segunda-feira, 31 de julho de 2017

Em defesa dos planetas - GK Chesterton


Em defesa dos planetas

    Certa vez, chamou-me a atenção um livro intitulado Terra Firma: a Terra não é um Planeta. O autor era um certo sr. D. Wardlaw Scott, e citava com muita seriedade as opiniões de um grande número de outras pessoas, das quais nunca ouvimos falar, mas que são evidentemente muito importantes. O Sr. Beach de Southsea, por exemplo, pensa que o mundo é plano; e em Southsea talvez seja mesmo. Não é minha intenção neste momento, entretanto, seguir em detalhes os argumentos do Sr. Scott. Ao longo desses argumentos pode-se demonstrar que a terra é plana e, para todos os efeitos, que é triangular. Alguns exemplos bastarão.

    Uma das objeções do Sr. Scott era que se um projétil é disparado de um corpo em movimento, há uma diferença na distância a que chega de acordo com a direção em que é lançado. Mas como na prática não há a menor diferença seja qual for a direção escolhida, no caso da Terra "temos uma forçosa derrubada de todas as fantasias relativas ao movimento, e uma admirável prova de que esta não é um globo."Este é, em realidade, um dos argumentos mais estranhos que já vimos. Parece nunca ocorrer ao autor, entre outras coisas, que quando o disparo e a queda de um tiro ocorrem todos sobre o corpo em movimento, não há nada com que os comparar. Aliás, é claro que um tiro dado em um elefante de fato frequentemente move-se na direção do atirador, mas muito lentamente do que o próprio atirador se move. O Sr. Scott provavelmente não gostaria de contemplar o fato de que é o elefante, propriamente falando, que gira e atinge a bala. Para nós é algo repleto de um rico humor cósmico. Darei apenas mais um exemplo das provas astronômicas: "Se a terra fosse um globo, a distância ao redor da superfície, digamos, em 45º de latitude sul não poderia ser maior do que na mesma latitude ao norte; porém, como os navegadores constataram que a distância é duas vezes - para dizer o mínimo - ou seja, o dobro da distância que deveria ser de acordo com a teoria global, isto é uma prova de que a terra não é uma esfera". Esta espécie de frases reduz minha mente a pó. Mal posso resistir quando um homem afirma que se a terra fosse redonda os gatos não teriam quatro patas; mas, quando afirma que se a terra não fosse redonda os gatos não teriam cinco patas, sinto-me aniquilado.     

    Porém, como já indiquei, não é o aspecto científico desta notável teoria o que me interessa no momento. Interessa-me mais a diferença entre o mundo plano e o redondo como conceitos na arte e na imaginação. É algo extraordinário que nenhum de nós sejamos realmente copernicanos em nossa perspectiva real das coisas. Estamos intelectualmente convencidos de que habitamos um pequeno planeta provinciano, mas não nos sentimos de maneira alguma suburbanos. Os cientistas questionaram a Bíblia porque ela não se baseia no sistema astronômico verdadeiro, mas o fiel ortodoxo está certamente livre para dizer que, se o fosse, nunca teria convencido ninguém.Se um único poema ou uma única história fosse realmente transfundida com a ideia copernicana, viraria um pesadelo. Podemos imaginar uma solene e estática montanha, em que algum profeta está de pé em um transe, e então darmos conta de que a cena toda está girando sem parar como um zootrópio, a uma velocidade de dezenove milhas por segundo? Poderíamos tolerar a noção de um poderoso rei promulgando um sublime decreto e então lembrarmos que, para todos os efeitos práticos, ele está de cabeça para baixo no espaço? Poder-se-ia escrever uma estanha fábula sobre um homem que fosse abençoado ou amaldiçoado com o olhar copernicano, e visse todos os homens na terra como tachinhas aderidas a um imã. Seria singular imaginar quão diferente soaria o discurso de um agressivo egoísta, anunciando a independência e a divindade dos homens, se ele fosse visto pendurado ao planeta pelas solas de suas botas.    

