quinta-feira, 14 de julho de 2016

1º Fim de Semana de Formação!



Por uma fé autêntica: Como manter a fé católica na atual crise da Igreja?


Dias 20 e 21/08
Capela São José




INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES: 
missaosaojoseusml@gmail.com

A inscrição no evento é gratuita.

A capela providenciará alimentação, no entanto, não é obrigatório que os fiéis se alimentem lá. Aos que forem comer conosco cobraremos uma taxa de R$15,00 por dia para custear os gastos.



sexta-feira, 8 de julho de 2016

Para aqueles que não tem missas

Para aqueles que não tem missas



Nossa angústia permanece por nossos filhos e amigos, exilados de centros tradicionalistas nos quais a missa tradicional é preservada; aqueles que são obrigados por circunstâncias várias a viver longe de padres tradicionalistas e de sacramentos; nossa angústia perene por milhões de fiéis católicos (ou já ex-católicos) que perderam há muitos anos contato com ambientes de fé e sacramentos preservados, sobretudo pela observância tradicional, por padres formados como sempre o foram pela Igreja Católica, idêntica a si mesma pelos séculos afora, essa angústia que nos acompanha sempre, filhos enjeitados por hierarcas furiosamente obstinados contra nós, levou-nos à surpreendente observação relativa às palavras de Nossa Senhora em Fátima como relata Irmã Lúcia, em entrevista, ao Padre Fuentes conforme relato publicado no “O Cruzado de Fátima” (versão em inglês) de Fevereiro/Abril de 1986:
Padre, a Santíssima Virgem não me disse que nós estamos nos últimos tempos do mundo mas ela me fez entender isso por 3 razões:
A primeira razão é que ela me disse que o demônio está pronto para empenhar-se em batalha decisiva contra a Virgem. Uma batalha decisiva é a batalha final em que um dos lados será vitorioso e o outro sofrerá uma derrota. Assim, desde já, devemos escolher nosso lado. Ou seremos a favor de Deus ou a favor do diabo. Não há outra possibilidade. A segunda razão é que ela me disse, assim como meus primos, que Deus está oferecendo dois últimos remédios ao mundo. Estes dois remédios são o Santo Rosário e a Devoção ao Imaculado Coração de Maria. Estes serão os dois últimos remédios o que significa que não haverá outros.
A terceira razão é que nos planos da Divina Providência, Deus sempre exaure todos os remédios antes de castigar o mundo. Quando, porém, ele vê que o mundo não lhes presta qualquer atenção, então... Ele nos oferece, com um “certo receio”, os últimos meios de salvação, isto é, Sua Santíssima Mãe. Ele o faz com um “certo receio” porque se alguém despreza e repele estes últimos meios, não terá mais perdão dos céus porque terá cometido um pecado que os Evangelhos chamam de pecado contra o Espírito Santo”.
Estas palavras foram transcritas em artigo publicado também pelo jornal Catholic editado em Victoria, Austrália, por alguém que adota o pseudônimo literário de Charles Martel. O autor do artigo, com muita propriedade, pergunta: — Porque Nossa Senhora oferece, como últimos meios de salvação, a si mesma e ao Santo Rosário e não a Santa Missa? A Santa Missa que, acrescentamos nós, autores do porte de Garrigou-Lagrange e muitos outros mestres de espiritualidade nos apresentaram sempre como o centro de nosso dia-a-dia, principal instrumento de nossa santificação? A razão, prossegue aquele autor, parece ser a previsão de que o “Sacrifício Perpétuo” desapareceria, como parece ser o caso atualmente.
