quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Visibilidade da Igreja e a Situação Atual

A Visibilidade da Igreja e a Situação Atual
Dom Marcel Lefebvre




[Apresentação de Le Sel de la Terre] Apresentamos aqui alguns extratos de uma conferência de Dom Marcel Lefebvre publicada na revista Fideliter 66 de novembro/dezembro de 1988, p. 27-31. Monsenhor respondia a alguns argumentos teológicos de Dom Gérard desenvolvidos em sua declaração publicada no jornal Présent do dia 18 de agosto de 1988, demonstrando sua fraqueza. Ele responde com antecedência aos argumentos que tentam justificar a atual posição de Campos.
  
Meus Caros Padres,
Penso que vocês que saíram dos seminários e que, estão agora exercendo o ministério e que desejaram guardar a Tradição, vocês que desejam ser padres para sempre, como foram os santos padres de outrora, todos os santos curas e os santos padres que pudemos, nós mesmos, conhecer nas paróquias. Vocês continuam e representam verdadeiramente a Igreja Católica. Acredito que vocês devem estar convencidos disso: "vocês representam verdadeiramente a Igreja Católica".
A Igreja Visível
Não quero dizer que inexista Igreja fora de nós; não se trata disso. Mas nos últimos tempos, foi-nos dito que é necessário que a Tradição entre dentro da Igreja visível. Penso que comete-se aí um erro muito grave.
Onde está a Igreja visível? A Igreja visível é reconhecida pelos sinais  que ela sempre deu de sua visibilidade: ela é una, santa, católica e apostólica.
Eu vos pergunto: onde estão os verdadeiros sinais da Igreja? Estão eles na Igreja oficial (não se trata de Igreja visível, mas da Igreja oficial) ou conosco, no que representamos, no que somos?
É evidente que somos nós que guardamos a unidade da fé, que desapareceu da Igreja oficial. Um Bispo acredita nisso, outro já não acredita, a fé é diversa, seus catecismos abomináveis estão cheios de heresias. Onde está a unidade da fé em Roma? Onde está a unidade da fé no mundo? Fomos nós que a guardamos.
A unidade da fé espalhada no mundo inteiro é a catolicidade. Ora, esta unidade da fé no mundo inteiro, não existe mais, não existe mais catolicidade. Existem tantas Igrejas católicas quanto Bispos e Dioceses. Cada um possui sua maneira de ver, de pensar, de pregar, de passar o catecismo. Não existe mais catolicidade.
A Apostolicidade? Eles romperam com o passado. Se eles fizeram algo, foi exatamente isso. Eles não desejam mais o que é anterior ao Concílio Vaticano II. Veja o Motu proprio do Papa que nos condena, ele diz muito bem: "a Tradição viva é o Vaticano II": não se deve reportar mais a fatos anteriores ao Vaticano II, isso não significa nada. A Igreja guarda a Tradição de século em século. O que passou, passou, desapareceu. Toda a Tradição encontra-se na Igreja de hoje.
Qual é esta Tradição? A que ela se liga? Como ela se liga ao passado?
É o que os permitem dizer o contrário do que foi dito outrora, sempre pretendendo que somente eles guardaram a Tradição. É o que nos pede o Papa: de nos submeter à Tradição viva. Nós possuiríamos um conceito equivocado de Tradição, visto que ela é viva e evolutiva. Mas, isto é o erro modernista: o Santo Papa Pio X, na encíclica Pascendi, condenou estes termos: "Tradição viva, Igreja viva, fé viva", etc, no sentido que os modernistas os entendem, ou seja, da evolução que depende das circunstâncias históricas. A verdade da revelação, a explicação da revelação, dependeria das circunstâncias históricas.
A Apostolicidade: nós nos vinculamos aos Apóstolos pela autoridade. Meu sacerdócio vem através dos Apóstolos; vosso sacerdócio vem através dos Apóstolos. Nós somos filhos daqueles que nos deram o episcopado. Nosso episcopado descende do Santo Papa Pio V e através dele chegamos até aos Apóstolos.
Quanto à Apostolicidade da fé, nós cremos na mesma fé que foi dos Apóstolos. Nós não mudamos nada e nem queremos mudar nada.