    Pois, apesar do horror do sr. Wardlaw Scott pela astronomia newtoniana e sua contradição da Bíblia, a distinção toda é um bom exemplo da diferença entre a letra e o espírito; a letra do Velho Testamento é oposta ao conceito do sistema solar, mas o espírito é muito próximo. Os escritores do Livro do Gênesis não tinham a teoria da gravidade, o que para a pessoa normal parecerá um fato tão importante quanto o de que não tinham guarda-chuvas. Mas a teoria da gravidade tem em si um sentimento curiosamente hebreu - um sentimento de dependência e certeza combinados, uma sensação de instável unidade, pela qual todas as coisas estão presas por um fio. "Tu suspendeste a terra sobre o nada", disse o autor do Livro de Jó, e nesta sentença escreveu toda a impressionante poesia da astronomia moderna. A sensação da preciosidade e fragilidade do universo, a sensação de estar na concha de uma mão, é algo que a Terra redonda e rolante dá da maneira mais emocionante. A terra plana do Sr. Wardlaw Scott seria o verdadeiro território para um ateu confortável. E os judeus também não teriam nenhuma objeção a estar tanto de cabeça para cima quanto para baixo. Eles não tinham ideias tolas sobre a dignidade do homem.     

     Seria uma especulação interessante imaginar se o mundo um dia desenvolverá uma poesia e uma forma de pensar copernicanas; se algum dia diremos que "a Terra rodou cedo", ao invés de "o sol nasceu cedo", e falaremos indiferentemente de levantar o olhar para as margaridas, ou baixar o olhar até as estrelas. Mas se algum dia o fizermos, haverá realmente uma grande quantidade de fatos grandes e fantásticos esperando por nós, dignos de formar uma nova mitologia. O Sr. Wardlaw Scott, por exemplo, com imaginação genuína embora inconsciente, afirma que, de acordo com os astrônomos, "o mar é uma vasta montanha de água com milhas de altura". Descobrir tal montanha de cristal em movimento, na qual os peixes se erguem como pássaros, é descobrir o Atlântida: é suficiente para que o velho mundo se torne novo outra vez. Na nova poesia que consideramos, jovens atléticos lançar-se-ão resolutamente a escalar as encostas do mar. Se alguma vez compreendermos toda esta terra como realmente é, encontrar-nos-emos em um mundo de milagres: descobriremos um novo planeta no instante em que descobrirmos o nosso próprio. Dentre todas as estranhas coisas que os homens esqueceram, o mais universal e catastrófico lapso de memória é aquele pelo qual esqueceram que estão vivendo em uma estrela.     

    Nos primeiros dias do mundo, a descoberta de um fato de história natural era imediatamente seguida pela percepção de que era também um fato poético. Quando o homem despertou do longo período de distração que se chama de estado animal automático, e começou a notar os estranhos fatos de que o céu era azul e a grama verde, imediatamente passou a usar esses fatos simbolicamente. Azul, a cor do céu, tornou-se o símbolo da santidade celestial; o verde passou para a linguagem como um indicativo de inexperiência beirando a ignorância. Se tivéssemos a sorte de viver em um mundo em que o céu fosse verde e a grama azul, o simbolismo seria diferente. Mas por alguma misteriosa razão este hábito de compreender poeticamente a ciência cessou abruptamente com o progresso científico, e todos os perturbadores portentos pregados por Galileu e Newton caíram em ouvidos surdos. Pintaram uma imagem do universo comparada com a qual o Apocalipse com suas estrelas cadentes era um mero idílio. Declararam que estamos todos voando pelo espaço agarrados a uma bala de canhão, e os poetas ignoram o assunto como se fosse um comentário sobre o clima. Dizem que uma força invisível nos prende a nossas poltronas enquanto a terra voa como um bumerangue; e os homens ainda recorrem a livros empoeirados para provar a misericórdia de Deus. Contam-nos que a monstruosa visão do Sr. Scott sobre uma montanha de água do mar erguendo-se em uma sólida abóbada, como a montanha de vidro do conto de fadas, é na realidade um fato, e os homens ainda recorrem ao conto. A que enormes alturas de imaginário poético não poderíamos ter subido se a poetização da história natural continuasse e a imaginação do homem houvesse brincado com os planetas tão naturalmente como uma vez brincou com as flores! Poderíamos ter um patriotismo planetário, em que a folha verde seria como um cocar, e o mar uma eterna dança de tambores. Poderíamos nos orgulhar das coisas que nossa estrela forjou, e usaríamos seu brasão de armas altivamente no cego torneio das esferas. Na verdade, certamente ainda faremos tudo isto, pois com toda a multiplicidade de conhecimento há felizmente uma coisa que ninguém sabe: se o mundo é velho ou novo. 


