quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O carismatismo - Mons. Lefebvre


O carismatismo: negação dos sacramentos e caricatura dos dons do Espírito Santo


Se fala muito em nossos dias, na Igreja, do pentecostalismo e dos carismáticos. Há, de fato, numerosos católicos que hoje se esforçam em receber a graça do Espírito Santo por uma nova via que, em definitivo, nos vem do protestantismo. Pois o pentecostalismo nasceu no protestantismo e se difundiu na Igreja, onde se transformou em movimento carismático. Nos vemos obrigados a constatar que estas manifestações se multiplicam cada vez mais, e isto com a autorização das autoridades eclesiásticas.

Com motivo da reunião do Katholikentag, em Munique, em novembro de 1984, todos os cardeais e bispos alemães estavam reunidos com oitenta mil de seus fiéis. Todo o mundo pôde ser testemunha desses fatos estranhos que ocorreram, especialmente antes da recepção do sacramento da Eucaristia. Alguém pode, em verdade, perguntar-se se estas eram inspiradas pelo verdadeiro Espírito de Deus, ou por outro espírito.

Pouco depois, na mesma época, em Graz (Áustria), realizaram-se fenômenos carismáticos na presença do bispo, quem explicou que, desde agora, estas estavam introduzidas na Igreja, como um meio de atrair os jovens aos templos que se esvaziavam. Talvez, anotou, este seria um caminho para fazer reviver a vida cristã na juventude.

Ao mesmo tempo, em Paray-le-Monial (França), realizam-se freqüentemente fatos idênticos, revestidos também de certos aspectos tradicionais. Lá, em particular, se vê jovens que passam a noite em adoração diante do Santíssimo Sacramento, recitam o rosário e dão testemunho de um espírito de oração. Logo se dá ali um aspecto curioso e estranho que mistura, ao mesmo tempo, a tradição e expressões mais bem estranhas que habituais na Igreja.

O que devemos pensar a respeito? Devemos crer, por acaso, que foi aberta uma nova via por ocasião do Concílio Vaticano II e alguns anos antes, para receber o Espírito Santo? Parece que estes fenômenos não seriam de todo conformes com a Tradição da Igreja. Quem nos dá o Espírito Santo? Quem é o Espírito?


De onde vem o Espírito?


O Espírito é Deus. Spiritus est Deus, diz São João. “Deus é Espírito”. Deus quer que se lhe reze e se lhe adore em espírito e em verdade. Por conseguinte, nosso amor ao Espírito Santo deve manifestar-se muito mais por um estado de ordem espiritual que por manifestações sensíveis, exteriores. Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo é quem anuncia aos Apóstolos, no Evangelho, que receberão o Espírito Santo, que lhes enviará o Espírito do Pai, o Espírito de verdade, de caridade. Mittam eum ad vos. “Vos lho enviarei”. Este Espírito vem, pois, de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Pai. Dizemos no Credo: Credo in Spiritum Sanctum, qui ex Patre Filioque procedit. “Que procede do Pai e do Filho”. É esta a Fé Católica: cremos que o Espírito Santo vem do Pai e do Filho, e que Nosso Senhor Jesus Cristo veio precisamente à terra para entregar-nos sua vida espiritual, sua vida divina.


Os Sacramentos


Como foi-nos dado o Espírito Santo? Que meios usou Nosso Senhor? Empregou, por acaso, estas manifestações que vemos no pentecostalismo e no carismatismo? De modo algum. Elegeu o meio dos sacramentos que instituiu para comunicar-nos seu Espírito.

Devemos insistir especialmente sobre esta verdade da Tradição: Nosso Senhor nos comunica seu Espírito pelo batismo. O disse a Nicodemos nessa entrevista noturna que teve com ele: “Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus”. Devemos renascer da água e do Espírito Santo. É assim, igualmente, que Nosso Senhor comunicou seu Espírito aos Apóstolos. Eles receberam primeiro o batismo de João e posteriormente, em Pentecostes, o batismo do Espírito. E de imediato, depois de receber o Espírito Santo, o que fizeram? Os Apóstolos batizaram. Comunicaram o Espírito Santo a todos aqueles que tinham a fé, a todos os que criam em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deste modo, pois, a Igreja, debaixo da influência e do mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, comunica o Espírito Santo às almas pelo Batismo. Me parece que teríamos que meditar mais sobre a grande realidade de nosso batismo. Quando recebemos este sacramento realizou-se em nossas almas uma transformação total. Os demais sacramentos vêm a completar esta efusão do Espírito Santo, recebida no dia de nosso batismo.

