quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Padre Manuel Bernardes - Sermão das Cinzas - Parte IX - Final

Sermão das Cinzas - Padre Manuel Bernardes

IX - Final


Desenganados totalmente os homens, e vendo que por toda a parte prevalecem as águas deste universal dilúvio: Aquae praevaluerunt nimis, que remédio esperaremos, se não acolhermos à arca; não para salvar da morte temporal (que esta foi no mundo mais geral inundação que a do dilúvio), mas para escapar da morte eterna. Acolher, digo, à arca, que é o lenho santíssimo da Cruz de Cristo, na qual se obrou nossa regeneração e redenção. Duas tábuas formam esta Cruz, nas quais podemos salvar-nos do naufrágio, que são os Sacramentos do Batismo e da Penitência. Oh lástima! Não vedes quantos milhares de milhares se vão ao fundo? Não ouvis a confusão de vozes, e de gemidos? Estes não alcançaram a pegar da primeira tábua do Batismo: pereceram. Nos outros pecadores, a quem as ondas sacudiram dela é necessário pegarmos fortissimamente da segunda, que é a penitência. Penitência, que os mares crescem; penitência, que o perigo está presente: morte morieris; e quem sabe se a muitas almas, das que me estão ouvindo, espera Deus ainda o prazo destes quarenta dias para se não subverterem: Adhuc quadraginta dies. Nesta tábua pois devemos formar espiritualmente uma como embarcação, em que possamos contrastar a braveza das ondas. Para chegarmos a salvamento deve o entendimento, que é a agulha de buscar direito o norte da fé, deve a caridade estar sempre ao leme; devem encher o pano os alentos da esperança. No lugar do esporão os peitos da fortaleza; no farol a luz da prudência; seja lastro o temor santo todas as tribulações, e cruzes são árvores; as insígnias não podem ser outras que as quinas, ou chagas de Cristo; o mantimento já sabeis que há de ser lágrimas e cinza. Ditoso aquele que prender enfim o porto, que é o reino, que dentro de si mesmo leva: Regnum Dei intra vos est (38). Caminhando sempre à vista da terra do conhecimento próprio: Pulvis es, et in pulverem reverteris.

E vós progenitores nossos, por quem o dilúvio da morte entrou no mundo, perdoai tão repetidas queixas de vossos filhos, e filhos que não choraram como vós seus pecados com lágrimas de novecentos anos. Perdoai, que já vejo aparecer aquela branca pomba, por quem veio a ser vossa culpa venturosa. Puríssima MARIA Senhora Nossa, vós sois a que trazeis o ramo de oliveira, e nele os sinais de misericórdia, e as esperanças de nossa ressurreição, por virtude daquela Humanidade Santa, que nasceu de vosso ventre, e renasceu do sepulcro, sem ofender a inteireza de um e de outro. Alcançai-nos de vosso filho perfeito amor de sua bondade, perfeita dor de nossas culpas. Se a verdadeira caridade é ouro, o verdadeiro arrependimento é cinza; se a divina ira é fogo, não terá o fogo que destruir nem na cinza, nem no ouro, porque só estas duas cousas podem resistir à sua violência. Senhor, que encravado nessa árvore sagrada, não duvidastes em pagar a pena que nós em outra árvore merecemos; pedimo-vos que por aquela piedade que vos fez obediente até a morte de Cruz, nos livreis da morte eterna.

38. Lc 17, 21.