sábado, 23 de setembro de 2017

Quinto dia da primeira semana (conhecimento de si mesmo) - Nossa impossibilidade na vida sobrenatural


QUINTO DIA


Meditação - Nossa impossibilidade na vida sobrenatural

PREPARAÇÃO

     O conhecimento necessário de nós mesmos nos deve levar a consider mais especialmenle quão indigentes somos na ordem sobrenatural. Nossa elevação pela graça é inteiramente gratuita. Aqui, nada absolutamenie podemos, sem a graça que previne e que acompanha as nossas ações Impossível a perseverança sem graças especiais. Nossa indigência absoluta comensura-se, porém, com a etusão larguíssima da Bondade Divina, mercê da Mediação de Maria.


MEDITAÇÃO

Prelúdios
- Maria repete-nos as palavras de Jesus, apontando-nos seu Filho Divino: Sem Mim, nada podeis fazer.
• Divina Jardineira, como a plantas enfezadas e raquíticas, enxertai- nos na vida pujante da Graça de Jesus Cristo.

PONTO I
NOSSA ELEVAÇÃO PELA GRAÇA
É INTEIRAMENTE GRATUITA

     Se na ordem natural pode o homem fazer alguma coisa, algum bem, alguns atos de virtude, morais, na ordem sobrenatural sua incapacidade é total e absoluta. Sobrenatural é o que ultrapassa pura e simplesmente a ordem criada, de tal sorte que para essa elevação não temos direito nem disposição alguma, senão somente uma capacidade obediencial, o que quer dizer, a possibilidade de sermos elevados acima de nossa natureza pela onipotência de Deus. Essa elevação não é apenas à natureza tão alta dos anjos, mas à própria essência de Deus, de que participamos realmente, na medida dos limites de nosso ser finito.
A graça habitual assim nos elevou, de maneira estável. Mas temos ainda necessidade das graças atuais, para agir sobrenaturalmente: Nem o Santo Nome de Jesus podemos pronunciar meritoriamente sem o Espírito Santo, Isto é sem o auxílio atual da graça. Mas todas essas graças são inteiramente gratuitas, não devidas a nossa natureza, provindas tão só da livre vontade de Deus.
Como é total a nossa incapacidade, na ordem sobrenatural!


II PONTO
NECESSIDADE da GRAÇA QUE ANTECEDE
E ACOMPANHA AS NOSSAS AÇÕES

“O mais bem conformado olhar, diz Santo Agostinho, nada pode ver sem auxílio da Luz. O homem ainda o mais santo, nada pode fazer na ordem sobrenatural sem o socorro Divino da eterna luz da graça”.
Graça antecedente, primeiro. É Deus quem move a nossa alma no ato virtude. Nós o queremos também. Deus respeita a nossa livre eleição: eu quero, mas Deus quer comigo e mais do que eu. Minha cooperação aceita o impulso Divino e o torna eficaz. Mas, a parte misteriosa que teve o mesmo Deus na minha própria livre eleição?
Graça concomitante, depois. Movida pela graça, minha alma não poderá continuar um alo sobrenatural se a mesma graça se retira. Nada sem Mim, disse Jesus, vós podereis fazer. Nada. Nem a continuação de uma ação começada pela graça... Porque é Deus quem em mim começou o livre querer e Ele é ainda quem o leva ao fim; Ê Deus quem opera, em mim, o querer e o agir (Fl 2,13).
A que ponto somos dependentes de Deus, em tudo quanto anelamos fazer para o céu!


III PONTO
NECESSIDADE DE GRAÇA ESPECIAL
PARA A PERSEVERANÇA

Não posso pretender ao menos a perseverança no bem sobrenatural sem mais auxílio da Graça de Deus? Não. Assim diz o Concilio de Trento; Seja anátema quem disser que uma vez justificados podemos perseverar na justiça recebida, sem especial socorro de Deus (sess 6, can 22). Como esta afirmação de nossa fé nos atira humilhados aos pés de Deus! Não se trata de progredir, subir mais. Apenas de ficar no estado de justiça que recebemos... Não. Por nós, não o poderemos. Nem basta graça ordinária e preciso auxílio especial.
Graça especial que Jesus Cristo quer dar-me, mas que espera que eu Lhe peça, com humilde confiança. Graça especial, que será para mim de inestimável preço, sobretudo quando se trata de perseverança final, que absolutamente não posso merecer por justiça...
E agora, buscarei libertar-me de meu orgulho, de minha suficiência presunçosa, tola e soberba. Gravarei fundo em minha mente a força terrível desta palavra  nada. Nada posso sem Deus. Mas Deus resiste aos soberbos,  concede sua graça preciosa somente aos humildes de coração.

COLÓQUIO

     Virgem cheia de graça, cuja união com a fonte da Graça, Jesus, vos fo penhor inefável de confirmação na amizade Divina e na altíssima elevação vossa aos confins da Divindade. • em vós saúdo, entretanto, a humílima dentre todas as criaturas... como vos ocultastes sempre, de todos os olharas dos vossos próprios, a fim de permanecerdes escondida a todos e conhecioá somente de Deus! Dai-me que participe de vossa humildade e amor ao escondimento, para que, despido de minha soberba, veja também Deus que se inclina amorosamente para mim a elevar-me à graça, à perfeição e a santidade. Porque as riquezas divinas somente descerão a meu coração, quando eu não for mais ladrão da glória de Deus e tudo souber atribuir exclusivamente ao Pai Celeste.


RAMILHETE

A profunda humildade é condição necessária para as grandes realidades da graça de Deus. “Porque olhou para a humildade de sua serva, fez em mim grandes coisas" (Lc 1, 48).

SANTO EVANGELHO (Mt 25. 14-30)
A PARÁBOLA DOS TALENTOS

     O Reino dos céus será como um homem que, ao se ausentar para longe, chamou seus servos e lhes entregou os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade e partiu logo. O que recebera cinco talentos, saiu e entrou a negociar com eles, e ganhou outros cinco. Da mesma sorte também o que recebera dois, ganhou mais dois. Mas o que havia recebido um, saindo, cavou a terra, e escondeu o dinheiro do seu Senhor. E passando muito tempo, veio o Senhor daqueles senros, e os chamou às contas. E chegando-se a ele o que havia recebido cinco talentos, apresentou- lhe outros cinco, dizendo: Senhor, tu me entregaste cinco talentos; aqui tens outros cinco a mais que lucrei. Disse-lhe seu Senhor: Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a gerência das grandes. Entra no gozo do teu Senhor. Da mesma sorte apresentou-se também o quehavia recebido dois talentos e disse: Senhor, tu me  entregaste dois talentos; eis aqui outros dois que lucrei com eles. Seu amo lhe disse: Bem está, senro bom e fiei; já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a gerência das grandes. Entra no gozo do teu Senhor. E chegando também o que havia recebido um talento, disse: Senhor, sei que és um homem de dura condição; ceifas onde não semeaste, e ajuntas o que não espalhaste. E por temor fui e escondi o teu talento na terra. Eis, aqui está o que é teu. E respondendo o Senhor lhe disse: Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeio, e que recolho onde tenho espalhado. Devias, portanto, dar o meu dinheiro aos banqueiros, e tinha volta, feria recebido certamente, com juros, o que era meu. Tirai-lhe, talento, e dai-o ao que tem dez talentos; porque a todo o que já tem, dar-lhe-ã. e terá em abundância: e ao que não tem, tirar-se-lhe-à até o que o possuir. E ao sendo inútil, lançai-o nas trevas exteriores onde haverá choro e ranger de dentes.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L III. c. 14)
A PROFUNDEZA DO NOSSO NADA

FIEL - Vossos juízos. Senhor, me aterram como um espantoso trovão, estremecendo todos os meus ossos penetrados de temor e de tremor, e fico espavorido sem tino nem acordo.
Assim atônito considero "que os mesmos céus não são puros aos vossos olhos” (Jó 15,15).
“Se até nos anjos achastes maldade, e os castigastes sem misericórdia, que será de mim. sendo o que sou?" (Jó 4,18)
“Caíram do céu as estrelas; e eu, que sou pó, que devo esperar?" (Apc
6.13)
Precipitaram-se em profunda miséria, homens, cujas obras pareciam dignas de louvor; e aos que comiam o pão dos anjos ví deleitar-se com o manjar de animais imundos.
Não há pois santidade, Senhor, que durar possa, se a vossa mão soberana a não sustenta.
Nenhuma Sabedoria será discreta, se a vossa luz a não governa.
Não há fortaleza que ajude, se por vós não for sustentada.
Nenhuma castidade está segura, se vós a não defenderdes.
Enfim nenhuma cautela pode salvar a nossa alma, se nos falta vossa santa vigilância.
Deixados a nós mesmos, para logo nos afundamos e perecemos: visitados, porém, por vós, levantamo-nos animosos e vivemos. Inconstantes somos, mas vós nos dais firmeza; fazemo-nos tíbios, mas vós nos afervorais.
Oh! Oue baixos sentimentos não devo ter de mim mesmo! E em quão pouco devo estimar o pouco bem que em mim pode haver!
Ó Senhor! Quão profundamente me devo abismará vista de vossos juízos, onde acho que outra coisa não sou senão nada e menos que nada.
Ó peso imenso que me oprimes! Ó mar sem fundo nem margens onde nada acho de mim, senão nada em tudo!
Onde se ocultará pois em mim esta raiz de vaidade, esta confiança presunçosa no pouco bem que obro?
Toda esta vaidade se abisma na profundeza de vossos juízos sobre mim.
Que é o homem em vossa presença? “Pode porventura levantar-se obarro contra quem o formou?” (Is 29,16).
Como poderá enfatuar-se com louvores vãos aquele cujo coração verdadeiramente sujeito a Deus?
O mundo inteiro é incapaz de ensoberbecer aquele a quem a verq traz sujeito a seu império; nem se deixará nunca deslumbrar pelos apiaus ^ dos homens, aquele que em Deus pôs toda a sua esperança.
Porque os louvores nada valem; desaparecerão com o som de sua palavras; porém "a verdade do Senhor permanece para sempre" (SI 116 2)

LEITURA (Cfr. Perez, Vida Mariana, pàg. 189 ss)
COMPARAÇÃO ENTRE MARIA E NÓS
AVE-MARIA CHEIA DE GRAÇA

A Santíssima Virgem estava e estará sempre cheia de graça santificante, mais do que todos os anjos e santos. E plena de todas as graças atuais, pois que seu entendimento sempre se iluminava com a Divina luz e sua vontade era movida sempre a virtudes heróicas.
E eu, estive cheio de pecados, e pleno sempre de chagas hediondas que eles em mim deixaram. Cheio de afetos desordenados, de trevas no entendimento, de entorpecimento na vontade. Talvez exposto a novas e maiores quedas, tanto mais próximo delas quanto mais afastado me faz crer minha soberba.

O SENHOR É CONVOSCO

Esteve o Senhor com sua Mãe, mais do que com nenhuma criatura, já presente em suas puríssimas entranhas, já unido a sua alma mercê de uma contemplação altíssima que Nossa Senhora, ao que parece, nem no sono interrompia.
E eu, quando me afastei de Deus, com meus pecados, e como me expus a ficar eternamente Dele separado! E ainda agora, quão escassamente desfruto de sua Divina presença! Embora, segundo espero, por sua imensa bondade esteja agora presente em mim este Divino Sol, todavia, as nuvens que dentro de mim levantam minhas paixões não mo permitam ver.

BENDITA SOIS ENTRE AS MULHERES
De quantos dons de Deus, de quantas bênçãos está plena a Santíssima Virgem e como soube delas, aproveitar-se!
E eu, quão pobre ando de bens sobrenaturais, e quão mal sei aproveitar os que possuo! Desventurado entre os homens, como Ela foi bendita entre as mulheres. Talvez os mais desventurados e pecadores seriam melhores do que eu, se recebessem os dons que me couberam, embora não tenha o hor me concedido quantos Ele desejara porque se vê tão mal respondido... Que seria deste servo inútil, que enterra seu pequenino ^°ento, se lhe não valesse a intercessão de Maria

Bendito É o fruto do vosso ventre, JESUS

Que ditoso Fruto nos deu a Virgem Maria, fruto de salvação e de vida para todo o mundo!
E eu, que pouco fruto hei obtido, para a glória Divina e para o bem de meus irmãos! Que estéreis são meus trabalhos, por falta de alento sobrenatural que os vivifique!
Visto, pois, que a comparação com a formosura e riqueza de Nossa Senhora faz ressaltar mais e mais minha miséria e desnudez sobrenatural, quero arrojar-me a seus pés, rogando-lhe que tenha piedade de mim, que rogue por mim, pobre pecador, para que sinta interno conhecimento de meus pecados, grande horror deles, para que íntimo sentimento de minhas desordens me faça emendar e levanfar-me com decisão. - Não permitais. Senhora, que um vosso servo escureça a honra de vossa casa com tais pecados e vícios. Mas, pela vossa alvura imaculada, pelo horror que nutris pelo pecado, pela compaixão maternal com que buscai o pecador, intercedei junto a vosso Divino Filho, fazei que Ele interceda junto ao Pai, a fim de que me possa apresentar com a pureza que me fará digno escravo de vosso amor!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Quarto dia da primeira semana (Conhecer a si mesmo) - O abismo do nosso nada

QUARTO DIA 

Meditação - O abismo do nosso nada

PREPARAÇÃO

Depois de meditarmos sobre os nossos pecados, maus hábitos e péssimas conseqúèncias destes em nossa vida, para conseguir melhor conhecimento de nós mesmos, consideraremos o abismo de nosso nada, a nossa fragilidade e a nossa ignorância, que nos põem como paralíticos entrevados, de todo incapazes de qualquer bondade. À luz da grandeza de Nossa Senhora, melhor aprenderemos a imensidade de nossa miséria, e nos desprezaremos, confiando doravante somente em Deus, por Maria.