O sacramento da Confirmação nos comunica também todos os dons do Espírito Santo com grande profusão; necessitamo-lo para alimentar e fortificar nossa vida espiritual, nossa vida cristã.

Isto não é tudo. Em efeito, Nosso Senhor quis que dois sacramentos em particular nos comuniquem seu Espírito de maneira freqüente, a fim de manter em nós a efusão de seu Espírito. Estes são os sacramentos da Penitência e da Eucaristia. O sacramento da Penitência reforça a graça que temos recebido no dia de nosso batismo e purifica nossas almas de nossos pecados. O sacramento da Penitência, em conseqüência, restitui em nós a virtude do Espírito Santo, a virtude da graça.

Que dizer do sacramento da Eucaristia! Sacramento dado pelo Santo Sacrifício da Missa. É no mesmo instante em que se consuma o Sacrifício da Missa, que é o Sacrifício da Redenção continuado, se realiza o sacramento da Eucaristia. Esta graça flui do Coração transpassado de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Sangue e a água que escapam de seu Sagrado Coração manifestam as graças da Redenção e nos comunicam ao mesmo tempo sua vida divina. Na Sagrada Eucaristia recebemos a santificação de nossas almas, pelo distanciamento do pecado e o apego a Nosso Senhor Jesus Cristo, como de outra das fontes do Espírito.

Os sacramentos do Matrimônio e da Ordem santificam a sociedade. O sacramento do Matrimônio santifica todas as almas. Estas são, pois, novas ocasiões pelas quais Nosso Senhor Jesus Cristo nos dá realmente seu Espírito, que é um Espírito de verdade, de caridade e de amor.

Finalmente, o sacramento da Extrema Unção nos prepara para receber a verdadeira e definitiva efusão do Espírito Santo, quando receberemos nossa recompensa no Céu.


Não temos direito a eleger outros meios


Eis aqui os meios pelos que Nosso Senhor Jesus Cristo quis comunicar-nos sua vida espiritual, seu próprio Espírito. Não temos direito de eleger outros meios fora dos que Nosso Senhor mesmo instituiu, meios tão simples, tão formosos, tão eficazes, tão simbólicos aos mesmo tempo. Não temos direito a esperar que por simples manifestações exteriores, por gestos particulares, possamos receber o Espírito Santo. É muito temeroso que estas outras manifestações sejam inspiradas pelo mal espírito, para enganar precisamente aos fiéis, fazendo-os crer que recebem o verdadeiro Espírito de Nosso Senhor. Em realidade, não recebem, de nenhum modo, este Espírito, senão que um espírito muito distinto… Tenhamos o cuidado de não deixarmo-nos arrastar, e quando se apresente a ocasião, distanciemos destes fenômenos e manifestações aqueles nossos familiares que se sentem atraídos por eles.


A verdadeira ação do Espírito Santo nas almas por meio de seus dons


Qual é a ação da efusão do Espírito Santo em nós? É, antes de tudo, distanciar-nos do pecado, por seus dons particulares e pelo temor de Deus. Especialmente pelo temor filial e não pelo temor servil que, certamente, pode ser útil pelo medo aos castigos para manter-nos no caminha da fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo, na obediência aos seus mandamentos. Mas, devemos cultivar sobretudo o temor filial. É o que nos dá o Espírito Santo em seu dom de temor: o temos de distanciar-nos de Nosso Senhor Jesus Cristo que é nosso tudo, de distanciar-nos de Deus, do Espírito Santo. Este temor deveria ser suficiente e eficaz para rechaçar todo o pecado voluntário, qualquer que seja. O primeiro efeito dos dons do Espírito Santo é que nossa vontades não se distanciem de Deus por apegar-se aos bens temporais contra a sua santa vontade.

