segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte VI

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

VI



Oh quantos estão sepultados na noite da morte, e da eternidade, porque não consideram seus dias como sombra, que passava, senão como luzimento, que havia de permanecer! Quereis que permaneça? Aprendei mortais uma arte de dilatar melhor a vida. Assim como toda a redondeza do universo se funda sobre um só ponto imóvel, que é o centro dele, assim também no mundo invisível, toda a circunferência dos séculos pende de um só momento que é o da morte: Statutum est hominibus semel mori (24). E todas as linhas de nossos desenhos nele acabam igualmente. Como este ponto está unido outro, que é a eternidade, a qual é uma possessão de todos os séculos junta, e abreviada individualmente: bem como o centro equivale a todo o círculo. E assim como nas mãos da morte vão caindo todas as durações do tempo, assim a morte as vai entregando nas mãos da eternidade, porque no ponto da morte todas as diferenças de tempo se acabam, e no ponto da eternidade todas se conservam.

Aprendei pois (torno a dizer) uma arte de dilatar a vida, uma arte de parar essa roda arrebatada de vossos dias. Ensinou-a o Espírito Santo por boca dos Profetas, e dos Apóstolos. Diz o Profeta Davi que os ímpios, os esquecidos de si e da sua morte, andam à roda: In circuitu impii ambulant (25).Por isso sua vida é tão breve, e desassossegada. Diz o Apóstolo S. Paulo, que estejamos fixos, imóveis, e bem fundados na esperança do Evangelho. Si tamen permanetis in fide fundati, et stabiles, et immobiles a spe Evangelii (26). A esperança do Evangelho, bem sabeis que é a imortalidade com Deus por meio da morte em Cristo Nosso Senhor; assim como a esperança da Lei era a terra prometida por meio da peregrinação do deserto com Moisés. O mesmo Apóstolo aos Romanos: Si autem mortui sumus cim Christo, credimus, quia semel etiam vivemus cum Christo (27). Pois estais (diz o Santo) estais imóveis nessa consideração, e nessa esperança. Os esquecidos dela andem à roda com o tempo. In circuitu impii ambulant. Vós outros ponde-vos no centro imóvel de vossa morte, e de vossa imortalidade, porque só aquele que considera que há de ter fim, e que não há de ter fim, sabe ganhar todos os tempos. Cristãmente disse o Estóico: Ideo peccamus, quia de partibus vitae omnes deliberamus: de tota memo deliberat. Sabeis por que vivemos mal? Porque vivemos por partes, um dia passa atrás de outro dia, um ano atrás do outro. Não é isto a roda? Deliberai-vos a viver no centro, e possuireis a vida toda junta: para o merecimento toda junta no ponto da morte; para o prêmio toda junta no ponto da eternidade.

E eis aqui a razão porque eu dizia que não devíamos imaginar a morte ao longe, e ao futuro, quando é certo que pela sujeição a temos presente. A razão é porque assim o ponto da morte, como o ponto da eternidade, tem virtude de reduzir e igualar todas as diferenças de tempo, de tal modo que cada um de nós é aquilo mesmo que foi e que há de ser. Diz o Evangelista S. João que viu ao Cordeiro de Deus estar diante do trono de sua glória, morto desde a origem do mundo: Vidi: et ecce in medio throni... agnum stantem tanquam occisum (28); (e noutra parte): Qui occisus est ab origine mundi (29). Já estais na dúvida. Se o Filho de Deus padeceu sendo já passados desde a origem do mundo perto de quatro mil anos, como o viram os olhos da Águia morto desde a origem do mundo? Viram-no por razão de uma certa luz, e de uma certa sombra. A luz era a da eternidade porque o Cordeiro estava no trono de seu eterno Pai. A sombra era a da morte, porque o Cordeiro se tinha sujeitado à morte, a qual entrou no mundo com a origem do mesmo mundo. E assim como aquela luz fez que o decreto fosse ab eterno na mente divina, assim aquela sombra fez que a morte fosse desde a origem do mundo na sujeição do Cordeiro. Vem logo ser o mesmo a dívida da morte, que atualmente a mesma morte. E daqui nasce que como a nossa morte não há de ser totalmente vencida senão no fim do mundo, quando se cumprir aquilo que São Paulo alega de Oseias: Absorpta est mors in victoria (30); por isso o Cordeiro quis também continuar a sua morte até o fim do mundo. Isto é o que fez o mistério do Santíssimo Sacramento, onde se deixou até a consumação do século debaixo da representação de morto: Agnum stantem tanquam occisu. Oh Cordeiro imaculado! E como foi perfeita vossa sujeição, pois fizestes vossa morte tão antecipada, e tão dilatada juntamente! Antecipada desde a origem do mundo; dilatada até o fim do mundo; antecipada diante do trono de vosso eterno Pai; dilatada sobre os altares de vossa Igreja Santa; antecipada, porque nesse trono éreis já o que havíeis de ser, e o que fostes na Cruz; dilatada, porque na Cruz fostes o que fostes, e haveis de ser no altar, sempre morto, porque sempre por amor de nós sujeito à morte. E se isto passa no Filho de Deus, bem podemos os filhos de Adão crer, que a morte nos está presente desde o princípio de nossa vida, pois nos é devida desde o princípio do mundo. Então nas mãos de Deus fomos pó; agora sobre a face da terra somos pó; debaixo de uma sepultura em breve seremos pó. É enfim o homem o mesmo que é, porque é o que foi, e o que há de ser. Pulvis es, et in pulverem reverteris.

24. Hb 9, 27.
25. Sl 82, 9.
26. Cl 1, 23.
27. Rm 5, 8.
28. Ap 5, 6.
29. Ibid., 18, 2.
30. 2 Cor 15, 54.