sexta-feira, 20 de maio de 2016

A missa nova, um caso de consciência - Capítulo III - 1ª parte

A MISSA NOVA, UM CASO DE CONSCIÊNCIA

CAPÍTULO I    /   CAPÍTULO II

CAPÍTULO III

A Nova Missa: Testemunho equívoco da fé


A Missa nova é equívoca. Quer dizer que, quando ela é celebrada, seja em latim seja e português, o seu texto objetivo permite afirmar e negar dogmas eucarísticos. Este sistema de adotar textos equívocos é usado pelos hereges para difundir suas heresias. Sem afirmar esta intenção, registramos o fato que tem sua natural consequência.

1º) Dogma do Santo Sacrifício

Doutrina Católica
Doutrina Protestante

Sim, a Missa é um verdadeiro sacrifício no sentido próprio, e sacrifício propiciatório que pode ser oferecido pelos vivos e defuntos.

Não, a Missa não é um sacrifício propiciatório; é apenas um memorial, quer dizer, uma lembrança da ceia do Senhor, quando muito um sacrifício de ação de graças.

Ora, analisando as diversas passagens da “Institutio” (=documento introdutório da Nova Missa) que falam em sacrifício, verificamos que apenas uma vez e, assim mesmo, no Proêmio introduzido na segunda redação, há referência ao caráter propiciatório da Missa. Pelo contrário, a todo momento, elas se referem à Missa como sacrifício de louvor, de ação de graças, de comemoração do sacrifício da Cruz – aspectos todos eles verdadeiros, mas que o Concílio de Trento declarou insuficientes para a conceituação católica da Missa. Houve, portanto, uma sensível atenuação do aspecto propiciatório do sacrifício.

A importância disto é tal que o Concílio de Trento definiu que a Missa é um “sacrifício verdadeiramente propiciatório” (Denz.-Sch. 1743) e lançou o seguinte anátema: “Se alguém disser que o Sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado da Cruz, mas que não é propiciatório (...), seja anátema” (Denz.- Sch. 1753).

Ocorrem também na “Institutio” expressões que acabam pondo na sombra o caráter sacrifical e propiciatório da Missa. 

É o caso da insistência exagerada no princípio – em si incontestável – de que na Missa há um banquete, uma vez que Jesus Cristo ali nos dá seu Corpo e o seu sangue em alimento. Esse aspecto da Missa é sem dúvida verdadeiro, mas deve estar subordinado ao aspecto sacrifical e propiciatório, tanto mais quanto o protestantismo procura reduzir o Sacrifício eucarístico ao banquete, conforme se vê pela condenação lançada em Trento: “Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus verdadeiro e próprio sacrifício, ou que oferecer-se Cristo não é mais dar-se-nos em alimento, seja anátema” (Denz.-Sch.,1751).

A respeito, é significativa a supressão de várias orações que afirmavam o caráter propiciatório, por exemplo, no ofertório.
Em suas características específicas, o Ofertório da Missa tradicional sempre constituiu um dos principais elementos distintivos entre a Missa católica e a ceia protestante.
Lutero suprimiu o Ofertório, porque nele se exprimia de modo insofismável o caráter sacrifical e propiciatório da Santa Missa (Fórmula Missae – Cf. The Lutheran liturgy, Luther D. Reed, Fortresse Press, II edition, Philadelphia, XXIII, p. 312).

Na Nova Missa, o ofertório perde essas características para reduzir-se a uma simples apresentação dos dons, o que corresponde a um conceito de ofertório fundamentalmente diverso do da Missa Tradicional.

I.                    Não figura na Nova Missa a oração: “Suscipe Sancte Pater”. Toda esta prece, nos seus termos e no seu estilo cheio de unção, fala do valor propiciatório do sacrifício. Lutero também a suprimiu. Com razão conhecia o pastor luterano L. Reed: “A parte central do ofertório ‘Suscipe Sancte Pater’ é uma exposição da doutrina romana sobre o sacrifício da Missa” (Luther D. Reed, idem, ibidem).

