sábado, 21 de maio de 2016

A missa nova, um caso de consciência - Capítulo III - 2ª parte

A MISSA NOVA, UM CASO DE CONSCIÊNCIA

CAPÍTULO I    /   CAPÍTULO II   / CAPÍTULO III 1ª 

CAPÍTULO III

A Nova Missa: Testemunho equívoco da fé


3º) Dogma da Consagração e da Transubstanciação

Doutrina Católica
Doutrina Protestante

Sim, são as palavras da Consagração pronunciadas pelo sacerdote, e não a fé dos assistentes, que tornam Jesus Cristo presente corporalmente sob as aparências do pão e do vinho, e assim realizam a transubstanciação.

Não, não são as palavras da Consagração mas a fé dos assistentes que produz durante a Ceia uma certa presença real de Cristo: a presença real espiritual. Não há transubstanciação.

1. Várias mudanças na Missa Nova favorecem a doutrina protestante de que não há Consagração na Missa, mas apenas uma narração ou comemoração da ceia do Senhor. Assim:



A) Modo e tom narrativo da Consagração na Missa Nova

No “Ordo” de São Pio V

No novo “Ordo”

Há uma separação nítida, muito bem destacada até pelos caracteres tipográficos, entre as palavras introdutórias (narrativas situando historicamente a Consagração na última Ceia) e a fórmula propriamente dita da Consagração, que torna a Jesus Cristo realmente presente sob as espécies de pão e vinho. Depois da locução: “Tomai e comei dele todos” – uma pontuação marca a passagem da narração para as palavras realizadoras do mistério da Presença Real. O celebrante as pronuncia não em tom recitativo, como se faz numa narração, num memorial, mas ele as diz em tom intimativo, quer dizer, no tom normal de alguém que realiza uma ação pessoal. Assim como o Padre diz: “Eu te batizo”, ou: “Eu te perdoo os pecados”; ele diz: “Isto é o meu Corpo” – “Este é o cálice do meu Sangue (...)”. A pessoa do padre como que desaparece para ceder lugar à pessoa de Jesus Cristo a Quem aquele empresta a voz de maneira que as palavras são do próprio Cristo.

A locução: “Tomai e comei todos vós” – inicia a fórmula consecratória. Passa a fazer parte da fórmula que tornaria Jesus realmente presente. Com isso, o tom narrativo atinge também a fórmula consecratória, estendendo a toda ela a ideia de que se trata não da renovação de um ato do Senhor, mas de uma simples narrativa de um fato passado. Além disso, nos novos Missais as fórmulas consecratórias não estão tipograficamente tão destacadas como nos Missais de São Pio V, o que sublinhava mui fortemente a mudança de ação. Assim, o padre é levado a não interromper a narração da Ceia e a pronunciar as palavras da Consagração no mesmo tom narrativo e sem separá-las das palavras que as precedem. As palavras não são de Cristo, são do padre; como acontece em qualquer narração.


B) Segunda mudança que favorece a doutrina dos protestantes

No “Ordo” de São Pio V
No novo “Ordo”

Após a primeira Consagração, seguro de não ter mais em suas mãos o pão, mas o verdadeiro Corpo de Cristo, o padre ajoelha-se para adorar a Deus; depois, levantando-se, eleva a santa Hóstia para apresentá-la à adoração dos assistentes ajoelhados, e a adora novamente depois de tê-la colocado sobre o corporal que significa o sudário.

Tudo está mudado. Como se nada tivesse passado, o padre, sem adorar, eleva a Hóstia, apresenta-a à assistência que, igualmente, permanece de pé, depois a depõe sobre a patena e só então ajoelha-se.


Suprime-se assim um gesto natural de adoração que manifestava a fé na Presença Real em virtude das palavras da Consagração e se favorece a doutrina protestante de que a presença de Jesus Cristo é fruto da fé da assembleia. O católico diz: Eu creio porque Jesus está presente. O protestante diz: Jesus está “presente” porque eu creio. Na Missa tradicional, só a versão católica é possível. Na Missa Nova a interpretação protestante também tem cabimento.

C) Terceira mudança. A mudança a que acima nos referimos, introduzida na Consagração do pão, se reproduz na Consagração do cálice, e ainda renova o equívoco, agravando-o pelo deslocamento das palavras “Mysterium fidei

Na Missa Tradicional

Na Missa Nova

A expressão “Mysterium fidei”, incluída na fórmula da Consagração do cálice, não sofre nenhuma outra interpretação senão a católica. É uma confissão imediata de fé no mistério da transubstanciação. O “mistério de fé” é o que as palavras da Consagração realizam: a transubstanciação ou mudança do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo.
Depois de ter elevado e repousado o cálice, o padre faz uma genuflexão, levanta-se e diz em voz alta: “Eis o mistério da fé”. Qual o mistério? – Ora, reponde o católico, o mistério da transubstanciação. – Não, responde o protestante, é o mistério da fé dos fiéis que torna Cristo “presente” no meio de nós. Tanto assim que só depois que eles adoraram, é que o padre proclamou: “Eis o mistério da fé”.

Na verdade, estamos diante de um rito equívoco, que pretende agradar a católicos e protestantes, e mais a estes.

D) Aclamação após a Consagração

Segundo o novo “Ordo”, logo após a Consagração, o povo deve fazer uma aclamação, para a qual se fixa três textos. Dois deles terminam com a expressão “até que venhais”.

“Anunciamos a vossa Morte, Senhor, e proclamamos a vossa Ressurreição, até que venhais”.

“Todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos do Cálice, anunciamos a vossa Morte, Senhor, até que venhais”.

Sem dúvida, a expressão “até que venha” é de São Paulo (I Cor. XI, 26), e portanto em si mesma não pode ser censurada. Na Primeira Epístola aos Coríntios, ela indica a espera da última vinda de Jesus. Todavia, colocada logo após a Consagração, quando Nosso Senhor acaba de vir substancialmente ao altar, essa expressão pode induzir a pensar que Ele não está presente, que Ele não veio pessoalmente sob as espécies eucarísticas. Tal inovação, sobretudo se feita numa época em que há em meios católicos a assustadora tendência de negar a presença real, tem como consequência inevitável favorecer a diminuição da fé na transubstanciação.

4º) Dogma do Sacerdócio Hierárquico

Doutrina Católica
Doutrina Protestante

Sim, o padre possui um verdadeiro sacerdócio hierárquico que lhe dá poderes que os outros fiéis não têm.
Não, não há sacerdócio fora daquele que possuem todos os batizados.

Confundir o sacerdócio dos fiéis com o do padre seria adotar, uma vez mais, um princípio protestante. Pois, segundo os pseudo-reformadores do século XVI, o celebrante não é sacerdote num sentido diferente daquele em que o povo o é, mas apenas preside a assembleia eucarística, como delegado de todos os circunstantes. Os protestantes afirmam que é o povo que celebra o memorial do Senhor, sob a presidência do chefe da assembleia.

O novo “Ordo” estabelece uma confusão entre o sacerdócio hierárquico e dos fiéis, quer no rito, quer em vários números da “Institutio”.

1.       No “Ordo” tradicional, o “Confiteor” inicial é dito em primeiro lugar pelo padre, e depois pelo acólito em nome do povo. Essa distinção marca claramente a diferença existente entre o celebrante e os fiéis. No novo “Ordo”, o “Confiteor” é dito simultaneamente pelo sacerdote e pelo povo. Tal modificação tende a insinuar uma identidade entre o sacerdócio do presbítero e o dos leigos. Foi supressa a absolvição dada pelo padre ao fim do “Confiteor” - outra inovação que contribui para tornar menos precisa a distinção entre o sacerdócio hierárquico e a condição de simples fiel.

Há entre o “Confiteor” da Missa Nova e o dos luteranos, traços comuns que chamam a atenção. Lutero também fez do “Confiteor” uma oração comum do sacerdote e da assembleia. O pastor luterano L. Reed, na obra citada acima, indica o alcance dogmático destas mudanças: “Reconhecendo o princípio do sacerdócio de todos os fiéis, fez-se da Confissão um ato da congregação, e não apenas do sacerdote” (Luther D. Reed., The Lutheran liturgy, p.257).

2.       Na Prex eucharistica III (“Vere sanctus”) é dito sem mais ao Senhor: “populum Tibi congregare non desinis, ut a solis ortu usque ad accasum oblatio munda offeratur nomini tuo”, onde o ut (a fim de que) faz pensar que o elemento indispensável à celebração seja o povo em vez do sacerdote; e uma vez que não se precise nem sequer aqui quem seja o que oferece, o próprio povo surge investido de poderes sacerdotais autônimos (cfr. “Breve Exame Crítico”, V, 1).

3.       O n.º 7 da “Institutio”, mesmo depois de corrigido, afirma que é o povo que celebra o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico. Note-se, com efeito, que o agente de “celebrandum” não é “sacerdos” ou “Christus”, mas sim “populus Dei”.

“Na Missa ou Ceia do Senhor, o povo de Deus é reunido, sob a presidência do sacerdote, que faz as vezes de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico” (“Institutio”, n.º 7).



4.       No n.º 10 da “Institutio”, declara-se que a Prece Eucarística constitui uma “oração presidencial”. Acontece que o mesmo número conceitua as “orações presidenciais” como as que “são dirigidas a Deus em nome de todo o povo santo e de todos os circunstantes”. Qualquer leitor será levado por esta passagem a pensar que na Consagração o padre fala principalmente em nome do povo. Mas a parte principal da Prece Eucarística, que é a Consagração, é dito pelo sacerdote exclusivamente em nome de Nosso Senhor.

Corrobora isto o n.º 12, dizendo que “a natureza das partes presidenciais” (portanto também a Consagração) exige que sejam pronunciadas em voz alta e distinta, e por todos atentamente ouvidas.

A propósito, é bom lembrar o anátema lançado pelo Concílio de Trento: “Se alguém disser que deve ser condenado o rito da Igreja Romana pelo qual parte do Cânon e as palavras da Consagração são proferidas em voz baixa (...), seja anátema” (Denz.-Sch. 1759).

5.       A posição do sacerdote é também minimizada:

a)      pela maneira de celebrar “versus populum”, que o apresenta não como sacrificador diante do altar a oferecer o Santo Sacrifício, mas como o presidente de uma assembleia a distribuir, diante de uma mesa, o pão a seus irmãos;
b)      pelo desaparecimento ou uso facultativo de muitos paramentos (cfr. n.º 298 da “Institutio”).
c)       pela multiplicidade de ministros (da Eucaristia, leitores, comentadores, salmistas, etc.), com consequente distribuição entre leigos de funções cultuais que eram peculiares do ministro sagrado;

d)      da definição da “oratio universalis seu fidelium” (oração universal ou dos fiéis), na qual se sublinha o “ofício sacerdotal” do povo apresentado de maneira equívoca, pois que se silencia sobre sua subordinação ao sacerdócio do padre.