O Espírito Santo nos inspira a submissão à vontade de Deus pelos dons de conselho e de sabedoria. O dom de conselho aperfeiçoa a virtude da prudência. Precisamos, no transcurso da vida, saber qual é a vontade de Deus, para cumpri-la. Isto nem sempre é simples. Algumas vezes certas decisões não são fáceis de tomar e é difícil conhecer a vontade divina. O Espírito Santo nos esclarece pelo dom de conselho e o dom de sabedoria.

O Espírito Santo nos incita igualmente, pelo dom de piedade que nos comunica, a rezar, a unirmo-nos com Nosso Senhor Jesus Cristo, a unirmo-nos com Deus mediante a oração. Este dom de piedade se manifesta de um modo particular na virtude da religião, que forma parte da virtude de justiça, já que é justo e digno que lhe demos um culto. E o culto que Deus quer que lhe rendamos passa por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo Sacrifício da Missa, Deus quis que lhe rendamos toda honra e toda glória, com Nosso Senhor Jesus Cristo, por Nosso Senhor Jesus Cristo, em Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto é o que a Igreja pede que façamos a cada domingo: que nos unamos ao Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Santa Missa é a oração mais bela e mais grandiosa. Por meio dela o Espírito Santo nos inspira esta virtude de religião, esse espírito de piedade profunda, muito mais espiritual que sensível.


Um slogan: A participação ativa na liturgia


Por isto, também neste ponto, existe um erro na reforma litúrgica, quando se insistiu tanto na participação dos fiéis. Eu mesmo ouvi dizer de Dom Bugnini, artífice fundamental da reforma: “Toda esta reforma foi feita com a finalidade de fazer participar os fiéis na liturgia”. Mas, de que participação se trata? De uma participação puramente exterior? Não há que buscar mais bem a união interior? A união espiritual, sobrenatural? Para que essas cerimônias? Para que esses cantos? Para que essas orações vocais? Não é para unir nossas almas a Deus? Eis aqui o que há que contestar.

Por isto, é muito concebível que o fiel que assiste ao Santo Sacrifício da Missa permaneça em silêncio, sem abrir sequer seu missal, se se sente deveras atraído, conquistado, inspirado de certo modo, pelos sentimentos que o sacerdote manifesta em sua ação. Escutando o sacerdote fazer sua confissão, seu ato de contrição, a alma se une ao sacerdote e se arrepende de seus pecados.

Quantas pessoas dizem: “Já não se pode rezar nas novas missas! Se ouve sempre algo. Se ouve uma oração pública. Durante todo o tempo já uma manifestação exterior que faz com que estejamos distraídos e que não possamos recorrer-nos mais para unirmo-nos realmente com Deus”. Sucede exatamente todo o contrário da oração.


Da piedade à contemplação


Finalmente, os dois últimos dons de entendimento e de ciência nos convidam à contemplação de Deus através das coisas deste mundo. O dom de ciência e o dom de entendimento penetram e nos dão luz sobre a existência de Deus, sobre sua presença em todas as coisas, e particularmente nas manifestações espirituais e sobrenaturais de Deus através da graça e dos sacramentos. A alma inspirada pelo Espírito Santo vê, de algum modo, a presença de Deus em todo lugar, e se une assim a Deus durante sua vida, esperando vê-lo tal qual é, na vida eterna.


O Espírito Santo, fonte da vida interior


Eis aqui, em verdade, o que é o Espírito Santo, e como se manifesta. Se o admira nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, em todas as Epístolas dos Apóstolos. O Espírito Santo se encontra em todas as partes. Se manifesta aonde quer. É a expressão muito clara da vontade de Deus, que consiste na santificação de nossas almas pela presença de seu Espírito.

