domingo, 16 de julho de 2017

A Crucifixão - Pe Frederick William Faber

A Crucifixão


    O mundo é um mistério. A vida, o tempo, a morte, a dúvida, o bem e o mal e a incerteza que pairam sobre nosso destino eterno são mistérios. Ardem ocultamente no coração dos tempos. Mas o Crucifixo é seu significado, a solução para todos eles. Ele põe as questões, e responde a elas também. É a solução de todos os enigmas, a certeza de todas as dúvidas, o centro de todas as fés, a fonte de todas as esperanças, o símbolo de todos os amores. Revela o homem a ele mesmo, e Deus ao homem. Lança luz ao tempo, para que possa contemplar a eternidade e acalmar-se. É uma vista doce de olhar em tempos de alegria, pois torna a alegria mais terna sem reprová-la, eleve-a sem extenuá-la. Na dor não há vista como esta. Ela arranca nossas lágrimas, e fá-las cair mais rapidamente, e tão suavemente, que se tornam mais doces que sorrisos. Dá luz na escuridão, e o silêncio de sua pregação é sempre eloquente, e a morte é vida em face da grave seriedade da vida eterna. O Crucifixo é sempre o mesmo mas sempre varia sua expressão segundo nossa disposição, conformando-se ao que mais queremos e a que é melhor para nós. Não é surpreendente que os santos se tenham agarrado ao Crucifixo com tais transes de amor satisfeito. Mas Maria é parte da realidade deste símbolo a Mãe e o Apóstolo ficam, por assim dizer, ao pé do Crucifixo ao longo de todas as eras, símbolos do grande mistério, da única religião verdadeira, do que Deus fez pelo mundo que criara. Assim como não podemos pensar no Menino de Belém sem a sua Mãe, assim tampouco os Evangelhos nos permitem imaginar ao Homem no Calvário sem sua Mãe. Jesus e Maria eram sempre um; mas havia uma união peculiar entre eles no Calvário. A esta união chegamos agora, à quinta dor de Maria, à Crucifixão.
    A Via-Crúcis acabara, e eles chegaram ao cimo da colina um pouco antes do meio-dia. Se a tradição é verdadeira, aquele lugar era um memorial apropriado para ser o santuário do mundo; pois se diz que foi o lugar do túmulo de Adão, o lugar onde repousou quando a misericórdia de Deus o acolheu e encerrou seus novecentos anos de penitência heroica. Próximo estava a cidade de Davi, que era antes a cidade de Deus, o centro de uma história tão maravilhosa, o objeto de um amor divino tão patético. A cena por representar agora descoroaria a cidade real; mas apenas para coroar com uma coroa muito mais gloriosa de luz, de esperança, de verdade e de beleza de todas as cidades do mundo onde o Cristo Crucificado seria pregado e onde o Santíssimo Sacramento moraria. Passou pouco tempo, talvez uma hora, desde a última dor; e assim passaram somente quatro horas desde a quarta dor até a consumação da quinta. Mas, com respeito ao sofrimento e à santificação, foi o período mais longo que os dezoito anos de Nazaré. Com respeito a nenhuma outra coisa isto é mais verdadeiro que com respeito à nossa santidade: para Deus mil anos são apenas um dia. Estas horas estavam repletos de mistérios tão divinos, de realidades tão vibrantes, que o passar do tempo não era um elemento da agonia da alma de Maria. Ela chega à Crucifixão como uma maravilha da graça e um milagre de sofrimento maiores que quando, uma hora antes, encontrara a Jesus com a Cruz na esquina da estrada.
    Despiram-No de Suas vestes, e por causa disso Sua Natureza humana foi diminuída inexprimivelmente. Para sua Mãe a indignidade era uma tortura em si, e ver o Coração descoberto de seu Filho foi um horror e uma agonia que as palavras não podem expressar. Puseram-No na Cruz, cama mais dura que a Manjedoura de Belém onde primeiro fora posto. Entrega-se às mãos dos soldados com tanta docilidade como uma criança que se entrega a uma mãe que o prepara amavelmente para dormir. Parece, e foi realmente assim, que Sua vontade, e não a sua, era cumprida. Belo na desfiguração, venerável na vergonha, o Deus Eterno jaz na Cruz, com os olhos fitos nobremente nos céus. Nunca, pensava Maria, Ele tinha parecido tão adorável, tão manifestadamente Deus, como agora que estava esticado, vítima impotente, mas pronta; e ela adorava-O com o mais profundo culto. Os carrascos esticam Seu braço direito, e colocam-no na Cruz. Martelam o cravo áspero na palma de Sua Mão, na Mão de onde fluem as graças do mundo, e a primeira pancada seca do martelo é ouvida em silêncio. O tremor da dor excessiva passa a Seus membros sagrados, mas não remove a expressão doce de Seus olhos. Agora, um golpe se segue a outro, e ecoam vagamente em algum lugar. Madalena e João fecham os ouvidos; pois o som é insuportável: é pior do que se o martelo de ferro golpeasse seu coração vivo. Maria ouve a tudo. O martelo golpeia seu coração vivo; pois seu amor há muito morreu para si, e só vive para Ele. Ela olhou para o Céu. Não conseguia falar. Palavras não diriam nada. Somente o Pai entendia a oferta daquele coração, agora quebrantado tantas vezes. Para ela a Fixação dos Cravos não foi uma só ação. Cada martelada era um martírio diferente. O martelo tocava seu coração como a mão de um músico aperta variavelmente as teclas de seu instrumento.
