quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Magnífica Promessa dos Cinco Primeiros Sábados - Parte 1

A Magnífica Promessa dos Cinco Primeiros Sábados


"A quem abraçar esta devoção, Eu prometo a salvação."
Nossa Senhora de Fátima, no dia 13 de Junho de 1917


Que promessa tão admirável e assombrosa aquela que foi feita no dia 13 de Junho de 1917! Mas apesar desta promessa, ficamos ainda tentados a duvidar. Por uma graça especial, Jacinta sentia o coração consumido por um amor ardente ao Imaculado Coração de Maria. E nós? Ficamos frios, ou o nosso fervor dura muito pouco. Poderíamos alguma vez saber se a nossa devoção é assim tão grande para que Nossa Senhora quisesse manter a Sua promessa para conosco?

É neste ponto que ficamos assombrados pela ilimitada Misericórdia Divina e pelo caráter profundamente católico das revelações de Fátima. Não há sequer, em toda a mensagem, vestígios do subjetivismo protestante! Aqui, o Céu vai até aos limites da indulgência, e as profecias mais sublimes ("Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração") transformam-se em pedidos muito pequenos, claros e precisos, pedidos fáceis que não dão lugar à dúvida. Todos podem saber se os conseguiram realizar ou não. Uma "pequena devoção", praticada de coração generoso, é suficiente para todos nós recebermos infalivelmente esta graça, ex opere operato – quer dizer, tal como acontece com os sacramentos. E a graça que receberemos é a graça da salvação eterna! Vale a pena estudar cuidadosamente esta promessa tão magnífica. Este é o cumprimento e a expressão perfeita da primeira parte do grande Segredo que, na sua totalidade, se refere à salvação das almas.

De Fátima a Pontevedra: o cumprimento do Segredo. Ao descrever as aparições e ao explicar a mensagem de Pontevedra, falaremos apenas das palavras pronunciadas por Nossa Senhora a 13 de Julho de 1917. São palavras concisas, mas muito ricas em significado:


"Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas ... virei pedir ... a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados de cada mês."

Portanto, é este o primeiro "Segredo de Maria" que nós devemos descobrir e entender. É uma forma segura e fácil de arrancar as almas aos perigos do inferno: primeiro, as nossas almas; e também as dos nossos próximos; e até as almas dos maiores pecadores – porque a misericórdia e o poder do Imaculado Coração de Maria não têm limites.

I. Pontevedra: As Aparições e a Mensagem (1)

Dia 10 de Dezembro de 1925: a Aparição do Menino Jesus e de Nossa Senhora.

Na noite de quinta feira, 10 de Dezembro, logo depois do jantar, a jovem postulante Lúcia, que tinha apenas 18 anos, voltou à sua cela. Foi ali que recebeu a visita de Nossa Senhora e do Menino Jesus. Escutemos a sua narração (2) (escrita na terceira pessoa):


"A 10 de Dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e, a Seu lado, suspenso numa nuvem luminosa, o Menino Jesus. A Santíssima Virgem pousou a mão no ombro de Lúcia e, nesse momento, mostrou-lhe um Coração cercado de espinhos que tinha na outra mão. Ao mesmo tempo, disse o Menino:

‘Tem pena do Coração de tua Mãe Santíssima, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todo o momento Lhe cravam, sem haver quem faça um acto de reparação para os tirar’.

E a Santíssima Virgem disse-lhe:

‘Olha, Minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todo o momento Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que a todos aqueles que durante cinco meses seguidos, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes à hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação.(3)"

Que cena tão comovente e ao mesmo tempo tão singela, contada com a sobriedade do próprio Evangelho! Que diálogo tão encantador, em que o Menino Jesus e Sua Mãe falam alternadamente — Ele para implorar por causa Dela, e Ela para fazer os seus pedidos... que nos conduzem até Seu Filho.

Como de costume, a vidente apaga-se a si mesma, e não nos diz uma única palavra sobre os seus próprios sentimentos. Não será este o sinal mais inequívoco de autenticidade, que dá ao seu relato plena vigência? Ela está ali para ver, para ouvir, para contar o que aconteceu, e nada mais.

No entanto, quanta intimidade percebemos existir entre a Santíssima Virgem e a Sua mensageira! Como Santa Catarina Labouré, ela recebeu nesse dia o privilégio de ser tocada por Nossa Senhora num gesto solene e afetuoso, tal como quando uma mãe quer dar a um filho uma missão confidencial. A Santíssima Virgem pôs a mão sobre o ombro de Lúcia, permitindo-lhe contemplar o tristíssimo Coração de Nossa Senhora e dá-lo a conhecer aos outros.