MEDITAÇÃO

Prelúdios
- Sou como um paralítico inerme, que desconhece mesmo a extensão de sua incapacidade. Maria, a meu lado, como uma virtude que brota de
Jesus Cristo para me curar.
- Mãe amável, Virtude de Jesus para minha cura, fazei-me atento à vossa admoestação, graça de luz para minha mente entenebrecida.

PONTO I
O NOSSO NADA

Deus é aquele que é. Nós somos aquilo que não é. Viemos do nada. Só Deus é, desde toda a eternidade. Antes éramos nada, ninguém nos conhecia. Não ocupávamos pensamento de ninguém. Foi este Nada que Deus quis criar, misericordiosamente, para seu serviço, sua glória, para felicidade nossa. Deus nos conserva a cada momento. Em cada parcela, ainda mínima do nosso ser. A cada ação nossa, no corpo ou na alma. Não podemos viver senão em Deus, somente Nele nos movemos e somos (At 17,28).
Comparar-nos a Deus? Àquele que tudo criou e conserva. Autor da imensidade do universo, das maravilhas da ordem espiritual, a tudo presente com sua dominadora onipotência, com sua presença vigilante, com sua previdência inefável, na tranqúilidade imóvel de sua onipresença e de sua
eternidade... Como nos temos atrevido a levantar-se em face de Deus? Não pode Ele
aniquilar-nos com um só ato de sua vontade, não mais nos conservando no ser que DelE exclusivamente nós temos? Sim. Tudo quanto há de positivo,de ser, em nós, é de Deus, mantido por Deus... Que fica, pois, para nós, orgulhosos míseros, senão o nada, o vazio, o não ser?



PONTO II
A NOSSA FRAGILIDADE

É frágil o nosso corpo, sujeito a todas as enfermidades e fraquezas. Um nada em nossa alimentação, no ar que nos cerca, no veículo que nos transporta, pode causar-nos a doença, a invalidez, a morte. É frágil o nosso Espírito que depende do corpo. Um pequeno acidente, uma alteração de nervos, um traumatismo qualquer pode arruinar num momento toda a nossa ciência, o saber penosamente adquirido e de que tanto nos orgulhamos, o equilíbrio mesmo de nossa personalidade... É frágil a estima que de nós têm os outros. Uma calúnia maldosa, ou o conhecimento de alguma ação má que cuidadosamente ocultávamos, uma palavra zombeteira, um remoque suspicaz, quantas vezes nos faz descer de todo no conceito de nossos irmãos...
Qual é o conceito de honra entre os homens? Quanto vale? Quanto tempo dura? São fragílimos os bens materiais que acaso possuíssemos. Uma guerra, uma perturbação dos negócios, um erro de administração, tudo nos pode levar. Há a inveja dos outros, os ladrões, o tempo... É frágil nossa vida espiritual também. A cada momento podemos cometer um pecado mortal. Todos os nossos passos trazem a maldita possibilidade de nos afastarem de Deus. Dentro em nós sempre há o incêndio das paixões. Fora, toda a tempestade suscitada pelo gênio do mal... Como ainda confiaremos em nós? Em nossas forças? Em nossas possibilidades?

PONTO III
A NOSSA IGNORÂNCIA

Na ordem natural, que sabemos? Como nossa ciência é apoucada e cheia de imperfeições e defeitos! Não diríamos melhor que sabemos somente que nada sabemos? Triste relíquia do pecado original é nossa preguiça e inconstância, que nos impede aplicar-nos sobretudo, às verdades de ordem mais excelsa. E fazemos de nossos conhecimentos de ciências materiais toda a orgulhosa bagagem de nosso saber, e pretendemos até ser essa a única ciência... Que degradação de nossa mente! Em ordem sobrenatural, quantas vezes as luzes penetrantes da Revelação deslumbram nossa acanhada capacidade! É, porque orgulhosos, talvez as deformamos, resultando para nossa alma angústias e temores penosos, que nos tolhem o progresso para Deus. Por nossa culpa, ignoramos nossas más tendências, nossos defeitos. Não reconhecê-los, quando outros carinhosamente no-los admoestam...
Como é imensa a nossa ignorância! E porque, apesar de tudo, nos julgamos sábios, conhecedores de assuntos humanos e divinos, decidimos sem hesitar todas as questões, obrigamos todos a que perfilhem nossas opiniões infalíveis... Quanta loucura! Que ridículo!



COLÓQUIO

Mãe Poderosa, cuja fragilidade humana foi tão vencedoramente fortifícacja pela Onipotência Divina Encarnada em vós, eu vos agradeço. Nesta preparação para minha entrega total a vosso carinho, surpreendo-me ao ver-me tão distante de vossa riqueza e de vossa virtude. Confesso o abismo do meu nada, pasmo de minha fragilidade, deploro em lágrimas minha ignorância de todas as coisas. Elevo meu olhar para vós, a contemplar o esplendor de graça com que Oeus vos revestiu, a fortaleza inabalável com que vos confirmou em graça, a Divina Sabedoria com que iluminou vossa inteligência. Virgem Poderosa, foi a humildade com que vos curvastes ante o Onipotente na atitude de pequenina Escrava, que vos mereceu tesouros tão altos. Fazei-me o dom dessa humildade que me obtenha não confiar jamais em mim mesmo, para me apoiar somente na força de Deus e na certeza do vosso amor fiel!


RAMILHETE

Maria, Mãe do Verbo Encarnado, é a única for entre espinhos, sem espinhos de miséria, fragilidade e ignorância.


SANTO EVANGELHO (Jo 5,2-9)
O PARALÍTICO DA PISCINA PROBÁTICA

Ora, havia em Jerusalém uma piscina probática, em hebraico Betsaida, com cinco pórticos. Nestes jazia uma multidão de enfermos, de cegos, de coxos, dos que tinham os membros ressecados, à espera do movimento da água. Porque um Anjo do Senhor descia, em certo tempo, ao tanque e movia-se a água. E aquele que primeiro entrasse na piscina depois do movimento da água, ficava curado. Achava-se ai também um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitado, e sabendo que de há muito estava enfermo, disse-lhe Jesus; Queres ficar são? Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho homem algum que me lance na piscina quando a água é movida; porque enquanto eu vou, desce outro primeiro do que eu. Disse-lhe Jesus;
Levanta-te, toma o teu leito, e anda. No mesmo instante ficou são aquele homem; e tomou o seu leito e começou a caminhar.

Imitação de cristo (L I. cap.2)
HUMILDE SENTIR DE SI MESMO

Todos os homens naturalmente desejam saber. Mas, que aproveita a ciência sem o temor de Deus?
por certo melhor é o rústico humilde que serve a Deus, que o soberbo fílósofo que, deixando de conhecer a si mesmo, observa os movimentos do céu.
Aquele que bem se conhece tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos.
Se eu soubesse quanto há no mundo, e não tivesse caridade, de que me aproveitaria diante de Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?
Não tenhas demasiado desejo de saber, porque nele acharás grande distração e engano.
Os doutos gostam de ser tidos e aplaudidos por tais.
Muitas coisas há que o sabê-las pouco ou nada aproveita à alma, e muito louco é quem atende a outras coisas mais que as que sen/em para a sua salvação.
As muitas palavras não enchem a alma; mas a boa vida lhe dá refrigério, e a consciência pura causa grande confiança em Deus.
Quanto mais e melhor souberes, com tanto maior rigor serás julgado se não viveres santamente.
Por isso não te desvaneças por alguma arte ou ciência; mas teme antes o conhecimento que dela adquiriste.
Se te parece que sabes muito e o entendes muito bem, tem por certo que é muito mais o que ignoras.
“Não presumas de alta Sabedoria, mas confessa tua ignorância” (Rm11,20).
Porque te queres ter em mais que os outros, achando-se muitos mais doutos e sábios na lei de Deus que tu?
Se queres saber e aprender alguma coisa proveitosamente, deseja que não te conheçam nem te estimem.
O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é altíssima e utilíssima lição.
Grande Sabedoria e perfeição é pensar cada um sempre bem e favoravelmente dos outros, e ter-se e reputar-se em nada.
Se vires alguém pecar publicamente ou cometer culpa grave, não te deves julgar por melhor; porque não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem.
Todos somos fracos; mas a ninguém tenhas por mais fraco do que a ti.

LEITURA (Montfort. T.V.D.)
A VERDADEIRA DEVOÇÃO,
REMÉDIO DOS NOSSOS MALES

Meu irmão, ficai certo de que. se fordes fiel às práticas interiores de Devoção que vos indicarei: Pelas luzes que o Espírito Santo vos há de dar por Maria, sua cara esposa, conhecereis vossa maldade, corrupção e incapacidade para o pedir, que é só de Deus. autor da natureza ou da graça; e como conseqüência de tal conhecimento, chegareis a desprezar-vos e a pensardes em vós com horror. A humilde Virgem Maria vos fará participar de sua profunda humildade, e fará com que vos desprezeis e ameis o desprezo, sem desprezardes os outros. A Santíssima Virgem far-vos-á participante de sua Fé, maior na tena de que a fé dos Patriarcas, Apóstolos e todos os santos. Agora que reina nos
céus. Ela não tem mais esta fé, pois vê claramente todas as coisas em Deus. pela luz da glória; entretanto com o assentimento do Altíssimo, não a perdeu ao entrar na glória, guardou-a, a fim de conservá-la na Igreja militante para seus mais fiéis servos.
Quanto mais conseguirdes a benevolência desta augusta Princesa e Virgem fiel, mais fé pura haverá no vosso procedimento: uma fé pura, que vos levará a praticardes todas as ações só pelo motivo de amor; mas uma ié firme e inalterável, como um rochedo, que fará empreender e realizar grandes coisas para Deus e para a salvação dos irmãos, sem hesitar; enfim, fé que será vosso farol, vossa vida Divina, vosso tesouro da Divina Sabedoria, e vossa arma poderosíssima, da qual vos servireis para iluminar aqueles que estão nas trevas da sombra da morte.
Esta Mãe do belo amor tirará de vosso coração os escrúpulos e temores servis e desregrados; abri-lo-á e dilatá-fo-á, para que avanceis na senda dos mandamentos de seu Divino Filho, com a santa liberdade dos filhos de Deus, facilitando vossa marcha com o puro amor, cujo tesouro Ela possui: destarte não vos deixareis levar tanto pelo temor de Deus, mas pelo amor. Haveis de considerá-lo como vosso bom Pai, a quem procurareis agradar constantemente; se por desgraça chegardes a ofendê-Lo, humilhar-vos-eis imedíatamente em sua presença; e Lhe pedireis humildemente perdão: mas Lhe estendereis a mão com simplicidade, e levantar-vos-eis amorosamente, sem perturbação, sem inquietação; e continuareis a caminhar em sua presença, sem desânimo.
A Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e nela: porque não será mais por vós mesmo que vos aproximareis de Deus, mas sempre por esta boa Mãe; porque, tendo-lhe dado todos os méritos e satisfações, para que de tudo disponha à vontade, por sua parte vos comunicará suas virtudes e revestirá de seus merecimentos; de modo que podereis dizer a Deus com toda a confiança: “Eis aqui Maria, vossa serva: faça-se em mim segundo vossa palavra"; E porque, havendo-vos consagrado a Ela totalmente, em corpo e alma. Ela que ó generosa com os generosos, há de dar-se a vós em troca, de modo maravilhoso, mas verdadeiro: de sorte aue podereis dizer-lhe afoitamente: “eu sou vosso, ó Santíssima Virgem, saivai-me”' ou, como já disse o discípulo amado: “eu vos considero, ó Mãe Santíssima, como todo o meu tesouro".
 A alma da Santíssima Virgem se vos comunicará para glorificar ao senhor; seu Espírito substituirá o vosso para regozijar-se em Deus, uma vez que sejais fiel às práticas desta Devoção.
Ah! Quando virá o tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana de todos os corações, para submetê-los inteiramente ao império de seu grande e único Jesus? Quando será que as almas hão de respirar tanto Maria, como os corpos respiram o ar? Então hão de suceder coisas maravilhosas neste pobre mundo. Quando chegará esse tempo feliz e esse século de Maria, em que as almas, perdendo-se no abismo de seu interior, tomar-se-ão cópias vivas de Maria, para amarem e glorificarem a Jesus Cristo?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Terceiro dia da primeira semana (conhecimento de si mesmo) - Consequência dos nossos maus hábitos

TERCEIRO DIA 

Meditação - Consequêncla dos nossos maus hábitos

PREPARAÇÃO

Se os maus hábitos são conseqüências em nós do pecado original e dos necados próprios, por sua vez eles causam frutos de perdição, cuja meditação aumentará o conhecimento de nós mesmos. De fato pelo orgulho nos esquecemos de Deus e do próximo. Pela fraqueza de nossa vontade, concebemos horror ao sofrimento, tão necessário, todavia para nossa salvação e santificação. Maria Mãe de Deus e Mãe dos homens, Maria Rainha dos Mártires será o antídoto contra esses males.