Peçamos à Santíssima Virgem Maria, que sempre esteve cheia do Espírito Santo, que nos ajude a viver esta vida interior contemplativa, Ela que exteriorizou pouco sua oração. Algumas palavras no Evangelho bastam para mostrar-nos e descobrir-nos um pouco a alma da Santíssima Virgem Maria. Ela meditava as palavras que pronunciava Nosso Senhor. O Evangelho nos diz que Ela as repetia em seu Coração. Eis aqui o Espírito da Santíssima Virgem Maria: Ela meditava as palavras de Jesus. Meditemos também nós as palavras do Evangelho, meditemos as palavras que a Igreja põe em nossos lábios, para unir-nos mais a Deus.

+ Marcel Lefebvre
Arcebispo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Circular sobre a Pureza e a Integridade da Fé

Circular sobre a Pureza e a Integridade da Fé

Por Dom Antonio de Castro Mayer
01/06/1981



CIRCULAR AO REVMO. CLERO E FIÉIS
DA DIOCESE DE CAMPOS
OBSERVAÇÕES SOBRE A PUREZA E A INTEGRIDADE DA FÉ

Caríssimos cooperadores e amados filhos.
Quis o Papa João Paulo II destacar, com especial solenidade, a passagem do XVI centenário do 1º Concílio de Constantinopla e o 1550º aniversário do Concílio de Éfeso.
Não é difícil encontrar razões que justifiquem essa solenidade especial. Os dois concílios têm, no Cristianismo, suma importância, porque asseguram a pureza e integridade da Fé contra as invasões heréticas que então surgiram. No primeiro Concílio de Constantinopla, encerrado em 9 de julho de 381, a igreja reivindicou a integridade da Fé contra os Macedonianos, assim chamados pela relação com Macedônio, Patriarca da Cidade Imperial. Estes, seguindo as pegadas dos Arianos, destruíam o dogma fundamental de toda a Revelação, a SS. Trindade, pois negavam a divindade da Terceira Pessoa Divina, o Espírito Santo.
Por sua vez, o Concílio de Éfeso, terminado em setembro de 431, defendeu essa mesma integridade da Fé, contra outro Patriarca de Constantinopla, Nestório e seus asseclas. Estes negavam a divindade de Jesus Cristo, e, consequentemente, a Maternidade Divina de Maria Santíssima. Nestório distinguia no Salvador duas pessoas, a pessoa divina, o Filho de Deus, e a pessoa humana, o homem Jesus Cristo. Apenas o homem nos teria salvado com a morte na cruz. Infeccionava, pois, o Dogma da Redenção que, no caso, seria obra de puro homem, perderia seu caráter de reparação condigna e superabundante, oferecida a Deus pelos pecados dos homens.
Em decorrência desta heresia, Maria Santíssima deixaria de ser a Mãe de Deus, pois teria concebido, no seio puríssimo, apenas o homem Jesus. Sua intercessão passaria para a classe comum da intercessão dos Santos.

A obra dos dois Concílios

O primeiro Concílio de Constantinopla reafirmou solenemente a verdade revelada do Mistério da SS. Trindade, definindo a divindade do Espírito Santo; e o Concílio de Éfeso ensinou, de modo categórico, definitivo, que em Jesus Cristo há uma só pessoa, a Pessoa do Filho de Deus, na qual subsistem duas naturezas, realmente distintas, a natureza divina, pela qual Jesus Cristo é verdadeiro Deus, e a natureza humana, que o faz igualmente verdadeiro homem. E Maria Santíssima, declara o Concílio, como Mãe de Jesus Cristo tornou-se verdadeiramente Mãe de Deus, pois a relação materna termina na pessoa do filho.
Mantiveram assim aqueles dois Concílios a Fé Católica, íntegra e sem deturpações.

