terça-feira, 24 de maio de 2016

A missa nova, um caso de consciência - Capítulo VI - 1ª parte

A MISSA NOVA, UM CASO DE CONSCIÊNCIA
Capítulo VI

Respondendo a objeções

1ª parte


Primeira objeção: Hoje já não é necessário conservar o rito tradicional por que já não perigam, como nos tempos de São Pio V, os dogmas relativos ao caráter sacrifical da Missa, ao sacerdote ministerial e à Presença Real.

Resposta: O Proêmio da “Institutio” (n.º7) dá a entender que o novo “Ordo” deixou de insistir sobre certos dogmas eucarísticos, porque eles hoje em dia não são mais impugnados. Esta consideração, “salva reverentia”, é no mínimo ingênua.

Para não nos referirmos, nessa matéria, aos documentos de Pio XII – que condenou numerosas práticas adotadas pelo novo “Ordo” – lembremos apenas alguns fatos mais recentes. 

Na Encíclica “Mysterium fidei” de 3-9-65, Paulo VI declara que são para ele “causas de grave solicitude pastoral e ansiedade” os erros que ocorrem a respeito das Missas privadas, da transubstanciação, do simbolismo eucarístico, etc. O mesmo documento insiste na “distinção não só de grau, mas também de essência” entre o sacerdócio hierárquico e o dos fiéis. – Paulo VI teria, nessa Encíclica, investido contra heresias que ninguém atualmente professa?

O catecismo Holandês e seus congêneres de outros países incidem nestes mesmos erros.

Como negar que o tão prestigiado Pe. Schillebeeckx, por exemplo, proponha as noções de “transfinalização” e “transignificação” em termos inconciliáveis com a doutrina da Igreja já condenada por Paulo VI na sobredita Encíclica?

Os redatores do proêmio parecem não ter tido em vista de maneira alguma as influências danosas que o novo “Ordo” possa ter sobre os não católicos. Pois pelo menos entre estes é incontestável que existem os erros apontados. Na época de ecumenismo em que vivemos, é indispensável apresentar a doutrina da Igreja de modo claro tanto aos seus filhos quanto aos que não o são. Pois só assim será possível evitar mal entendidos perigosos, que na ordem concreta redundam necessariamente na deformação dos princípios da Fé.

Causa, outrossim, estranheza o fato de que nos documentos introdutórios à Nova Missa apontam-se apenas os aspectos favoráveis do movimento litúrgico do tempo de Pio XII, calando por completo os gravíssimos erros que infestam largos setores desse movimento, e que determinaram ao Papa a escrever a Encíclica “Mediator Dei”. Agora, os redatores do Proêmio afirmam que semelhantes erros não existem. Um exame científico e objetivo desses pronunciamentos obriga a conceber a hipótese de que os autores do Proêmio teriam sido envolvidos por um conhecido e perigoso processo dialético: admitem em tese que certas doutrinas são heréticas, mas negam que em concreto haja alguém que as professe; e daí partem para uma ação que, tanto na ordem da propaganda ideológica quanto da vida prática, redunda no favorecimento e mesmo na promoção do erro.

Acresce que inexistência de tais desvios doutrinários é alegada, pelo Proêmio, como razão para que se introduzam na Missa inovações que São Pio V rejeitou porque, existindo então os mesmos desvios, viriam elas prejudicar gravemente a fé. Portanto, dado que semelhantes erros hoje existem – como é manifesto que existem – os argumentos dos redatores do Proêmio se voltam contra eles próprios.


Segunda Objeção: A “Institutio”, em alguns números, afirma também a doutrina tradicional. Ora, os textos eventualmente confusos devem ser interpretados pelos claros; e os aparentemente heterodoxos, pelos ortodoxos. Portanto, o documento, considerado no seu todo, não pode ser tido como suspeito.

Resposta: 

A) Em princípio, é verdadeira a regra segundo o qual os textos confusos e obscuros de um documento devem ser interpretados pelos claros.

B) Mas a regra segundo a qual os textos suspeitos ou heterodoxos devem ser interpretados pelos ortodoxos, exige uma distinção:
a)      a regra é aplicável quando as passagens suspeitas ou heterodoxas ocorrem apenas uma vez ou outra, à maneira de lapso;
b)      mas a regra não vale quando as passagens suspeitas ou heterodoxas são numerosas (pois o que ocorre à maneira de lapso é, por natureza, casual e em pequeno número): nessa hipótese, deve-se recorrer a outras regras e a outros meios de interpretação;
c)       quando, além de numerosas, as passagens confusas, suspeitas e heterodoxas formam, umas como as outras, um sistema de pensamento, a citada regra de interpretação não vale, mas aplica-se a regra oposta: é mister então perguntar se não são os textos ortodoxos que devem ser interpretados à luz dos confusos, suspeitos e heterodoxos.