Finalmente, vejamos o tom e as palavras desta grande promessa. São semelhantes às das aparições de 1917. Tão concisas! Tal como as do Segredo do dia 13 de Julho, onde nem uma só palavra se pode suprimir sem alterar seriamente a sequência do pensamento. Também esta é uma mostra irrefutável de autenticidade.


A transmissão da Mensagem

De que maneira deu Lúcia a conhecer os pedidos do Céu? Sabemos que ela imediatamente contou tudo à sua Superiora, a Madre Magalhães, que se convenceu plenamente da causa de Fátima e tinha agora um respeito sincero pela vidente. Ela própria se mostrou disponível para obedecer aos pedidos do Céu. Lúcia também informou o confessor da Casa, Dom Lino García: "Este último – lembra Lúcia – ordenou-me que escrevesse tudo o que dizia respeito (a esta revelação) e que guardasse esses escritos, que talvez pudessem ser necessários". (4) No entanto, ele continuou à espera ...

Lúcia escreveu um reconto detalhado do acontecimento em carta para o seu confessor, Monsenhor Pereira Lopes, do Asilo de Vilar. Infelizmente esta carta perdeu-se, e só sabemos da sua existência porque se faz referência a ela numa carta posterior. A 29 de Dezembro, a Madre Magalhães informou o Bispo da Silva acerca do que havia acontecido, mas sem ser muito precisa. (5)

Por essa altura, Lúcia recebeu finalmente resposta de Monsenhor Pereira Lopes. Ele expressou certas reservas, fez perguntas e aconselhou-a a esperar. Uns dias depois, a 15 de Fevereiro, Lúcia respondeu-lhe, fazendo-lhe uma narração detalhada dos acontecimentos. Felizmente, esta carta importantíssima foi-nos conservada. (6) Vamos seguir passo a passo esse precioso texto, adicionando os nossos próprios subtítulos e comentários.


Uma espera dolorosa

"Revmo. Senhor Doutor:
Venho, com todo o respeito, agradecer a amável cartinha que a caridade de Vossa Reverência fez o favor de me escrever.
Quando a recebi, e vi que ainda não podia atender aos desejos de Nossa Senhora, senti-me um pouco triste. Mas logo refleti que os desejos de Nossa Senhora eram que eu obedecesse às ordens de Vossa Reverência.
Fiquei tranquila e, no dia seguinte, quando recebi a Jesus Sacramentado, li-Lhe a carta e disse: ‘Ó meu Jesus! Eu, com a Vossa graça, a oração, a mortificação e a confiança, farei tudo quanto a Obediência me permitir e Vós me inspirardes; e o resto fazei-o Vós.’
Assim fiquei até ao dia 15 de Fevereiro. Esses dias foram duma contínua mortificação interior. Pensava se teria sido um sonho, mas sabia que não; sabia que tinha sido realidade. Mas se eu tinha correspondido tão mal às graças recebidas até ali, como é que Nosso Senhor Se dignava aparecer-me outra vez?!
Chegava-se o dia de me ir confessar, e não tinha licença de dizer nada! (7) Podia dizê-lo à Madre Superiora, mas durante o dia as minhas ocupações não mo permitiam! À noite, estava com dores de cabeça! E eu, temendo faltar à caridade, pensava: ‘Fica para amanhã! Ofereço-Vos este sacrifício, minha querida Mãe!’ E assim se passaram, um atrás do outro, todos os dias até hoje.
No dia 15, andava eu muito ocupada com o meu trabalho, e quase nem disso me lembrava. E indo eu despejar um caixote do lixo fora do quintal ..."


História de um prelúdio encantador (Novembro ou Dezembro de 1925)

"(No mesmo lugar) onde, alguns meses antes, tinha encontrado um menino a quem tinha perguntado se sabia a Ave-Maria, e, respondendo-me que sim, lhe mandei que a dissesse para eu ouvir. Mas como se não resolvia a dizê-la sozinho, disse-a eu com ele, três vezes. Ao fim das três Ave-Marias, pedi-lhe que a dissesse sozinho. Mas como se calou e não foi capaz de dizer a Ave-Maria sozinho, perguntei-lhe se sabia onde era a igreja de Santa Maria. Respondeu-me que sim. Disse-lhe que fosse lá todos os dias, e que dissesse assim: ‘Ó minha Mãe do Céu, dai-me o Vosso Menino Jesus!’ Ensinei-lhe isto, e vim-me embora."