MEDITAÇÃO

Prelúdios
• Imagino-me discípulo de Jesus, na noite da Paixão, fugindo ao Mestre e à dor, mas detido pelo olhar de Maria que me exorta à Fé e à coragem.
- Mãe de Jesus, Virgem das Dores, tomai-me com doce violência, amparai-me nesta meditação reveladora de minha miséria, para me fixardes nas resoluções de voltar a Jesus, pelo vosso Coração.


PONTO I
ESQUECIMENTO DE DEUS E DO PRÓXIMO

O mau hábito do orgulho nos volta para nós mesmos, na consideração de nossa falsa excelência. O primeiro fruto dessa atitude soberba é o esquecimento de Deus. Especulativo, enquanto nos ensoberbecemos com a presumida ciência deste mundo, que inflama e obscurece nossa mente, impossibilitando a vista de Deus. Prático, enquanto em todas as ações e atitudes, nos acostumamos a agir como se Jesus Cristo nunca existira, nem tivera direito nenhum a nossas homenagens. E nos parece que fazemos grande favor a Deus, quando uma ou outra vez pronunciamos o seu Santo Nome, ou damos alguma mostra de religiosidade... exterior apenas, para honrar um cristianismo de herança, ou o costume ou o ambiente em que vivemos. O segundo fruto da soberba é o esquecimento do próximo. Como se nós somente existíssemos, mais ninguém com iguais direitos. Como se fôssemos o centro do universo, em palavras, opiniões, atitudes...
E todavia, o homem deveria realizar-se como imagem criada de Deus, refletindo em si mesmo e na convivência com seus irmãos, o mistério Divino da comunhão, através de uma atuação que chegasse a transformar o mundo.
Assim deveria ter, na terra, o lar de sua felicidade, e não um campo de batalha onde reina a violência, o ódio, a exploração e a escravidão (Cfr. Puebla, 184).
Entremos em nós mesmos, a examinar se esta idolatria do nosso eu não nos tem assim endurecido o coração e entenebrado a mente, afastando-nos de Nosso Pai, de nossos irmãos...


PONTO II
HORROR AO SOFRIMENTO

A debilidade de nosso querer tem por resultado nefasto a ávida procura de tudo quanto satisfaz os nossos sentidos e a nossa natureza. Estremecemos ao ouvir falar sequer da necessidade da dor, do sofrimento, do papel providencial da expiação e da cruz.
E nos revoltamos ante os espinhos da existência. Procuramos fugir-lhes, antes buscando o que dá satisfação aos sentidos, escravizando-nos. E aceitamos a preguiça, a indolência, o amor ao conforto, a sensualidade. E louvamos nosso século, porque ele sabe anestesiar as dores do corpo, cercar de confortos materiais a nossa vida, proporcionando-nos viagens cômodas, gosto refinado no vestuário, na alimentação, no repouso...
E não queremos ouvir aquela palavra severa de Jesus Cristo, ameaçando- nos da perda de nossa alma se não fizermos penitência: “se não fizerdes penitência, perecereis todos igualmente” (Lc 13,5). E procuramos uma explicação tranquilizadora para esta expressão austera: “Aquele que quer salvar sua vida, perdê-la-á" (Lc 9,24). A meditação da Paixão de Jesus e das Dores de Maria nos é penosa e difícil. Preferimos ler as páginas gloriosas da Ressurreição, da Ascensão, do Triunfo, deslembrados de que se quisermos ser glorificados com Jesus Cristo é preciso primeiro que morramos com Ele. Penetremos em nossa consciência, tenhamos neste momento a coragem cristã de um exame sincero de nossa vida. Não experimentamos a confusão de ser “membros delicados de um Mestre Crucificado”?


PONTO III
CONTEMPLAÇÃO DE MARIA

Nossa Senhora nos faz compreender, ao contrário, quanto nos devemos esquecer de nós mesmos, por amor a Deus, por amor a nosso próximo. Ela se entregou inteiramente à vontade do Senhor: "Faça-se em mim, segundo a tua palavra” (Lc 1,38). E por amor aos homens também, consentiu na imolação
do meigo Fruto de suas entranhas... Busquemos Maria. É o caminho de retorno a Deus: “Maria não foi feita senão para Deus". Muito ao invés de deter alguém que se lhe confia, Ela o projeta em Deus, une-o ao Senhor com perfeição proporcionada à generosidade dessa entrega (Segredo de Maria, 25}.
A Mãe dos homens ensina com seu exemplo a renúncia aos próprios direitos, em favor do próximo. Amando-a, sentir-nos-emos levados a dedicar- nos igualmente a nossos irmãos, a esquecer nossos direitos para nos lembrar dos nossos deveres... felizes de imitar nossa renúncia a Nossa Mãe terníssima a cujo manto se acolhem todos os pequeninos, todos filhos de seu amor, todos nossos irmãos...
Ainda, Nossa Senhora nos ensina a virilidade cristã em face do sofrimento. "Ela nos faz morrer à vida do homem velho. Ela nos despoja de nossas inclinações naturais, do amor próprio, da própria vontade, de qualquer apego à criatura" (T.V.D.). E destarte nos dispõe a tomar parte em sua Compaixão dolorosíssima, a recolher sobre nossos corações as suas lágrimas de amor e de dor. Ah! Como a Verdadeira Devoção a Maria nos vai ensinar a via certa dos nossos destinos!

COLÓQUIO

Maria, Guarda fidelíssima de minha alma, lanço-me em vosso regaço, a nimplorar vosso compassivo olhar. Como celestial Rebeca a vosso Jacó pequenino e amoroso, despojai-me de mim mesmo, de meu orgulho e de minha sensualidade. Revesti-me de Jesus, para que eu aprenda a amar a Deus, a devotar-me a meu próximo. Alentai-me, Mãe das Dores e confortai meu coração, no incêndio de caridade do vosso Coração Imaculado. E que eu aceite morrer sempre a mim mesmo, dócil a todas as vossas suaves austeridades para comigo, no aprendizado da virtude. Preparai-me à Consagração que vos quero jurar, de tudo o que tenho e de quanto sou, encaminhando meus passos na vereda das virtudes difíceis para minha pobre natureza. Vosso amor me assista e me oriente com segurança para Jesus.


RAMILHETE

“Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e Siga-Me" (Mt 16,24).


SANTO EVANGELHO (Jo 13,21-35)
JUDAS E O MANDAMENTO NOVO

Tendo dito estas palavras, turbou-se-lhe o Espírito, protestou e disse: em verdade Eu vos digo: um de vós me há de trair. Olhavam pois os discípulos, uns para os outros, na dúvida sobre quem falava Ele. Ora, um dos seus discípulos, ao qual Jesus amava, estava recostado à mesa, no peito de Jesus. A este fez Símão Pedro um sinal e disse-lhe: De quem é que Ele fala? Tendo então reclinado sobre o peito de Jesus, perguntou-Lhe; Senhor, quem é? Respondeu-lhe Jesus: É aquele a quem Eu der o pão molhado. E tendo Jesus molhado o pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E atrás do bocado entrou nele satanás. Disse-lhe Jesus; O que fazes, faze-o depressa. Nenhum porém, dos que estavam à mesa percebeu a que propósito Ele lhe dizia isto porque alguns, visto como Judas era quem levava a bolsa, cuidavam que lhe dissera Jesus: Compra o que havemos mister para o dia da festa; ou que
desse alguma coisa aos pobres. Tendo pois Judas recebido o bocado, saiu logo para fora. E era noite.
E depois que ele saiu, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do Homem e Deus é glorificado Nele. Se Deus é glorificado Nele, também a Ele o glorificará Deus em si mesmo; e glorificá-Lo-á logo. Filhinhos, ainda estou convosco um pouco. Buscar-me-eis. E como Eu disse aos Judeus; vós não podeis vir para onde Eu vou; repito-o também agora. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis, uns aos outros assim com Eu vos amei, para que vós também mutuamente vos ameis. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L I. cap.6)
OS DESEJOS DESORDENADOS

Todas as vezes que o homem deseja desordenadamente alguma coisa, logo perde o sossego.
O soberbo e o avarento nunca estão sossegados; o pobre e o humilde de Espírito vivem em muita paz.
O homem que não é perfeitamente mortificado em si, bem depressa é tentado e vencido em coisas pequenas e vis.
O fraco de Espírito, e que ainda está inclinado ao que é sensual, com dificuldade se pode desapegar totalmente dos desejos terrenos.
E quando deles se abstém, recebe muitas vezes tristeza; e até se enfada se alguém o contradiz.
Porém, se alcança o que deseja, sente logo pesar sobre si o remorso da consciência porque seguiu seu apetite, o qual de nada lhe aproveitou para alcançar a paz que buscava.
Em resistir pois, às paixões se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las.
Não há paz no coração do homem carnal, nem do que se ocupa das coisas exteriores, mas no do que é fervoroso e espiritual.

Leitura (Montfort, Amour de la Sagesse Etemelte, pág. 112 ss)
CONSEQÜÊNCIAS DO ABANDONO DA SABEDORIA

À Nossa dureza e ingratidão não movem os desejos solícitos, os convites amorosos e testemunhos de amizade desta admirável Sabedoria. Mas se ao invés de ouvi-la lhe fechamos nossos ouvidos; se em lugar de buscá-la nós a fugimos; se, longe de honrá-la e amá-la nós a ofendemos e desprezamos, - que crueldade a nossa, e qual será nosso castigo, mesmo neste mundo!
Diz o Espírito Santo que aqueles que não se preocuparam de achar a Sabedoria, não somente caíram na ignorância do bem, mas ainda deixaram patentes os traços da sua loucura, nem puderam suas faltas permanecer ocultas (Sb 10,8).
Três desgraças, durante a vida, aos que não se preocupam de adquirir a Sabedoria. Eles caem na ignorância e na cegueira; na loucura; no escândalo e no pecado.
Mas, qual será sua infelicidade na morte, quando, malgrado seu horror, eles ouvirem a Sabedoria exprobar-lhes: Eu vos chamei e não quisestes ouvir (Pr 1,24). Estendi-vos os braços largamente, e me desprezastes. Esperei vos, assentada à vossa porta, e não viestes a mim. Agora, por minha vez, rio-me de vós (Pr 1,26). Já não tenho ouvidos para escutar vossos clamores, nem olhos para contemplar vossas lágrimas, nem coração pra enternecer- me de vossos gemidos, nem mãos para vos prestar socorro!
Mas, qual será a desgraça deles no inferno? Lede o que o mesmo Espirito Santo diz das desgraças, dos prantos, do desespero dos insensatos no inferno, e que reconhecem, tarde demais, sua loucura e desgraça por que desprezaram a Sabedoria de Deus. Começam a falar prudentemente, mas no inferno (Sb5,14).
Desejemos, pois, e procuremos unicamente a Divina Sabedoria (Pr 3,15). E logo, todos os tesouros de Deus, todos os dons celestes que anelardes, se não desejais a Sabedoria, suspirais por alguma coisa menor do que Ela. Ah! Se conhecêssemos que tesouro infinito é para os homens a Sabedoria, suspiraríamos, dia e noite, por Ela. Voaríamos velozmente até os confins da terra, passaríamos jubilosamente através de fogos e espadas, se fosse necessário para merecê-la.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Segundo dia da primeira semana (Conhecimento de si mesmo) - Nossos maus hábitos

SEGUNDO DIA 

Meditação - Nossos maus hábitos
PREPARAÇÃO

Os pecados deixaram em nossa alma e em nossa vida terríveis consequências. Enfermidades na inteligência, impando-nos de orgulho ridículo, e tão difícil, todavia, de eliminar. Enfermidades na vontade, mau fermento que corrompe e debilita as nossas tentativas para o exercício das virtudes verdadeiras. É preciso renunciar-nos a nós mesmos e revestir-nos de Maria, a humilde Escrava do Senhor, cheia de todas as graças e dons altíssimos de Deus.

MEDITAÇÃO
Prelúdios

- Qual convalescente de grave doença, debilitado e sem forças, vejo diante de mim a querida figura de Maria estimulando-me gentilmente a aceitar
a cura que Ela me oferece.
- Maria, Enfermeira Celeste de minha alma, ajudai-me a libertar-me dos hábitos maus, triste relíquia dos pecados que nodoaram minha vida.