II.                  Também não figura no novo “Ordo” a oração do Missal Romano: “Offerimus Tibi Domine”, com a qual é oferecido o vinho. A oferenda final do cálice, para que suba “cum odore sauvitatis” à face da Divina Majestade, da qual se implora a clemência, recorda de modo admirável a economia propiciatória do Sacrifício da Missa (cfr. “Breve Exame Crítico”, III, 3).



III.                Essas duas orações, do oferecimento do pão e do vinho, foram substituídas por outras, nas quais não há referência alguma à verdadeira vítima, que é Jesus Cristo; ao oferecimento dos dons por nós e por nossos pecados; ao caráter propiciatório da oblação; ao sacerdócio hierárquico do celebrante; ao princípio de que o sacrifício precisa ser aceito por Deus para lhe ser agradável. Pelo contrário, as expressões “far-se-á para nós o pão da vida” e “far-se-á para nós bebida espiritual” insinuam que o verdadeiro fim essencial da Missa é a nossa alimentação espiritual – tese esta que se aproxima de uma das heresias condenadas em Trento.

2º) Dogma da Presença Real

Doutrina Católica
Doutrina Protestante

Sim, na Missa Jesus cristo torna-se presente de maneira real, corporal e física, com seu corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Não, na Missa não há presença real, corporal e física de Cristo; há somente uma certa presença real espiritual do Senhor.
Um dos dogmas em que as heresias protestantes mais se distanciam da ortodoxia católica, é o da Presença Real física de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia, sob as espécies de pão e vinho. Segundo a doutrina revelada, na Santa Missa, Jesus se torna presente, de modo físico, real e permanente, em virtude das palavras da Consagração. Esta verdade o “Ordo Missae” tradicional afirmava a todo momento, no rito e nas cerimônias. No novo “Ordo”, ela é extremamente debilitada tanto no rito como pela imprecisão das expressões na “Institutio”.

O Novo “Ordo” favorece a posição protestante:

a)      Pela supressão de quase todos os sinais de adoração e outras prescrições que tinham justamente a finalidade de incentivar a fé na Presença Real de Nosso Senhor.

Houve a eliminação:

1.  das genuflexões (não permanecem senão três do sacerdote; e uma, com exceções, do povo, à Consagração);
2.     da purificação dos dedos do Sacerdote no cálice;
3.   da preservação dos mesmos dedos de todo o contato profano após a Consagração;
4.   da purificação dos vasos sagrados, que pode ser não imediatamente, e pode ser feita fora do corporal;
5.     da pala para proteger o cálice;
6.     das três toalhas sobre o altar, reduzidas a uma;
7.     da ação de graças de joelhos;
8.   de todas as antigas prescrições no caso de queda da hóstia consagrada, reduzidas a apenas um “reverenter accipiatur”.

b)      A aproximação à tese protestante é favorecida também pelo paralelo estabelecido entre a Liturgia Eucarística como se fossem duas espécies de um mesmo gênero (“Institutio”, nº 8). Este paralelo inclina o fiel a pensar que a presença de Jesus na Eucaristia é semelhante à sua presença na Palavra. Ora, a presença na Palavra só pode ser “in usu”, ou seja, quando é lida a Escritura na Santa Missa. De fato, só podemos pensar numa presença de Jesus Cristo na Palavra, no momento em que é lida a Escritura, porque somente neste momento (“in usu”) é que se forma o conceito da verdade revelada na mente de quem lê e de quem ouve. Somente neste momento pode-se falar de uma presença de Jesus Cristo na Palavra. Ninguém irá dizer que Jesus Cristo está presente no livro material, que é a Bíblia ou o Missal. Se assim é com a presença de Jesus Cristo na Palavra, por que não será igualmente na Eucaristia, ou seja, Jesus estaria presente só no momento em que o fiel comunga, “in usu”?