Aqui, em virtude dos acontecimentos, Lúcia vê-se obrigada a falar um pouco de si própria, e as suas poucas confidências revelam-nos algo da sua alma maravilhosa. (8) Perto da porta do jardim, ela encontra um menino. Lembra-se de lhe falar da Virgem Maria, para lhe ensinar a rezar. Depois pede-lhe para rezar a Ave-Maria... só pela alegria de a ouvir na sua voz. Como ele não conseguiu dizê-la sozinho, Lúcia recita-a com ele três vezes, de acordo com a prática antiga das três Ave-Marias em honra de Nossa Senhora.

Como o menino parecia não querer recitar a Ave-Maria sozinho, a nossa catequista – que não queria perder esta oportunidade de cumprir a sua missão de fazer conhecer e amar Nossa Senhora – sugeriu outra ideia: convidou-o a ir todos os dias à igreja de Santa Maria. De fato, a Basílica de Santa Maria Maior fica bastante perto da Casa das Irmãs Doroteias. Foi este acontecimento um pouco antes ou depois da aparição do Menino Jesus, no dia 10 de Dezembro? Não o sabemos. Em todo o caso, a jovem postulante ensinou ao menino esta linda e breve oração, que certamente era dela também: a sua oração mais frequente e fervorosa do Advento de 1925. "Ó Mãe do Céu, dai-me o Vosso Menino Jesus". E depois foi-se embora.


"Se Fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz ... virei pedir ... a comunhão reparadora nos primeiros sábados dos mês."
Nossa Senhora à Irmã Lúcia, 13 de Julho, 1917


15 de Fevereiro de 1926: uma nova aparição do Menino Jesus


O emotivo relato de Lúcia, que estamos a citar extensamente, continua:

"No dia 15 de Fevereiro de 1926, voltando eu lá (a esvaziar um caixote do lixo), como é costume, encontrei de novo um menino que me parecia o mesmo da outra vez, e perguntei-lhe: ‘Então, tens pedido o Menino Jesus à Mãe do Céu?’ A criança volta-se para mim, e diz: ‘E tu? Tens espalhado pelo mundo aquilo que a Mãe do Céu te pediu?’ E, nisto, transforma-se num Menino resplandecente.


"Conhecendo, então, que era Jesus, disse-Lhe:

‘Meu Jesus! Vós bem sabeis o que o meu confessor me disse na carta que Vos li. Dizia que era preciso que aquela visão se repetisse, que houvesse fatos para ser acreditada; e a Madre Superiora, sozinha, a espalhar este fato, nada podia.’

‘É verdade que a Madre Superiora, só, nada pode; mas, com a Minha graça, pode tudo. E basta que o teu confessor te dê licença, e a tua Superiora o diga, para que seja acreditado, até sem se saber a quem foi revelado.’

‘Mas o meu confessor dizia na carta que esta devoção não fazia falta no mundo, porque já havia muitas almas que Vos recebiam nos primeiros sábados (do mês), em honra de Nossa Senhora e dos quinze Mistérios do Rosário.’

‘É verdade, Minha filha, que muitas almas os começam, mas poucas os acabam; e, as que os terminam, é com o fim de receberem as graças que aí são prometidas. Agrada-Me mais quem fizer os cinco (Primeiros Sábados) com fervor e com o fim de desagravar o Coração da tua Mãe do Céu, do que quem fizer os quinze, tíbio e indiferente.’


‘Meu Jesus, muitas almas têm dificuldade em se confessar ao Sábado. Se Vós permitísseis que a confissão de oito dias fosse válida...’

‘Sim. Pode ser; e de muitos dias mais, contanto que estejam em graça no primeiro sábado, quando Me receberem; e que, nessa confissão anterior, tenham feito a intenção de com ela desagravar o Sagrado Coração de Maria.


‘Meu Jesus, e as que se esquecerem de formular essa intenção?’

‘Podem-na formular logo na confissão seguinte, aprovei tando a primeira ocasião que tiverem para se confessar.’

