terça-feira, 22 de agosto de 2017

22 de Agosto - Imaculado Coração de Maria (Dogma da Imaculada Conceição e o Racionalismo)



22 de Agosto comemoramos o Imaculado Coração de Maria.


O Imaculado Coração de Maria consiste em um dos últimos remédios que o bom Deus oferece ao mundo, pois estamos nos últimos tempos, conforme dito pela irmã Lucia, ao Padre Augustin Fuentes em Dezembro de 1957.

«[...] Ela disse aos meus primos, como também a mim, que Deus está a oferecer os dois últimos remédios ao mundo. São eles o Rosário e a devoção ao Imaculado Coração de Maria. São os dois últimos remédios, o que significa que não haverá outros.» 

O Dogma da Imaculada Conceição é mortal ao Racionalismo


Ego autem rogavi pro te (Petre), ut non deficiat fides tua: et tu aliquando conversus, confirma
fratres tuos.

Eu orei por ti (Pedro), a fim de que tua fé não desfaleça nunca; quando, porém, te converteres,

confirma teus irmãos.
Lucas 22, 32.


     Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu duas coisas a São Pedro e a todos seus sucessores sobre a sé indestrutível da Roma dos papas. O Cristo, Filho do Deus vivo, declara, em primeiro lugar, que Ele orou por Pedro a fim de que sua fé não desfaleça, não vacile, não se altere jamais.
    O divino Salvador acrescenta que Pedro, divinamente preservado de toda vertigem na fé, guardará, não somente o incorruptível depósito das revelações divinas, mas que ele confirmará seus irmãos, ou seja, o episcopado católico; e, pelo episcopado, o clero e os fiéis contra as conspirações do cisma e da heresia, contra as negações e as blasfêmias da impiedade. “Eu orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça jamais; quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos”. Ora, tudo o que o Homem Deus promete a São Pedro, Ele o prometeu, na pessoa de Pedro, a todos seus sucessores sobre a sé apostólica.
     Assim, o Papado é divinamente constituído para guardar o depósito imortal dos dogmas sagrados da fé; para vigiar sobre a herança inalterável das revelações divinas; para assegurar para sempre o reino da verdade sobre a terra.
    O Papado recebeu, na pessoa de São Pedro, o grande, a indefectível missão de confirmar o episcopado católico contra todos os abalos do erro, da heresia e da infidelidade. O Papado é a pedra, o fundamento sobre o qual o episcopado, o sacerdócio, o corpo inteiro dos fiéis se apóiam para resistir para sempre aos esforços conjurados de todos os inimigos da Igreja. Pedro, sempre vivo no Papado, confirma seus irmãos, ele lhes comunica uma força contra a qual são despedaçados e se despedaçarão eternamente todos os furores do inferno. Portae inferi non praevalebunt.

     O sensualismo desesperado desse tempo, reprodução viva do sensualismo dos séculos pagãos, nos oferece o espetáculo da desordem moral alcançada em seus excessos monstruosos. O sensualismo do mundo antigo derramou sobre a raça humana o vaso ignominioso de todas as corrupções, de todas as abominações materiais, e foi divinizado. Ora, o sensualismo moderno é marcado, nós o vimos, com a dupla característica das luxúrias mais colossais e de uma vergonhosa idolatria.
     Os teatros pagãos, o luxo pagão, a inundação dos livros licenciosos e ímpios, as danças pagãs, os adereços escandalosamente indecentes, as intemperanças, os deboches, as orgias de toda espécie, são um esforço desesperado da vontade, pedindo à matéria, e somente à matéria, a felicidade suprema ou o gozo supremo do bem absoluto. O paganismo antigo teria destruído a humanidade se a graça descida do Calvário e do Cenáculo não tivesse extirpado o cancro que terminaria por devorar os últimos retalhos do cadáver pagão. O sensualismo de nosso tempo destruirá a Europa, se o culto da Imaculada Conceição não a arrancar do culto da matéria.
    O Pontífice supremo, pelo privilégio dogmático definido da Conceição Imaculada da Santíssima Virgem, oferece à terra um remédio divino, um remédio onipotente contra o naturalismo brutalizador, que leva o homem e a sociedade à extinção total do sentido moral, e mais ainda, do sentido cristão, colocando na sensação, e somente na sensação, o bem supremo e o destino final do homem.
