quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte II

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

II

Qual é (perguntava eu) a causa, que tão facilmente nos borra da memória uma lembrança tão repetida, e tão importante? Falando especulativamente, verdade é que todos nós conhecemos, que havemos de morrer, porque assim no-lo testemunham a Fé, a natureza, a razão e a experiência. Houve sim ateístas, que negaram a Deus o ser, e à alma a imortalidade. Mas não houve quem negasse ao homem a morte. Quanto mais os que cremos, que Deus não fez a morte, e que a morte se atreveu ao mesmo Deus; porém falando praticamente, passa em nós o contrário totalmente. Tanquam semper victuri vivitis (se queixava Séneca) omnia tanquam mortalies tenetis; omnia tanquam immortales concupiscitis. Aquele pomo vedado a nossos primeiros pais considero eu que tinha escritas duas maneiras de letras bem encontradas entre si. Ao princípio tinha Deus escrito nele aquele desengano: Inquocumque die comederis ex eo, morte morieris (8). Depois falsificou o inimigo escrevendo-lhe por cima estoutras: Nequamquam morte moriemini 9. Viu que a lembrança da morte era o mais importante fundamento de nossa conservação; tratou de arruiná-lo: a serpente sugeriu, Eva ofereceu, a formosura da árvore convidou. Eis ali o diabo, o mundo, a concupiscência todos postos em campo para dissuadir ao homem, que não há de morrer: Nequamquam morte morienmini. Come o Adão, e ambas aquelas letras ficaram gravadas no coração de todos nós outros; o desengano de Deus ficou escrito como estímulo da consciência, o engano do inimigo ficou escrito como estímulo da carne. O desengano de Deus rubricou-se com seu próprio sangue, e assinou-se com a pena que tomou de Cruz. Morte morieris. O engano do inimigo, como era ferrete de nossa escravidão, imprimiu-se como o fogo da concupiscência: Nequamquam morte moriemini. O desengano de Deus não se apagou de todo, porque os brados da consciência, ainda que nem sempre se escutam, sempre se ouvem: Morte morieris. O engano do inimigo se não apagou estas letras, ao menos as escureceu e encobriu com razões de aparência falsa: Nequamquam morte moriemini. Ora vamos nós descobrindo-as com a luz da divina graça, e seja sempre nesta lamentável história da tentação de nossos primeiros pais, já que daí tirou a Igreja Santa as palavras com que hoje nos admoesta: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris.


8. Gn 2, 7.
9. Ibid., 2.