"Nisto, desapareceu, sem que até hoje eu tenha sabido mais nada dos desejos do Céu." (9)


Também aqui, uma crítica interna deste texto exclui todas as posições daqueles que pudessem não aceitar esta aparição, sugerindo tratar-se de ilusões ou de invenções de uma mente perturbada. Os fatos, dados a conhecer de forma tão encantadora, são demasiado claros, simples e ao mesmo tempo sobrenaturais, para serem invenção de uma alma doente. Por outro lado, são surpreendentes demais – místicos, até –, para, à primeira vista, serem obra de um qualquer teólogo. Quem poderia inventar tal história a partir do nada?

Em primeiro lugar, há meses que a nossa vidente esvaziava, todos os dias, os caixotes do lixo do convento. E ela está feliz. Não parece perturbada pelas circunstâncias humilhantes da aparição. Para lhe fazer lembrar os Seus grandes desígnios para o mundo e para a salvação das almas, o Céu escolheu precisamente o momento em que a Sua mensageira estava ocupada a fazer uma tarefa insignificante, humilde e desprezível. Repare-se que uma pessoa orgulhosa, mitomaníaca, enganada por falsas aparições, ter-se-ia imaginado em circunstâncias extraordinárias ou, pelo menos, fora do comum – mas nunca nestas. Teria receado parecer ridícula ou não digna de credibilidade. Lúcia narra os fatos com toda a simplicidade, tal como aconteceram, sem se admirar de o Deus Menino, que nasceu num estábulo, ter escolhido esta humilde circunstância para Se manifestar.

Resta-nos explicar o significado e a importância da mensagem de Pontevedra que, apesar de ser apenas o complemento, ou melhor, o cumprimento da Mensagem de Fátima, se reveste de uma importância muito especial.


Continua...

NOTAS DE RODAPÉ
(1) A mensagem de Pontevedra foi quase completamente desconhecida durante muito tempo, ou então relegada para uma importância secundária, O volumoso livro do Cônego Barthas, Fátima 1917-1968, publicado em 1969, dedicou-lhe apenas duas páginas (páginas 211-212)! Foi preciso esperar pelo excelente estudo do Padre Alonso, de 1973, Fátima y el Corazón Inmaculado de María, páginas 37-48, para esta mensagem ser divulgada. Mas nada pode substituir a pequena obra (mais completa) do mesmo autor, de 1974: La Gran Promesa del Corazón Inmaculado de María en Pontevedra. Existe ainda um pequeno folheto em francês que apresenta extractos importantes desta obra: Le message de Fatima à Pontevedra (Tradução do Padre Simonini). Finalmente, para consultar todas as fontes, temos de voltar a obras portuguesas: Documentos e Uma Vida.
(2) O texto que citamos é uma segunda ou terceira versão idêntica à primeira, que não tinha sido conservada. Foi escrito pela Irmã Lúcia no final de 1927, a pedido do seu director espiritual, o Padre Aparício, S.J. "Por razão de humildade – explicou o Padre – a Irmã Lúcia mostrou alguma relutância em escrever na primeira pessoa, à qual eu respondi que podia escrever na terceira pessoa, o que ela fez". Carta ao Padre da Fonseca, 10 de Janeiro de 1938, citada pelo Padre Alonso em Ephemerides Mariologicae, 1973, página 25.
(3) Documentos, página 401.
(4) Carta de 1927, na qual Lúcia explica ao Padre Aparício como este manuscrito precioso foi por ela queimado em 1927 (Ephemerides Mariologicae, 1973, páginas 23-24).
(5) Todavia, esta carta representa um documento extremamente importante. Cf. The Whole Truth About Fatima, Volume II, Apêndice II, páginas 815-817.
(6) Este documento, que continuou na posse do seu destinatário, permaneceu totalmente desconhecido até 1973, ano em que foi publicado pelo Padre Martins dos Reis em Uma Vida, páginas 337-357. Cf. Documentos, páginas 477-481.
(7) Teria Dom Lino García pedido a Lúcia que não lhe falasse mais sobre esta aparição? É possível. Nesse caso, podemos compreender porque é que ela já não se atreve a confiar-lhe, inclusivamente, o seu tormento interior sobre este assunto.
(8) Cf. Carta ao Padre Gonçalves, de 12 de Junho de 1930, Documentos, página 409.
(9) Uma Vida, páginas 337-351. Mais adiante (páginas 263-264) iremos citar o final desta carta, onde Lúcia explica, ao seu diretor espiritual, o estado da sua alma.
Fonte: Fátima Center