PONTO I
O ORGULHO DA INTELIGÊNCIA

O pecado original deixou em nossa inteligência uma vulneração de efeitos lastimáveis. Temos dificuldade de entender as coisas de Deus, saber a verdadeira destinação de nossa vida, aceitar a submissão, a docilidade, a obediência a Deus e a seus representantes na terra. E nos inclinamos antes
para as coisas sensíveis, nossa mente como que se entorpece, não sabe ver nas criaturas o Criador, inclina-se a considerar as coisas criadas como finalidade única. Mas, sobretudo, é para nós mesmos que nos orientamos, esquecidos de Deus e de seus direitos, deleitando-nos num amor excessivo e ilegítimo de nós mesmos, na tuteia feroz dos nossos pretensos direitos. E somos soberbos, orgulhosos, cheios de presunção. Não ouvimos nossos irmãos e desprezamos sua colaboração e sua intervenção em nossa vida. E nos parece que a apoucada ciência que adquirimos nos dá direito de afirmar nossas opiniões, impô-las a todos, criticando o próprio piano providencial no governo do mundo... Que cegueira tremenda! Quão pouco nos conhecemos deveras. Humilhemo-nos perante Deus. Sem humildade, nossa inteligência não alcançará nunca seu verdadeiro caminho, seu alimento único, sua glória a recompensa - Deus, a Verdade Suprema!


PONTO II
A DEBILIDADE DA VONTADE

    Ainda mais vulnerada que nossa inteligência, nossa vontade se encontra debilitada em extremo para o exercício das virtudes. Máxime porque, aos pendores que em nós deixou o pecado original acrescentamos inclinações viciosas, fruto dos nossos próprios pecados. E se a falta primeira veio reacender em nossos sentidos a concupiscência que nos inclina para o mal contra os ditames da razão e da Fé, nossos pecados como que trouxeram mais alimento ainda para esse fogo de inferno sempre aceso em nossos sentidos. Como é fraca e imbele nossa força de resistência! Uma triste experiência nos ensina quanto mais facilmente cede nossa vontade à desordem de nossas concupiscências do que aos convites para a elevação difícil das virtudes cristãs...
Como havemos de confiar em nós? Assegurar-nos da perseverança, se ousamos contar com a instabilidade fragÍlima de nossa vontade, que a menor tentação pode atirar no abismo? Não. Não nos iludamos. Reconhecer com humildade ante Deus a miséria de nossas quedas, sem atribuí-las a
circunstâncias exteriores, a tentações irresistíveis, mas confessando-nos pecadores, em extremo perigo de condenar-nos. se Nosso Senhor Jesus Cristo não nos acudir com misericordiosa salvação. Senhor, salva-nos, pois perecemos (Mt 8. 25).


PONTO III
RECURSO A MARIA

    No paraíso, Eva, nossa primeira e infeliz mãe como que anuncia a desgraça de nossa inteligência e de nossa vontade. Porque ela não soube reconhecer a tentação do inimigo, o afastamento de Deus, a ruína que ía induzir sobre todos os seus pobres filhos. E quis sua elevação mentirosa até o trono da Divindade, ouvindo a serpente falar: sereis como deuses (Gn 3, 5). Maria, porém, nossa Mãe verdadeira, porque nos engendra para a vida preciosa da graça e do céu, é nosso remédio e modelo alcandorado. Isenta, por inefável privilégio, da mancha original, plena de graça desde a sua Conceição Imaculada, sua inteligência voa para Deus e se perde na contemplação do infinito. Ela não se detém na consideração de si mesma senão para humilhar-se ante Deus e reconhecer-se sua Escrava: olhou para a baixeza de sua serva (Lc 1, 48).
Compreendido seu dever de elevar-se ao Criador mediante as Criaturas e de tal sorte subiu nessa contemplação que mereceu atingir a mesma Divindade. E foi feita Mãe de Deus e Mãe Nossa. E trouxe sobre todos os seus filhos a reparação da ruina, mercê de seu Primogênito. E nos promete,
com verdade, com humildade, com doce sentimento de afeto maternal, que poderemos deveras “ser como Deus“ pela graça Divina de seu Filho Jesus.
Busquemos Maria, para remédio de nosso orgulho. Ela é a Escrava humilde, que, entretanto todas as gerações hão de bendizer em louvores eternos. Busquemos Maria para medicina de nossa fraqueza. Ela é a Mulher Forte, que pisou a cabeça da serpente infernal. Humildes escravos de amor a Maria, teremos nós também, a glória de vencer o demônio, o subir até Deus.

COLÓQUIO

Mãe bendita e querida, dou-vos graças pela iluminação que me obtendes de Jesus, a fim de que me vá conhecendo sempre mais para me desprezar e desconfiar de mim mesmo. Quanto orguiho e soberba em minha vida! Quanta fraqueza da minha vontade, ainda mesmo quando procuro ocultar-me aos olhos dos outros, e parecer mentirosamente aquilo que não sou! Pois que me preparo para dar-me de todo a vós, Minha Mãe, continuai vosso trabalho de mostrar a meus olhos envergonhados todas as misérias de meu orgulho e de minhas inconfessáveis fraquezas.
Se as relíquias do pecado original turbaram tanto minha mente e assim debilitaram minha vontade, dai-me. Virgem puríssima, a vossa Imaculada Conceição - tão oposta ao pecado original -, para sanar minha inteligência e alentar minhas resoluções de humildade, de perseverança no bem, confiado unicamente na graça onipotente de Jesus Cristo e no carinho abençoado de vosso amparo tutelar!

RAMILHETE

Maria há de mostrar-me o caminho da Sabedoria e conduzir-me nas sendas da Justiça(Pr 4, 11)


SANTO EVANGELHO (Mt 16, 5-12)
O FERMENTO DOS FARISEUS

    Ora, seus discípulos, tendo passado a outra margem do lago, tinham-se esquecido de levar pão. (Jesus) lhes disse: Vede e guardai-vos dos fariseus e dos saduceus. Mas eles discorriam entre si, dizendo: É que não trouxemos pão. Sabendo-o Jesus lhes disse: Homens de pouca fé, porque estais
considerando convosco, por não terdes pão? Ainda não compreendeis, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens, e quantos (foram) os cestos que recolhestes? Q por que não compreendeis que não foi a respeito do pão que eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos Fariseus e dos Saduceus? Então compreenderam que não havia dito se guardassem do fermento dos pães, senão da doutrina dos Fariseus e dos Saduceus.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L 2. c. 5)
DESCONFIAR DE NÓS MESMOS

Não devemos confiar demasiado em nós mesmos, porque muitas vezes nos falta a graça e a discrição.
Pouca luz há em nós, e essa depressa a perdemos por nosso descuido.
Muitas vezes não conhecemos quão cegos estamos.
Muitas vezes também obramos mal, e ainda pior nos desculpamos.
Às vezes move-nos a paixão, e cuidamos que é zelo.
Repreendemos nos outros as faltas pequenas, e desculpamos as nossas, posto que mais graves.
Muito depressa sentimos e agravamos o que sofremos aos outros; mas não advertimos quando os outros nos sofrem a nós.
O que bem e retamente examinar suas obras, não terá que julgar severamente as alheias.
O homem de vida interior, antepõe o cuidado de si mesmo a todos os outros cuidados; e com diligência atende a si; com facilidade se abstém de falar dos outros.
Nunca serás homem de vida interior e devoto, se não calares dos outros e tiveres especial cuidado de ti.
Se de todo te ocupares com Deus e contigo, pouco caso farás do que perceberes fora de ti.
Onde estás quando não estás contigo? De que te aproveitou lembrares-te de tudo, se de ti te esqueceste?
Se queres ter paz e união verdadeira com Deus, deves desprezar tudo o mais, para cuidardes de ti só.
Muito aproveitarás se te despires de todo cuidado terreno. Muito afrouxarás, se alguma coisa temporal tiveres em muito.
Não te pareça coisa alguma alta, nem grande, nem aceita, nem agradável, senão Deus só, e o que for de Deus.
Tem por vã qualquer consolação que te vier da criatura. A alma que deveras ama a Deus despreza tudo o que não é de Deus.
Só Deus, eterno, imenso, e que tudo enche, é a consolação da alma e a verdadeira alegria do coração.


Leitura (Montlort, T.V.D. 173 a 176)
MARIA, PENHOR DE NOSSA PERSEVERANÇA

Esta Devoção à Santíssima Virgem, é meio admirável para perseverar na virtude e ser sempre fiel. Porquanto, de onde vem que a conversão de maior parte dos pecadores não é duradoura? De onde vem que com tanta facilidade se torna a cair no pecado? De onde vem que a maior parte dos
justos, em lugar de adiantar-se de virtude em virtude, e de adquirir novas graças, perdem muitas vezes até o pouco de virtudes e graças que possuíam?
Esta desgraça, vem de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e inconstante, confia em si mesmo, conta com suas próprias forças, e se julga capaz de guardar o tesouro de suas graças, de suas virtudes e de seus merecimentos.
Ora, por esta Devoção , confiamos à Santíssima Virgem tão fiel, tudo o que possuímos; tomamo-la por depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, é em seu poder que nos estejamos, é com sua caridade e misericórdia que contamos, para que Ela consen/e e aumente nossas virtudes e nossos merecimentos, apesar do demônio, do mundo e da carne, que se esforçam de todos os modos para no-los arrebatar. Dizemos-lhe, como um bom filho à sua mãe e como um fiel servo à sua Senhora: Guarda o meu depósito: minha mãe e Senhora, reconheço que, por vossa intercessão, tenho até agora recebido de Deus mais graças do que tenho merecido, e minha triste experiência ensina-me que guardo este tesouro em um vaso muito frágil; sendo demasiadamente fraco e miserável para conservá-lo em mim mesmo, concedei-me esta graça, recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-me por vossa fidelidade e por vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a coberto de meus inimigos.
É o que nos diz São Bernardo em termos formais, para inspirar-nos esta prática. "Quando Maria vos sustenta, não caís; quando vos protege, nada temeis; quando vos conduz, não vos fatigais; quando vos é propícia, chegais ao porto da salvação”. São Boaventura parece ainda dizer o mesmo; "A Santíssima Virgem não só está contida na plenitude dos santos, mas ainda contém e guarda os santos em sua plenitude, para que esta não diminua: impede que se dissipem suas virtudes, que pereçam seus merecimentos, que se percam suas graças, que os prejudique o demônio; impede finalmente que Nosso Senhor Jesus Cristo os castigue, quando pecam".
Maria Santíssima é a Virgem fiel. que por sua fidelidade a Deus repara as perdas causadas pela infidelidade da infiel Eva, e que alcança a fidelidade de Deus e a perseverança àqueles e àquelas que a Ela se prendem. É por isto que um santo a compara a uma âncora firme, que os retém e impede de naufragar no mar agitado deste mundo, onde perecem tantas pessoas por se não terem prendido a Maria Santíssima. “Ligamo-nos à vossa esperança como a uma âncora firme”, é a Ela que os santos mais se agarraram e prenderam os outros, a fim de perseverar na virtude. Bem-aventurados pois e mil vezes bem-aventurados os cristãos que agora se agarram a Ela liei ç inteiramente, como a uma âncora firme e segura! Os esforços da tempestade deste mundo não os poderão submergir nem fazer que percam seus celestes tesouros. Bem-aventurados aqueles e aquelas que nela entram como na arca
de Noé! As águas do dilúvio dos pecados, que afogam tanta gente, não lhe farão mal algum, porque; Aqueles que estão em mim, não hão de pecar, diz Ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos fiéis da infeliz Eva, que se agarram a Maria, à Virgem que permanece sempre fiel e nunca se contradiz; e que ama sempre aqueles que a amam, não só com um amor afetivo, mas com um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por sua grande abundância de graças, de retroceder na virtude e de cair no meio do caminho, perdendo a graça de seu Filho.
Essa boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo o que lhe damos em depósito; e, uma vez que o recebeu a título de depositária, está obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a no-lo consentir, da mesma forma que uma pessoa, em cujas mãos eu tivesse depositado dinheiro, teria obrigação de guardá-lo, de maneira que. se viesse a perdè-lo, mesmo por negligência, seria em toda a justiça responsável por ele. Maria, porém, não deixará que se perca o que lhe confiamos; mais depressa o céu e a terra passariam do que Ela seria negligente e infiel para com os que nela confiam.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Primeiro dia da primeira semana (Conhecimento de si mesmo) - O pecado em nossa vida espiritual


PRIMEIRA SEMANA
(Conhecimento de Si Mesmo)


"Durante a primeira semana dirigirão todas as orações e atos de piedade para alcançar o conhecimento de si mesmos e a contrição dos próprios pecados, tudo fazendo em espírito de humildade" (T.V.D.).
Este período não é a repetição dos doze dias preliminares. Aqui nos concentraremos melhor sobre nós mesmos; depois de fugir ao espírito do mundo, orientaremos nosso esforço à conquista da humildade, virtude absolutamente fundamental da vida cristã, e portanto, com maioria de razão, de todo indispensável aos que almejam pertencer a Nossa Senhora em estado de perfeição mais elevada.
Ademais, queremos ir a Jesus por Maria, a quem consideramos Caminho seguro, curto e suave. Ora, para nos convencermos eficazmente da
necessidade de buscar esta Via Imaculada, nada melhor do que nos inteirarmos profundamente da imensidade de nossa própria miséria e triste condição, tão afastada da grandeza de Deus.
Este exame, enfim, tão penoso para nós, será suavizado por Nossa Senhora, que ameigará, com seu carinho materno, a miséria de nossos pecados, a fim de que não cheguemos aos extremos de irritação contra nós mesmos nem aos desânimos do desespero, mas antes alcancemos a doce paz prometida aos humildes de coração.