    Mas outra chaga devora o mundo. Esta chaga é aquela do racionalismo. O paganismo do mundo antigo destruiu a virtude pelo reino do sensualismo mais monstruoso. Ele dissipou a herança tradicional da verdade pelo reino do racionalismo, pela emancipação criminal e pela idolatria da razão. O reino dos sofistas foi tão fatal ao mundo pagão quanto o reino dos Césares. Os porcos coroados que fizeram da Roma pagã uma cloaca, não foram tão inimigos da raça humana quanto o foram os sofistas, precipitando a razão em um ceticismo desesperado.
     Ora, a Europa herdou o racionalismo pagão, assim como ela herdou o sensualismo pagão. O racionalismo moderno saiu das entranhas do renascimento, assim como saiu o naturalismo pagão de nosso tempo. “Colhemos, diz o Apóstolo, o que semeamos”. Há quase quatro séculos, os sofistas da Grécia e de Roma tornaram-se os instrutores e os mestres das gerações de estudantes dos colégios e das escolas da Europa.
    O racionalismo destruidor da verdade e pai do ceticismo se produz sob três formas distintas no seio da sociedade moderna. Há o racionalismo protestante, o racionalismo teológico e o racionalismo filosófico dos livres pensadores. Essas três formas do racionalismo tem uma mesma origem. O racionalismo dos livres pensadores, o racionalismo bíblico ou protestante e o racionalismo teológico ou o galicanismo, descendem do ensino pagão da Renascença.
    Ora, o decreto dogmático da Imaculada Conceição é mortal ao racionalismo, considerado sob esses três aspectos. Vejamos, inicialmente, como o dogma da Imaculada Conceição, solenemente proclamado por Pio IX, golpeia com um golpe mortal o racionalismo das seitas protestantes.
    As seitas protestantes admitem a revelação. Elas crêem em uma ordem sobrenatural. Mas o supernaturalismo, como o chama Guizot, só se encontra na Bíblia. A Bíblia, submetida ao exame da razão; a Bíblia explicada, interpretada pela razão individual, ou o livre exame aplicado à Bíblia, eis aí a base, o princípio, a essência própria do protestantismo. Ora, o que é isso senão uma das formas do racionalismo pagão da renascença?
    O sofista pagão só admite o que é evidente por sua razão. O sofista bíblico só crê na Bíblia baseado nos dados de sua razão. A razão protestante, o livre exame, ou a infalibilidade individual, tal é o fundamento sobre o qual repousa a Bíblia e tudo o que ela contém.
    O racionalista protestante que pede somente à razão, e não à Igreja, o sentido verdadeiro, o sentido sobrenatural, o sentido divino e revelado da Bíblia, não é cristão, ele não passa de um sofista. A Bíblia cessa de ser para ele um livro inspirado, um livro divino. Ela é apenas mais uma obra completamente humana, que a razão soberana do indivíduo admite ou rejeita ao seu agrado.
    O católico crê na Bíblia e em tudo o que contém na Bíblia baseado na autoridade infalível da Igreja. Ele diz com Santo Agostinho e com todos os doutores católicos: “Eu não acreditaria na Bíblia se a autoridade da Igreja não me fizesse crer nela.”

     O simples fiel encontra no ensino infalível da Igreja um meio fácil, um meio popular, universal, irrefutável de conhecer a Bíblia e tudo o que ela contém. O sofista protestante que submete a Bíblia à autoridade suprema do livre exame, pergunta à sua razão duas coisas que ela não lhe dará nunca. Ele lhe pergunta, em primeiro lugar, o que é a Bíblia. Ele lhe pede, em segundo lugar, qual é o sentido da Bíblia; e a razão impotente não tem cessado, não cessará jamais de responder, como o Eunuco da rainha de Etiópia respondeu ao santo diácono Filipe: “Como posso eu saber isso, se ninguém me ensina.”
     Fora da tradição católica, fora da Igreja sempre una, sempre viva, sempre apoiada sobre Pedro e seus sucessores, a eternidade escoaria para o racionalista protestante antes que ele pudesse conhecer indubitavelmente, e de uma visão de equação, se a Bíblia é um livro divino e inspirado; antes que ele pudesse saber de um modo infalível se a Bíblia traz um caráter de autenticidade, de inalterabilidade, de inspiração e de sobrenaturalidade; antes que ele pudesse penetrar em sua verdade pura, em sua realidade substancial, o sentido verdadeiro, o sentido divino ou revelado.