E enfim, a santidade. Não nos faremos louvores e cumprimentos. Se não quisermos considerar a nós mesmos, consideremos os outros, e consideremos os frutos de nosso apostolado, os frutos vocacionais, de nossas religiosas e também dentro das famílias cristãs. Boas e santas famílias cristãs germinam, graças a vosso apostolado. É um fato, ninguém o pode negar. Mesmo nossos visitantes progressistas de Roma constataram a boa qualidade de nosso trabalho. Quando Mgr. Perl disse às irmãs de Saint-Pré e às irmãs de Fanjeaux que é com base como a delas que se deverá reconstruir a Igreja, não é um pequeno elogio.
Tudo isso mostra que somos nós que possuímos os sinais da Igreja visível. Se ainda existe uma visibilidade da Igreja hoje em dia, é graças a vós. Estes sinais, não se encontram mais nos outros. Não existe mais neles unidade da fé; ora, é precisamente a fé que é a base de toda a visibilidade da Igreja.
A catolicidade é a fé no espaço. A Apostolicidade é a fé no tempo, e a santidade é o fruto da fé, que concretiza-se nas almas pela graça do bom Deus, pela graça dos sacramentos. É completamente falso considerar-nos como se não fizéssemos parte da Igreja visível. É inacreditável. É a Igreja oficial que nos rejeita, não somos nós que rejeitamos a Igreja, longe de nós. Ao contrário, nós estamos sempre unidos à Igreja romana e mesmo ao Papa, evidentemente, ao sucessor de Pedro. Penso que devemos ter esta convicção para não cair nos erros que estão sendo espalhados agora.
Sair da Igreja?
Evidentemente, poderão objetar-nos: deve-se, obrigatoriamente, sair da Igreja visível para não perder sua alma, sair da sociedade dos fiéis unidos ao Papa?
Não somos nós, mas os modernistas que saíram da Igreja. Quanto a dizer "sair da Igreja visível" é equivocar-se assemelhando Igreja oficial e Igreja visível.
Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade dos fiéis sob a autoridade do Papa, pois, não recusamos a autoridade do Papa, mas o que ele faz. Nós reconhecemos ao Papa sua autoridade, mas quando ele a usa para fazer o contrário daquilo que lhe é facultado fazer, é evidente que não podemos segui-lo.
Sair, portanto, da Igreja oficial? Em uma certa medida, sim, evidentemente. Todo o livro de Jean Madiran, A Heresia do século XX, é a história das heresias dos Bispos. É necessário, portanto, que saiamos do meio destes Bispos, se não desejamos perder nossa alma.
Mas isso não é suficiente, posto que é em Roma que a heresia instalou-se. Se os Bispos são Heréticos (mesmo sem tomar este termo no sentido e com as conseqüências do direito canônico) não é sem a influência de Roma.
Se nós nos distanciamos deste tipo de gente, é com a mesma precaução que se toma para com as pessoas que estão com AIDS. Não queremos nos contaminar. Ora, eles estão com AIDS espiritual, uma doença contagiosa. Se quisermos guardar a saúde, não devemos aproximarmo-nos deles.
Sim, o liberalismo e o modernismo introduziram-se no Concílio e no interior da Igreja. São idéias revolucionárias e a Revolução, que encontrávamos na sociedade civil, passou para dentro da Igreja. O Cardeal Ratzinger não mais esconde esse fato: eles adotaram as idéias não da Igreja, mas do mundo e eles acham que devem fazê-las entrar na Igreja.
Ora, as autoridades não mudaram sequer uma vírgula de suas idéias sobre o Concílio, o liberalismo e o modernismo. Eles são a anti-Tradição, Tradição como a Igreja compreende e como entendemos. Isso não entra dentro do conceito deles. O conceito deles sendo evolutivo, eles estão contra a Tradição fixa na qual nós nos mantemos.
