos um pequeno planeta provinciano, mas não nos sentimos de maneira alguma suburbanos. Os cientistas questionaram a Bíblia porque ela não se baseia no sistema astronômico verdadeiro, mas o fiel ortodoxo está certamente livre para dizer que, se o fosse, nunca teria convencido ninguém.Se um único poema ou uma única história fosse realmente transfundida com a ideia copernicana, viraria um pesadelo. Podemos imaginar uma solene e estática montanha, em que algum profeta está de pé em um transe, e então darmos conta de que a cena toda está girando sem parar como um zootrópio, a uma velocidade de dezenove milhas por segundo? Poderíamos tolerar a noção de um poderoso rei promulgando um sublime decreto e então lembrarmos que, para todos os efeitos práticos, ele está de cabeça para baixo no espaço? Poder-se-ia escrever uma estanha fábula sobre um homem que fosse abençoado ou amaldiçoado com o olhar copernicano, e visse todos os homens na terra como tachinhas aderidas a um imã. Seria singular imaginar quão diferente soaria o discurso de um agressivo egoísta, anunciando a independência e a divindade dos homens, se ele fosse visto pendurado ao planeta pelas solas de suas botas.    

    Pois, apesar do horror do sr. Wardlaw Scott pela astronomia newtoniana e sua contradição da Bíblia, a distinção toda é um bom exemplo da diferença entre a letra e o espírito; a letra do Velho Testamento é oposta ao conceito do sistema solar, mas o espírito é muito próximo. Os escritores do Livro do Gênesis não tinham a teoria da gravidade, o que para a pessoa normal parecerá um fato tão importante quanto o de que não tinham guarda-chuvas. Mas a teoria da gravidade tem em si um sentimento curiosamente hebreu - um sentimento de dependência e certeza combinados, uma sensação de instável unidade, pela qual todas as coisas estão presas por um fio. "Tu suspendeste a terra sobre o nada", disse o autor do Livro de Jó, e nesta sentença escreveu toda a impressionante poesia da astronomia moderna. A sensação da preciosidade e fragilidade do universo, a sensação de estar na concha de uma mão, é algo que a Terra redonda e rolante dá da maneira mais emocionante. A terra plana do Sr. Wardlaw Scott seria o verdadeiro território para um ateu confortável. E os judeus também não teriam nenhuma objeção a estar tanto de cabeça para cima quanto para baixo. Eles não tinham ideias tolas sobre a dignidade do homem.     

     Seria uma especulação interessante imaginar se o mundo um dia desenvolverá uma poesia e uma forma de pensar copernicanas; se algum dia diremos que "a Terra rodou cedo", ao invés de "o sol nasceu cedo", e falaremos indiferentemente de levantar o olhar para as margaridas, ou baixar o olhar até as estrelas. Mas se algum dia o fizermos, haverá realmente uma grande quantidade de fatos grandes e fantásticos esperando por nós, dignos de formar uma nova mitologia. O Sr. Wardlaw Scott, por exemplo, com imaginação genuína embora inconsciente, afirma que, de acordo com os astrônomos, "o mar é uma vasta montanha de água com milhas de altura". Descobrir tal montanha de cristal em movimento, na qual os peixes se erguem como pássaros, é descobrir o Atlântida: é suficiente para que o velho mundo se torne novo outra vez. Na nova poesia que consideramos, jovens atléticos lançar-se-ão resolutamente a escalar as encostas do mar. Se alguma vez compreendermos toda esta terra como realmente é, encontrar-nos-emos em um mundo de milagres: descobriremos um novo planeta no instante em que descobrirmos o nosso próprio. Dentre todas as estranhas coisas que os homens esqueceram, o mais universal e catastrófico lapso de memória é aquele pelo qual esqueceram que estão vivendo em uma estrela.     

