sábado, 20 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte IV

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

IV



Ainda digo mais. Se bem o considerarmos, mais vivo despertador da morte temos nas felicidades do mundo do que nos trabalhos e calamidades. Vede-o na comparação de duas árvores de gerações, que descreveram dois Apóstolos sagrados. Santiago descreveu a geração da concupiscência, e disse assim: Unusquisque tentatur comcupiscentid sua: deinde concupiscentia cum conceperit, parit peccatum: peccatum vero cum consummatum fuerit, generat mortem (13). Como se dissera: a formosura exterior dos bens do mundo excita o nosso apetite, se concebeu, produz pecado: o pecado, se saiu à luz, gera morte. Vejamos a outra árvore. S. Paulo descreveu a geração dos trabalhos e tribulações, e disse assim: Tribulatio patientiam operatur, patientia autem probationem, probatio vero spem, spes autem non confundit (14). A tribulação é mais da paciência; a paciência da aprovação, a aprovação da esperança; e a esperança nunca perece, sempre vive. Temos logo, se bem o advertistes, que os gostos do mundo claramente nos avisam da morte; e que dos trabalhos antes nos podemos prometer vida. Aquela árvore das tribulações, que agora não produz senão espinhos para nos magoar, bem podeis esperar dela frutos de vida; e aquela outra, que está coalhada de flor brevemente há de murchar-se. De espinhos se coroou nosso Redentor Jesus Cristo; e então teve sobre a cabeça o título de Nazareno, que é o mesmo que florido. De flores se coroavam aqueles ímpios de que fala a sabedoria: Coronemus nos rosis (15), e logo se temeram que murchassem: antequam marcescant. A vida de Sansão parecia perigar quando se encontrou com o leão. Despedaçou-o, e no seu cadáver achou depois um favo de mel. Outro favo de mel foi Jonatas provar com a ponta da lança, e encontrou com o perigo de vida. Assim passa, que maior risco temos entre as delícias que entre as tribulações. Ah doçura perigosa dos gostos do mundo! Se quem vos leva à ponta da lança não mais que para provar, se arrisca tanto, como não veem o risco da morte aqueles que sem nenhum trabalho os gozam à boca cheia?

E donde nasce (perguntareis vós) que o uso das cousas temporais é tão arriscado? Donde nasce que vizinha tão de perto com a morte? Se tem veneno para que se nos deu aquela geral licença: Ex omni lingno paradisi comede (16)?

Ora dai-ma vós a mim para contar-vos uma história profana: servirá de resposta, e a resposta de razão de tudo o que temos dito. Conta Enéas Silvio (que depois foi Papa Pio Segundo), que a Ladislau Rei da Boémia, na véspera de seu desposório, estando tudo preparado, lhe deu sua própria esposa uma maçã partida com faca ervada só por uma banda, para que comendo ela a outra metade não houvesse suspeita de traição. Comeu o Rei a sua parte, porém para nunca mais comer. Obrou aquele enganoso ferro, como se lhe disseram: Divide eos in vita eorum. Atenção, Senhores, que os bens do mundo têm a qualidade deste ferro, e deste pomo; é verdade que tomados por uma parte são lícitos, são suaves; mas tomados pela outra são mortíferos. Pois eis aí a razão, porque são arriscados: porque quem há de fiar-se, que acerta com a metade sã? A outra, que ficou ervada como o apetite do primeiro pomo vedado; isto é com o mau uso do nosso alvedrio: essa em vez de servir de alimento à vida, serve de acenar à morte. E quando queirais negar, que há muitos gostos do mundo, que totalmente são veneno, e este já conhecido, ao menos não negareis que todos eles são pó, e são cinza: Omnia, quae de terra sunt, in terram convertentur (17), Se vos não matam a vós, eles per si morrem. Logo mal se desculpa com os bens do mundo o nosso esquecimento da morte, se sempre são lembrança da mesma morte, de tal modo que aquele mesmo desengano, que Deus dá ao homem, pode o homem dar ao mundo. Pulvis es, et in pulverem reverteris.


13. Tg 1, 14-15.
14. Rm 5, 3 e ssg.
15. Sp 2, 3.
16. Gn 2, 16.
17. Ecle 40, 11.