Ele se refere às palavras proféticas de Daniel que foram citadas por Nosso Senhor, Ele mesmo, (Mateus 24, 15) e que podemos encontrar em Daniel 9, 27: “... e, no meio da semana, fará cessar a hóstia e o sacrifício; e estará no templo da abominação da desolação; e a desolação durará até a consumação e o fim (do mundo)”. (o texto entre parêntesis é da Vulgata). E também em Dan. 11, 31: “... E estarão ao seu lado os braços que farão cessar o sacrifício perpétuo e porão no templo a abominação da desolação”.
Ora, em nossos tempos, justamente, percebemos que o sacrifício perpétuo cessou. Não temos missas. As missas progressistas, ainda que utilizem (nem sempre) textos que não podemos demonstrar serem geradores de missas inválidas, são missas provavelmente inválidas por falta de intenção do sacerdote de fazer o que a Santa Igreja sempre fez e, além disso, constituem ocasião propícia à perda da fé como já assinalamos em artigo publicado em Permanência n° 136-137 em que Mons. Lefebvre formalmente desaconselha a assistência à missa nova mesmo se o sacerdote parece sério, porque esta missa é sempre ocasião próxima e de alto risco de perda de fé. Assim, hoje, para os que procuram defender a fé, missa tradicional é algo extremamente raro (pelo menos em países como o nosso), jóia preciosa que buscamos com fervor quando podemos. Mas, ai de nós, para muitos de nós e de nossos filhos, não podemos nada em muitos lugares onde vivemos exilados, privados de sacramentos, de missa, de assistência eclesiástica, porque os padres e bispos progressistas, que julgam que não têm obrigações quanto à fé porque estão — alegam — “unidos ao Papa”, estes nos execram e nos rejeitam sem piedade e sem remorso. E de quanta angústia se faz nosso dia-a-dia quando vemos os filhos e sobretudo os netos privados de formação religiosa adequada, sem ambiente religioso, sem missa, sem sacramentos! Que Nosso Senhor nos valha. E Ele, como vemos, com a ajuda dos que bem escrevem sobre o assunto, para nos socorrer, para nos consolar, previu, predisse, providenciou com antecedência, o aviso prévio e o socorro prévio: nossos instrumentos de salvação para os últimos tempos serão a recitação do Santo Rosário (ou, pelo menos do terço) e a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Com estes instrumentos seremos santificados, com eles seremos salvos. E que não nos aflija a falta de missa ou sacramentos ou formação religiosa: façamos o que pudermos com aquilo que nos foi dado, lembrando-nos de que é a Nossa Senhora que está confiada nossa assistência nesses tempos apocalípticos e que ela, Mãe e Santificadora nossa, conhece nossas necessidades e foi posta não apenas para socorrer-nos nas coisas fundamentais que dizem respeito à fé mas até mesmo nas pequenas necessidades de nossa vida quotidiana como ficou bem claro na passagem das Bodas de Caná. É a ela que devemos recorrer, com ela que devemos contar e nela procurar socorro e instrumentos de salvação para aquilo que nos ameaça, para a crise de nossos tempos apocalípticos e para o abandono em que nos encontramos por parte de pastores e hierarcas que nos manifestam sua ojeriza bem claramente. Não nos pedirá ela mais do que podemos fazer e, ao contrário, nos dará muito mais do que podemos merecer. Que Nossa Senhora nos socorra. Imaculado Coração de Maria, sede a nossa salvação.
  
