quarta-feira, 4 de maio de 2016

Recomendações de Mons. Lefebvre antes das sagrações

Recomendações de Mons. Lefebvre antes das sagrações

Duas semanas antes das sagrações de 30 de junho de 1988, M. Lefebvre convidou em Ecône os quatro padres designados para colocar em ordem os preparativos da cerimônia. Por cerca de dois ou três dias que eles passaram no seminário neste momento, dirigiu-lhes dois discursos privados, no pequeno quarto do seminário ao lado do seu, que é agora o oratório S. Marcel. A partir de nossos apontamentos, enquanto ele falava com sua habitual calma e doçura, pode-se reconstituir o texto aproximado do que ele disse. É de um grande interesse; estas palavras revelam o estado de espírito no qual este gigante da história da Igreja colocou este ato que foi, para a tradição católica, sua “passagem de Rubicon” e para o próprio M. Lefebvre, como o coroamento de sua gloriosa carreira a serviço de N. S. J. Cristo.

12 de junho

M. Lefebvre: Acabou. Sem colóquios. Quanto mais se reflete, mais nos damos conta que as intenções de Roma não boas. A prova: o que se passou com D. Augustin e o padre de Blignières. (3). Eles querem tudo juntar ao Concílio, deixando-nos um pouco de tradição. M. de Saventhem (4) pretende que ainda há modo de se entender com Roma. Mas não se trata aqui de coisas pequenas. Em Roma, eles continuam o que são; não se pode colocar-se nas mãos destas pessoas. Não queremos nos deixar comer. É uma ilusão de D. Gérard (5) pensar que um acordo nos daria um imenso apostolado. Sim, mas em um quadro equívoco, ambíguo, que nos corromperia. Dizem-nos: “Vocês terão mais vocações se estiverem com Roma”. Mas estas vocações, se dissermos o que quer que seja contra Roma, se oporiam e se corromperiam nos seminários. E os bispos lhes diriam: “Então, vinde conosco!”. Muito docemente, a mistura se faria. As irmãs de S. Michel-em Brenne, os dominicanos de Fanjeaux e de Brignolles são todos contra um acordo: “Não é preciso depender de Ratzinger, dizem. Imaginai: se ele viesse nos fazer conferências!... e nos dividir!”. E se alguns nos deixam? Não seria tão grave quanto em 1977. Os clérigos Blin, Gottlieb e Cie estão hoje reunidos e dispersados. (6)

É preciso uma segunda decisão contra a Roma neomodernista (depois da primeira, em 1976). Que quereis fazer? É mais grave desta vez? O problema de fundo continua o mesmo: Roma quer aniquilar a tradição. Quanto aos sedevacantistas, eles são rabugentos contra nós.

É em relação à Igreja, ao serviço da Fraternidade S. Pio X, que faço estas sagrações, como estipulado no protocolo de 5 de maio. É a Fraternidade que é o interlocutor válido perto de Roma. Caberá ao Superior Geral retomar contato com Roma no tempo escolhido. O papel dos bispos consagrados: as ordenações, as confirmações, e a manutenção da fé (7) por ocasião das confirmações. Ser-vos-á preciso proteger o rebanho. Será um grande sustento para a Fraternidade. Será preciso uma grande compreensão, sem muitas iniciativas pessoais, por exemplo, em caso de pedidos de ordenações. Não ordenais pessoas sós. E examinai bem a comunidade de onde vêm os candidatos. Roma quer nos fazer mudar. Depois de 30 de junho, fico aqui; terei acabado, tendo dado à Fraternidade o quadro que lhe é preciso. Ao papa, eu digo: quando a tradição voltar à Roma, não haverá mais problema.

A excomunhão? Ela não valerá nada, já que eles não procuram o bem da Igreja. Mas excomungar vai lhes convir. Eles são um pouco desvairados . Eles buscam atingir-me por todos os meios: de Saventhem, um bispo tcheco, etc. Buscam impedir-me de agir. Quiseram enviar-me Madre Teresa de Calcutá. Mas não vale a pena recebê-los. Não é preciso lembrar indefinidamente sobre isso. É somente ler a carta do clérigo C, que corrompeu nossos seminaristas afastando-os de nós: ele confessa que os trata como parias, que os obriga a tirar a batina, que a gente não os recebe. Ele descobriu o que é Roma. “Mater Ecclesiae”: eis o que querem fazer de nós! (8) E Ratzinger, no momento deste negócio, se alegrava da partida destes seminaristas. Então porque manteriam eles hoje palavra conosco? Deus nos protegeu fazendo com que o acordo não acontecesse.


3. O mosteiro beneditino de D. Augustin, foi pouco a pouco reunido à nova missa em fins dos anos 1980; a formação de terciários dominicanos do padre de Blignières passou do sedevacantismo à reunião com Roma e à liberdade religiosa. (NDLR).
4. Na época, presidente de Una Voce Internacional (NDLR).
5. Na época, prior do mosteiro S. Madalena du Barroux e que escolheu de se reunir às propostas de Roma em 1988. (NDLR).
6. M. Lefebvre faz alusão aos padres que o tinham deixado em 1977; foram recuperados pelas dioceses e dizem hoje a nova missa. (NDLR).
7. Sublinhado nas notas originais. (NDLR).
8. M Lefebvre faz alusão a um empreendimento de recuperação orquestrado por Roma (e o cardeal Ratzinger) em 1986-1987: um seminário de “sensibilidade tradicional”, levando o nome de Mater Ecclesiae, tinha sido aberto em Roma para recuperar os saídos de Ecône. O seminarista que tinha servido de instrumento para este empreendimento, escreveu em Ecône pouco tempo antes das sagrações de 1988, para reconhecer que tinha sido enganado pelas autoridades romanas. A carta será publicada no blog em alguns dias. (NDLR).