    O livre exame é o maior inimigo da Bíblia. O livre exame fez sair da Bíblia mais erros do que as linhas que ela contém. Entregue às suas dúvidas, às suas investigações solitárias e tenebrosas, o racionalista protestante não crê mais na Bíblia. Ele crê apenas em si. Submetida à soberania da razão individual, a Bíblia deixa de ser para ele um livro sobrenatural, um livro inspirado. A Bíblia é, nas mãos dos protestantes, apenas um fruto de discórdia. Ela é uma pedra de escândalo para a razão ignorante que tem a pretensão orgulhosa de citar o Verbo divino em seu tribunal, de medir os impenetráveis mistérios da revelação e as invenções da sabedoria eterna com o compasso de suas dúvidas, com seus sofismas e suas blasfêmias. É fácil, mesmo àquele que não leu a Bíblia, que não a lerá nunca, que não sabe ler, vir nos dizer: “Eu creio na Bíblia”. Mas a Bíblia não fala; a Bíblia não ensina e nem prega. Ela se deixa ler a quem quer lê-la. Ela não diz nada àquele que a entende mal. Ela não lhe ensina em qual sentido ele deve entender o que ela contém. Não há um versículo, um texto da Bíblia do qual não podemos extrair significados diversos e sentidos múltiplos. Ora, qual sentido é o bom? Qual é o verdadeiro? Qual é o sentido divino, o sentido positivamente revelado? Há no Evangelho um texto mais conciso, mais nítido, mais claro que esse texto: “Este é meu corpo”. E, todavia, de quantas maneiras o livre exame traduziu, comentou, explicou, torturou essas quatro palavras para estabelecer que, dizendo: “Este é meu corpo”, o Filho de Deus quis dizer e disse: “Este não é meu corpo”, mas a sombra, a imagem, a figura, a aparência de meu corpo. O cardeal Berlamino contou duzentos significados diversos dados pelos protestantes à essas quatro palavras para negar a transubstanciação e a presença real. As seitas protestantes extraíram, pelo livre exame, do mesmo texto dos livros santos, o sim e o não; a verdade e o erro; o bem e o mal; a ordem e a desordem; o vício e a virtude; a vida e a morte.
     Os arianos fizeram dizer à Bíblia que o Verbo de Deus é apenas a criatura de Deus. A Bíblia dizia ao espírito privado de Nestório e de sua seita que há em Jesus Cristo não somente duas naturezas distintas, mas duas pessoas distintas. Os maniqueus se serviram dos textos bíblicos, entendidos à maneira protestante, para propagar a abominável heresia dos princípios. Os monotelitas procuraram estabelecer pelo mesmo caminho do sentido privado que há em Jesus Cristo apenas uma vontade. Os gnósticos apoiaram seus erros imundos sobre passagens extraídas da Bíblia, e passados pelo crivo do livre exame. Pelágio pregava o naturalismo mais audaciosos com palavras de um livro que toca, por cada palavra, na ordem sobrenatural. Maomé teve a impudicícia de tornar a Bíblia cúmplice do Corão. Fócios, pai do cisma grego, chegou, pelo sistema do racionalismo bíblico, a negar a hierarquia, a supremacia do Pontífice romano sobre toda a Igreja, a processão do Espírito Santo pelo Filho, etc., etc.. Os albigenses, os valdenses, os wiclefistas, os hussitas, os begardos, e cem outras seitas abomináveis pilharam, incendiaram, cometeram todos os crimes, se inspirando em passagens da Bíblia, comentadas pelo sistema do livre exame.
    Henrique VIII, a infame Isabel, Cromwel, praticaram o roubo, o assalto, os deboches mais hediondos, os massacres mais horríveis, todas as contravenções imagináveis procurando na Bíblia, pelo método do racionalismo, a justificação e a consagração divina de seus excessos horríveis.