ORAÇÕES PARA CADA DIA

Ladainha do Espírito Santo
Ladainha de Nossa Senhora
Saudação a Nossa Senhora


PRIMEIRO DIA (13)
Meditação > O pecado em nossa vida espiritual
PREPARAÇÃO

Elevados às maiores honras pela graça sobrenatural do Batismo, nósnos esquecemos da nobreza dessa linhagem Divina e degeneramos dela. com os nossos pecados. É preciso conhecer a própria miséria, renunciar-nos. E escolher dentre as devoções a Nossa Senhora aquela que nos leve a morrer para nós mesmos, para vivermos em Jesus Cristo e nos salvarmos.

MEDITAÇÃO
Prelúdios

- Represento-me cheio de feridas repelentes e dolorosas. Maria, ao meu lado, estende as mãos para curar minhas chagas.
- Minha Mãe, suave Enfermeira de minhas misérias e dores, ensinai- me a aceitar o tratamento que minha natureza quer repelir, mas que me há de levar a vosso imaculado regaço.


PONTO I
OS NOSSOS PECADOS (Cfr. T.V.D.)

Nossas melhores ações são, de ordinário, manchadas e corrompidas pelo egoísmo que há em nós. Quando se coloca água limpa e clara em um vaso sujo, ou vinho num recipiente azedado por outro vinho, a água pura e o bom vinho se estragam e tomam o mau odor das vasilhas. Assim também quando Deus coloca no vaso de nosso coração, estragado pelo pecado original e atual, suas graças e orvalhos celestes ou o vinho delicioso de seu amor, seus dons são, de ordinário, estragados e manchados pelo mau fermento e fundo perverso que o pecado deixou em nós. E nossas boas ações, mesmo as sublimes, disso se ressentem. Cumpre, logo que nos libertemos de tudo quanto há de mau em nós. De outra sorte, o Senhor, que é infinitamente puro e que detesta soberanamente toda a nódoa, nos lançará de si e não se unirá a nós.
Procuremos pois, conhecer, à luz do Divino Espírito Santo, nosso fundo egoísta, nossa incapacidade para o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância, nossa indignidade de toda graça, nossa iniquidade em todo lugar. O pecado original nos estragou e corrompeu como um fermento mau que corrompe toda a massa. Os pecados atuais que cometemos, mortais ou veniais, perdoados ou não, ainda aumentaram a nossa concupiscência, fraqueza e inconstância e corrupção, deixando em nós tristes vestígios.


PONTO II
NECESSIDADE DE RENUNCIAR-NOS

Assim, havemos de nos renunciar inteiramente. Ao nosso corpo, porque, marcado pelo pecado original, ele é chamado pelo Espírito Santo corpo de pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, somente capaz de pecar, exposto a mil doenças, dia-a-dia sujeito à corrupção, viveiro de enfermidades, de vermes, de morte.
À nossa alma, porque, unida a nosso corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada carne: “tendo toda a carne corrompido seu caminho" (Gn 6,12). Por partilha temos somente a soberba e cegueira do Espírito, o endurecimento do coração, a fraqueza e inconstância da alma, a concupiscência, as paixões revoltadas e as doenças no corpo. Como os animais vis e repelentes, nós somos propensos à lama, invejosos, gulosos, coléricos, preguiçosos, fracos e inconstantes. E nos devemos admirar se nos afirma Jesus que aquele que O quer seguir deve renunciar a si mesmo, odiar sua alma; que aquele que ama sua Alma, perdê-la-á e o que a odeia a salvará? A Sabedoria infinita não nos diz que nos odiemos senão porque sabe quanto somos dignos de ódio. Nada tão digno de amor como Deus, nada tão digno de ódio como nós mesmos.
Havemos de renunciar também às operações de nosso corpo e de nossa alma. Morrer lodos os dias a nós mesmos. Ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se delas não nos servíssemos. A isto chamava São Paulo morrer todos os dias (1 Cor 13,31)
Sem esta renúncia necessária, ser-nos-á impossível viver para Deus.


PONTO II
A DEVOÇÃO A MARIA NOS LEVA
A MORTE DE NÓS MESMOS


A melhor e mais santificadora dentre todas as devoções a Nossa Senhora será, conseqüentemente, a que mais eficazmente nos levar a essa renúncia de nós mesmos e de morte ao nosso egoísmo.
Será a que nos ensina a cumprir a palavra do Evangelho: Se o grão de fermento, caindo na terra, não morrer, ficará sozinho (Jo 12,24). Se, pois, hão morrermos a nós mesmos, e se nossas devoções ainda as mais santas não nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não produziremos fruto nenhum que tenha valor, serão inúteis nossas devoções, todas as nossas obras de justiça serão manchadas por nosso egoísmo e vontade desorientada,
O que fará a Deus voltar sua face aos maiores sacrifícios e mais notáveis ações que possamos realizar. E na hora de nossa morte, nos encontraremos vazios de virtudes e de méritos, não possuindo nem uma fagulha do puro amor que se não comunica senão às almas humildes e cuja vida está oculta com Cristo em Deus (Cl 3,3).
    Todavia, assim como a natureza tem segredos para levar a cabo em pouco tempo, com facilidade e pequeno esforço certas operações naturais, da mesma sorte há segredos na ordem da graça para fazer em pouco tempo, com doçura e facilidade operações sobrenaturais, renunciar-se inteiramente a si mesmo, replenar-se de Deus e atingir a santidade. A prática da escravidão de amor a Nossa Senhora, obrigando-nos a essa renúncia e morte salutares, entregando-nos inteiramente a Maria para que Ela nos afeiçoe à imitação de Jesus, será nossa doce garantia e celeste penhor de santidade.


COLÓQUIO

Mãe Imaculada, tenho os olhos cheios de lágrimas de dor, de contrição e de vergonha de meus pecados! Como me sinto mesquinho e repelente a vossos olhares! Meus pecados me fazem objeto de ódio. Mas vossa bondade me desvela como um objeto de amor! Quero, minha Mãe, entregar-me a
vossos cuidados. Tornai-me puro aos olhos de Jesus, inteiramente despojado de mim mesmo, e ornado suavemente com as jóias de vossa Imaculada Conceição! Aceito o vosso serviço, para que renunciando de todo às minhas misérias possa revestir-me das riquezas de Jesus Cristo.

RAMILHETE

Virgem singular, entre todas suavíssima, libertai-nos de nossas culpas, revesti-nos de vossas virtudes.


SANTO EVANGELHO (Mt 3. 1-12)
PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA

Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizendo; Fazei penitência, porque se aproxima o Reino dos Céus. Porquanto é este de quem falou o profeta Isaías dizendo: preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas. Ora, o mesmo João tinha uma veste de peles de camelo e uma cinta de couro, em tomo dos seus rins; e eram seu alimento gafanhotos e mel silvestre. Então vinha a ter com ele Jerusalém e toda Judéia, e toda a circunvizinhança do Jordão. E confessando os seus pecados, eram por ele batizados no Jordão. Mas vendo que muitos dos Fariseus e dos Saduceus vinham ao seu Batismo, disse-lhes: raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Fazei, pois, dignos frutos de penitência. E não queirais dizer convosco; temos por pai a Abraão; Porque eu vos digo que poderoso é Deus para fazer destas pedras nasçam filhos de Abraão. Porque já o machado está posto à raiz das árvores. Toda árvore, pois, que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu, na verdade, vos batizo em água para (vos trazer à) penitência; porém Aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de Lhe desatar o calçado; Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. Nas suas mãos tem Ele a sua pá, e limpará muito bem a sua eira, e recolherá o seu trigo no celeiro, e as palhas queimá-las-ás num fogo inextinguível.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L I, c. 21,1.4 ex 5)
O CULTIVO DO TEMOR DE DEUS

Se queres fazer algum progresso, consen/a-te no temor de Deus, e não queiras ser demasiadamente livre; mas com serenidade refreia todos os teus sentidos, e não te deixes levar de vã alegria.
Dá-te à compunção do coração e acharás Devoção. A compunção causa muitos bens, que a dissipação costuma perder em breve.
É para admirar que o homem possa alegrar-se alguma vez perfeitamente nesta vida considerando-a como um desterro, e pensando nos muitos perigos de sua alma...
Conhece que és indigno da consolação Divina, e merecedor de muitas tribulações.
Quando o Homem tem perfeita compunção, logo lhe é pesado e amargo todo o mundo.
O justo acha sempre matéria bastante para afligir-se e chorar; porque, ou se considere a si mesmo, ou pense em seu próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações.
E quando mais atentamente se considera, tanto mais profunda é sua dor.
Matéria de justa dor e estranhável compunção são os nossos pecados e vícios, aos quais tão miseravelmente estamos presos que raramente podemos contemplar as coisas do céu.
Se mais amiúde pensasses em tua morte que em viver largo tempo, não duvido que te emendaria com mais fervor.
Se também de todo o coração pensaras nas penas futuras do inferno ou do purgatório, creio que de bom grado sofrerias qualquer trabalho e dor, e não temerias nenhuma austeridade; porém, como estas coisas nos não entram no coração, e amamos sempre o regalo, ficamos frios e preguiçosos.



LEITURA (Montfort, Amour de la Sagesse Etemelle, pág. 78 ss)
DESGRAÇA DO HOMEM AO PERDER A SABEDORIA

A onipotência e doçura da Eterna Sabedoria brilharam na Criação, na beleza e ordem do universo, mas muito mais na formação do homem. Ele é a obra prima da Sabedoria, imagem viva de sua beleza e perfeições,receptáculo de suas graças, tesouro admirável de suas riquezas, substituto
de Deus na terra (Sb 9, 2).
Para glória desta bela e poderosa Artífice, seria mister aqui explicar a beleza e excelência originárias que Dela recebeu o homem, em sua criação. Mas o pecado que ele perpetrou, e cujas trevas se estenderam até mim, de tal sorte me obscureceram o entendimento que delas não posso falar senão
de maneira muito imperfeita.
A Sabedoria fez, por assim dizer, cópias e expressões luminosas do seu entendimento, de sua memória, de sua vontade, e deu-as ao homem, para que fosse vivo retrato da Divindade. Acendeu-lhe no coração um incêndio de puro amor de Deus, formou-lhe um corpo luminoso, e nele encerrou como em um compêndio, as diversas perfeições dos anjos, dos animais e das outras criaturas.
Tudo no homem era sem trevas, beleza sem defeito, pureza sem nódoa, ordem sem desvios, nenhuma imperfeição, mancha alguma. Por apanágio, tinha a luz da Sabedoria no Espírito, e conhecia perfeitamente seu Criador e as criaturas. Com a graça de Deus na alma, era inocente e agradável aos olhos do Altíssimo. No seu corpo, a imortalidade. O puro amor de Deus no coração, sem temor da morte, amava a Deus puramente, por amor Dele mesmo. Era enfim, tão Divino, que vivia constantemente fora de si, transportado em Deus, sem nenhuma paixão que combater, sem nenhum inimigo que vencer. Ó liberalidade da Sabedoria Eterna para com o homem!
Ó venturoso estado de inocência!
Mas, aí, desgraça das desgraças! Eis que este vaso Divino se parte em mil pedaços. A linda estrela caí. O belo sol se cobre de lama. O homem peca, e em seu pecado, perde a Sabedoria, a inocência, a beleza, a imortalidade. Perde todos os bens que recebera e é avassalado por uma onda de males. Agora tem o Espírito entenebrecido e nada vê. O coração gélido em face de Deus, já não O ama. A alma negra de pecados; as paixões desordenadas. É atacado pelas criaturas, que lhe movem guerra. Eis o homem, num instante tornado o escravo dos demônios, objeto da cólera de Deus, vítima dos infernos!
A si mesmo se vê tão horrendo que vai ocultar-se de vergonha. É um maldito, condenado à morte. Expulso do paraíso terrestre, sem lugar no céu, vai levar, sem esperança de ventura, uma vida infeliz sobre a terra amaldiçoada. Morrer como criminoso, e depois da morte, ser condenado, como os demônios, ele e todos os seus filhos!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Décimo segundo dia (12 dias preliminares) - As promessas do Batismo

Meditação - As promessas do Batismo
PREPARAÇÃO

     Chegamos ao último dia deste período preliminar, em que nos esforçamos por libertar-nos do espírito do mundo e do egoísmo. Após as meditações sobre as diferenças profundas entre o espírito mundano e o de Jesus Cristo aplicadas à vida e aos novíssimos, meditemos um último argumento para nos afastarmos de tudo quanto nos impede de chegar ao Senhor. É a consideração do juramento que fizemos, logo ao iniciar nossa vida, de renúncia ao demônio, às suas pompas e obras, concretizadas no espirito do mundo. Não sejamos pequros. O Batismo nos introduziu na Igreja. A fidelidade às promessas que então juramos e renovamos depois nos levará para o Céu.