    Nos primeiros dias do mundo, a descoberta de um fato de história natural era imediatamente seguida pela percepção de que era também um fato poético. Quando o homem despertou do longo período de distração que se chama de estado animal automático, e começou a notar os estranhos fatos de que o céu era azul e a grama verde, imediatamente passou a usar esses fatos simbolicamente. Azul, a cor do céu, tornou-se o símbolo da santidade celestial; o verde passou para a linguagem como um indicativo de inexperiência beirando a ignorância. Se tivéssemos a sorte de viver em um mundo em que o céu fosse verde e a grama azul, o simbolismo seria diferente. Mas por alguma misteriosa razão este hábito de compreender poeticamente a ciência cessou abruptamente com o progresso científico, e todos os perturbadores portentos pregados por Galileu e Newton caíram em ouvidos surdos. Pintaram uma imagem do universo comparada com a qual o Apocalipse com suas estrelas cadentes era um mero idílio. Declararam que estamos todos voando pelo espaço agarrados a uma bala de canhão, e os poetas ignoram o assunto como se fosse um comentário sobre o clima. Dizem que uma força invisível nos prende a nossas poltronas enquanto a terra voa como um bumerangue; e os homens ainda recorrem a livros empoeirados para provar a misericórdia de Deus. Contam-nos que a monstruosa visão do Sr. Scott sobre uma montanha de água do mar erguendo-se em uma sólida abóbada, como a montanha de vidro do conto de fadas, é na realidade um fato, e os homens ainda recorrem ao conto. A que enormes alturas de imaginário poético não poderíamos ter subido se a poetização da história natural continuasse e a imaginação do homem houvesse brincado com os planetas tão naturalmente como uma vez brincou com as flores! Poderíamos ter um patriotismo planetário, em que a folha verde seria como um cocar, e o mar uma eterna dança de tambores. Poderíamos nos orgulhar das coisas que nossa estrela forjou, e usaríamos seu brasão de armas altivamente no cego torneio das esferas. Na verdade, certamente ainda faremos tudo isto, pois com toda a multiplicidade de conhecimento há felizmente uma coisa que ninguém sabe: se o mundo é velho ou novo. 


Chesterton, G.K. O Defensor/Tipos Variados (1901/1903). Campinas, Ecclesiae, 2015. Págs. 49-53

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sábado de Formação com o seminarista Rodrigo Maria


Primeira conferência:" Da mortificação externa"1- Necessidade da mortificação externa.2- salutares efeitos da mortificação externa.3- prática da mortificação externa.- mortificação da Vista - mortificação do ouvido- mortificação do olfato - mortificação do tato - mortificação do paladar 

Segunda conferência:" Da mortificação interna."1- Da mortificação do amor próprio.2- Da mortificação da vontade própria.