Terceira Objeção: As objeções dos tradicionalistas contra o novo “Ordo Missae” de Paulo VI, além de sutis e capciosas, envolvem uma interpretação unilateral e tendenciosa das modificações da nossa liturgia, que podem ter um bom sentido. Ora, tendo já a Santa Sé aprovada o novo “Ordo”, o certo seria dar uma interpretação favorável ao que ali é ambíguo.

Respostas: Paulo VI afirmou, em seu discurso de 19-11-69 que “o rito e a rubrica respectiva por si não são uma definição dogmática; são susceptíveis de uma qualificação teológica de valor diverso, segundo o contexto litúrgico a que se referem; são gestos e termos que se relacionam com uma ação religiosa (...), ação que só a crítica teológica pode analisar e exprimir em fórmulas doutrinárias logicamente satisfatórias” (A.A.S. 1969, p. 779). É justamente o que fazemos, desde que a Santa Sé não se tenha pronunciado de maneira definitiva e irreformável dando a interpretação autêntica. Nosso critério é a doutrina oficializa pela mesma Santa Sé.

Ora, o que percebemos é que todas as modificações convergem numa mesma direção: silenciar, desbotar, debilitar, ocultar as afirmações dogmáticas já definidas sobre os principais mistérios da Santa Missa. É como em certos desenhos pontilhados: unindo-se com um risco, um ponto a outro, descobre-se uma figura. Assim também, somando-se todas as omissões e falhas do novo "Ordo", configura-se claramente uma tendência doutrinária declarada. As 45 declarações de teólogos protestantes, as ideias correntes em meios teológicos católicos, o clima de falso ecumenismo coincidem com a interpretação que damos do novo "Ordo".

Ora, a Igreja sempre foi cuidadosa em evitar que qualquer expressão, proposição ou rito pudesse prestar-se a interpretações errôneas, reforçando com termos ou gestos inequívocos o sentido ortodoxo.

As restrições que fazemos aos diversos tópicos da Nova Missa não são todas de igual importância. Sem dúvida que, tomando-se separadamente cada falha e ambiguidade do novo "Ordo", parece difícil e capcioso descobrir nele laivos de protestantismo, mas somando essas ambiguidades e omissões, ligando-as, como no desenho pontilhado, então tudo se torna claro e explícito, o que faz com que o todo mereça restrições mais graves do que cada parte passível de reservas.


Quarta Objeção: O Papa pode inovar os ritos da Santa Missa. Com o novo "Ordo", Paulo VI não fez outra coisa. Não há, pois, razão para recusá-lo.

Resposta: Não temos reservas na aceitação do princípio acima enunciado, desde que seja retamente entendido e aplicado, dentro da Doutrina Católica. Ora, segundo esta, as determinações, também disciplinares, como as normas litúrgicas, não podem ser tais que, mesmo implicitamente, se oponham ao depósito da Revelação. É o que se deduz da definição do dogma da infalibilidade pontifícia, como foi ele enunciado pelo I Concílio do Vaticano: "O Espírito Santo, diz o Concílio, não foi prometido aos sucessores de São Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo Espírito Santo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da Fé, ou seja, a Revelação herdada dos Apóstolos" (Denz.- Sch., 3070).

Por essa definição se vê que, no exercício do Magistério infalível, o Papa deve manter-se fiel à Tradição.

O Papa pode enriquecer a Liturgia, mas não pode perpetuar uma espoliação litúrgica que destrói o precioso patrimônio de orações, música e cantos acumulados nos séculos, guardados com sumo cuidado pelos Romanos Pontífices, invejado por todos os inimigos da Igreja Católica, causa de numerosas conversões.

Menos ainda está no direito pontifício suprimir um rito que dá o devido culto a Deus para substituí-lo por um rito lacunoso, ambíguo, desalinhado, sem brilho, que deixa o campo aberto a extravagâncias, irreverências e profanações.

Também não está no direito do Papa promulgar um novo "Ordo" que não se conforma com a norma secular da Igreja em matéria litúrgica: "Lex orandi, lex credendi". Porque isto se opõe ao dever do Papa de "exprimir fielmente (...) o depósito da Fé" e prejudica gravemente a "salvação das almas".

O poder foi outorgado à autoridade eclesiástica para a edificação do Corpo Místico de Cristo, não para a destruição (II Cor. 10, 8).

É por isso que a autoridade do Papa não pode e não deve nunca identificar-se com o arbítrio, mas permanece limitada pelo direito divino natural e positivo, pelo maior bem da Igreja, pela salvação das almas, bem como pela necessidade do reto uso da razão.


Quando as disposições papais fogem dos limites acima indicados, não obrigam.