A importância da Fé

Ora, nas relações com Deus, que são as relações fundamentais do homem, nada há mais importante do que a pureza e a integridade da Fé.
Com efeito, pela Fé, cremos, com certeza absoluta, verdades que superam nossa capacidade intelectual, somente porque Deus as revelou. Com isso, prestamos homenagem à transcendência inefável de Deus, e reconhecemos a vassalagem que Lhe devemos por ser nosso Criador e Soberano Senhor. A heresia se põe à Fé, precisamente, porque nega esse direito soberano de Deus. De fato, o herege reivindica para si o julgamento das verdades reveladas, rejeitando as que lhe parecem incompreensíveis, ou contrárias a conclusões científicas. Dessa maneira, arvora-se em juiz do pensamento divino. Renova a rebelião de Lúcifer que pretendia igualar-se a Deus, decidindo, por si, a verdade e o erro.
Daí a importância suma de conservar a Fé, na sua pureza e integridade. Pois, como na aceitação de cada uma das verdades reveladas, prestamos nossa homenagem à Suma Sabedoria de Deus; assim, na rejeição de uma só delas há a recusa de nossa vassalagem a Nosso Senhor e Soberano. O mesmo se diga de uma verdade revelada, cujo conceito culposamente deturpamos.
A Fé comanda toda a nossa vida religiosa. A retidão do culto, que prestamos a Deus, depende da pureza e integridade da Fé; pois, Deus, Suma Verdade, não pode satisfazer-se com um culto que desconhece a sua Palavra. Também da pureza e integridade da Fé depende a retidão de nossa caridade, que jamais pode praticar-se a expensas da Fé. S. João, o Apóstolo do amor, não teme em afirmar que àquele que não aceita a doutrina de Jesus Cristo, nem saudá-lo devemos (2 carta, 10).
Eis que a Fé, pela qual cremos firmemente as verdades reveladas por Deus, é o fundamento indispensável de nossa salvação. “Sem Fé é impossível agradar a Deus (Heb. XI, 6).”

O pós-Concílio: dúvidas e ambiguidades

Depois do Concílio Vaticano II, irromperam na Igreja dúvidas e ambiguidades, incompatíveis com a pureza e integridade da Fé. O testemunho é de Paulo VI. São essas dúvidas e ambiguidades que deram origem a correntes de opinião que não se ajustam à Fé Católica, tradicional, e põem em risco a autenticidade do culto divino e a salvação eterna das almas.
Dois pontos, sobretudo, tratados no II Concílio Vaticano, têm dado ensejo a posições destoantes da verdade tradicional, revelada: a liberdade religiosa e o ecumenismo. Pontos, aliás, que se interpenetram, e sobre os quais a Igreja tem doutrina definida.

A liberdade religiosa

Assim, sobre a liberdade religiosa, podemos resumir em três itens o ensino oficial do Magistério eclesiástico: a) ninguém pode ser coagido, pela força, a abraçar a Fé Católica; b) o erro não tem direito nem à existência, nem à propaganda, nem à ação; c) este princípio não impede que o culto público das religiões falsas possa ser eventualmente, tolerado pelos poderes civis, em vista de um bem maior a obter-se, ou de um mal maior a evitar-se (Cfr. AL. Pio XII, 6.XII.1953).
Com o princípio de bom senso, que tolera a eventual existência de religiões falsas, a doutrina da Igreja atende mesmo às condições de fato de uma sociedade, religiosamente, pluralista. Não admite, porém, nem poderia admitir, no homem, um direito natural de seguir a religião do seu agrado, prescindindo de seu caráter de verdadeira ou falsa. Aceitar semelhante direito em nome, por exemplo, da dignidade humana, envolve uma profunda inversão da ordem das coisas. Pois, a dignidade do homem que toda ela procede de Deus, passaria a sobrepor-se à obrigação fundamental que tem esse mesmo homem com relação a Deus: a de cultuá-Lo na verdadeira religião.
Outra posição, lesiva dos direitos divinos, está implícita naquele princípio: o Estado deveria ser necessariamente neutro em matéria de religião. Deveria sempre dar plena liberdade de profissão e propaganda a qualquer culto. Atitude esta que contradiz o ensino católico tradicional, uma vez que, criatura de Deus, também a sociedade, como tal, tem o dever de cultuá-Lo na Religião verdadeira, e de não permitir que cultos falsos possam blasfemar o Santíssimo Nome do Senhor (Cfr. Leão XIII, Enc. “Immortale Dei” e “Libertas”). Não é difícil verificar-se que este princípio falsíssimo de liberalismo corre em meios católicos como doutrina oficial.