MEDITAÇÃO

Prelúdios

- Em nosso Batismo, Maria, representada pela nossa madrinha, jura por nós a renúncia a satã, às suas obras e às suas pompas.
- Mãe verdadeira de minha vida sobrenatural, Maria, querida Madrinha de meu Batismo e doce Anjo de minha Primeira Eucaristia, fazei-me fiel aos sagrados juramentos que me consagraram irremissivelmente a Nosso Senhor Jesus Cristo.

PONTO I
A RENÚNCIA ÀS OBRAS E POMPAS DE SATANÁS

     Ao entrarmos na Igreja de Jesus Cristo, pela porta lustral do Batismo, pedimos a Fé, para a vida eterna. E, solícita, a Igreja nos explicou que a Fé que leva à vida eterna é operosa e observa os mandamentos divinos. Nem nos admitiu ao santo sacramento, sem que antes tivéssemos jurado nossas renúncias “a satã, suas pompas e suas obras". Mais tarde, quando, iluminada já a nossa razão nos enchíamos de auroras do céu, no dia da nossa Primeira Eucaristia, de novo pediu-nos a Igreja o mesmo juramento. Para que por nossos lábios, fizéssemos o que no Batismo por nós prometeram nossos padrinhos. Ora, as obras e pompas de satanás, são o espírito do mundo, contrário ao Espírito de Jesus Cristo. E pois, além de todas as razões que temos de odiar o século, acrescenta-se mais esta, de nosso juramento, em troca das inefáveis graças do Batismo e da Primeira Eucaristia. Entre as grandes graças de nossa vida, contaremos também a nossa Consagração total a Maria. Tal favor reclama igualmente uma jurada renovação de nossas ablução batismal, porquanto, Maria é a inimiga do demônio, “porei inimizade entre ti Mulher”. Escravos de amor de Nossa Senhora, seremos ainda mais seus filhos sua progênie. Mas a raça eleita da Mulher bendita, é adversária inconciliável dos filhos da serpente (Gn 3,15).

PONTO II

A PROMESSA DE ADESÃO A JESUS CRISTO

     Nosso juramento não foi negativo apenas. Mas prometemos também inviolável fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo. Na mesma hora celeste de nossa ablução batismal, a Igreja nos pediu a fé operosa em Deus Pai, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica e nos seus dogmas
infalíveis. De novo afirmamos nosso Credo, e recebemos então o sacramento de nossa regeneração espiritual. Nem nos afastáramos ainda, quando o sacerdote nos revestiu de branco, anelando que assim comparecêssemos ante o tribunal de Cristo, e nos colocou nas mãos a vela ardente para que,
observando os mandamentos de Deus, pudéssemos ir ao encontro do Esposo, na hora Divina das Núpcias eternas. Para nossa felicidade. Deus entornou profundamente em nós a sua Graça Divina, incorporando-nos a Jesus Cristo, membros de seu Corpo Místico... Mas Jesus Cristo é primariamente a “Progênie da Mulher”, que havia de esmagar a cabeça da serpente. Unidos a Jesus, feitos seus membros, nós nos integramos nessa Divina progênie, nós nos constituímos também filhos de Maria.
Temos observado a fidelidade que juramos a Jesus Cristo? Temos sido dignos de Nossa Mãe Imaculada, tão intimamente unida a seu Filho?

PONTO III
A CONSAGRAÇÃO A MARIA
E AS PROMESSAS DO BATISMO

Toda a Devoção Verdadeira deve unir-nos a Deus, afastando-nos do mal. E precisamente o que vamos realizar em nossa Consagração a Maria. Porque, mediante Nossa Mãe e pelo seu Coração Imaculado, renovamos as promessas é o nosso Batismo, reiterando nossa aversão ao pecado e a satã, e dando-
nos de todo a Jesus, Deus encarnado. Se em nosso Batismo, Maria, ao nosso lado, como verdadeira e meiga Madrinha nossa, recebeu as promessas e juramentos; se em nossa Primeira Eucaristia, como Anjo querido daquela festa de amor, formou em nossos lábios as renovadas juras de ódio ao pecado e entrega a seu Filho, Hóspede de nosso coração, - com que especial carinho há de ouvir nossas palavras de Consagração inteira e total a Jesus, a Sabedoria Encarnada!
Porque não serão apenas promessas que outros fazem em nosso nome.
Nem palavras ainda esmaecidas pelas inconstâncias de juvenis adolescências.

Mas um juramento novo, bem nosso, do íntimo profundo do nosso ser, após reflexão consciente e meditações prolongadas... Um ato em que colocaremos deveras, toda a nossa personalidade, escravizando-nos, sem reservas e sem atenuantes, a seu amor, para serviço eterno de Jesus!


COLÓQUIO

Maria, Mãe tão amada, é tão doce evocar as graças inefáveis do Batismo e da Primeira Eucaristia! Dai-me, entretanto, que juntamente eu me lembre de meus sagrados compromissos. A fim de que não seja um pérfido traidor de juramentos tão solenes... E se até hoje não tenho vivido as promessas de meu Batismo, renovadas em minha Primeira Eucaristia, a lembrança da
Consagração total que farei a vós, venha avivar a determinação de fugir, todos os dias, ao espírito do mundo e do demônio, para me dar inteiramente a Jesus Cristo, por vós. Madrinha de meu Batismo, ensinai-me os meus deveres. Dai-me o presente continuado da Graça que me faz filho de Deus. Anjo de minha Primeira Eucaristia, conservai minha alma com alvura das minhas vestes e do meu coração, naquela manhã lirial... E serei, dignamente vosso escravo de amor, para melhor ser vosso filho.

RAMILHETE

O caminho para a Vida eterna é a observância dos mandamentos.

SANTO EVANGELHO (Mt 25, 1-13)
AS VIRGENS PRUDENTES E AS VIRGENS LOUCAS

Então será semelhante o Reino do Céu a dez virgens, que tomando suas lâmpadas, saíram a receber o esposo e a esposa. Mas cinco dentre elas eram loucas, e cinco prudentes. As cinco loucas, ao tomar suas lâmpadas, não levaram consigo o azeite. Mas as prudentes levaram azeite nas suas vasilhas, juntamente com as lâmpadas. E tardando o esposo, começaram todas a dormitar e se entregaram ao sono. Quando, à meia noite, se ouviu gritar: Eis, vem o esposo, saí a recebê-io; então se levantaram todas aquelas virgens, e prepararam as suas lâmpadas. E as loucas disseram às prudentes:
Dai-nos do vosso azeite, porque se nos extinguiram as lâmpadas. Responderam as prudentes, dizendo: Para que talvez não suceda faltar-nos ele a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai o de que haveis mister. E enquanto elas o foram comprar, veio o esposo; e as que estavam apercebidas, entraram com ele a celebrar as bodas e fechou-se a porta. Pox fim, vieram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.
Mas ele respondendo, lhes disse. Na verdade vos digo que não vos conheço. Vigiai, pois, não sabeis o dia nem a hora.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L I. c. XXV, 1,4,6)
FERVOROSA EMENDA DE NOSSA VIDA

Sê vigilante e diligente, no serviço de Deus, e pensa amiúde para que vieste e porque deixaste o mundo.
Não é por ventura com o fim de viver para Deus e ser homem espiritual? Corre, pois com fervor à perfeição, que depressa receberás o galardão de teus trabalhos, e não haverá daí para diante temor nem dor para ti.
Agora trabalharás um pouco, e acharás depois grande descanso e perpétua alegria.
Se permaneceres fiel e fervoroso em operar. Deus sem dúvida será fidelíssimo e liberalíssimo em retribuir.
Porém, nem todos têm igual ânimo para vencer-se e mortificar-se. Mas 0 diligente e zeloso imitador de Cristo mais forte será para o seu aproveitamento, ainda que seja combatido de muitas paixões, do que o que tem dom natural, se é menos fervoroso em adquirir as virtudes.
Duas coisas especialmente ajudam muito a nossa emenda: apartar-se com violência de tudo aquilo para que mais pende a natureza e trabalhar com fervor por adquirir a virtude de que mais se necessita.
Lembra-te do propósito que tomaste, e propõe-te por modelo a Cristo Crucificado.
Com razão te podes envergonhar, considerando a vida de Jesus Cristo, de não ter feito até aqui bastante esforço para te conformares com ela, estando há tanto tempo no caminho de Deus.
Oh! Se viesse a nosso coração Jesus Crucificado, quão depressa e completamente seríamos ensinados!


LEITURA (Montfort, T.V.D. rt» 126,127,128,129,130)
A VERDADEIRA DEVOÇÃO,
RENOVAÇÃO DOS VOTOS DO BATISMO

Disse que esta Devoção pode ser chamada com muita justiça uma perfeita renovação dos votos ou promessas do Batismo. Porque todo o cristão, antes do Batismo, era escravo do demônio, pois lhe pertencia; porém, no Batismo, ou por si mesmo ou por seus padrinhos, renunciou solenemente a satanás, suas pompas e suas obras, tomou a Jesus Cristo por Mestre e soberano Senhor, para dele depender como escravo de amor. Ora, é isto justamente o que fazemos pela presente Devoção: renunciamos (como se pode ver na fórmula de Consagração) ao demônio, ao mundo, ao pecado e a nós mesmos, para darmo-nos inteiramente a Jesus Cristo, pelas mãos de Maria Santíssima. E até fazemos mais, pois que, no Batismo, falamos geralmente por boca de outrem, isto é, pelo padrinho e  pela madrinha, e só por procuração nos damos a Jesus Cristo; nesta Devoção, porém, fazemos tudo isto por nós mesmos, voluntariamente e com conhecimento de causa.
No Batismo não nos damos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria Santíssima, de um modo expresso, pelo menos; e não damos a Jesus Cristo o valor de nossas boas ações: ficamos, depois do Batismo, inteiramente livres de aplicá-lo a quem quisermos ou de guardá-lo para nós; por esta Devoção, porém, damo-nos expressamente a Jesus, pelas mãos de Maria Santíssima, e a Ele consagramos o valor de todas as nossas boas obras.
Os homens, diz Santo Tomás, fazem voto, no Batismo, de renunciar ao demônio e às suas pompas. E este voto. diz Santo Agostinho, é o maior e o mais indispensável. É o que dizem também os canonistas: o maior voto é o que fazemos no Batismo. Quem, entretanto, observa esse voto tão importante?
Quem cumpre fielmente as promessas do Batismo? Não é verdade que quase todos os cristãos são traidores à fé prometida a Jesus Cristo no Batismo? De onde pode vir esta desordem, senão do esquecimento em que se vive das promessas que se fizeram e dos compromissos que se tomaram então, e de ninguém ratificar por si mesmo o contrato de aliança que, em seu nome, fizeram com Deus seu padrinho e sua madrinha? Isto é tão verdadeiro que o Concílio de Sens, convocado por ordem de Luís e Clemente, para dar remédio às grandes desordens que dominavam o reino, considerou como principal causa dessa corrupção dos costumes o esquecimento e a ignorância em que se vivia das promessas do Batismo; e não achou melhor meio de remediar a tão grande mal que induzir os cristãos a renovar os votos do Santo Batismo.
O catecismo do Concílio de Trento, fiel intérprete desse santo Concílio, exorta os párocos a adotarem essa mesma prática e a recordarem comfrequência aos fiéis que são ligados e consagrados a Nosso Senhor Jesus Cristo, como escravos a seu Redentor e Senhor(Cat. Cons. Trid. Part 1, C. 3,2. §15).
Ora, se os Concílios, os padres e a própria experiência nos mostram que o melhor meio para dar remédio às desordens dos cristãos é fazê-los lembrar as obrigações do Batismo e levá-los a renovar os votos que então fizeram, não é racional fazê-lo atualmente de um modo perfeito, consagrando-se inteiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo por sua Santa Mãe? Digo de um modo perfeito, porque, para nos consagrarmos a Jesus Cristo, nos servimos do mais perfeito de todos os meios, que é a Santíssima Virgem.

domingo, 17 de setembro de 2017

Décimo primeiro dia preparatório (12 dias preliminares) - O Paraíso

DÉCIMO PRIMEIRO DIA (11)

Meditação - O Paraíso
PREPARAÇÃO

Se a escravidão ao mundo e ao demônio leva para o inferno, a suave escravidão de amor a Maria conduz ao céu. Esta meditação, baseada em nossa fé, enriquece a nossa esperança e inflama nosso amor a Deus e a Nossa Senhora. Além do gozo nosso próprio no céu, seremos bem- aventurados com a felicidade dos herdeiros da mesma glória, e sobretudo com a dita incomparável da visão de Deus e de Nossa Senhora.


MEDITAÇÃO


Prelúdios
- No esplendor glorioso da Jerusalém celeste, Maria com incomparável magnificência de Rainha, vai introduzir-me ante a face de Deus.
- Minha Mãe, rogai a Jesus que me conceda o amor de seu Paraíso, para que eu possa achar-me um dia no paraíso de seu Amor.


