quinta-feira, 19 de maio de 2016

A missa nova, um caso de consciência - Capitulo II

A MISSA NOVA, UM CASO DE CONSCIÊNCIA

CAPÍTULO I
CAPÍTULO II

Um pouco de história

“O primeiro caráter de heresia anti-litúrgica é o ódio da Tradição nas fórmulas do culto divino (...). Todo sectário, querendo introduzir uma nova doutrina, encontra-se infalivelmente em presença da liturgia, que é Tradição no seu mais alto poder, e ele não terá repouso senão quando tiver feito calar esta voz, senão quando tiver rasgado estas páginas que exalam a fé dos séculos passados (...)” (Dom Guéranger, “Institutions Liturgiques”). 

“O principal instrumento da Tradição da Igreja está encerrado nas suas orações” (Bossuet, “Instruction sur les états d’oraison”, tr. I, liv. VI, nº 1). 

Ut legem credenci statuat lex supplicandi” (De gratia Dei “Indiculus”, Denz.-Sch. 246). No culto se professa a fé. 

“Toda a liturgia é um escrínio da Fé católica, enquanto testemunho público da Fé da Igreja” (Pio XII, “Mediator Dei”, nº 43). 

“O culto que a Igreja rende a Deus é uma contínua profissão de fé católica” (Santo Agostinho, apud “Mediator Dei”, nº 43). 

Daí o paralelismo que existe entre a norma de agir da Igreja e da heresia. Como a Liturgia serve não somente para o culto divino mas também para a profissão e difusão da fé católica, assim os hereges se aproveitam da Liturgia para deturpá-la no sentido de que lhes sirva para a fixação dos seus erros. 
São Paulo já advertia contra aqueles que procuravam deturpar a verdade revelada de acordo com os seus gostos pessoais (II Tim., IV, 3ss.). 

Podemos dizer que cada heresia tem sua expressão litúrgica. Aduzimos aqui o testemunho autorizado do Pe. Manuel Pinto, S.J., em seu livro “O valor teológico da Liturgia”, art. II:

 “Quando houve abalos na fé, houve em geral subversões na Liturgia. As extravagâncias doutrinais dos gnósticos no século II, fizeram-nos cair em extravagâncias litúrgicas. Entre eles, Valentim servia-se dos hinos litúrgicos para neles vazar as suas doutrinas, como refere Tertuliano (...). As grandes heresias que nos séculos IV e V sacudiram a Igreja, buliram também a Liturgia (...). Os eutiquianos ou monofisitas, para favorecerem a sua heresia, modificaram na Missa as palavras que acompanham a mistura das duas espécies depois da fração da Hóstia. E ainda hoje os Armênios monofisitas não lançam as gotas de água no vinho do cálice, para não significarem com isso a distinção das suas naturezas em Cristo (...). Nos séculos VIII e IX as controvérsias mais importantes que se debatem na Igreja, todas elas têm relação muito próxima com a Liturgia. No Oriente a heresia dos iconoclastas, e a definição do II Concílio de Nicéia que os condenou, são diretamente litúrgicas no seu objeto: o culto dos santos e das imagens (...). Os hereges do século XII e XIII, Valdenses e Albigenses, em conseqüência dos seus princípios gnósticos e maniqueus, segundo os quais a matéria é origem do mal, impugnavam radicalmente o culto sensível da Igreja. (...) Estalou por fim o protestantismo, a mais revolucionária das heresias. Subverteram os Protestantes o Dogma tradicional, e logicamente também o culto estabelecido. (...) Do rescaldo da heresia protestante acenderam-se ainda na Igreja o jansenismo e galicanismo, que vieram a eclodir no conjunto de erros proclamados no Sínodo de Pistóia, em 1786, alguns acerca de Liturgia. Todos eles foram condenados na Constituição “Auctorem fidei” de Pio VI. Os erros litúrgicos são diretamente contrários à disciplina; no fundo porém, são contrários à doutrina, e foi sobretudo neste sentido que eles foram condenados”. 



É preciso acrescentar, com relação à pseudo-reforma do século XVI, que a reação da Igreja não se fez esperar. O Concílio de Trento, entre outros erros protestantes, condenou: a doutrina de que a Missa é mera comemoração do sacrifício já realizado na Cruz; a obrigatoriedade da consagração em voz alta; o uso exclusivo da língua vernácula; a obrigatoriedade para os fiéis da comunhão sob as duas espécies, etc. Na Sessão XXII, o referido Concílio, “fixando de um modo definitivo os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira intransponível contra qualquer tentativa de atacar a integridade do Mistério” (Carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci). 

Ainda quanto ao Protestantismo, L. Fendt diz: “Em nenhum terreno o pulso da Reforma bateu com tanto calor quanto no culto. O culto foi o corpo através do qual o espírito de Lutero penetrou na vida do povo” (“Der lutherische Gottesdienst des 16. Jahrhunderts”, p. V, citado por Luther Reed, The Lutheran Liturgy, p. 107). 

Não é diversa a atitude dos modernistas, como se deduz da Encíclica “Pascendi” de São Pio X, linha de procedimento destacada também por Pio XII nas Encíclicas “Humani Generis” (que condenou a Nouvelle Théologie), “Mystici Corporis” e “Mediator Dei” que reprovam vários erros litúrgicos correntes: como o altar em forma de mesa, a equiparação entre o fiel e o sacerdote, a aversão à missa individual com assistência só de acólito, a missa exclusivamente em vernáculos, a exigência da comunhão de todos os fiéis para efetiva participação, minimizando do caráter sacrifical da Missa, ênfase no aspecto de banquete ou ceia, negação da presença real, menosprezo por certos atos do culto eucarístico (por exemplo, a bênção do Santíssimo Sacramento, Hora Santa, etc.).

E nos nossos dias? 

O novo “Ordus Missae” 

Estas observações históricas despertam o problema que põe à consciência católica a consideração do novo “Ordo Missae”, especialmente depois que os Cardeais da Cúria Romana, Ottaviani e Bacci, “após examinar e fazer examinar o novo “Ordo Missae”, concluíram que ele representa, tanto em seu conjunto como em pontos particulares, um afastamento impressionante na teologia católica da Santa Missa, tal como foi formulada na sessão XXII do Concílio Tridentino (...). As recentes reformas demonstraram, à saciedade, que as novas transformações na Liturgia só conduzem a uma total desorientação dos fiéis, que já apresentam sinais de indiferença e de diminuição da fé” (Carta ao Papa, 5-10-1969).