(Revista Permanência, no. 258-259, Maio-Junho de 1990)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Comentários Eleison - CDLXVIII (468) - (02 de julho de 2016) - VANTAGENS DO CAMPO

Comentários Eleison - por Dom Williamson
CDLXVIII (468) - (02 de julho de 2016)

VANTAGENS DO CAMPO

Cidades e subúrbios, danos ao homem estão a causar,
Mas este, a Deus Todo-Poderoso, sempre pode rezar.


Dado que nenhum ser humano jamais foi criado por Deus nesta terra por outra razão que não seja ir para o Céu (I Tm. II,4), então a bondade de Deus está sempre trabalhando, de uma forma ou de outra, mais ou menos fortemente, para atrair todas as almas para o Céu. E se um homem começa a responder a essa atração, ele está obrigado a compreender, mais cedo ou mais tarde, que a massa de almas que o rodeiam hoje em dia ou estão inconscientes dessa atração ou estão positivamente resistindo a ela. E quanto mais o homem vê com seriedade a sua própria ida ao Céu, tanto mais seriamente ele deve perguntar-se quais são os fatores no mundo ao seu redor que fazem com que tantas almas pouco se importem com o Céu, ou ao menos em chegar lá.


Alguns desses fatores podem aparecer imediatamente para ele, como o recente avanço do vício antinatural e seu triunfo na legislação mundial, do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Há outros fatores que ele talvez precise de mais tempo para perceber, porque não são tão obviamente opostos à virtude e porque empaparam o ambiente faz muito tempo, como viver em cidades ou subcidades, isto é, subúrbios. É claro que somente um tolo reclamaria que todo habitante do campo está cheio de virtudes enquanto todo habitante da cidade está cheio de vícios. Por outro lado, viver no campo é obviamente algo mais próximo à natureza que viver na cidade, de modo que se a natureza foi criada por Deus para ser a portadora indispensável dessa supernatureza sem a qual nenhuma alma pode entrar no céu, então os habitantes do campo estarão, como tais, mais próximos de Deus que os da cidade, e um habitante da cidade, desejando chegar ao céu, deve ao menos fazer um balanço do tecido de sua vida na cidade.


“Aprende de teu inimigo”, diziam os latinos. O comunismo é um dos mais terríveis inimigos do catolicismo, e dois destacados comunistas são famosos por seu ódio aos habitantes do campo, ou camponês. Para Lenin (1870–1924), líder da Revolução Russa em 1917, um obstáculo maior no caminho da Revolução sem Deus era o antiquado camponês, arraigado à terra, profundamente consciente de seu nada como uma criatura rodeada pelo mistério da Criação do qual dependida. O habitante da cidade, por outro lado, vivendo em um mundo artificial e feito pelo homem, de fábricas, máquinas e robôs humanos, um mundo carregado por vários tipos de ressentimento (enfurecer-se contra a chuva é um exercício inútil, enquanto a “fúria ao volante” está constantemente crescendo), era totalmente apto à Revolução (eis aqui porque de Corte diz que os políticos modernos estão constantemente prometendo “mudanças”).


            Para Antonio Gramsci (1860–1937), mestre da chave de transição da Revolução depois de Lenin e de Stálin, do comunismo “duro” ao globalismo “suave’, o campesinato representava igualmente um inimigo terrível que a Revolução teria de vencer. Com seu “senso comum” e sua “ordem natural”, o camponês tinha sido o fundamento de todo um sistema de valores que deveria desaparecer. Religião, família, pátria, exército, natureza, cultura, tinham de dar passagem a todo um novo sistema de pensamento de acordo com a Nova Ordem Mundial. Para afastar os homens de sua velha mentalidade, sua cultura total iria ser subvertida não por um assalto violento contra sua economia, mas por uma “marcha através das instituições”, todas as suas instituições. A Revolução remodelaria deles a educação, a arte, o entretenimento, as notícias, os esportes, etc., cada característica de sua cultura em sentido mais amplo, para socavar a forma total de vida previamente encarnada no campesinato. E a Revolução de Gramsci foi tão exitosa em derrocar a antiga ordem natural que os agricultores agora trabalhando na terra dependem a tal ponto das máquinas e dos “banksters” que apenas são camponeses no sentido antigo.

 Mas a Revolução hoje faz tamanha guerra contra “tudo o que se chama Deus” que não há maneira humana possível de reconstruir nenhum campesinato que possa resisti-la. O melhor campesinato possível, meramente como tal, não é a solução. O problema não é meramente cultural. O problema real é nossa apostasia em relação a Deus. A solução real começa com a oração, a qual a Revolução, aparentemente todo-poderosa é, contudo, impotente para parar.