Chesterton, G.K. O Defensor/Tipos Variados (1901/1903). Campinas, Ecclesiae, 2015. Págs. 49-53

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sábado de Formação com o seminarista Rodrigo Maria


Primeira conferência:" Da mortificação externa"1- Necessidade da mortificação externa.2- salutares efeitos da mortificação externa.3- prática da mortificação externa.- mortificação da Vista - mortificação do ouvido- mortificação do olfato - mortificação do tato - mortificação do paladar 

Segunda conferência:" Da mortificação interna."1- Da mortificação do amor próprio.2- Da mortificação da vontade própria.

domingo, 16 de julho de 2017

A Crucifixão - Pe Frederick William Faber

A Crucifixão


    O mundo é um mistério. A vida, o tempo, a morte, a dúvida, o bem e o mal e a incerteza que pairam sobre nosso destino eterno são mistérios. Ardem ocultamente no coração dos tempos. Mas o Crucifixo é seu significado, a solução para todos eles. Ele põe as questões, e responde a elas também. É a solução de todos os enigmas, a certeza de todas as dúvidas, o centro de todas as fés, a fonte de todas as esperanças, o símbolo de todos os amores. Revela o homem a ele mesmo, e Deus ao homem. Lança luz ao tempo, para que possa contemplar a eternidade e acalmar-se. É uma vista doce de olhar em tempos de alegria, pois torna a alegria mais terna sem reprová-la, eleve-a sem extenuá-la. Na dor não há vista como esta. Ela arranca nossas lágrimas, e fá-las cair mais rapidamente, e tão suavemente, que se tornam mais doces que sorrisos. Dá luz na escuridão, e o silêncio de sua pregação é sempre eloquente, e a morte é vida em face da grave seriedade da vida eterna. O Crucifixo é sempre o mesmo mas sempre varia sua expressão segundo nossa disposição, conformando-se ao que mais queremos e a que é melhor para nós. Não é surpreendente que os santos se tenham agarrado ao Crucifixo com tais transes de amor satisfeito. Mas Maria é parte da realidade deste símbolo a Mãe e o Apóstolo ficam, por assim dizer, ao pé do Crucifixo ao longo de todas as eras, símbolos do grande mistério, da única religião verdadeira, do que Deus fez pelo mundo que criara. Assim como não podemos pensar no Menino de Belém sem a sua Mãe, assim tampouco os Evangelhos nos permitem imaginar ao Homem no Calvário sem sua Mãe. Jesus e Maria eram sempre um; mas havia uma união peculiar entre eles no Calvário. A esta união chegamos agora, à quinta dor de Maria, à Crucifixão.
    A Via-Crúcis acabara, e eles chegaram ao cimo da colina um pouco antes do meio-dia. Se a tradição é verdadeira, aquele lugar era um memorial apropriado para ser o santuário do mundo; pois se diz que foi o lugar do túmulo de Adão, o lugar onde repousou quando a misericórdia de Deus o acolheu e encerrou seus novecentos anos de penitência heroica. Próximo estava a cidade de Davi, que era antes a cidade de Deus, o centro de uma história tão maravilhosa, o objeto de um amor divino tão patético. A cena por representar agora descoroaria a cidade real; mas apenas para coroar com uma coroa muito mais gloriosa de luz, de esperança, de verdade e de beleza de todas as cidades do mundo onde o Cristo Crucificado seria pregado e onde o Santíssimo Sacramento moraria. Passou pouco tempo, talvez uma hora, desde a última dor; e assim passaram somente quatro horas desde a quarta dor até a consumação da quinta. Mas, com respeito ao sofrimento e à santificação, foi o período mais longo que os dezoito anos de Nazaré. Com respeito a nenhuma outra coisa isto é mais verdadeiro que com respeito à nossa santidade: para Deus mil anos são apenas um dia. Estas horas estavam repletos de mistérios tão divinos, de realidades tão vibrantes, que o passar do tempo não era um elemento da agonia da alma de Maria. Ela chega à Crucifixão como uma maravilha da graça e um milagre de sofrimento maiores que quando, uma hora antes, encontrara a Jesus com a Cruz na esquina da estrada.
