quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte VIII

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

VIII



Bem sei eu, que nos palácios, e nas praças não há bom sítio para se edificarem as Tebaidas, as Camaldulas, e as Cartuxas. Bem ouvi dizer que a soledade era a metrópole do Espírito Santo; que o silêncio era o Pitágoras da interior escola. Mas também sei que em todo o estado tem Deus posto exemplares de admirável santidade, para que se entenda que de qualquer parte da terra pode o Céu ser livremente visto e suspirado. Vede vós bem não seja o vosso estado aquele que vós tomastes, e não o que Deus vos deu; que se a mão de Deus vos pôs nele, a mesma mão de Deus vos tirará a salvo. Levou um Anjo a Ezequiel em espírito por meio de grande enchente de águas; tendo andado mil passos, dava-lha a água pelo artelho; mediu outros mil, e dava-lhe pelos giolhos; entrou mais outros mil, e já chegava às costas; repetiu o mesmo, e já não pode passar Ezequiel. Aqui o tirou o Anjo e o pôs salvo na ribeira. Fiéis, muito mais fiel é Deus: neste mal do mundo a uns faz entrar mais, a outros menos; mas a donde não possais passar, onde vos afogueis, daí logo vos tirará em paz, e salvo.

Mas oh quantos cuidados há, quantas perturbações da consciência, em que Deus nos não meteu, senão que nós outros por nossas mãos as granjeamos! Admoestou Cristo Senhor Nosso a Marta solícita de sua hospedagem, com aquela repetida voz: Martha Martha solicita es, et turbaris erga plurima; porro unum est necessarium (37). Quanto desvelo, quanta perturbação, sendo uma só cousa necessária? A cada um de nós outros pode a consciência própria dar semelhante repreensão em cousa menos honesta. Tu ambicioso que não estudas, senão como seja adorado de tua honra; tu vanglorioso, tu iracundo, que viveis um do ar como camaleão, outro do fogo, como salamandra; tu avarento cego para ver o rosto à caridade, Argos para possuir o mesmo que não possuis: turbaris erga plurima; para que são tantos cuidados, se uma só cousa é necessária. Um edifica, como se a vida fora eterna; outro navega, como se o mundo fora estreito; aquele litiga, como se a fazenda fora salvação; este, que sou eu, brada, e repreende, como se o mundo não houvera de acabar assim: turbaris erga plurima. Quanta perturbação sendo uma só coisa necessária. Pontos de honra, leis de foro, razões de estado, invenções da fantasia, lisonjas do apetite: turbaris erga plurima; porro unum est necessarium. E que cousa é esta tão necessária? Salvação, Boa Morte, que é o mesmo. A morte é aquela única e fatal necessidade que convence de uma vez a todos os cuidados do mundo por desnecessários. Vede como os aprovará Deus por bons, se se não pagou dos de Marta, que eram tão santos. A morte em efeito é aquela que ajunta a nossa alma com Deus, que é a sua melhor parte, para dele não ser nunca separada, que non auferetur ab ea. A morte na consideração é aquele fundamento da vida cristã, que todos os inimigos da alma procuram arruinar: a concupiscência cativando-se da formosura das coisas: pulchrum occulis, et aspectu delectabile. O demônio representando vida larga: eritis sicut Dii. O mundo embaraçando com a multidão de seus cuidados: mulier, quam dedisti mihi sociam. Por isso dizia ao princípio que a serpente sugeriu, Eva afereceu, a formosura do pomo convidou: todos para persuadirem ao homem aquele esquecimento: Nequamquam morte moriemini. Mas a Igreja Santa contra quem não prevalecem as portas do inferno, tomando a voz da boca de Deus, nos diz hoje com piedosa recordação: Memento homo, quia pulvis es, et in pulçverem reverteris.

37. Lc 10, 41-42