     Lutero, Calvino, Zwingle, Teodoro de Bése, Ecolampade, Melanconton, todos os pretendidos reformadores do século XVI proclamam, com uma audácia extraordinária, o direito radical que todo cristão tem de interpretar a escritura santa somente por sua razão. Esses teólogos, livres pensadores, extraíram da interpretação individual da Bíblia a inutilidade das boas obras para a salvação, a escravidão irremediável do livre arbítrio; a fé sem as obras; o fatalismo, o divórcio, a poligamia, o culto da carne, o horror da virgindade, do celibato cristão, da penitência, do jejum, etc., etc.. Em nome da Bíblia, e pela autoridade dos textos bíblicos, do sentido dos quais eles sozinhos se constituíam juízes, eles ofereceram o trajeto à todas as paixões, canonizaram todas as luxúrias e glorificaram todos os deboches.
    Socino pregava o deismo puro, a Bíblia à mão. Os ministros protestantes de Genebra demoliram o dogma da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo com o martelo do livre exame. A exegese alemã devorou o sobrenaturalismo da Bíblia. Strauss e os racionalistas de sua índole viam apenas mitos nos livros santos. Os terroristas de 93 fizeram do Evangelho um código de democracia selvagem, e de nosso adorável Salvador, um jacobino.
    Os anarquistas desse tempo, os socialistas, os comunistas, as seitas ocultas de todo tipo, encontraram na Bíblia, submetida ao livre exame, a justificação da pilhagem, do roubo praticado na maior escala, das conspirações políticas e sociais da exterminação e do ateísmo. Cabet escreveu o catecismo do comunismo mais horrível com palavras extraídas do Evangelho e comentadas segundo o princípio protestante. Podemos atear fogo aos quatro cantos da terra oferecendo às paixões anárquicas da massa o direito de interpretar a Bíblia.
    Mazzini, Garibaldi, todos os mandris revolucionários que cobrem a Itália de assassinatos, de pilhagem, de sacrilégios, de ruínas e de sangue, tem, sem cessar, à boca, textos bíblicos para glorificar os atentados, as espoliações, todos as contravenções dos quais eles são os autores ou os cúmplices. Escutamo-los urrar a blasfêmia contra a Igreja e contra seu líder se inspirando em textos da Bíblia.
    É na Bíblia comentada pelo espírito de Satanás, o pai e o mestre deles, que eles vão tomar o direito de despojar o Papado de uma soberania temporal necessária ao governo da Igreja, e que, apoiada sobre uma posse de doze séculos, é a mais legítima de todas as soberanias.
    O racionalismo bíblico, destruidor do elemento revelado, pai de todas as heresias, inimigo implacável de toda fé divina, criou a anarquia religiosa mais irremediável no seio das seitas protestantes. Não há dois espíritos protestantes que se vinculem por um laço religioso. O protestantismo, como sociedade, como religião, como Igreja, não existe, não é possível. Lá onde a unidade não existe, não pode haver, não há princípio de vida, de elemento gerador, de força de coesão. Não há corpo vivo, sociedade viva, por conseqüência, Igreja. O protestantismo não é mais uma igreja, é apenas uma agregação de ladrões, de saqueadores, de anarquistas e de assassinos, não é uma comunidade regular ou um exército disciplinado, disposto em ordem de batalha.
    As seitas protestantes não obedecem a ninguém em matéria de fé religiosa. Cada indivíduo, com sua Bíblia à mão, é para si, e somente para si, um sacerdote, um pontífice, um papa, um concílio, uma igreja, uma sociedade.
    Dois fenômenos se produzem no seio desse caos religioso que chamamos de protestantismo. Veremos a maior parte das seitas protestantes mergulharem no puro racionalismo. A Bíblia não é nada para elas. Elas percebem aí apenas um retalho de fábulas, de mitos, de quimeras que a razão filosófica não admite, não pode admitir. Essas seitas caem no fundo do ceticismo religioso, e o ateísmo as envolve sob a bandeira sangrenta do socialismo e do direito mazziniano. Vemos se produzir de um lado, entre os povos protestantes, um movimento providencial e misericordioso.
    Milhares de homens se sentem impelidos nos braços da Igreja. Buscam de boa fé a verdade, compreendem que ela não pode ser o fruto do orgulho; e que, longe de poder encontrar em si mesma ou na Bíblia a regra imutável de suas crenças e de seus deveres, a razão individual tinha apenas o triste privilégio de se quebrar contra o escudo dos mais estúpidos e, muito frequentemente, dos mais monstruosos erros, para se afundar na noite do ceticismo religioso e adormecer, de lassidão ou de desesperança, no braço da indiferença, que é apenas em si mesma um verdadeiro ateísmo.