domingo, 16 de julho de 2017

A Crucifixão - Pe Frederick William Faber

A Crucifixão


    O mundo é um mistério. A vida, o tempo, a morte, a dúvida, o bem e o mal e a incerteza que pairam sobre nosso destino eterno são mistérios. Ardem ocultamente no coração dos tempos. Mas o Crucifixo é seu significado, a solução para todos eles. Ele põe as questões, e responde a elas também. É a solução de todos os enigmas, a certeza de todas as dúvidas, o centro de todas as fés, a fonte de todas as esperanças, o símbolo de todos os amores. Revela o homem a ele mesmo, e Deus ao homem. Lança luz ao tempo, para que possa contemplar a eternidade e acalmar-se. É uma vista doce de olhar em tempos de alegria, pois torna a alegria mais terna sem reprová-la, eleve-a sem extenuá-la. Na dor não há vista como esta. Ela arranca nossas lágrimas, e fá-las cair mais rapidamente, e tão suavemente, que se tornam mais doces que sorrisos. Dá luz na escuridão, e o silêncio de sua pregação é sempre eloquente, e a morte é vida em face da grave seriedade da vida eterna. O Crucifixo é sempre o mesmo mas sempre varia sua expressão segundo nossa disposição, conformando-se ao que mais queremos e a que é melhor para nós. Não é surpreendente que os santos se tenham agarrado ao Crucifixo com tais transes de amor satisfeito. Mas Maria é parte da realidade deste símbolo a Mãe e o Apóstolo ficam, por assim dizer, ao pé do Crucifixo ao longo de todas as eras, símbolos do grande mistério, da única religião verdadeira, do que Deus fez pelo mundo que criara. Assim como não podemos pensar no Menino de Belém sem a sua Mãe, assim tampouco os Evangelhos nos permitem imaginar ao Homem no Calvário sem sua Mãe. Jesus e Maria eram sempre um; mas havia uma união peculiar entre eles no Calvário. A esta união chegamos agora, à quinta dor de Maria, à Crucifixão.
    A Via-Crúcis acabara, e eles chegaram ao cimo da colina um pouco antes do meio-dia. Se a tradição é verdadeira, aquele lugar era um memorial apropriado para ser o santuário do mundo; pois se diz que foi o lugar do túmulo de Adão, o lugar onde repousou quando a misericórdia de Deus o acolheu e encerrou seus novecentos anos de penitência heroica. Próximo estava a cidade de Davi, que era antes a cidade de Deus, o centro de uma história tão maravilhosa, o objeto de um amor divino tão patético. A cena por representar agora descoroaria a cidade real; mas apenas para coroar com uma coroa muito mais gloriosa de luz, de esperança, de verdade e de beleza de todas as cidades do mundo onde o Cristo Crucificado seria pregado e onde o Santíssimo Sacramento moraria. Passou pouco tempo, talvez uma hora, desde a última dor; e assim passaram somente quatro horas desde a quarta dor até a consumação da quinta. Mas, com respeito ao sofrimento e à santificação, foi o período mais longo que os dezoito anos de Nazaré. Com respeito a nenhuma outra coisa isto é mais verdadeiro que com respeito à nossa santidade: para Deus mil anos são apenas um dia. Estas horas estavam repletos de mistérios tão divinos, de realidades tão vibrantes, que o passar do tempo não era um elemento da agonia da alma de Maria. Ela chega à Crucifixão como uma maravilha da graça e um milagre de sofrimento maiores que quando, uma hora antes, encontrara a Jesus com a Cruz na esquina da estrada.
    Despiram-No de Suas vestes, e por causa disso Sua Natureza humana foi diminuída inexprimivelmente. Para sua Mãe a indignidade era uma tortura em si, e ver o Coração descoberto de seu Filho foi um horror e uma agonia que as palavras não podem expressar. Puseram-No na Cruz, cama mais dura que a Manjedoura de Belém onde primeiro fora posto. Entrega-se às mãos dos soldados com tanta docilidade como uma criança que se entrega a uma mãe que o prepara amavelmente para dormir. Parece, e foi realmente assim, que Sua vontade, e não a sua, era cumprida. Belo na desfiguração, venerável na vergonha, o Deus Eterno jaz na Cruz, com os olhos fitos nobremente nos céus. Nunca, pensava Maria, Ele tinha parecido tão adorável, tão manifestadamente Deus, como agora que estava esticado, vítima impotente, mas pronta; e ela adorava-O com o mais profundo culto. Os carrascos esticam Seu braço direito, e colocam-no na Cruz. Martelam o cravo áspero na palma de Sua Mão, na Mão de onde fluem as graças do mundo, e a primeira pancada seca do martelo é ouvida em silêncio. O tremor da dor excessiva passa a Seus membros sagrados, mas não remove a expressão doce de Seus olhos. Agora, um golpe se segue a outro, e ecoam vagamente em algum lugar. Madalena e João fecham os ouvidos; pois o som é insuportável: é pior do que se o martelo de ferro golpeasse seu coração vivo. Maria ouve a tudo. O martelo golpeia seu coração vivo; pois seu amor há muito morreu para si, e só vive para Ele. Ela olhou para o Céu. Não conseguia falar. Palavras não diriam nada. Somente o Pai entendia a oferta daquele coração, agora quebrantado tantas vezes. Para ela a Fixação dos Cravos não foi uma só ação. Cada martelada era um martírio diferente. O martelo tocava seu coração como a mão de um músico aperta variavelmente as teclas de seu instrumento.