PONTO I
MINHA BEM-AVENTURANÇA NO CÉU

A felicidade é a soma de todos os bens, com a remoção de todos os males. Nenhum mal no céu. Nem do corpo, nem da alma, nem da parte dos homens, ou da natureza, ou dos demônios inimigos, nem de espécie alguma.
Nenhum receto, nenhuma trepidação, nenhuma expectativa ansiosa. Porque todas essas coisas já passaram... (Apc 21, 5). A soma abençoada de todos os bens.
Bens do corpo, agora impassível, sem saudade dos antigos sofrimentos; sutil, inteiramente sujeito à alma espiritualizado; ágil, desconhecendo o peso dos anos e o torpor dos achaques, dominando todo o universo criado; luminoso, em si recebendo por via de redundância toda a glória que premeia na alma.
Bens da alma, com a ciência perfeita na mente; firmeza no bem, na vontade; tudo querendo e amando em Deus, ornada dos dotes magníficos da visão, contemplando a Deus; da compreensão, possuindo o Sumo Bem; da fruição, amando-o como se pode amar no céu...
Mas tudo isso que me ensina a Sagrada Teologia não é senão notícia muito apagada da bendita realidade; "Nenhum olho jamais viu, nenhum ouvido jamais ouviu, nenhuma inteligência nunca pode escrutar o que Deus prepara para os que O amam" {1 Cor 2, 9).


PONTO II
A FELICIDADE SOCIAL NO CÉU

Indivíduos de uma só e mesma natureza humana, no Paraíso não seríamos de todo felizes se estivéssemos inteiramente sós. Mas não será assim. A companhia dos santos, dos anjos, dos nossos queridos, dos que nos deveram sua salvação, há de aumentar ainda mais nossa felicidade.
A recompensa de nosso amor e dedicação, talvez heróica e martirizada aos irmãos carentes, sofredores, humilhados e oprimidos, agora herdeiros conosco da mesma luminosa recompensa!
Saberemos, - com que enternecimento! - o que devemos aos outros, na ordem da graça, o que os outros a nós também deveram. Esse conhecimento por certo será das mais delicadas venturas da Pátria.
Jesus descreve o céu ccmo uma sociedade, a Casa do Pai, onde há muitas moradas, um grande banquete de inúmeros convidados, uma cidade, um Reino de inefável amor...
Nossa alegria ao reencontrarmos nossos caros, nossos santos de predileção, nosso Anjo da Guarda, que nos saudará com um ósculo de luz à entrada de nossa eternidade...
E sobretudo, que há de ser nosso encontro com Maria, nossa Mãe, nossa amantíssima Senhora, cujos escravos de amor nos gloriamos de ser? Que êxtase vê-la, saudá-la, receber seus carinhos... se é tão doce lembrar-nos Dela nas trevas do desterro, que há de ser estreitá-la na intimidade da Pátria?


PONTO III
A FELICIDADE ESSENCIAL DO PARAÍSO

Os dotes de nosso corpo, ressuscitado em transfigurações; as qualidades de nossa alma, iluminada de exaltação; a ventura coletiva dos bem- aventurados habitantes da Jerusalém Celeste, todavia são apenas a felicidade acidental do Paraíso.
Nossa Senhora há de conduzir-me a Jesus, a Deus!
E nos deslumbraremos com a visão eterna da Santíssima Trindade...
Nessa visão face a face da Suma Verdade, conhecendo Deus como Ele nos conhece (1 Cor 13,12), na posse amorosa do Bem Supremo, por quanto o amor é eterno, no gozo e louvor do Dom Inefável (Jo 16, 22), gozo que jamais ninguém nos poderá arrancar, vai consistir toda a nossa ventura eterna.
Repousaremos, contemplaremos, amaremos, louvaremos(Santo Agostinho: De Civit. Dei. XXII, 30)...
E tudo em nós será plenamente saciado. Todas as nossas capacidades, todos os nossos anelos, superando a magnificência do nosso Deus quanto pudéssemos imaginar de bom, de amável, de deleiloso para nós (S116. 15).
Oh! A Divina Sabedoria de desprezar as míseras satisfações do mundo e da carne, em troca da esperança luminosa dessa Ventura sem preço!


COLÓQUIO

Maria, meu Caminho Imaculado, minha Estrela ideal. Meu Modelo querido, amo a vós, ainda da terra de exílio, em suspiros e lágrimas, anelando a pátria- Volvei benigna os olhos de vossa misericórdia para me alentardes e soerguei meus olhos na direção do céu. E depois deste desterro, ó ó Clemente, ó Mãe Piedosa, ó Mãe dulcíssima, mostrai-me Jesus, o bendito fruto de vosso ventre, a fim de que eu possa emoldurar também a vossa coroa nas jubilações inefáveis da Eterna Recompensa!


RAMILHETE

Maria, minha Mãe, é que me há de levar à palma da Vitória.

Santo Evangelho (Lc 12, 32. 38)
O REINO DOS CÉUS

Não temais, ó pequenino rebanho, pois foi do agrado de vosso Pai dar-vos o seu Reino. Vendei o que possuis, e dai-o de esmolas; provede-vos de bolsas que não envelhecem; de tesouro inexaurível, onde não chega o ladrão, e que a traça não rói. Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Estejam cingidos os vossos rins e (tende) nas vossas mãos tochas acesas. E fazei como os homens que esperam o seu Senhor de volta das bodas, para que, quando chegar e bater à porta, logo lha abram. Bem- aventurados aqueles servos a quem o Senhor achar vigiando quando vier.
Na verdade eu vos digo que ele se cingirá e os fará sentar à mesa, e, passando por entre eles, os servirá. E se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e assim os achar, bem-aventurados serão tais servos.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L III, c. XLVIII e XLIX)
A ETERNIDADE BEM-AVENTURADA

Fiel: Ó bem-aventurada mansão da cidade celestial! Ó dia claríssimo da eternidade, que nenhuma noite obscurece, mas que sempre brilha com os raios da soberana verdade! Dia sempre alegre, sempre seguro, cuja felicidade não terá mudança.
Oh! Quem me dera ver amanhecer este dia, e passarem já as sombras das coisas perecedouras! Este ditoso dia já luz para os santos com seu eterno resplendor: porém, para nós, viajores no desterro deste mundo, só de longe vislumbra, e como entre sombras nos aparece.
Quando gozarei da verdadeira liberdade, sem impedimento nem embaraço de corpo e Espírito?
Quando possuirei essa paz sólida, essa paz imperturbável e segura; essa paz interior e exterior, paz de todo permanente e invariável?
O bom Jesus! Quando me será dado ver-vos! Quando contemplarei a glória do vosso reino! Quando me sereis tudo em todas as coisas!
Quando estarei convosco no "reino que preparastes desde toda a eternidade para os que vos amam!" (Mt 25, 34).
Ai! Pobre e desterrado me vejo em terra inimiga, onde há guerra contínua e grandes infortúnios.
Jesus Cristo:  Porém considera, amigo, qual será o fruto destes trabalhos, quando o seu fim estiver pronto, e quão grande será a sua recompensa, e não só te não serão pesadas, mas a tua paciência achará neles grande alívio. Pois por teres renunciado agora a alguns vãos apetites, farás eternamente
tua vontade no céu. Ali, acharás tudo o que quiseres, e quanto puderes desejar.
Ali, possuirás todo o bem, sem medo de perdé-lo. Ali, tua vontade, estando como absorta na minha para sempre, não apetecerá coisa alguma particular.
Ali, ninguém te resistirá, ninguém se queixará de ti. ninguém te suscitará contrariedades nem obstáculos; mas terás presentes todas as coisas desejadas e será satisfeito em todo o teu afeto.
Ali. dar-te-ei honra pela afronta padecida, vestidura de glória pela aflição e pelo ínfimo lugar um trono de reino eterno.
Ali, brilhará o fruto da obediência; a penitência se alegrará de seus trabalhos, e a humilde dependência será gloriosamente coroada.
Inclina-te agora humildemente debaixo da mão de todos, e não cuides em saber quem disse ou manda o que se te ordena. Cuida só em fazer de boa vontade o que se te manda, seja o prelado, seja o mais moço, seja o teu igual quem to manda.
Busque cada um o que quiser, glorie-se este duma coisa, aquele de outra e receba por isso mil louvores; tu, porém, não te alegres senão no desprezo de ti mesmo, e só em minha vontade e glória.
Qutra coisa não deves desejar, senão, que, “Deus seja sempre glorificado em ti, assim na vida como na morte" (Fl 1, 20).

LEITURA (Montfort, T.V.D. n» 106. 107, 108, 109, 110)
A VERDADEIRA DEVOÇÃO, ESPERANÇA DO CÉU

A Verdadeira Devoção a Nossa Senhora é interior, isto é, parte do Espírito e do coração; vem da estima que temos à Santíssima Virgem, da alta idéia que formamos de suas grandezas, e do amor que lhe dedicamos. E terna, isto é, cheia de confiança na Santíssima Virgem, assim como
um filho deve ter em sua boa mãe. Faz que uma pessoa recorra a Ela em todas as suas necessidades de corpo e de Espírito, com grande simplicidade, confiança e ternura; que implore o auxílio de sua boa Mãe em todos os tempos,em todos os lugares, em todas as coisas; em suas dúvidas, para ser
esclarecidas; em seus erros, para ser emendada; em suas tentações, para ser amparada; em suas fraquezas, para ser fortalecida; em suas quedas, para ser levantada; em seus desalentos, para ser animada; em seus escrúpulos, para ser liberta; em suas cruzes, trabalhos e contrariedades da vida.para ser consolada. Enfim, em todos os males do corpo e do Espírito, Maria Santíssima é seu refúgio habitual, sem que tema com isto importunar essa boa Mãe e desagradar a Jesus Cristo.
A Verdadeira Devoção a Nossa Senhora é santa, isto é, leva a pessoa a evitar o pecado e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem, particularmente a profunda humildade, a viva fé, a obediência cega. a oração contínua, a mortificação universal, a pureza incomparável, a caridade ardente, a paciência heróica, a mansidão angélica e a Sabedoria Divina. São estas as dez principais virtudes da Santíssima Virgem.
A Verdadeira Devoção a Nossa Senhora é constante; consolida uma alma no bem, leva-a a não deixar facilmente as práticas de Devoção; torna-a corajosa para opor-se ao mundo, em suas modas e máximas; à carne, em seus apetites e paixões; e ao demônio, em suas tentações; de modo que uma alma verdadeiramente devota à Santíssima Virgem não é inconstante, nem melancólica, nem pusilânime. Não é que não caia e não mude, algumas vezes, em sua sensibilidade e Devoção; quando cai, levanta-se estendendo a mão a sua boa Mãe; se está sem consolações ou Devoção sensível, não se aflige, porque o justo e o fiel devoto de Maria vive da té em Jesus e em Maria e não nos sentimentos da natureza.
Finalmente, a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem é desinteressada, isto é, inspira à alma buscar, não a si, mas só a Deus, em sua Santa Mãe. Um verdadeiro devoto de Maria não serve a esta augusta Rainha por espírito de lucro ou de interesse, nem para seu bem temporal, ou corporal, ou espiritual, mas unicamente porque Ela merece ser servida, e
Deus só nela; não ama a Maria precisamente porque Ela lhe faz benefícios ou porque dela espera benefícios. É por isto que a ama tão fielmente nas desconsolações e securas espirituais, como nas doçuras e nos fervores sensíveis; ama-a tanto no Calvário como nas bodas de Caná. Ohl Como este devoto da Santíssima Virgem, que não se busca em nada nos serviços que lhe presta, é agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Santa Mãe!

sábado, 16 de setembro de 2017

Décimo dia preparatório (12 dias preliminares) - O Inferno

DÉCIMO DIA
Meditação - Inferno

PREPARAÇÃO

Para dois grandes caminhos terrivelmente definitivos abre a augusta porta do Juízo. A meditação sobre o Inferno me encherá de salutar horror ao pecado e ao espírito do mundo, para confirmar-me na eleição da Divina Sabedoria e da Escravidão de amor à Maria! Naquele lugar de tormentos, o grande tormento é a perda de Deus e do amor de Maria. Meditar seriamente sobre o
inferno é meio seguro de o evitar.

MEDITAÇÃO

Prelúdios
- o abismo infernal abre-se ante meus pés trêmulos, Maria me estende solícitamente as mãos para me reter.
- Rainha dos céus e da terra, que alcançais estender vosso onipotente domínio até as regiões da morte eterna, penetrai-me de temor e de tremor ante o castigo terrível com que Deus deixa que se punam os escravos do egoísmo e do mundo.

PONTO I
AS PENAS DOS SENTIDOS

Muitas pessoas perderam os sentidos e mesmo morreram de espanto à vista de coisas horrorosas, ou apenas com a imaginação ou receio delas.
Que há de ser, pois, da visão dos tormentos do inferno e da presença nefanda do demônio, cuja suprema beleza a ira justiceira de Deus transmudou em hedionda disformidade?
E ouvir os prantos, os clamores e rugidos, as blasfêmias dos condenados, as lamentações sem remédio, os gritos de desespero, os estertores de agonias que a morte jamais virá terminar...
E o cheiro infecto de tantas podridões, o gosto amaríssimo das coisas mais imundas, o tormento a espicaçar todos os membros do corpo!
A sede, o fogo, as trevas, a imortalidade, todas as legiões de demônios, as injúrias dos cúmplices, agora herdeiros do mesmo desespero, a eternidade dos tormentos, sim, a eternidade...