    A proclamação solene do dogma da Imaculada Conceição é o último recurso de salvação oferecido às nações protestantes que o livre exame despojou de todo princípio de vida sobrenatural.
    Jamais a unidade da Igreja, jamais a obediência do corpo místico de Jesus Cristo tinha resplandecido com um brilho comparável àquele cujo universo foi testemunha.
    Que vimos? Que ocorreu no mundo depois que Pio IX definiu dogmaticamente a Conceição Imaculada da Bem-Aventurada Mãe de Jesus Cristo?
    O que vimos, o que os anjos contemplaram do alto do céu, é que o corpo inteiro do episcopado, do clero e dos fiéis se inclinou sob o decreto pontifical, como ele se estivesse inclinado sob a própria palavra de Deus, se ela fosse ouvida diretamente pela humanidade. O vigário de Jesus Cristo, em virtude da autoridade divina, infalível e suprema que ele toma de Jesus Cristo, pronuncia, define, decide, declara que a Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria foi isenta da mancha do pecado original; que o veneno da decadência jamais penetrou na alma imaculada da Mãe divina do Verbo encarnado. Esta grande definição, esta declaração solene e dogmática é recebida por todo o episcopado, por todo o clero, pelo corpo inteiro dos fiéis, com uma obediência filial e respeitosa. Ela é recebida como o símbolo da fé é recebido; ela é recebida como a expressão de um decreto eterno, como um oráculo divino, como o eco vivo do Verbo de Deus, falando ele próprio ao universo, pela boca daquele que toma seu lugar.
    O Pontífice supremo formula o decreto dogmático que ensina ao mundo que a humilde Maria é o milagre da graça, a obra prima do mundo sobrenatural, a criação mais preciosa das invenções do Espírito Santo, a pérola do mundo angélico. E, de um extremo ao outro da terra, leigos, sacerdotes, simples fiéis clamam: “Pedro falou pela boca de Pio IX”. “Roma falou, a causa está terminada”.
    As seitas protestantes, contudo, tinham feito escutar gritos de cólera, de ódio e de desesperança. Ouvimo-las rugir como leões nos jornais da Europa e do Novo Mundo. Esperando assustar o sucessor de São Pedro e retardar o dia que ele deveria colocar o selo das supremas magnificências ao culto da Virgem Imaculada, elas tinham profetizado, para a Igreja romana, rupturas, divisões e cismas. A imprensa incrédula e ímpia, se unindo à imprensa protestante, declarava que a Igreja, por esta proclamação intempestiva, iria ver nações inteiras se desligarem de seu seio; que uma luta encarniçada iria colocá-la em chamas, e que ela não tardaria em tornar-se o palco de uma imensa insurreição e de uma desobediência merecida.
    Todos esses ruídos do inferno, todos esses ecos de um ódio que remonta ao próprio dia da queda dos anjos prevaricadores, não pôde retardar um só momento a manifestação de um decreto que estava escrito no Livro eterno.
    Um dogma esmagador para o racionalismo, um dogma reparador de todas as blasfêmias vomitadas pelo demônio da heresia contra a Virgem Imaculada, sai das profundezas inescrutáveis do conselho divino. Pio IX, de imortal memória, vai tomá-lo no segredo mais escondido das invenções da sabedoria eterna, para lançá-lo ao universo. E eis que duzentos milhões de fiéis, disseminados sobre todos os pontos da terra, o recebem de joelhos.
    Extinguindo pelo poder da graça a sombra da dúvida no fundo da consciência, os pastores e as ovelhas se ligam à palavra Pontifical pelas raízes de sua existência. Eles tomam o céu e a terra como testemunhas de que nenhum poder, de que nenhum suplício poderá abalar as convicções que o Pontífice infalível acaba de criar neles.
    Assim, o dogma da Imaculada Conceição, proclamado do alto da cátedra de São Pedro, faz brilhar no mais alto grau a unidade miraculosa da Igreja, o poder soberano do Pontífice romano e a obediência sobrenatural do corpo místico de Jesus Cristo no chefe visível que ele lhe deu.