    A Mão Direita está pregada na Cruz. A Esquerda não alcança o outro lado. Ou erraram no cálculo do orifício que abriram para facilitar a passagem do prego, ou o Corpo se contraiu pela agonia. A cena que se seguiu é temível, como os santos a descrevem em sua revelação. Os carrascos puxaram o braço esquerdo com todas as suas forças; mas ainda não alcançava o outro lado. Ajoelharam-se sobre suas costelas, que rechaçavam, conquanto não quebrassem, pela pressão violeta, e, deslocando Seu braço, conseguiram esticar a Mão até o lugar. Não se pode arrancar de Jesus mais que um olhar amável, e a expressão doce ainda estava em seus olhos. Mas para Maria - quem consegue imaginar o horror daquela vista, daquele som, para ela? Oh! Havia mais pesar neles que em todos os santos que ainda não tinham sido canonizados! Os golpes secos do martelo começavam novamente, variando o som conforme golpeavam carne ou músculo, ou a madeira dura, onde o prego abria seu caminho cruel. Suas pernas também estão esticadas pela violência; um Pé está cruzado sobre o outro, esses Pés que tantas vezes sofreram dor e a massa sólida dos músculos contraídos, vagarosamente e com uma agonia indizível, por causa da oscilação dos pés nesta posição. É inútil falar da Mãe; é inútil compadecer-se dela. Nossa compaixão não é nada em comparação com tal excesso terrível de agonia. Mas Deus susteve sua criatura, ela sobreviveu.
    Agora a Cruz está erguida da terra, com Jesus jacente nela, a mesma expressão doce nos olhos, e a cruz é levada para perto do buraco que cavaram para receber o pé da cruz. Amarraram cordas à cruz, e, prendendo-as à extremidade do buraco, começaram a levantá-la perpendicularmente por meio das cordas. Quando estava de pé, empurram a base gradualmente até a extremidade da cova, até que caiu na cavidade com um salto veemente, que deslocou todos os ossos, e quase rasgou o Corpo nos cravos. De fato, alguns contemplativos mencionam uma corda pendurada ao redor de Sua cintura tão cruelmente apertada que se escondia na carne, para impedir que o Seu Corpo se despregasse da Cruz. Assim, um horror sobrepuja outro, explorando, com impressões ardentes, como as vibrações de um terremoto, todas as capacidades sobrenaturais do sofrimento, que são como um abismo no coração arruinado da Mãe. Não comparemos seu sofrimento a nenhum outro. É único. Podemos contemplá-lo e chorá-lo com amor, com um amor que é também sofrimento. Mas não ousamos fazer nenhum comentário sobre ele. Mãe Dolorosa, bendita seja a Santíssima Trindade pelos milagres de graça realizados em vós nesta hora tremenda!
[...]
    É difícil para uma mãe ficar imóvel do lado do leito de morte de um filho. O pesar tem de mover alguma coisa. As necessidades do sofredor são a luxúria do pranteador. É preciso amaciar novamente os travesseiros, tirar o cabelo da frente dos olhos, enxugar da testa úmida as gotas da morte, umedecer continuamente os lábios exangues, esfregar as mãos pálidas, afastar uma cortina para que entre mais ar, proteger os olhos da luz, remover as roupas que dificultam a respiração. Ainda quando é claro que o toque mais leve, o mais gentil desses serviços, é causa de dor para o sofredor, a mão da mãe não consegue refrear-se; pois seu coração está em todos os dedos. Ficar imóvel é uma desolação para sua alma. Ela pensa que não é a habilidade ou experiência da enfermeira o que deve ditar seus movimentos, mas sim sua teimosia, pois a enfermeira não é a mãe desse belo menino; e assim se rebela contra a autoridade da enfermeira, ainda que as possibilidades de ser cruel lhe refreiem as mãos. É certo que se deve retirar a espuma da sua boca, é verdade que o longo cacho de cabelos está coçando ao cair entre os olhos e dividir sua visão, é certo que se deve trazer de volta, com delicadeza, com muita delicadeza, o sangue à mão gelada. E assim ela se senta murmurante, condensada toda a sua dor na imobilidade obrigatória. Pensai, então, quanto Maria sofreu nas três longas horas sob a Cruz! Existiu alguma vez leito de morte tão incômodo, tão desconfortável como aquele madeiro áspero? Existiu alguma vez postura mais torturante do que estar dependurado com cravos nas mãos, sendo puxado mais e mais para baixo pelo peso do Corpo? Onde estava o travesseiro para Sua cabeça? Se tentasse repousar sobre o Título da Cruz, a coroa de espinhos empurrava-O para frente de novo; se se prostrasse sobre o Peito, não poderia alcança-lo, e o peso despregaria o Corpo dos cravos. Correntes vagarosas de Sangue escorriam sobre seu Corpo ferido, fazendo-O tremer a seu toque, com irritação e desconforto muito dolorosos. O Sangue lhe irritava os olhos, um líquido quase congelado. Sua Boca, tremendo de sede, era também tocada pelo Sangue, que Sua respiração umedecia cada vez menos. Não havia membro que não reclamasse a mão terna da Mãe, e sua mão não conseguia alcançar tão alto. Seu toque aliviaria multidão de dores. Ó mães, há algum nome para expressar o desejo intolerável de Maria de alisar aquele cabelo, de limpar aqueles olhos, de umedecer aqueles lábios que havia pouco tinham dito palavras tão belas, de soltar as mãos latejantes e de segurar por um tempo a sola dos pés esmagados e lacerados?



Ao Pé da Cruz - Pe Frederick William Faber