Kyrie eleison

terça-feira, 5 de julho de 2016

O dever de resistir

O dever de Resistir

SIM SIM NÃO NÃO
Nº01 – Janeiro de 1993
Desenvolvimento ou contradições?

Ao Católico convenientemente informado, e com mais forte razão ao sacerdote , ao religioso, impõe-se hoje a escolha seguinte: ou resistir à nova corrente eclesial e então ser taxado de rebelião à autoridade ou, adaptando-se a esta orientação negar ipso facto a infalibilidade da Igreja, que até o Vaticano II em lugar de “guardar, transmitir e explicar fielmente o depósito da Fé” (Primeiro Concilio do Vaticano) teria durante um tão grande número de séculos ignorado, errado e jurado, sem saber o que ela devia crer” (São Vicente de Lérins: Commonitorium).
A adaptação à nova orientação eclesial é sem dúvida nenhuma mais cômoda à natureza humana que odeia o esforço e a luta mas é o caminho mais direto para a apostasia e está igualmente em oposição ao mais elementar bom senso. Admitindo que as contradições atuais com o que sempre foi crido, ensinado e portanto posto em prática na Igreja, venha desta mesma Igreja, por quê se deveria prestar fé hoje a uma instituição que se enganou ontem e poderia então enganar-se ainda hoje?
Estes mesmos inovadores que impõem suas inovações em nome da Igreja parecem ressentir-se do peso decisivo desta objeção e por isso afirmam que as novidades atuais ” se inscrevem na única Tradição da Igreja” (cardeal Ratzinger), como sendo desenvolvimentos da única e imutável verdade. Mas não basta afirmar que uma novidade se inscreve na Tradição da Igreja; é necessário que ela se inscreva realmente e isto é evidentemente impossível quando estas novidades devem abertamente chocar-se com a Tradição. A menos que se queira renunciar à lógica, com seu princípio de não contradição e às declarações solenes do primeiro Concilio dogmático do Vaticano sobre a imutabilidade substancial da Tradição (Dz 1800), incorrendo na excomunhão do cânon correspondente (Dz 1818). Na realidade a única e imutável Verdade não pode desenvolver, e portanto progredir, como jamais progrediu durante dois mil anos por meio de contradições. As contradições doutrinárias na Igreja foram sempre denominadas erros ou heresias, elas não podem ser propagadas como sendo progresso e desenvolvimentos doutrinais a não ser no triunfo atual da heresia modernista, cuja essência reside justamente na consideração de que ”na tradição, tudo é relativo e sujeito às mudanças[1]” (São Pio X Alocução consistorial, A.A.S., t.40, 1907, p.268)
Portanto , às almas retas, às quais a “perversão modernista da inteligência”(Marcel de Corte) ainda não tirou o “medo da contradição“(R.Amerio), impõe-se o dever de resistir à nova orientação eclesial porque ela está, em todos os domínios, em contradição com o passado da Igreja.
A arma dos inovadores.
Para evitar ou ao menos conter esta resistência, os autores e partidários desta reviravolta modernista na Igreja recorreram a numerosos meios, mas sobretudo à arma da obediência.
Mas então levantam-se três perguntas:
1) Obediência a quê?
2) Que obediência?
3) Obediência a quem?