    Esse dogma dá um golpe desesperado nas seitas que o individualismo devora, mostrando sua nudez e sua impotência. Ele apresenta, enfim, a todos os filhos da heresia que buscam de boa fé a verdade, um fato divinamente providencial, marcado por sinais tão brilhantes, tão palpáveis e tão irresistíveis de luz, que é preciso violentar todas as potências da alma para não perceber nele a marca indelével, a marca sobrenatural e miraculosa da mão do próprio Deus.
    Já acrescentamos que o decreto dogmático da Imaculada Conceição era mortal ao racionalismo teológico ou ao galicanismo. É o que iremos estabelecer.
    O racionalismo protestante, nós o vimos, tem um parentesco necessário com o racionalismo pagão da renascença. O racionalismo puro não reconhece a autoridade soberana e infalível, se essa não for a razão individual. Ele não admite a ordem sobrenatural ou revelada.
    O racionalismo protestante admite a autoridade divina da Bíblia e a ordem sobrenatural ou revelada, cuja Bíblia é a expressão; mas na condição expressa de que a Bíblia e tudo o que ela contém alçará do tribunal da razão, do livre exame ou da autoridade soberana da razão do indivíduo, o que, em última análise, reduz o protestantismo a um puro racionalismo.
    Mas o que entendemos pelo racionalismo teológico?
    O racionalismo teológico ou o galicanismo é o direito que se atribuem certos teólogos de mudar as condições da autoridade suprema e infalível do Pontífice romano a fim de diminuí-la, a fim de desnaturá-la, a tornado dependente de uma sanção que é tão somente um puro sistema da razão.
    O racionalismo galicano ataca o papado. Ele enfraquece o poder supremo dele. O racionalismo galicano, com efeito, em virtude de sua razão individual, ousa avançar que os decretos emanados da cátedra pontifical só revestem um caráter de autoridade irreformável, infalível, tendo direito de comandar a fé, quando eles recebem a sanção suprema do episcopado reunido ou disperso, o qual oferece aos decretos do Papa um assentimento tácito ou formal. O galicanismo é apenas, logo, uma forma do racionalismo.
    A Bíblia soberanamente interpretada pela razão individual, a Bíblia submissa, em última instância, à sanção suprema do livre exame, eis, para todas as seitas protestantes, a pedra angular da ordem sobrenatural ou da verdade revelada. O racionalismo protestante se orgulha de crer na Bíblia, de adorar a Bíblia, de tomar a Bíblia como princípio para regular suas crenças e seus deveres, ele crê, na verdade, apenas nos sonhos do individualismo, ele solicita a verdade e a luz apenas às visões enganadoras do pensamento individual. Um texto da Bíblia é uma autoridade, um ensino divino, somente enquanto esse texto é interpretado, explicado, julgado, selado, se ouso assim dizer, pela razão individual.
    O mesmo ocorre no racionalismo teológico ou galicano. O teólogo galicano se gaba de estar submisso, de fato, a todos os decretos, a todas as decisões, a todas as bulas, a todas as encíclicas do Vigário de Jesus Cristo. Ele toma o céu e a terra como testemunha de que as opiniões formuladas por Bossuet, na famosa declaração de 1682, não impedem os partidários dessas opiniões de serem os melhores católicos do mundo; a verdade é que o teólogo galicano se faz juiz, e juiz em última instância, da natureza, do entendimento, das características e das condições da autoridade do Pontífice romano.
    Os livros santos, a tradição universal, a fé permanente da Igreja, as decisões solenes dos santos concílios, colocam no Pontífice romano, e no somente no Pontífice romano, o pleno e supremo poder para governar toda a Igreja. 
     E o teólogo galicano ensina que o Concílio geral é superior ao Pontífice romano. Ele ensina que os decretos pontificais necessitam da sanção episcopal para revestir um caráter de infalibilidade dogmática. Ora, esta maneira de ver, esta insurreição teológica contra a Igreja, esta pretensão temerária de citar no tribunal do livre exame a autoridade divina do Vigário de Jesus Cristo, para aí discutir os direitos, a natureza e as condições, se converte no racionalismo protestante, que é tão somente um racionalismo filosófico ou pagão.
    O racionalismo protestante crê na infalibilidade dogmática e sobrenatural da Bíblia somente sobre o apontamento da razão individual ou do livre exame, e o racionalismo galicano crê na infalibilidade sobrenatural e dogmática do Papa somente pelo apontamento e a sanção do episcopado reunido ou disperso.