Estimamos que tudo aquilo que nos ensina o catecismo nos vem de Nosso Senhor e dos Apóstolos e que nada mudou. Isto é claro. As três partes do catecismo  nos vem de Nosso Senhor. Porque mudá-las? Nós não podemos evoluí-las. O Credo, os mandamentos de Deus, os meios de nos salvar, os sacramentos, o santo sacrifício da missa e a oração, tudo isso, vem diretamente de Nosso Senhor. Tudo isso, é nosso catecismo, que nos é dado, geralmente, com nosso batismo, que nos é colocado entre nossas mãos. É nosso estatuto desde que Nosso Senhor desejou que todos fossem batizados, que todos adotassem o Credo, o decálogo, os sacramentos que ele instituiu, bem como o santo sacrifício da missa e as orações.
Para eles, não, tudo isso evolui e evoluiu com o Vaticano II. O fim atual da evolução, é o Vaticano II. É por isso que nós não podemos nos ligar a Roma. Teria sido possível, se tivéssemos podido nos proteger completamente como, de fato, pedíamos. Mas eles não quiseram. Eles recusaram os membros que pedíamos para a comissão, eles recusaram o número de Bispos que pedíamos, recusaram o número de Bispos que eu lhes apresentei. Estava claro: eles não queriam que estivéssemos protegidos. Eles queriam ter-nos diretamente debaixo de seus golpes e poder, assim, impor-nos esta política anti-Tradição da qual eles estão imbuídos.
Roma não mudou
Um exemplo mostra-nos que nada mudou no espírito dos romanos: em 1º de maio (1988), em Veneza realizou-se um importante congresso sobre a liberdade religiosa nas atuais situações políticas. Este congresso foi dirigido pelo reitor da Universidade de Latrão, Mgr. Pierre Rossano, famoso por suas idéias liberais, e Mgr. Pavan, que é o autor de, praticamente, todos os documentos sociológicos publicados desde o Papa João XXIII, de todos os documentos que dizem respeito à sociedade. As encíclicas dos Papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II foram praticamente redigidas por ele. É o grande pensador do Vaticano.
Foram estes dois prelados que fizeram e dirigiram esta reunião de Veneza sobre a liberdade religiosa dentro das situações políticas. É muito interessante notar o que eles dizem a respeito da liberdade religiosa: "mudança da concepção da liberdade religiosa". Eles não se escondem. Eles falam da influência da Segunda guerra mundial. Eles buscam motivações longínquas: "já sob Pio XII realiza-se uma tomada de consciência da liberdade religiosa, realizada na tragédia da Segunda guerra mundial.  Isso permitiu, para utilizar uma frase estereotipada, a passagem do direito da verdade ao direito da pessoa.
Examinemos um pouco melhor esta frase. O direito da verdade ensina-nos que existe a liberdade da verdadeira religião, mas que o homem não possui a liberdade de escolher a sua religião, de escolher a verdade. Somos feitos e criados com inteligência e vontade livres, não resta a menor dúvida, mas esta liberdade só deve servir para nos fazer aderir à verdade e não a outra coisa. Pois um laço fundamental, essencial, une a liberdade e a verdade. Romper este laço para dizer : a partir de agora, compreendemos que não se trata mais de ligar liberdade com verdade, mas liberdade e natureza humana, é o erro fundamental. Nossa própria natureza, inteligência e vontade, é feita para aderir à verdade. E, eis que agora, e os autores do congresso de Veneza escreveram em seus relatórios, suprime-se o direito da verdade, o laço que une o sujeito por natureza à verdade, para colocar no lugar o direito da pessoa, um direito inteiramente independente. Este direito estaria fundado sobre a natureza, mas considerada dentro de sua dignidade de sujeito livre, ou seja, autônomo e sem laços. E os autores precisam que isso deve ser particularmente verdadeiro em matéria religiosa que trata da orientação da vida.
É preocupante. Como se pudéssemos mudar coisas tão profundas na natureza. Deus nos criou para a verdade, Ele não nos deu a liberdade para escolhermos o erro. Não é possível. Não temos o direito ao erro. Ora, praticamente, é a isto que conduz a liberdade religiosa: permitir à natureza de escolher livremente a sua verdade, é dar-lhe direito ao erro.
E todos os estados deveriam aceitar isso, sem opor-se no limite da ordem pública. Mas a ordem pública é muito extensa! Estas sociedades deveriam aceitar o ecumenismo, a laicização dos estados, a liberdade de culto. Elas deveriam reconhecer como diretivas tudo aquilo que o homem pode retirar de si mesmo, as idéias que puderem conceber, os conceitos religiosos forjados por eles mesmos.