Obediência a quê?
Desde o Concilio, a Igreja não deu mais uma ordem que tenha características próprias duma ordem de modo que se saiba com exatidão: qual é o objeto desta ordem e se o legislador tem vontade de obrigar.
A própria reforma litúrgica, que foi durante longo tempo o ponto nervrálgico do conflito, não teve uma real e correta promulgação jurídica, se é certo que a promulgação duma nova lei deva ser feita “de tal modo que revele a vontade do legislador de estabelecer a lei, e que ele coloque a comunidade em condições de conhecê-la” (Roberto Palazzini, Dicionário de Teologia Moral, verbete: promulgação da Lei). Ora, o próprio cardeal Bugnini, factotum da reforma, tratando da” obrigação do [novo] missal” nos demonstra que não é jamais oportuno responder aos pedidos instantes dos Bispos para uma declaração oficial. Quando, à instância de D. Sustar, Secretário do Conselho das Conferências Episcopais Européias, a Congregação para o Culto elaborou uma resposta e a submeteu ao Secretário de Estado, este respondeu a 15 de outubro de 1973 (prot. n° 243874): “Dada a delicadeza do assunto, objeto de polêmica, parece oportuno que Vossa Excelência responda àquela que vos escreveu de maneira inteiramente pessoal por uma carta não oficial sem número de protocolo”[4]: “Queria-se esclarecer o problema sem ofender ninguém”escreve D. Bugnini.
Em seguida, em face das dificuldades criadas por certos grupos, aos Bispos locais, a Sagrada Congregação para o culto propôs o recurso à Comissão para a interpretação exata dos Documentos do Concilio, mas a 10 de junho de 1974 (n° 258911) a
Secretaria de Estado repelia a proposição pela razão textual que uma resposta favorável à reforma teria sido encarada como “um ato odioso nas relações com a tradição litúrgica“. “Ainda uma vez se queria evitar ofender alguém” comenta D. Bugnini (A. Bugnini – A reforma litúrgica 1948-1975) Maneira incrível de promulgar uma reforma(e que reforma): nem a vontade do legislador de obrigar foi jamais notificada, nem a comunidade foi posta em condições de conhecer esta vontade sem equívoco possível.
E não apenas no domínio litúrgico, mas em todos os domínios o reformismo progrediu “mais por silêncio calculado e por omissões” do que por ordens explícitas (Pe.Calmel, O.P.) segundo a tática própria dos modernistas (cf. S. Pio X, Pascendi) Obediência a quê então? Obediência a uma nova orientação eclesial imposta de fato, através de indicações sempre insuficientes para justificar qualquer reação, mas sempre suficientes para promover o aniquilamento da tradição em todos os domínios. Na prática jamais se impôs explicitamente ao católico, em nome da obediência, uma negação de sua própria fé (caso em que ele estaria em condições de avaliar o alcance da obediência que lhe era exigida e teria sido colocado em circunstâncias que motivariam a sua necessária recusa.) Mas foi-lhe imposta e é imposta uma nova orientação eclesial que, implicando a negação de tudo o que a Igreja ensinou e fez sobre a base destes princípios doutrinários até o Vaticano II, conduz diretamente à apostasia.
Que Obediência?
Na ausência de ordem que tenha as características que deve ter toda ordem, não se pode falar de obediência no sentido próprio. Mas quando se quer falar também de obediência, como de fato se fala, a contradição entre a nova corrente eclesial e a antiga é tão evidente (impõe-se hoje o que se deplorava ontem e vice-versa) que se pede aos católicos uma obediência ilimitada quanto ao objeto e cega quanto ao grau. Ora a obediência ilimitada – a moral católica no-lo ensina – só a Deus se deve, senhor supremo de todos e de tudo, ao passo que a obediência que se deve aos homens , inclusive ao Papa – é limitada.
1) pelo direito divino, natural e positivo
2) por toda autoridade superior
pela matéria subtraída ao seu poder (cf. Enciclopédia Católica , verbete obediência e Roberti Palazzini Dicionário de Teologia Moral, verbete: obediência).
