terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte VII

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

VII


Outra razão, ou sem-razão, com que o nosso esquecimento da morte se desculpa, são as obrigações do estado de cada qual, porque nos parece que alguns estados há em que nem é conveniente, nem possível andar com tão grande desengano na lembrança. Esta parece também que foi a desculpa de Adão, quando Deus lhe devassou o delito: Mulier, quam dedisti mihi sociam, dedit mihi de ligno, et comedi (31). Senhor (respondeu ele) a mulher, que vós mesmo me destes, foi ocasião de esquecer-me de vosso mandamento. E bem! É possível que, para não obedecer a Deus, até do mesmo Deus nos escandalizamos! Não bastará lançar a culpa de nossos erros à serpente: Serpens decepit me (32), senão que também a repartamos com Deus? Quam dedisti mihi sociam? Diz o soldado, diz o tratante, diz o cortesão, diz o titular: Padre, o estado que Deus me deu não permite essas considerações de anacoreta, fiquem embora para as religiões e para os ermos; a nós é preceito cuidar das obrigações do estado e da honra. Erras coração humano, erras; nem por essa escusa deixarás de ser contado com os mais que obram perversamente: Declinantes autem in obligationes adducet Dominus cum oerantibus iniquitatem (33). Responda-me. A salvação é para todos? A Lei de Deus obriga a todos? A graça, com que nos ajuda a cumpri-la, é para todos? Os perigos, e os inimigos da alma cercam a todos? Sim por certo, pois o entregar-se à virtude, o concertar a vida, e o prever a morte por que não há de ser para todos? Ora fazei comigo uma digressão breve. 

Determinou Deus dar a Lei ao povo de Israel; e vejo com majestade sobre os mais altos montes, do Seir ao Faran, do Faran ao Sinai; rasgaram-se as nuvens, arderam as montanhas, soou um clarim tão fortemente que não podiam sofre-los os ouvidos. Quis o Filho de Deus ser exaltado na Cruz para redenção nossa: escolheu o lugar em Jerusalém, o tempo o mais célebre, que era o da Páscoa, e o título de sua Cruz se escreveu em três línguas as mais célebres do mundo. Mandou depois o Espírito Santo a repartir os dons de sua graça, e desceu com ruido de um espírito veemente ao crescer do dia, em línguas de fogo, estando todos os fieis juntos no Cenáculo. Pedro Príncipe dos Apóstolos receava admitir as gentes à perfeição do Evangelho sem passarem pela Circuncisão; e viu baixar do Céu aquela misteriosa mesa, onde estavam todos os animais, aves, e serpentes, e lhe mandaram que comesse de tudo. Notai agora a generalidade e publicidade com que Deus abraça a todos igualmente. De sorte que (deixando outros muitos exemplos) a salvação ganhada naquela Cruz, que se arvorou no Calvário; a lei, que se promulgou no Sinai; a graça, que se derramou no Cenáculo; a vocação para a mesa de Deus, que significou a Pedro – tudo compreende a todos. Mas o disporem-se os homens para alcançarem essa salvação, para aproveitar essa Cruz, para cumprirem essa Lei, para co-operar com a graça, para seguir a vocação, isto não é para todos? Pois com nenhuma destas obrigações cumpre quem por amor de suas obrigações deixa de aparelhar-se para a morte. Que cousa mais universal que a morte? Pois tem Deus quebrantado os foros da natureza só por não dispensar com a lei da morte. Justo é logo que a sorte, que a todos nós espera por decreto, todos a esperemos a ela pela consideração.

Entra o Profeta Jonas pelo meio da grande Nínive lançando aquele pregão da ira de Deus justo: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvervetur (34). Mais quarenta dias de prazo, e Nínive se subverte. Breve foi o sermão, mas eficaz; ainda mais do que queria o pregador. Toda a corte desde o maior ao menor se acolheu ao sagrado da penitência. O mesmo Rei deixou o trono, e as vestiduras reais, e se cobriu de cinza. Mas o em que eu reparo é que a demonstração do arrependimento compreendesse até aos gados, e aos animais. Homines, et jumenta, et boves, et pecora non gustent quidquam. Operiantur saccis homines, et jumenta, et clament ad Dominum (35). Caso estranho! Os brutos em hábito de penitência, jejuando e bradando a Deus. Seria para confessarem os Ninivitas que se pareceram nos apetites com quem agora se pareciam no arrependimento? Ora não vos admireis; vede que é o que Deus ameaçava: Ninine subvertetur. O decreto é geral: compreende homens, e animais, e as mesmas pedras dos edifícios. Pois se a ameaça da morte é para todos; o temor da morte por que não há de mostrar-se em todos? Esta foi a razão porque os que iam embarcados com o mesmo Jonas estranharam, que adormecesse ao som da tempestade: Quid tu sopore deprimeris (36). Porque quando o perigo é comum devem andar todos alerta. Oh acabai de entender que não há homem tão bruto que não saiba bradar a Deus; não há Rei tão levantado que não possa descer-se do trono, para assentar-se sobre a cinza, que há de ser. Bem podem os grandes ser temidos, e ser tementes. A todos pede Deus, e a todos aceita a penitência desde o menos até o maior. Honra, a honra de Deus; estado, o estado de sua graça; obrigações, a primeira obrigação é a de criatura, a de homem, e a de cristão. Por qual destas vos escusais de obrar, como quem há de morrer? Se sois cristão, o final de cristão vos põe sobre os olhos a memória da morte. Se sois homem, a parte racional vos dirá que a outra parte é terra; se sois criatura, temei a Deus, e não acuseis ao Criador: Mulier, quam dedisti mihi sociam.

31. Gn 2, 12
32. Ibid., 2, 13.
33. Sl 124, 50.
34. Jo 3, 4.
35. Ibid., 3, 7-8.
36. Ibid., 1, 6.