O Ecumenismo

Intimamente relacionada com a liberdade religiosa está a questão do Ecumenismo como ele é entendido e praticado. A liberdade religiosa que acabamos de ver, dá ao homem pleno direito de seguir sua religião, ainda que falsa, e impõe ao Estado o dever de atender aos cidadãos no uso de semelhante direito. A liberdade religiosa, pois favorece, quando não impõe, o pluralismo religioso.
Ora, acontece que, numa sociedade dilacerada por esse pluralismo, a identidade de origem de todos os homens, os mesmos problemas que resolver, as mesmas dificuldades que enfrentar, despertam nos indivíduos o anseio de buscar uma unidade de fundo religioso, visto que a comunhão na convicção religiosa é um meio excelente de congregar esforços, para a conquista do bem comum e do interesse público. Daí os movimentos visando chegar à união das várias religiões, mediante a aceitação de princípios comuns a todas elas, sem exigir a renúncia às características específicas de cada uma, que continuaria distinta das outras.
Semelhante ecumenismo muitos o restringem às confissões que se dizem cristãs.

Sequelas do Ecumenismo

Assim concebido o ecumenismo tem os seguintes corolários: 1. a verdade é colocada ao lado do erro, em igualdade de condições; 2. aceita-se, como coisa natural e normal, que a salvação seja possível em qualquer religião; 3. afasta-se o proselitismo, que seria um divisor e não um catalisador; 4. chega-se, logicamente, a aconselhar, aos não católicos, a fidelidade e o afervoramento no erro em que se encontram, não faltando quem equipare religiões cristãs falsas à Igreja católica, ao pensar que o Espírito Santo, como da Igreja, assim daquelas confissões também se serve, como meio de encaminhar seus adeptos à salvação no seio de Deus.
Não obstante estas consequências diametralmente opostas à verdade católica, um tal ecumenismo é aceito em meios católicos. Há mesmo tentativas de promover uma formação religiosa ecumênica, a ser ministrada, em comum, aos adeptos de várias confissões cristãs.
Sobre o ecumenismo, assim concebido, escreveu Pio XI a encíclica “Mortalium animos” com data de 6 de janeiro de 1928, na qual o condena com energia.
De onde, uma renovação na Igreja, animada pelas orientações surgidas depois do Concílio que aqui registramos, por atraente que seja, opõe-se à Fé, é inadmissível.
Como antídoto a essa infiltração perigosa e sutil que nos distanciaria do caminho da salvação, reafirmamos continuamente nossa crença na única Igreja de Jesus Cristo, Santa, Católica e Apostólica – “Credo in unam, sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam” – fora da qual não há salvação: “extra quam nullus omnino salvatur (Conc. Lat. IV).”
Com bênção cordial
+ Antonio, Bispo de Campos

Campos, 1º de junho de 1981

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Mosteiro da Santa Cruz necessita da sua ajuda!



Caros amigos e benfeitores,

Ave Maria Puríssima!

O último mês, graças a Deus e a vossa benevolência, conseguimos passá-lo bem, sem dificuldades financeiras.

Este mês, porém, fazemo-vos um novo apelo. Em particular para que possamos terminar a reforma e aumento de nossa hospedaria (vejam fotos em anexo), a qual serve para acolher não só nossos peregrinos mas também os estudantes, candidatos ao seminário de S.E. Dom J.M. Faure, na França. Eles devem permanecer um tempo em nosso mosteiro, preparando-se para entrar no seminário.

Esta obra vai custar-nos ainda mais de R$ 20.000,00.

Lembramos ainda que temos grandes gastos com a manutenção de nossa escolinha São Bento e Santa Escolástica, que nos custa certa de R$10.000,00 todos os meses, sobretudo com salário dos funcionários.

Que Deus vos abençoe e retribua.


A caridade cobre a multidão dos pecados” (I S. Pedro 4,8)



Dom Tomás de Aquino OSB












Comentários Eleison - por Dom Williamson

Comentários Eleison - por Dom Williamson
CDXXX (480) - (24 de setembro de 2016): 


BELO QUEIJO


Quanto mais saborosa é a isca colocada no anzol por seus inimigos,    
Mais o pobre peixe se deixa enganar e os toma por amigos.