Assim o Papa, só ou em Concilio, não pode contradizer o que está contido explicita ou implicitamente na Divina Revelação, porque a autoridade do Papa neste caso é limitada pelo direito divino. Ele não pode sozinho, mesmo em Concilio com os Bispos, contradizer o que já foi definido ou dado como certo por seus predecessores ou o que foi sempre e universalmente crido e ensinado na Igreja. Com efeito, isto é uma matéria subtraída a seu poder e ao poder do Concilio, o qual, neste domínio, pode exercer um julgamento confirmativo, jamais dubitativo, exatamente como um juiz que no tribunal tem o poder de aplicar a lei, mas não de discuti-la (cf. Dicionário de Teologia Católica, verbete Concílíos III, col 665). E finalmente, do mesmo modo que não se deve obediência aos bispos contra o Papa, porque a autoridade do Papa é superior à dos Bispos, deve-se ainda menos obedecer ao Papa contra Nosso Senhor Jesus Cristo, porque a autoridade de Cristo supera e fundamenta a autoridade do Papa.
Conclusão: o próprio Papa não tem o poder de exigir dos católicos esta obediência sem limites, que se exige deles hoje em nome do Concilio Vaticano II: ninguém, e ainda menos a autoridade instituída por Deus, pode impor a apostasia, seja ela prática ou teórica.
A moral católica, ademais, ensina que a obediência cega que “crê firmemente sem examinar o objeto [da ordem] ” (L.Billot, S.J. DeEcclésiaT. XVII), é devida somente a Deus e ao Magistério infalível da Igreja, o qual não está de nenhum modo implicado nem na nova orientação eclesial, nem mesmo no Concilio.
Por conseguinte ninguém, nem mesmo o Papa, tem o poder de exigir dos católicos a obediência cega (sem exame do objeto) que se exige hoje deles em nome do Concilio pastoral Vaticano II, como se se tratasse de um super-Concílio, para falar como o cardeal Ratzinger, ou então dum Concilio não apenas infalível (o que ele não é), mas mesmo tendo o direito de contradizer (o que é ilícito mesmo para os concílios dogmáticos) a Sagrada Escritura, o Magistério constante da Igreja, todos os Papas e todos os Concílios dogmáticos em conjunto.
Obediência a quem?
A pergunta não é de todo estranha, se se pensa que a autoridade de instituição divina na Igreja está hoje paralisada por uma falsa colegialidade que reduziu a autoridade do Papa a um papel de representação, e submeteu a autoridade de direito divino dos bispos às Conferências episcopais, de instituição humana. Ela fez assim destas duas autoridades o disfarce dos neo-modernistas que, através dos diferentes órgãos colegiais, exercem hoje o poder efetivo na Igreja.
A tática própria dos modernistas de se infiltrarem por toda a parte e de se manterem ocultos o mais possível, encontrou uma aplicação no governo pós-conciliar da Igreja, ainda mais do que nos documentos do Concilio. Nestes documentos o modernismo está presente por toda a parte, mas está também cuidadosamente escondido pela presença de fórmulas irrepreensíveis, que contrabalançam as fórmulas inquietantes (do mesmo modo que, inversamente, textos irrepreensíveis estão às vezes neutralizados por uma simples nota). De igual maneira no pós-concílio, os neo-modernistas legislam em todos os domínios, mas sob a cobertura da autoridade legítima.
Segue-se que, em realidade, o católico que, como é de seu dever de consciência, resiste à nova orientação eclesial, resiste não à autoridade legítima, mas ao poder oculto que a suplantou e a manipula. E pouco importa que esta transferência ilegítima da autoridade para os órgãos colegiais seja alcançada com o acordo, mais ou menos consciente, dos detentores da autoridade legítima divinamente instituída: “não está no poder do homem renunciar a um direiro divino“. (Pio IX, Quartus supra vigésimum)
O dever
