segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

DO MUNDO

DO MUNDO



Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão? Duas questões bem interessantes para todos quantos desejam pertencer inteiramente a Deus e assegurar a salvação.

Que é o mundo? É o inimigo de Jesus Cristo, o inimigo do evangelho. É esse conjunto de pessoas que, presas às coisas sensíveis, fazendo consistir nelas a felicidade, tem horror aos sofrimentos, á pobreza, às humilhações e consideram, estas e aqueles, como verdadeiros males de que cumpre fugir e contra os quais se deve estar garantido, custe o que custar; que, em contraposição, ligam o maior apreço aos prazeres, às riquezas e às honrarias; reputam umas e outras verdadeiros bens; os desejam e buscam, portanto, com ardor extremo e sem escolherem os meios; os disputam, invejam e arrebatam uns aos outros; só se estimam ou desprezam-se mutuamente, na medida em que os possuem; em suma, fundam na aquisição e no gozo desses bens todos os seus princípios, toda a sua moral, todo o plano de sua conduta. O espírito do mundo é, pois, evidentemente oposto ao espírito de Jesus Cristo e do Evangelho. Jesus Cristo e o mundo reciprocamente se condenam e reprovam. Jesus Cristo, na oração por seus eleitos, declara não orar pelo mundo; anuncia, aos apóstolos e, nas pessoas destes, a todos os cristãos, que o mundo os há de odiar e perseguir como a Ele próprio odiou e perseguiu. Quer que a seu turno façam eles continua guerra ao mundo. Nos primeiros séculos da igreja, quando quase todos os cristãos eram santos e a parte restante da humanidade achava-se abismada na idolatria e na perdição, fácil tornava-se discernir o mundo, conhecer a gente que se podia frequentar e a que se devia evitar.

O mundo, então desencadeado contra Jesus Cristo, distinguia-se por sinais inequívocos. Depois que nações inteiras abraçaram o Evangelho e o relaxamento se introduziu entre os cristãos, formou-se pouco a pouco no meio deles um mundo no qual reinam todos os vícios da idolatria, um mundo ávido de honras, prazeres e riquezas, um mundo cujas máximas combatem diretamente as máximas de Jesus Cristo. Mas, como esse mundo professa exteriormente o cristianismo, hoje é mais difícil discerni-lo. A sua frequentação também se tornou mais perigosa porque ele disfarça sua má doutrina com mais habilidade, propaga-a com mais alento, emprega toda a sua sutileza para concilia-la com a doutrina cristã e, nesse intuito, enfraquece, suaviza tanto quanto pode o santo rigor do Evangelho, escondendo cuidadosamente, por outro lado, todo o veneno da sua moral.

Daí um perigo de sedução tanto maior porquanto não se percebe e contra ele não se está em guarda; daí certo espírito de transigência e adaptação, pelo qual se procura conciliar a severidade cristã com as máximas do século sobre a ambição, a cobiça, o gozo dos prazeres; acordo impossível, condescendências ou atenuações que tendem a lisonjear a natureza, alterar a santidade cristã e formar consciências falsas.

Se quisermos viver nesta terra sem participar da corrupção do século, só temos um partido a tomar, o de rompermos absolutamente com o mundo pelo coração e entrarmos a sentir com São Paulo, quando exclama: O mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo.

Oh! Que belas palavras, e quão profundo o sentido que encerram! Nada de exagerado tem, ao invés, apenas justo e legitimo é esse sentimento, que deve ser o de todo cristão e a razão é evidente: o mundo crucificou Jesus Cristo, depois de havê-lo caluniado, insultado, ultrajado; crucifica-o ainda todos os dias: é, pois, justo que o mundo, por sua vez, esteja crucificado para o discípulo de Jesus Cristo; é justo ter o discípulo horror ao inimigo capital do mestre, do seu Salvador, do seu Deus. 

Assim, a renuncia ao mundo é uma das promessas mais solenes do batismo, uma condição essencial, sem a qual a Igreja não nos teria admitido entre seus filhos. Pensamos nesta promessa? Pensamos nas obrigações que ela acarreta? Examinamos até onde deve chegar a nossa renuncia?

A renúncia do cristão a respeito do mundo deve ir tão longe quanto a renuncia do mundo a respeito de Jesus Cristo.

Esta regra é clara e em face da sua precisão é impossível nos enganarmos. Só nos resta aplicá-la em toda a sua extensão. O mundo tem o seu evangelho: só temos que tomá-lo numa das mãos e o evangelho de Jesus Cristo na outra; só temos que comparar, sobre os mesmos objetos, a doutrina e os exemplos de um e de outro, só temos que opor Jesus Cristo na cruz, no sofrimento, no opróbrio e na nudez, ao mundo cercado e embriagado de honras, riquezas e prazeres, e dizer a nós mesmos: a quem pertenço? A quem desejo pertencer? Eis aí dois inimigos irreconciliáveis, fazendo-se reciprocamente a guerra mais cruel. A favor de qual deles desejo declarar-me? É-me impossível ficar neutro ou tomar partido de ambos. Se escolho Jesus Cristo e a sua cruz, o mundo me reprova; se me prendo ao mundo e as suas pompas, Jesus Cristo me rejeita e condena: poderei hesitar? É cristão aquele que hesita sequer um instante? Como os cristãos seriam santos se a grandeza de seus compromissos bem se compenetrasse. Se eles me perseguiram, dizia Jesus Cristo a seus apóstolos, também vos perseguirão: é coisa infalível. O mundo não seria o que é, ou os cristãos não seriam o que devem ser, se escapassem à perseguição do mundo.

Procuremos meus amigos, muitas vezes certificar-nos do nosso estado; quiséramos saber se somos agradáveis a Deus, se Jesus Cristo nos reconhece como pertencentes a Ele. Eis um meio bem próprio para esclarecer-nos e dissipar todas as nossas inquietações: indaguemos se o mundo nos estima e considera, se fala bem de nós e nos procura. Neste caso não pertencemos a Jesus Cristo. Pelo contrario, se ele nos censura e ridiculariza, se nos calunia, foge de nós, nos despreza e odeia... Oh! 
Que poderosa razão para crermos que pertencemos a Jesus Cristo!

Vejamos, pois, seriamente diante de Deus, o que o mundo é para nós e o que somos para o mundo. Sondemos nossas disposições interiores, estudemos os sentimentos mais profundos do nosso coração: verificaremos haverem máximas do mundo deixando profundos vestígios em nosso espírito e que em muitas circunstâncias delicadas os nossos juízos se aproximam ainda dos seus; verificaremos que somos ciosos de sua estima e tememos seus desprezos; que gostamos de cultivar e entreter certas relações e veríamos com desprazer os outros afastarem-se de nós; que temos em várias ocasiões atenções, respeito humano... Veremos, numa palavra, que não somos bem claramente a favor de Jesus Cristo e contra o mundo.

Mas não desanimemos: triunfar plenamente do mundo e desprezá-lo não é obra de um momento. Exerçamo-nos nas pequenas ocasiões que se apresentam: se Deus nos ama, jamais deixará de nos proporcionar pequenas vitórias para depois nos preparar para os grandes combates. Lembremo-nos, sendo preciso, das palavras Dele: Tende confiança, eu venci o mundo. Supliquemos-Lhe que nos ajude a vencer, ou antes, que Ele mesmo vença em nós o mundo e destrua em nossos corações o reino deste para aí estabelecer o seu.


Padre Grou, 1929.