Esta interpretação é abonada pelo alinhamento em que são colocadas na “Institutio” as várias presenças de Jesus Cristo: na Palavra e substancialmente sob as espécies de pão e vinho. Como a presença na Palavra só se pode entender quando se lê ou se ouve, como vimos acima; porque não se entenderá o mesmo da Presença sob as espécies de pão e vinho, ou seja, aceitando a presença real apenas “in usu”, isto é, quando o fiel comunga?

c)       Ainda na nova redação do número 7 da “Institutio”, perdura a estranha imprecisão sobre os diversos modos de “presença” de Nosso Senhor na Missa. Declara-se, é verdade, que a presença sob as espécies eucarísticas é “substancial e permanente”. A expressão é absolutamente exata. Mas a palavra “enim” (pois) estabelece um nexo pouco claro e muito perigoso entre essa presença substancial e o princípio acima enunciado: “Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou no meio deles”. Que relação haverá entre essas duas presenças? O caráter comunitário da “assembleia reunida em nome de Cristo” contribuirá para que Ele se torne presente sob as espécies eucarísticas? Ou para que esta segunda presença se realize de modo mais pleno? Ou, pelo menos, o “povo de Deus” reunido exerce alguma função ativa para que se efetive a presença substancial de Nosso Senhor na Eucaristia? O texto deixa parar perigosas ambiguidades sobre esse ponto.

Também não se estabelecem as necessárias distinções entre os diversos modos de presença não substancial de Cristo: na assembleia reunida, na pessoa do ministro e na palavra da Escritura. É expressivo o fato de que a assembleia vem enumerada antes do ministro, o que poderia indicar que a presença de Nosso Senhor no povo é, senão superior, pelo menos mais fundamental, para a celebração eucarística, do que sua presença na pessoa do ministro.

Tão estranho é o sabor desse número 7, mesmo em sua nova redação, que seria necessário fazer-lhe ainda vários reparos: na Missa, Nosso Senhor se torna presente sob as espécies eucarísticas; a cláusula “sacerdote praeside personamque Christi gerente” parece subordinar ou pospor a representação de Cristo à presidência da assembleia, quando na realidade é o inverso que se dá; no contexto, o fato de não se reservar a expressão “presença real” para a presença resultante da transubstanciação, tende a debilitar a fé na “presença real” por antonomásia e a introduzir nos meios católicos uma terminologia do agrado de certos protestantes.


d)      Além destas ponderações que mostram como o novo “Ordo” debilita e mesmo obscurece o dogma da Presença Real substancial de Jesus na Santíssima Eucaristia, outras determinações do novo rito afastam inteiramente a saliência da Presença Real existente no “Ordo” tradicional. Segundo o Concílio de Trento, a Presença Real sob as espécies de pão e vinho está ordenada a perpetuar o Sacrifício do Homem-Deus. O Sacerdote e a Vítima deste sacrifício novo, instituído por Cristo, é o mesmo Jesus Cristo. Daí, no “Ordo” tradicional, a preeminência do Tabernáculo que encerra o Sacerdote e a Vítima do Sacrifício. Ele é o centro para onde converge tudo na Igreja, de maneira que seja também o centro que atrai a atenção dos fiéis, e tudo o mais não seja venerado senão em função, digamos assim, do Tabernáculo inamovível colocado no centro do Altar. Com semelhante disposição, a Santíssima Eucaristia, e, pois, a Presença Real sob as espécies de pão, era condignamente ressaltada. Ao entrar na Igreja, o Tabernáculo lembrava ao povo fiel a Presença Real de Nosso Senhor e o Sacrifício Eucarístico. No novo “Ordo”, o centro de toda a Liturgia não é o Tabernáculo, e sim o altar: “Altare maeus est centrum totius liturgiae eucharistiae” (“Institutio”, nº 49). Mas não é o altar sobre o qual se acha o Sacrário, pois, no novo “Ordo”, o Sacrário preferivelmente deve estar fora do altar-mor (nº 276). Seria difícil extenuar mais a fé no dogma da Presença Real; pois até o altar, no caso o altar material, tem preferência sobre o Tabernáculo. Esta disposição do novo “Ordo” concorre também para a aceitação da heresia calvinista de que Jesus Cristo está presente apenas no uso, ou seja, no momento da Comunhão.