Entre aqueles que não estão de acordo, no seu íntimo, com a nova orientação eclesial e que não se sentem obrigados a obedecer-lhe, muitos justificam inércia e passividade repetindo para si e para outros que “portae inferi non praevalebunf” (as portas do inferno não prevalecerão absolutamente contra ela. S. Mat. 16,18): a indefectibilidade foi prometida à Igreja e isto hoje dispensaria de resistir ou de combater aos que trabalham por destruí-la de dentro (pois se trata realmente disto, dado que não se pode compreender a auto destruição da Igreja no sentido próprio, uma vez que a Igreja, mesmo quando seus ministros a maltratam, é sempre a esposa fiel do Verbo Encarnado). Entretanto eles não pensam que a indefectibilidade foi prometida justamente à Igreja e não aos homens (da Igreja), nem mesmo a presença da Igreja em tal ou tal parte do mundo. A história da Igreja está aí para atestá-lo: o “não prevalecerão” não impediu que a África católica fosse apagada pela invasão muçulmana; não salvou do cisma as já gloriosas igrejas orientais, não impediu que a Inglaterra, a Suécia, a Suiça, os Países Baixos, Alemanha e outras nações européias já católicas tombassem com a pseudo-reforma protestante no cisma e na heresia. Porque se é verdade que “as portas do inferno não prevalecerão” e que a promessa de Deus não pode deixar de realizar-se “isto não significa que a promessa se deva entender no sentido fatalista e que os membros da Igreja, em particular os sacerdotes, devam deixar a Deus apenas o cuidado de manter e de guardar a Igreja, sua Fé e seus costumes. Mesmo aqui Deus se serve de causas segundas. A Igreja universal é seguramente sustentada e guardada por Deus, mas a vida e a duração das Igrejas particulares dependem, em grande parte, da cooperação dos fiéis. Partes importantes da Igreja se perderam por culpa dos fiéis e mais ainda por culpa dos sacerdotes” (Bartmann, Dogmática, V. II, pg 449).
Daí o dever que, hoje, incumbe a todos sobretudo ao clero e aos religiosos, mas igualmente aos simples fiéis, de resistir à nova corrente eclesial.
Que resistência?
A resistência que exigem as circunstâncias atuais é uma resistência externa e interna. Recusar o compromisso com a nova orientação eclesial, conservar a fé e as práticas recebidas pela Igreja antes da crise atual, manifestar apertis verbis (abertamente) seu próprio desacordo, testemunhar, em suma, sua fidelidade a fé Católica e não deixar que os demolidores, no interior da Igreja, tenham a consciência tranquila: tudo isso é o que chamamos a resistência externa. A que denominamos resistência interna necessita de um raciocínio mais longo.
Dia 21 de dezembro de 1992 foi o oitavo aniversário do falecimento do Padre Francisco Maria Putti, que fundou o periódico SiSi NoNo para reconfortar os hesitantes e os isolados, para despertar os adormecidos, para ser uma repreensão pública aos demolidores da Igreja e para relembrar à autoridade a gravidade da crise da Igreja. Em sua fé viva ele não cessou jamais de se espantar com a indiferença de tantos “bons” sobretudo ministros de Deus e membros da hierarquia, e repetia que se todos aqueles que estavam em condições de avaliar a desastrosa realidade, tivessem encontrado a coragem de manifestar sem temor sua própria desaprovação, o neo-modernismo jamais teria triunfado na Santa Igreja de Deus. Infelizmente a desforra modernista surpreendeu o mundo católico – clero, religiosos e leigos – num momento de grandíssima fraqueza espiritual. O pós-concílio fez realmente desabar numerosas fachadas, há muito mantidas empe somente graças aos esforços tenazes e generosos dos Pontífices Romanos, desgraçadamente não secundados pelos próprios membros do episcopado que desobedecem assaz frequentemente. Basta-nos relembrar aqui “esta resistência, muitas vezes passiva mas real” oposta às disposições antimodernistas de São Pio X, não apenas pelos modernistas e seus simpatizantes mas também por eminentes cardeais; resistência posta às claras e documentada na causa da canonização deste grande Pontífice (cf Beatificationis et canonizationis servi Dei Pii Papae disquisitio circa quasdam obiectiones modi agendi servi Dei respicientes in modernismi debellatione, Typis polyglottis Vaticanis, 1950, p.59)