    Despiram-No de Suas vestes, e por causa disso Sua Natureza humana foi diminuída inexprimivelmente. Para sua Mãe a indignidade era uma tortura em si, e ver o Coração descoberto de seu Filho foi um horror e uma agonia que as palavras não podem expressar. Puseram-No na Cruz, cama mais dura que a Manjedoura de Belém onde primeiro fora posto. Entrega-se às mãos dos soldados com tanta docilidade como uma criança que se entrega a uma mãe que o prepara amavelmente para dormir. Parece, e foi realmente assim, que Sua vontade, e não a sua, era cumprida. Belo na desfiguração, venerável na vergonha, o Deus Eterno jaz na Cruz, com os olhos fitos nobremente nos céus. Nunca, pensava Maria, Ele tinha parecido tão adorável, tão manifestadamente Deus, como agora que estava esticado, vítima impotente, mas pronta; e ela adorava-O com o mais profundo culto. Os carrascos esticam Seu braço direito, e colocam-no na Cruz. Martelam o cravo áspero na palma de Sua Mão, na Mão de onde fluem as graças do mundo, e a primeira pancada seca do martelo é ouvida em silêncio. O tremor da dor excessiva passa a Seus membros sagrados, mas não remove a expressão doce de Seus olhos. Agora, um golpe se segue a outro, e ecoam vagamente em algum lugar. Madalena e João fecham os ouvidos; pois o som é insuportável: é pior do que se o martelo de ferro golpeasse seu coração vivo. Maria ouve a tudo. O martelo golpeia seu coração vivo; pois seu amor há muito morreu para si, e só vive para Ele. Ela olhou para o Céu. Não conseguia falar. Palavras não diriam nada. Somente o Pai entendia a oferta daquele coração, agora quebrantado tantas vezes. Para ela a Fixação dos Cravos não foi uma só ação. Cada martelada era um martírio diferente. O martelo tocava seu coração como a mão de um músico aperta variavelmente as teclas de seu instrumento.
    A Mão Direita está pregada na Cruz. A Esquerda não alcança o outro lado. Ou erraram no cálculo do orifício que abriram para facilitar a passagem do prego, ou o Corpo se contraiu pela agonia. A cena que se seguiu é temível, como os santos a descrevem em sua revelação. Os carrascos puxaram o braço esquerdo com todas as suas forças; mas ainda não alcançava o outro lado. Ajoelharam-se sobre suas costelas, que rechaçavam, conquanto não quebrassem, pela pressão violeta, e, deslocando Seu braço, conseguiram esticar a Mão até o lugar. Não se pode arrancar de Jesus mais que um olhar amável, e a expressão doce ainda estava em seus olhos. Mas para Maria - quem consegue imaginar o horror daquela vista, daquele som, para ela? Oh! Havia mais pesar neles que em todos os santos que ainda não tinham sido canonizados! Os golpes secos do martelo começavam novamente, variando o som conforme golpeavam carne ou músculo, ou a madeira dura, onde o prego abria seu caminho cruel. Suas pernas também estão esticadas pela violência; um Pé está cruzado sobre o outro, esses Pés que tantas vezes sofreram dor e a massa sólida dos músculos contraídos, vagarosamente e com uma agonia indizível, por causa da oscilação dos pés nesta posição. É inútil falar da Mãe; é inútil compadecer-se dela. Nossa compaixão não é nada em comparação com tal excesso terrível de agonia. Mas Deus susteve sua criatura, ela sobreviveu.
