domingo, 21 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte V

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

V



Já que os homens tenham entendido que a morte nos mesmos bens da vida os espera, e os avisa certamente, tratam ao menos de desviá-la de si mais ao longe. Este é outro pior esquecimento, que em nós causa o esquecimento da morte: a falsa imaginação de que a morte está longe de nós. Não sei que gênero de cegueira é este, que o objeto que mais perto de si tem, o põem em tão distante perspectiva. Notai os longes que o Tentador nos prometeu de vida: Eritis sicut Dii (18), e notai o desvio com que Eva lhe respondeu: Ne forte moriamur (19). A pena da morte estava de Deus irrevogavelmente estabelecida para se incorrer ipso facto no ponto em que comesse; e com tudo fala nela muito ao futuro, debaixo das incertezas de um acaso: Ne forte moriamur. Lá disse Isaías, que os pecadores de jactaram de haverem feito concerto com a morte, e com o inferno: Percussimus foedus cum morte, et cum inferno fecimus pactu. Perguntara eu, e como há a morte de guardar o concerto aos homens, se o homem o não guardou a Deus para fugir da morte? Se os pecadores não quiseram o Céu sendo mercê; como há o inferno de demitir aos pecadores, sendo eles dívida sua?

Oh não cuidem os filhos de Adão que, desde que ele pecou tão de propósito, morre alguém acaso. Não são acasos as mortes inesperadas; não é eternidade a incerteza de um momento; não são futuros a dívida presente. Esta dívida começamos a pagar no mesmo instante que começamos a respirar. Disto se queixava o Santo Rei Ezequias: Dum ad huc ordirer, succidit me (20). Não está longe de nós a morte, pois conosco mora dentro das mesmas portas. O movimento dos Céus por onde se medem nossos dias, ainda que pareça vagarosíssimo, não deixa de ser arrebatado. No relógio de nossa vida não cuideis que o Sol há de tornar atrás, nem dez linhas, nem um só ponto. Se um ponto de vida vós prometeis, vossa promessa o fez mais incerto, e suspeitoso. Bem como a carta de Urias, quando entendais, que leva a recomendação de vossa pessoa, não leva senão o decreto de vossa morte. Se é possível, que a morte tarde, ou fuja, foge só daqueles, que a buscam com a meditação e mortificação; anda mais perto dos outros, que a trazem longe de sua lembrança.

Anima (disse aquele rico do Evangelho) habes multa bona posita in annos plurimos: requiesce, comede, bibe, epulare (21). Viste como tem a morte longe da vista? Vede como a tem perto da casa: Stulte hac nocte animam tuam repetunt. Bem notado de estultícia, porque as contas que ele fazia tem mais erros do que palavras. Apostilemos o lugar, pois é de Cristo Senhor Nosso para provar o intento ao pé da letra. Anima (diz o rico): quando viu a fertilidade dos campos, fala consigo dando-se os parabéns, devendo falar com Deus dando-lhe graças. Habes: deu à alma, que é espírito, posse de bens temporais, sendo as riquezas do espírito as virtudes, e os dons de Deus, e não as sementeiras dos campos. Multa: entendeu que os bens da fortuna podiam nunca ser muitos em chegando a ser possuídos, e muito menos para a alma, cuja capacidade só Deus enche. Bona: chamou absolutamente bens àquilo de que os homens usam para se depravarem em todos os males. Posita: Cuidou somente de guardá-los como permanecentes, sendo que os bens caducos, o modo de os conservar é dispendê-los. In annos: não estendeu sua consideração à eternidade, senão aos anos de sua vida. Plurimos: e prometeu-se que seriam muitos, porque as riquezas também eram muitas, dependendo uma e outra coisa da vontade de Deus. Requiesce: Convida-se ao descanso, quando os prudentes se estimulam para o trabalho. Mas finalmente todos estes erros se podiam esperar de uma alma tão material que come, e bebe: Comede, bibe, epulare.

Pelo contrário o sustento do Espírito deve ser a consideração da morte: o seu pão há de ser cinza, e a sua bebida lágrimas. Assim o ensinou e praticou consigo Davi, quando disse: Cinerem tanquam panem manducabam, et potum meum cum fletu miscebam (22). Ajuntou o real Profeta mui conformemente os dois sustentos da alma e do corpo, porque a virtude do jejum e da temperança há de usar do pão como de cinza, e da bebida como de lágrimas; a virtude da oração há de usar da cinza como de pão; a virtude do arrependimento há de usar das lágrimas como de bebida. E disto acrescentou logo Davi ser a causa: porque considerava na brevidade de seus dias: dies mei sicut umbra declinaverunt (23), mas perguntara eu: se os dias da vida são sombra, que será a mesma morte? Será a escuridade da noite – esta é a sua mais própria alegoria. Consideremos pois que entre a nossa vida e a nossa morte não há maior diferença que entre a sombra e a noite. A noite nenhuma luz admite, a sombra de tal modo é escuridade que parte também com a luz; assim partem os nossos dias a luz da vida com a noite da morte, e ficam escuridade de sombra. Porém a sombra, se a seguires, foge; e quando a fugis, vos segue. Por isso a Davi, que a seguia com a consideração, ainda se lhe concediam os dias da vida como sombra: Dies mei sicut umbra. Por isso ao rico, que fugia da morte, lhe sobreveio de repente a morte como noite. Hac nocte animam tuam repetunt.

18. Gn 3, 5.
19. Ibid.
20. Is 38, 12.
21. Lc 12, 19-20.
22. Sl 101.
23. Ibid., 101, 12.