    O racionalismo protestante termina na democracia religiosa mais irremediável, e o racionalismo galicano destrói a monarquia divina da Igreja, para fazer dela uma pura aristocracia.
    O racionalismo protestante, no lugar de apoiar a razão individual sobre a palavra de Deus, consignada na Bíblia, oferece como base e por apoio à autoridade divina e sobrenatural da Bíblia, o livre exame ou a autoridade pretendida infalível da razão individual.
    O racionalismo galicano, no lugar de apoiar a autoridade episcopal sobre aquela à quem Jesus Cristo disse: “Confirma teus irmãos”, quer que o episcopado reunido ou disperso seja a base, a pedra angular sobre a qual os oráculos do Papado devem encontrar um apoio, uma confirmação e sua solidez suprema aqui em baixo, a fim de revestir um caráter de infalibilidade dogmática.
    O galicanismo teológico tem, portanto, uma afinidade, um parentesco necessário com o racionalismo protestante. E um e outro vão se mergulhar e se perder no racionalismo pagão dos livres pensadores.
    A célebre declaração de 1682 acabava de aparecer. Trinta e dois bispos, para fazer corte a Luís XIV, se deram à missão de aniquilar, de desnaturar, ou, de preferência, de destruir, tanto quanto eles pudessem, a autoridade divina e infalível do Pontífice romano. Este ato culpável foi motivo de alegria para as seitas protestantes. As Igrejas pretendias reformadas dirigiram, em conseqüência, uma ementa ao clero de França para felicitá-lo pelo o que ele acabava de empreender contra a imóvel autoridade do Chefe supremo da Igreja.
    “Sempre tinham crido (é dito nessa ementa) no seio da Igreja católica romana que a infalibilidade dogmática e o poder supremo residem na pessoa do Papa. As Igrejas reformadas colocam a infalibilidade doutrinal e dogmática na Bíblia, submetida ao livre exame da razão individual. Os bispos franceses, autores da declaração de 1682, submetem os decretos do Pontífice romano à sanção do corpo episcopal, o qual lhe imprime um caráter dogmático e infalível. Este ato dos bispos de França é um grande passo feito do lado do protestantismo. Ainda um passo mais, e a Igreja galicana oferecerá o beijo da paz às Igrejas protestantes”.
    Esse castigo, pois se tratava de um, deveria fazer os teólogos do galicanismo compreenderem tudo o que dissimulavam de dores, para a Santa Sé, e de calamidades, para a França, as pretensões do racionalismo galicano.
    O racionalismo galicano, dizemos sem medo, foi uma das maiores chagas que jamais baixaram sobre uma nação católica. A autoridade infalível do Vigário de Jesus Cristo, uma vez abalada na consciência pelos sofismas da razão, o espírito católico não tardou em se enfraquecer de um modo assustador no seio das Igrejas de França.
    O jansenismo, elemento corruptor do dogma da graça e da moral do Evangelho, encontrou no racionalismo galicano um auxiliar e quase um aprovador. É ao racionalismo teológico que é preciso pedir conta desta casuística sem misericórdia que fez dos teólogos franceses, nos séculos XVII e XVIII, uma fonte de escrúpulos, de torturas, de desesperança e de condenação para os fiéis.
    A unidade da hierarquia recebeu, pelo racionalismo teológico de 1682, um atentado profundo. Enquanto que o galicanismo reduzia, desnaturava, destruía tanto quanto ele podia, a autoridade suprema e infalível do Pontífice romano, ele exigiria sem medida a autoridade episcopal. Ele iria mais longe. O que o galicanismo teológico tirava da autoridade do Vigário de Jesus Cristo, ele o dava não somente ao episcopado, mas homenageava o próprio César; pois o tornava completamente independente, como chefe de uma nação católico, de todo controle, de toda autoridade repressiva e coercitiva da parte da Igreja de Jesus Cristo e do Chefe supremo que ele lhe deu.
    O racionalismo galicano, hostil à hierarquia, corruptor da moral evangélica, fautor do cesarismo pagão, destruía, em os desnaturando, os laços da unidade litúrgica. A liturgia romana foi, por assim dizer, aniquilada no seio das dioceses de França.