    Agora a Cruz está erguida da terra, com Jesus jacente nela, a mesma expressão doce nos olhos, e a cruz é levada para perto do buraco que cavaram para receber o pé da cruz. Amarraram cordas à cruz, e, prendendo-as à extremidade do buraco, começaram a levantá-la perpendicularmente por meio das cordas. Quando estava de pé, empurram a base gradualmente até a extremidade da cova, até que caiu na cavidade com um salto veemente, que deslocou todos os ossos, e quase rasgou o Corpo nos cravos. De fato, alguns contemplativos mencionam uma corda pendurada ao redor de Sua cintura tão cruelmente apertada que se escondia na carne, para impedir que o Seu Corpo se despregasse da Cruz. Assim, um horror sobrepuja outro, explorando, com impressões ardentes, como as vibrações de um terremoto, todas as capacidades sobrenaturais do sofrimento, que são como um abismo no coração arruinado da Mãe. Não comparemos seu sofrimento a nenhum outro. É único. Podemos contemplá-lo e chorá-lo com amor, com um amor que é também sofrimento. Mas não ousamos fazer nenhum comentário sobre ele. Mãe Dolorosa, bendita seja a Santíssima Trindade pelos milagres de graça realizados em vós nesta hora tremenda!
[...]
    É difícil para uma mãe ficar imóvel do lado do leito de morte de um filho. O pesar tem de mover alguma coisa. As necessidades do sofredor são a luxúria do pranteador. É preciso amaciar novamente os travesseiros, tirar o cabelo da frente dos olhos, enxugar da testa úmida as gotas da morte, umedecer continuamente os lábios exangues, esfregar as mãos pálidas, afastar uma cortina para que entre mais ar, proteger os olhos da luz, remover as roupas que dificultam a respiração. Ainda quando é claro que o toque mais leve, o mais gentil desses serviços, é causa de dor para o sofredor, a mão da mãe não consegue refrear-se; pois seu coração está em todos os dedos. Ficar imóvel é uma desolação para sua alma. Ela pensa que não é a habilidade ou experiência da enfermeira o que deve ditar seus movimentos, mas sim sua teimosia, pois a enfermeira não é a mãe desse belo menino; e assim se rebela contra a autoridade da enfermeira, ainda que as possibilidades de ser cruel lhe refreiem as mãos. É certo que se deve retirar a espuma da sua boca, é verdade que o longo cacho de cabelos está coçando ao cair entre os olhos e dividir sua visão, é certo que se deve trazer de volta, com delicadeza, com muita delicadeza, o sangue à mão gelada. E assim ela se senta murmurante, condensada toda a sua dor na imobilidade obrigatória. Pensai, então, quanto Maria sofreu nas três longas horas sob a Cruz! Existiu alguma vez leito de morte tão incômodo, tão desconfortável como aquele madeiro áspero? Existiu alguma vez postura mais torturante do que estar dependurado com cravos nas mãos, sendo puxado mais e mais para baixo pelo peso do Corpo? Onde estava o travesseiro para Sua cabeça? Se tentasse repousar sobre o Título da Cruz, a coroa de espinhos empurrava-O para frente de novo; se se prostrasse sobre o Peito, não poderia alcança-lo, e o peso despregaria o Corpo dos cravos. Correntes vagarosas de Sangue escorriam sobre seu Corpo ferido, fazendo-O tremer a seu toque, com irritação e desconforto muito dolorosos. O Sangue lhe irritava os olhos, um líquido quase congelado. Sua Boca, tremendo de sede, era também tocada pelo Sangue, que Sua respiração umedecia cada vez menos. Não havia membro que não reclamasse a mão terna da Mãe, e sua mão não conseguia alcançar tão alto. Seu toque aliviaria multidão de dores. Ó mães, há algum nome para expressar o desejo intolerável de Maria de alisar aquele cabelo, de limpar aqueles olhos, de umedecer aqueles lábios que havia pouco tinham dito palavras tão belas, de soltar as mãos latejantes e de segurar por um tempo a sola dos pés esmagados e lacerados?



Ao Pé da Cruz - Pe Frederick William Faber