PONTO II
AS AFLIÇÕES INTERIORES

Se ainda neste mundo, a imaginação sói acrescentar os sofrimentos, duplicá-los mesmo, - que será no inferno, onde todo o terror que ela conceber estará justificado de sobejo pela mais espantosa realidade?
E a memória, ao recordar não o bem ilusório da terra, tão fugaz que não deixou traços, mas o bem verdadeiro que poderia e que deveria ser partilha do infeliz condenado, e que agora nunca mais poderá alcançar?
Que fará, então, no inferno todo o exército das paixões más, cujo exercício ainda era impedido na terra pela sociedade, pelo ambiente ao menos na aparência honesto, do mundo, da família, - e que prorrompe em caudal desfrenado de revoltas, de ódios, raivas, desesperos, medos e horrores, quase
estraçalhando o pobre réprobo, mergulhado em todos os tormentos exteriores e interiores...
A vontade, antes livre de amar a Deus, aferrada agora nas maldições, violentada para sempre na tendência mais profunda de sua natureza, para o bem, para o Bem infinito, agora tão remoto, irremediavelmente perdido...


PONTO III
A PERDA DE DEUS E DE MARIA

Mas o tormento maior, o inferno do inferno, será a perda de Deus!
Quando unida ao corpo da terra, a alma não conhece bem tudo o que representa Deus para ela. Porque os sentidos demasiado a solicitam e aliciam. Mas quando desprendida dos laços mortais, entregue ao pendor irresistível de sua natureza, ela se atira com sofreguidão para o Objetivo único que a pode satisfazer e vivificar... E quando a justiça inexorável de Deus, castigando uma vida que jamais quis voltar-se para o Bem verdadeiro no uso de sua liberdade, negar-se a acolhê-la, furtando-se aos seus anelos ansiosos de contemplação e de posse, então esse será o pior dos tormentos, a mais
infernal das mortes...
Ah! A lembrança dos anos visitados da graça de Deus, a primeira comunhão, as lições de palavras e de exemplos, os mesmos sofrimentos e penas da terra, buscando comover e despertar a consciência endurecida, todos os desprezados auxílios divinos para o cumprimento dos próprios deveres... tudo tornado em pecados, pelo abuso, endurecimento no mal, incêndio das paixões, chasqueios às coisas santas, risadas satânicas aos bons conselhos e pias admoestações!
Tudo afastava de Deus, a Suprema Formosura, o Amor dos amores! O réprobo bem o sabia. E o aceitou livremente, conscientemente... O tormento de recordar Maria... o primeiro amor a tão doce Mãe, cedo abandonada; a ingratidão com que se deixou sua Devoção, tão cheia de confiança e de pureza; a frieza de coração com que se voltou as costas à piedade mariana, à suavidade do Terço, à beleza encantadora das imagens de Maria, ao convite do Espírito Santo para ser escravo de amor de Nossa Senhora...

COLÓQUIO


Minha Mãe, Amada com todas as fibras de meu ser, com todas as vibrações de meu coração, não me deixeis perecer! É no vosso regaço; a esconder trêmulo minha cabeça no vosso seio materno, que vou terminar esta meditação terrível, mas necessária para minha salvação. Não! Não quero apartar-me de vós. Quero que seja para mim também, no céu, vossa beleza, vosso carinho, e vosso encanto. Mortificarei meu corpo e meus sentidos, todas as minhas potências, entregando-me estreitamente algemado a vosso único e exclusivo serviço de amor. Guardarei meus olhos de todas as belezas terrenas, para ver vossa formosura. Reservarei meus carinhos, para que vo- los possa entregar virginalmente, no paraíso, onde me inebriareis com um oceano de ternura que não posso agora vislumbrar sequer. E acima de tudo, vós me conduzireis a Jesus, ao bendito fruto vosso; para que no abismo insondável de seu Coração eu me despenhe, para sempre, na bem-aventurada visão, na inefável posse de Deus!

RAMILHETE

Maria, fostes Imaculada porque Mãe do Redentor de nossos crimes. Apressai-vos, pois, em socorrer aos míseros, a cuja miséria deveis a felicidade de vossa Pureza!

SANTO EVANGELHO (Mt 22, 1-14)
O BANQUETE E A VESTE NUPCIAL

E respondendo Jesus, falou-lhes novamente em parábolas, dizendo; o Reino de Deus é semelhante a um rei, que fez as núpcias de seu filho. E ordenou aos seus servos que chamassem os convidados para as núpcias. Mas eles recusaram vir. Enviou de novo outros servos, dizendo: Dizei aos convidados; eis que está preparado o meu banquete, os meus touros e os animais cevados já estão mortos, e tudo está pronto: vinde às núpcias. Mas eles desprezaram {o convite) e se foram, um para sua casa de campo; outro para os seus negócios; outros, porém, lançaram mãos dos servos que ele enviara e, depois de os haverem ultrajado, os mataram. Mas o rei ouvindo isto, exasperou-se. E tendo feito marchar os seus exércitos, acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo às cidades deles. Então disse aos seus servos:
As núpcias, com efeito, estão preparadas; mas os que estavam convidados não foram dignos de tomar parte no banquete; ide, pois, às saídas das ruas, e a quantos achardes convidai-os para as núpcias. E tendo saído os seu servos pelas ruas, reuniram a quantos encontraram, maus e bons. E ficou cheia de convidados a sala do banquete, para as núpcias. Entrou depois o rei para ver os que estavam à mesa, e viu ali um homem que não estava vestido com veste nupcial. E disse-lhe: Amigo: como entraste aqui, não tendo veste nupcial? Mas ele emudeceu. Então disse o rei a seus ministros: Atai-o, de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes. Porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos.

IMITAÇÃO DE CRISTO (L I. c. XXIV, 3. 4, 6)
OS SUPLÍCIOS DO INFERNO

Que outra coisa há de consumir aquele fogo senão teus pecados?
Quanto mais te perdoas agora a ti mesmo e segues os apetites da carne, tanto mais fortemente serás depois atormentado, e tanto mais tenha ajuntas para te queimar.
No que o homem mais peca, nisso mais severamente será castigado. Ali, os preguiçosos serão picados com aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados com fome e sede.
Ali, os luxuriosos e dados aos deleites serão abrasados com ardente pez e fétido enxofre; e os invejosos uivarão de dor como cães raivosos. Não há vício que não tenha seu particular tormento. Ali, os soberbos estarão cheios de confusão, e os avarentos serão oprimidos com miserável necessidade.
Ali, será mais penoso passar uma hora de suplício, que aqui cem anos de áspera penitência.
Ali, não há sossego nem consolação para os condenados; mas aqui, às vezes, cessam os trabalhos e se goza da consolação dos amigos.
Tem agora cuidado e dor de teus pecados para que, no dia do juízo, estejas seguro com os bem-aventurados.
Aprenda agora a padecer o pouco, para que então sejas livre de muito. Prova primeiro neste mundo o que poderás sofrer no outro. Se agora tão pouco podes sofrer, como poderás depois sofrer os tormentos eternos? Se agora uma pequena moléstia te faz tão impaciente, que fará então no inferno?
Na verdade, não podes ter dois gozos; deleitar-te neste mundo e reinar depois com Cristo no céu. Se até agora tivesses vivido em honras e deleites e te chegasse à morte, que te aproveitaria tudo isto?
Logo, tudo é vaidade, exceto o amor e serviço somente a Deus. Porque os que amam a Deus de todo o seu coração, não temem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno; porque o perfeito amor faz ter perfeito acesso a Deus.
Mas quem se deleita ainda em pecado, não admira que tema a morte e o juízo.
Bom é, contudo, que se ainda o amor de Deus nos não desvia do mal,nos refreie ao menos o temor do inferno. Porém, aquele que despreza o temor de Deus, não poderá perseverar muito tempo no bem, antes muito depressa cairá nos laços do demônio. 


FALSAS DEVOÇÕES A MARIA
QUE NÃO NOS SALVARÃO

Encontro sete espécies de falsas devoções à Santíssima Virgem, a saber:
1) os devotos críticos; 
2) os devotos escrupulosos; 
3) os devotos exteriores;
4) os devotos presunçosos; 
5) os devotos inconstantes; 
6) os devotos hipócritas; 
7) os devotos interesseiros.
Os devotos críticos são, em geral, sábios, orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que tém no fundo alguma Devoção à Santíssima Virgem, mas que criticam quase todas as práticas de piedade que as pessoas simples rendem em toda a simplicidade e santidade a essa boa Mãe, porque não lhes agradam a fantasia.
Esta espécie de falsos devotos e de pessoas orgulhosas e mundanas é muito temível; prejudicam extremamente a Devoção a Nossa Senhora e afastam Dela muita gente, de um modo deplorável, sob pretexto de destruir os abusos.
Os devotos escrupulosos são pessoas que temem desonrar o Filho, honrando a Mãe, abaixar um, elevando a outra. Não podem sofrer que se dêem à Santíssima Virgem louvores justíssimos que lhe foram conferidos pelos Santos Padres; têm grande pesar de ver que há mais gente diante de um altar de Maria Santíssima que diante do Santíssimo Sacramento, como se uma Devoção fosse contrária à outra, como se aqueles que oram à Virgem Santíssima não orassem a Jesus Cristo por Ela! Não querem que se fale tanto dessa augusta Soberana, que se recorra a ela tantas vezes.
A Santa Igreja, com o Espírito Santo bendiz a Santíssima Virgem em primeiro lugar, e Jesus Cristo em segundo: bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus. Não que a Santíssima Virgem seja mais que Jesus Cristo, ou igual a ele: isto seria uma heresia intolerável; mas é que, para bendizer mais perfeitamente a Jesus Cristo, é preciso primeiro bendizer a Maria. Digamos, pois, com todos os verdadeiros devotos de Maria Santíssima, em oposição a esses falsos devotos escrupulosos: Ó Maria, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.
Os devotos exteriores são pessoas que fazem consistir em práticas exteriores toda a sua piedade para com Maria; que só apreciam o exterior da Devoção à Santíssima Virgem, porque não têm Espírito interior; que dizem muitos terços à pressa, ouvem muitas missas sem atenção, vão às procissões
sem Devoção, alistam-se em todas as confrarias sem corrigir sua vida, sem fazer violência às suas paixões, e sem imitar as virtudes dessa Virgem Sacrossanta. Só gostam do sensível da Devoção, sem apreciar o sólido; se não têm consolações sensíveis em suas práticas, pensam que nada mais fazem, desacoroçoam, abandonam tudo, ou fazem tudo sem regra e aos bocados. O mundo está cheio desta espécie de devotos exteriores, e são os que mais criticam as pessoas de oração que se aplicam ao interior como ao essencial, sem desprezar o exterior de modéstia que sempre acompanha a Verdadeira Devoção. Os devotos presunçosos são pecadores entregues às suas paixões, ou amantes do mundo, que sob o belo nome de cristãos e de devotos de Nossa Senhora, escondem ou o orgulho ou a ira, a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou o costume de praguejar, ou a maledicência, ou a injustiça, etc; que dormem em paz no meio dos seus maus hábitos, sem fazer grande violência para corrigir-se, sob pretexto de que são devotos à Santíssima Virgem, que se embalam com a esperança de que Deus lhes perdoará; que não morrerão sem confissão e que não serão condenados, porque rezam o terço, jejuam aos sábados, porque pertencem à confraria do Rosário ou do Escapulário, ou a outra de suas congregações, porque trazem o pequeno hábito ou a pequena cadeia da Santíssima Virgem, etc.
Os devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem por intervalos; ora são fervorosos, ora tíbios; agora parecem prontos a tudo por seu serviço, e daqui a pouco não são mais os mesmos. Começam por abraçar todas as devoções à Santíssima Virgem; alistam-se em todas as confrarias, mas não lhes cumprem as regras com fidelidade; mudam como a lua, e Maria Santíssima põe-nos sob os pés com o crescente, porque são volúveis e indignos de ser contados entre os servos dessa Virgem fiel, os quais têm por quinhão a fidelidade e a constância.
Há ainda outros falsos devotos a Maria Santíssima, que são os devotos hipócritas, que dissimulam seus pecados e maus hábitos sob o manto dessa Virgem fiel, a fim de passar aos olhos dos homens pelo que não são. Existem fínalmente devotos interesseiros, que só recorrem a Nossa Senhora para ganhar algum processo, evitar algum perigo, sarar de uma enfermidade, ou por qualquer outra necessidade semelhante, sem o que a esqueceriam; tanto uns como outros são falsos devotos, que não subsistem diante de Deus e de sua Mãe Santíssima.
Tomemos, pois, muito cuidado para não sermos do número dos devotos críticos, que nada crêem e tudo criticam; dos devotos escrupulosos, que temem ser demasiadamente devotos à Virgem Santíssima, em respeito a Jesus Cristo; dos devotos presunçosos, que, a pretexto de sua falsa Devoção a Nossa Senhora, jazem no meio de seus pecados; dos devotos inconstantes, que, por volubilidade, mudam suas práticas de Devoção, ou as deixam inteiramente à menor tentação; dos devotos hipócritas, que se alistam nas confrarias e trazem as insígnias da Santíssima Virgem para passarem por bons; e finalmente dos devotos interesseiros, que só recorrem a Maria Santíssima para serem livres dos males do corpo ou obter bens temporais.