Depois da afirmação da liberdade religiosa, eles reafirmam o princípio absolutamente revolucionário da Declaração dos Direitos do homem. É verdadeiramente um princípio satânico: "non serviam", eu não quero servir, não quero ser submisso à verdade.
Mas sim! se Deus impõem-nos uma verdade, assim será. "Aquele que não crer será condenado". Que exista a tolerância, pelo fato das pessoas enganarem-se, mas o princípio dessa liberdade não existe e não pode existir.
Tenho que vos dizer, para que vejam bem, que Roma não mudou em nada. Não é uma acusação vazia, mas retirada dos relatórios oficiais da reunião de Veneza, que aconteceu recentemente: 1º de maio. O reitor da universidade de Latrão é a cabeça de toda a formação universitária da Igreja de Roma. São os representantes oficiais de Roma. E eis o que eles reafirmam. Nada mudou. Não podemos seguir pessoas como estas. São erros graves, profundos.
Aconteça o que acontecer, devemos continuar, e o bom Deus nos mostra que seguindo esta via nós cumprimos o nosso dever. Não negamos a Igreja Romana. Não negamos a sua existência, mas não podemos seguir suas diretivas. Não podemos seguir os princípios do pós-Concílio. Nós não podemos ligar-nos a eles.
Só existe uma Igreja, ... A Igreja conciliar!
Percebo a vontade de Roma de nos impor suas idéias e suas maneiras de ver. O Cardeal Ratzinger sempre me diz: "Mas Monsenhor, existe apenas uma Igreja, não se deve fazer uma Igreja paralela". Qual é esta Igreja, para ele? A Igreja conciliar, é evidente. Quando ele nos disse explicitamente: "Evidentemente, se lhe damos, neste protocolo, alguns privilégios, o Senhor deve, também, aceitar o que fazemos; e conseqüentemente, na Igreja São Nicolas-du-Chardonnet deve-se celebrar uma missa nova todos os domingos", vocês bem vêem que eles querem nos arrastar para a Igreja conciliar. Isso não é possível, pois, é claro que eles querem nos impor estas novidades para acabar com a Tradição. Eles não concederão nada por estima pela liturgia tradicional, mas, simplesmente, para enganar aqueles a quem eles oferecem e diminuir nossa resistência, encontrar uma brecha no bloco tradicional para destruí-lo. É a política deles, sua tática consciente. Eles não se enganam, e vocês conhecem a pressão que eles fazem. Entre vocês, alguns já foram pressionados pelo Bispo ou por alguém querendo dissuadi-los de deixarem a Tradição. Eles fazem esforços consideráveis em todos os lugares.
As irmãs de Saint-Pré foram visitadas pelo padre Philippe que tentou doutriná-las. O Bispo de Carcassonne ofereceu amizade e compreensão para com as irmãs de Fanjeaux e ao nosso padre Pozzera. Ele foi devidamente recolocado em seu lugar. Mas eles continuam. Eles voltarão. O padre Innocent-Marie telefonou-me recentemente e disse-me que ele estava sendo vítima de pressões do Bispo de Angers. Eles não cessarão de tentar nos pegar. É verdadeiramente inacreditável esta guerra de agora contra a Tradição. [...]
Penso que se deve evitar tudo aquilo que puder manifestar, por meio de expressões muito duras, nossa desaprovação àqueles que nos deixam. Não devemos enchê-los de epítetos que podem ser vistos como injuriosos. Isso de nada nos serve, pelo contrário. Pessoalmente, sempre tive esta atitude para com aqueles que nos deixam — e Deus sabe quanto isso aconteceu durante a história da Fraternidade; a história da Fraternidade é quase que a história das separações - Sempre tive como princípio: não mais ter relações, acabou. Eles nos deixaram, eles irão a outros pastores, a outros rebanhos : nenhuma relação mais. Tanto daqueles que partiram como "sedevacantistas" quanto daqueles que nos deixaram por nós não sermos suficientemente papistas, todos tentaram engolfar-nos em uma polêmica. Eu nunca respondi uma palavra. Rezo por eles, é tudo. [...]