    A Mão Direita está pregada na Cruz. A Esquerda não alcança o outro lado. Ou erraram no cálculo do orifício que abriram para facilitar a passagem do prego, ou o Corpo se contraiu pela agonia. A cena que se seguiu é temível, como os santos a descrevem em sua revelação. Os carrascos puxaram o braço esquerdo com todas as suas forças; mas ainda não alcançava o outro lado. Ajoelharam-se sobre suas costelas, que rechaçavam, conquanto não quebrassem, pela pressão violeta, e, deslocando Seu braço, conseguiram esticar a Mão até o lugar. Não se pode arrancar de Jesus mais que um olhar amável, e a expressão doce ainda estava em seus olhos. Mas para Maria - quem consegue imaginar o horror daquela vista, daquele som, para ela? Oh! Havia mais pesar neles que em todos os santos que ainda não tinham sido canonizados! Os golpes secos do martelo começavam novamente, variando o som conforme golpeavam carne ou músculo, ou a madeira dura, onde o prego abria seu caminho cruel. Suas pernas também estão esticadas pela violência; um Pé está cruzado sobre o outro, esses Pés que tantas vezes sofreram dor e a massa sólida dos músculos contraídos, vagarosamente e com uma agonia indizível, por causa da oscilação dos pés nesta posição. É inútil falar da Mãe; é inútil compadecer-se dela. Nossa compaixão não é nada em comparação com tal excesso terrível de agonia. Mas Deus susteve sua criatura, ela sobreviveu.
    Agora a Cruz está erguida da terra, com Jesus jacente nela, a mesma expressão doce nos olhos, e a cruz é levada para perto do buraco que cavaram para receber o pé da cruz. Amarraram cordas à cruz, e, prendendo-as à extremidade do buraco, começaram a levantá-la perpendicularmente por meio das cordas. Quando estava de pé, empurram a base gradualmente até a extremidade da cova, até que caiu na cavidade com um salto veemente, que deslocou todos os ossos, e quase rasgou o Corpo nos cravos. De fato, alguns contemplativos mencionam uma corda pendurada ao redor de Sua cintura tão cruelmente apertada que se escondia na carne, para impedir que o Seu Corpo se despregasse da Cruz. Assim, um horror sobrepuja outro, explorando, com impressões ardentes, como as vibrações de um terremoto, todas as capacidades sobrenaturais do sofrimento, que são como um abismo no coração arruinado da Mãe. Não comparemos seu sofrimento a nenhum outro. É único. Podemos contemplá-lo e chorá-lo com amor, com um amor que é também sofrimento. Mas não ousamos fazer nenhum comentário sobre ele. Mãe Dolorosa, bendita seja a Santíssima Trindade pelos milagres de graça realizados em vós nesta hora tremenda!
[...]
    É difícil para uma mãe ficar imóvel do lado do leito de morte de um filho. O pesar tem de mover alguma coisa. As necessidades do sofredor são a luxúria do pranteador. É preciso amaciar novamente os travesseiros, tirar o cabelo da frente dos olhos, enxugar da testa úmida as gotas da morte, umedecer continuamente os lábios exangues, esfregar as mãos pálidas, afastar uma cortina para que entre mais ar, proteger os olhos da luz, remover as roupas que dificultam a respiração. Ainda quando é claro que o toque mais leve, o mais gentil desses serviços, é causa de dor para o sofredor, a mão da mãe não consegue refrear-se; pois seu coração está em todos os dedos. Ficar imóvel é uma desolação para sua alma. Ela pensa que não é a habilidade ou experiência da enfermeira o que deve ditar seus movimentos, mas sim sua teimosia, pois a enfermeira não é a mãe desse belo menino; e assim se rebela contra a autoridade da enfermeira, ainda que as possibilidades de ser cruel lhe refreiem as mãos. É certo que se deve retirar a espuma da sua boca, é verdade que o longo cacho de cabelos está coçando ao cair entre os olhos e dividir sua visão, é certo que se deve trazer de volta, com delicadeza, com muita delicadeza, o sangue à mão gelada. E assim ela se senta murmurante, condensada toda a sua dor na imobilidade obrigatória. Pensai, então, quanto Maria sofreu nas três longas horas sob a Cruz! Existiu alguma vez leito de morte tão incômodo, tão desconfortável como aquele madeiro áspero? Existiu alguma vez postura mais torturante do que estar dependurado com cravos nas mãos, sendo puxado mais e mais para baixo pelo peso do Corpo? Onde estava o travesseiro para Sua cabeça? Se tentasse repousar sobre o Título da Cruz, a coroa de espinhos empurrava-O para frente de novo; se se prostrasse sobre o Peito, não poderia alcança-lo, e o peso despregaria o Corpo dos cravos. Correntes vagarosas de Sangue escorriam sobre seu Corpo ferido, fazendo-O tremer a seu toque, com irritação e desconforto muito dolorosos. O Sangue lhe irritava os olhos, um líquido quase congelado. Sua Boca, tremendo de sede, era também tocada pelo Sangue, que Sua respiração umedecia cada vez menos. Não havia membro que não reclamasse a mão terna da Mãe, e sua mão não conseguia alcançar tão alto. Seu toque aliviaria multidão de dores. Ó mães, há algum nome para expressar o desejo intolerável de Maria de alisar aquele cabelo, de limpar aqueles olhos, de umedecer aqueles lábios que havia pouco tinham dito palavras tão belas, de soltar as mãos latejantes e de segurar por um tempo a sola dos pés esmagados e lacerados?



Ao Pé da Cruz - Pe Frederick William Faber