sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte III

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

III


A primeira razão aparente, com que se nos escurece a lembrança da morte, é a formosura exterior dos bens do mundo. Vemos nele tanta e tão vária beleza, em que os sentidos se apascentem, que não acabamos de crer que haja perigo no lograr-se. Vidit mulier, quod bonum esset lignum ad vescendum, et pulchrum oculis, aspectuque delectabile (10): Viu Eva que aquela árvore era agradável à vista, que se seguiu? Tulis de fructu illus, et comedit. Oh argumento muitas vezes errado! E quem meteu aos olhos como ofício de julgarem a bondade das cousas? Da formosura, julguem embora pulchrum oculis. Mas da bondade? Bomum ad vescendum? Antes só para comer não era boa aquela árvore. E não era mais bela a flor da inocência? Não era mais doce o fruto do merecimento? Pois tendes incorrido na pena: morte morieris. E conheçam todos que os mesmos gostos da vida trazem consigo o mais claro desengano da morte.

Quando Moisés descendo do monte achou o povo idolatrando naquele ídolo, que tinham formado de todas suas riquezas, diz o Texto, que Moisés desfez o ídolo em cinzas, e lhas deu a beber. Combussit, et contrivit usque ad pulverem, quem sparsit in aquam, et dedot ex eo potum filiis Israel (11). Quis Moisés, que para que o povo tomasse aborrecimento à idolatria, se fartasse das cinzas do seu mesmo ídolo. E que outra cousa é (pergunto eu agora) que outra cousa é a felicidade do mundo, senão um grande ídolo composto de riquezas, que ajuntamos para adorarmos nelas? Moisés quebrou as tábuas da lei, e desfez logo o ídolo. Foi zelo. Oh veja cada um quantas vezes, por não desfazer o ídolo, tem quebrado a lei de Deus! Pois ide agora mortais, ide e idolatrai na formosura desse ídolo; reduzido em cinzas vos dará brevemente o desengano. Será agradável no exterior: pulchrum oculis, mas não é bom para comido: bomum ad vescendum, salvo para alcançar a ciência do bem e do mal, porque assim como aquele ídolo desfeito em pó causou aborrecimento à mesma idolatria, assim todos os bens da terra, reduzidas com a consideração à mesma terra, perdem de sua estimação. Aquele mesmo ouro formado em ídolo era ocasião de adorações falsas; bebido em cinza foi a ocasião de desenganos verdadeiros. Aquela opulentíssima região onde Salomão mandava suas armadas carregar de ouro, chamou-se Ofir, que ao hebraico vale o mesmo que Cinis, Cinza. Dois documentos achamos aqui, ambos preciosos. O primeiro, que todos os bens e grandezas não valem mais que cinzas, porque em cinza hão de acabar. O segundo, que a cinza de nossa mortalidade, cavada com a consideração, é uma mina preciosíssima de riquezas espirituais. Ditoso aquele que sabe reduzir o ouro de sua grandeza às cinzas de um sepulcro: porque das cinzas de um sepulcro vai lavando o ouro da coroa de sua imortalidade. Bem é que já que a felicidade do mundo é falsa, o escarmento seja verdadeiro; bem é que quanto mais depressa passam seus bens, tanto durem mais nosso desenganos.

Escreveu Jacó na sepultura da sua Raquel defunta um epitáfio, que dizia: Hic est titulus momumenti Rachel usque ad praesentem diem (12). Este é o letreiro da sepultura de Raquel até o presente dia. Parece supérflua esta última palavra, mas não tem senão uma energia bem grande. Notai. A sepultura é para Raquel; o título é para nós outros. É verdade que aquela gentileza já passou. Mortua est ergo Rachel. Mas o aviso da sua morte ainda está presente: usque ad praesentem diem. A campa daquela sepultura debaixo de si não tem mais, que as frias cinzas de um cadáver; porém sobre si sustenta um claro aviso de nossa mortalidade, que isso quer dizer monumentum. Enfim, que quando os olhos de Raquel se cerraram para a luz da vida, abriram-se os nossos para a luz do desengano, e desengano que dura até o presente dia: usque in praesentem diem.

10. Gn 2, 6.
11. Ex 12, 29.
12. Gn 33, 20.