Na Austrália, há apenas um mês, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X pintou um retrato radiante de sua – como ele espera – sujeição iminente da Fraternidade aos oficiais da Roma Conciliar. De um longo discurso, eis aqui algumas observações importantes que ele fez, resumidas ou citadas na íntegra (em itálico):

[. . . ] Roma está oferecendo-nos uma nova estrutura. À sua frente estará um bispo, escolhido pelo Papa de uma lista de três membros da Fraternidade, nomeados pela Fraternidade. Ele terá autoridade sobre os sacerdotes, sobre qualquer religioso que queira aderir à nova estrutura, e sobre os católicos que pertençam à nova estrutura. Estes terão um direito absoluto a receber dos sacerdotes da Fraternidade todos os sacramentos, incluindo o do matrimônio. Esse bispo estará capacitado para fundar escolas e seminários, para ordenar (padres), para estabelecer novas Congregações religiosas. A estrutura será como uma superdiocese, independente de todos os bispos locais. Em outras palavras, para vocês, fiéis, não haverá nenhuma mudança no que vocês já estão desfrutando com a Fraternidade. A única diferença será que vocês estarão reconhecidos oficialmente como católicos.

Vocês podem facilmente imaginar que haverá confrontos com os bispos locais. Então, teremos de ser prudentes, mas do modo como as coisas estão agora vocês não podem imaginar nada melhor do que essa oferta, que é de tal forma que vocês não podem achar que se trate de uma armadilha. Não é uma armadilha, e se alguém nos faz uma oferta assim só pode ser porque nos quer bem. Ele quer que a Tradição prospere e floresça dentro da Igreja. É impossível que uma oferta como essa possa vir de nossos inimigos.  Eles têm muitos outros modos de esmagar-nos, mas não dessa maneira [. . . ].

As observações aqui destacadas em negrito exigem comentários:

* Uma "nova estrutura" presumivelmente significa que a estrutura de Dom Lefebvre para a Fraternidade será, essencialmente, abandonada. Roma está criando uma entidade completamente nova. Adeus, querida FSSPX.

* Um "bispo escolhido pelo Papa" é extremamente importante. E o líder da "nova estrutura", será presumivelmente escolhido pelo Papa. Perguntem à Fraternidade São Pedro o que isso significa. Significou nos anos de 1990 que a sua própria eleição para Superior Geral foi sendo anulada por Roma, até que a própria eleição de Roma foi instalada à força (Padre. A. D.), para manter a São Pedro obediente.

* Note também como esse bispo estará capacitado a "ordenar (padres)", mas não bispos. Roma conservará assim o chicote à mão sobre a nova entidade.

* "Não haverá nenhuma mudança"? Mas é claro que haverá! Roma estará a partir de então no controle.

* "Vocês estarão reconhecidos oficialmente" – mas, que católico precisa de qualquer reconhecimento por tais destruidores da Igreja como o são seus oficiais neomodernistas atuais? Qualquer reconhecimento assim só pode ser um mau sinal.

* "Não é uma armadilha. . . "? Todo este parágrafo é verdadeiramente notável. O autor destes "Comentários" se sente obrigado a voltar-se para Mickey Mouse e para a sua amada companheira, Minnie Mouse, para comentar:

Mickey: Querida, você pode sentir esse cheiro de queijo delicioso que estou sentindo? Ah, olha, ali está!

Minnie: Mas Mickey, é uma ratoeira, armada pelo dono da casa para livrar-se de nós. Você não consegue ver isso?

Mickey: Não pode ser uma armadilha! Digo a você, se alguém nos oferece um queijo bom assim só pode ser porque nos deseja o bem. Está claro que ele quer que nós, os ratos, prosperemos e floresçamos dentro de sua casa.

Minnie (suplicando): Oh, querido, você não pode lembrar-se de quantos dos nossos primos morreram dessa maneira?

Mickey: Pela última vez, digo a você - e eu nunca me engano - é impossível que um queijo tão delicioso venha de nossos inimigos! Eles nunca poderiam esmagar-nos dessa maneira.