Existe uma escola [na Igreja], escrevia então o cardeal de Lai, que encoraja e defende o princípio das idéias largas, do mínimo a crer e a fazer, escola que de degrau em degrau desce ao puro racionalismo, ao ceticismo e ao panteísmo” (ibi. pg. 65) Era a escola dos católicos poluídos pelo liberalismo “escola” que triunfou no Concilio Vaticano II. Com esta luz compreende-se a significação e toda a gravidade dos apelos insistentes à oração e à penitência que desde cerca de dois séculos a Santíssima Virgem dirigiu a um mundo católico disposto a usufruir das vantagens materiais da religião cristã, mas sempre mais hostil às exigências da Fé que manda amar a Deus sobre todas as coisas e até pelo sacrifício de si mesmo.
Se inimigos exteriores e traidores internos da Igreja foram os principais responsáveis pelo desastre pós-conciliar, este desastre foi contudo longamente preparado e em seguida possibilitado por um grande número de sacerdotes e de religiosos espiritualmente negligentes e ociosos. Estes acreditavam ter feito bastante ao salvar o santuário de sua própria alma da profanação total. Esta responsabilidade foi igualmente partilhada por uma grande massa de leigos descuidados de sua espantosa e culpável ignorância e alheios ao esforço acético que impõe a vida cristã mesmo não consagrada. Um semelhante mundo católico, satisfeito com pertencer de um modo puramente exterior à Igreja, não poderia encontrar estas graças extraordinárias de luz e de força requeridas pela urgência extraordinária dum ataque desencadeado contra a Fé em Nome da autoridade e da obediência a um Concilio ecumênico.
Entretanto, tudo concorre para o bem daqueles que tendem para Deus com um coração sincero, mesmo aquilo que, como a atual crise eclesial, parecia menos favorável â vida espiritual. De fato, a atual crise da Igreja, para quem quer compreendê-la, é um apelo a abandonar toda a presunção pela qual se diria que o fato de pertencer à Igreja pudesse salvar sem uma Fé vivida e conhecida. “Endireitai vossos caminhos e vossas obras e eu estarei convosco neste lugar. Não vos fieis absolutamente em palavras mentirosas'” “Aí está o santuário de Yahvé. Eu vou tratar este templo que traz o meu nome e no qual vós colocais vossa confiança, e este lugar que eu dei a vós e a vossos pais, como eu tratei a Silo [o qual não foi salvo da destruição apesar de ter abrigado durante muito tempo a Arca do Senhor]” (Jer. 7, 3-4 e 14).
O remédio portanto, deve atingir a raiz do mal: a ausência de fé viva animada por uma fervorosa caridade, e portanto a ausência de espírito sobrenatural, foram as causas profundas da crise atual e por conseguinte, na medida em que cada um se esforça por readquirir ou aumentar em si esta fé viva e este espírito sobrenatural, nesta mesma medida terá dado sua mais valiosa contribuição à superação da crise.
E a este compromisso pessoal e interior que chamamos resistência interna. O deserto da fé em que vive hoje o católico, torna mais árduo, mas não impossível, este compromisso. É sempre possível, de fato, retomar aos documentos da Tradição e sobretudo ao luminoso Magistério oposto aos erros modernos pelos Pontífices Romanos, de Pio IX a Pio XII, é sempre possível procurar ou frequentar, ou ao menos manter-se em contato com estes oásis de fé viva e de espírito sobrenatural que são os priorados de Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre [Ndr.: O artigo é de 1993, hoje o Sim Sim Não Não tem uma posição bem diversa em relação a FSSPX dada a revolução liberal que lhe foi imposta pelo atual superior geral]. Enfim, é sempre possível para todos, por toda a parte e sempre, rezar. Este esforço que nas circunstâncias atuais, não pode deixar de se impor, será também uma forma de reparação que atrairá sobre nós, sobre a Igreja, sobre as almas, a misericórdia de Deus. “Ipse castigavit nos propter iniquitates nostras et Ipse salvabit nos propter misericordiam suam“. Ele nos castigou por causa de nossas iniquidades e nos salvará por causa de sua misericórdia (Tobias,13,5)
     Marcus