Minnie (com um profundo suspiro): Não há melhor maneira de esmagar-nos! E quantos mais de nossos amigos e parentes vão seguir a sua liderança? Oh, orgulho masculino!

Perdoem a frivolidade, queridos leitores - há razões para temer que estejamos lidando com uma verdadeira Disneylândia!

Kyrie eleison.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Trechos de Gustavo Corção



Em nome de um otimismo confiante nos recursos humanos, na ida à Lua e nos transplantes de corações logo rejeitados, em nome de um novo humanismo que ousa dar o qualificativo de novo ao capricho inconstante dos homens, em nome do nada e da vaidade das vaidades, perseguição de vento, o caudal de erros se alargou neste estuário de disparates que inunda o mundo e produz na Igreja devastações incalculáveis. Que nome daremos ao mal deste século?

Este: desesperança

Ei-lo, o mal de nosso tormentoso e turbulento século que ousou horizontalizar as promessas de Deus transformadas em promessas humanas. Que ousou tentar a secularização do Reino de Deus que não é deste mundo. Ei-los os escavadores do nada a construir em baixo-relevo, en creux, a nova torre de Babel. Esperantes às avessas, eles querem fazer revoluções niilistas, querem voltar ao zero, querem destruir, querem contestar, rejeitar, querem niilizar. E se chamam "progressistas".

No século anterior as agressões e traições convergiram contra a Fé, como se viu na crise modernista que São Pio X represou. Tremo de pensar que o próximo século será o do desamor. Perguntando ao mar, às árvores, ao vento, o que querem esses homens que se agitam e meditam coisas vãs, parece-me ouvir uma resposta de pesadelo. Eles querem produzir uma sinarquia, uma espécie de unanimidade, uma espécie terrível de paz e bem-estar. Qual?

Querem chegar ao pecado terminal

(...)

Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milênio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos pois a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos, Senhor, ainda neste século, um reforço de grandes santos, de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor!

É preciso lutar; e sobretudo não desanimar quando nos disserem que o inimigo cerca a Cidade de Deus com cavalos e carros de combate. Ouçamos Eliseu: "Não tenhais medo porque os que estão conosco são muito mais fortes do que os que estão contra nós". E elevando a voz Eliseu exclamou: "Senhor, abri-lhes os olhos para que eles vejam. E abrindo-lhes os olhos o Senhor, eles viram, em torno de Eliseu, a montanha coberta com cavalos de guerra e carros de fogo". (II Reis, VI,16)

E para bem encerrar estas páginas tão sofridas, ouçamos depois do Profeta a voz do grande santo Papa que pusemos no frontispício desta obra. Ouçamos a voz de São Pio X, que desde o princípio deste século de desesperança clamou para despertar as indiferenças, quebrar os orgulhos e pelo santo temor preparar o caminho da Salvação:

"Qual seja o desenlace desse combate contra Deus empreendido por fracos mortais, nenhum espírito sensato poderá duvidar. É certamente fácil, para o homem que quer abusar da liberdade, violar os direitos e a autoridade suprema do Criador; mas ao Criador caberá sempre a vitória. Digamos mais: a derrota se aproxima do homem justamente quando mais audaciosamente se ergue certo do triunfo. E é disto que Deus mesmo nos adverte: "Ele fecha os olhos para os pecados dos homens" como que esquecido de seu poder e de sua majestade, mas logo depois desse aparente recuo, despertando como um homem cuja força a embriaguez aumentara, ele esmagará a cabeça de seus inimigos, a fim de que todos saibam "que o Rei da terra inteira é Deus" e que os povos compreendam que não são senão homens". 

(Gustavo Corção - O Século do Nada, Conclusão)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

I FORMAÇÃO PARA HOMENS - Vitória/ES

Caríssimos

Com alegria divulgamos a "I Formação para homens" que acontecerá na Capela Nossa Senhora das Alegrias, em Vitória/ES.

A formação será nos dias 12 a 15 de novembro, com o Rev. Pe. Joaquim, FBMV.

Mais informações pelo e-mail: carloshenriquedelazari@hotmail.com