    As prerrogativas do Vigário de Jesus Cristo, os direitos do Papado, as solenidades litúrgicas pelas quais a Igreja romana fazia brilhar sua piedade e seu amor pela Virgem Imaculada; a suavidade misericordiosa da moral do Evangelho, as festas do santos que a Igreja colocou sobre seus altares, a majestosa grandeza dos Papas canonizados, dos santos Doutores e dos fundadores das ordens monásticas, receberam nas liturgias galicanas, cujo lar era Paris, atentados profundos e ultrajes imerecidos. Seria preciso, para o triunfo do galicanismo litúrgico, reduzir, transformar, desnaturar e mudar todas as coisas.
    O latim cristão dos livros litúrgicos que o próprio Espírito Santo parece ter ditado a São Gregório, o Grande, e à seus sucessores, esta língua universal que São Bernardo, Santo Anselmo, São Tomás de Aquino, São Boaventura, elevaram às suas últimas magnificências, tinha se tornado um objeto de dó e de desgosto para os reformadores ciceronianos, virgilianos e horacianos da liturgia.
    A harmonia suave dos hinos, das prosas, das sequências cantadas há mil anos sob as abóbadas de nossos templos por milhões de fiéis, não pôde encontrar graça diante dos adoradores da poesia do Parnasse e do Olimpo pagãos. Seria preciso enquadrar os mistérios divinos, os dogmas da fé, as divinas criações do mundo da graça, não mais em uma poesia descida de Nazaré, do Presépio, do Monte das Oliveiras, do Tabor, do Cenáculo e do Calvário; mas em composições tomadas emprestadas pela forma, e muito frequentemente pelas ideias, dos cantos epicurianos do século de Augusto.
    Aos acentos populares das melodias gregorianas, os reformadores galicanos substituíram um cantochão bárbaro, ridiculamente brusco, caprichoso, desconhecido, que o vento do Espírito Santo não teria inspirado, pois ele tinha sua origem e sua fonte em um espírito de revolta e de malícia.
    A partir desta heresia litúrgica, cujo racionalismo galicano aplaudiria e do qual ele estava orgulhoso, nossas igrejas tornaram-se quase desertas e quase mudas. As multidões que estavam familiarizadas com o canto gregoriano não iriam mais agitar e estremecer as abóbadas de nossas igrejas. Cantos de artistas, instrumentos de música tomados emprestados dos teatros, ares de salão e de óperas substituiriam doravante a voz solene, os ecos majestosos e as torrentes rolantes do canto romano.
    Destruidor do canto litúrgico, o racionalismo galicano não poderia aceitar a disciplina e o direito canônico. Se separar o mais possível de Roma, tal era o movimento impresso na França pelo galicanismo. Um direito novo tomou o lugar do direito consagrado pelos decretos dos Soberanos Pontífices. Os concílios provinciais, os sínodos diocesanos, as visitas ad limina apostolorum, todas essas regras santas consagradas pelos séculos e cuja Roma é a guardiã incorruptível, desapareceram do seio de nossas dioceses. A Igreja, ou de preferência, as igrejas de França caíram sob o império do bom prazer em matéria de direito canônico. Esta seção do ensino teológico desapareceu dos seminários; ou se ainda subsistiu alguns detritos dela, iremos encontrá-las nos livros desprovidos de sua integridade pelos anátemas dos Pontífices romanos.
    O Missal, o Ritual, o Breviário, sofreram alterações lamentáveis e tristes metamorfoses. Os metropolitanos e seus sufragâneos não invocaram mais, do meio dos concílios, o Espírito que, sozinho, podia inspirá-los, dirigi-los, guiá-los no governo espiritual de suas igrejas.
    O ramo que tira apenas, do tronco ao qual ele está ligado, uma parte fraca da seiva necessária à seu crescimento, à seu desenvolvimento, à seu vigor e à sua vida, não produz frutos; ou, se ele produz alguns frutos por acaso, eles são sem beleza, sem maturidade, sem sabor. O racionalismo galicano enfraquece todos os laços que unem as igrejas da França à Igreja romana. A seiva e a medula que somente Roma pode oferecer à uma nação católica só penetravam nas entranhas da Filha primogênita da Igreja senão em uma medida insuficiente para lhe oferecer a vida, a força, a santidade sobrenatural do qual ele precisava para resistir ao veneno devorador que o ensino pagão da Renascença, que o racionalismo protestante e o racionalismo teológico derramavam incessantemente em suas veias.
    A França de São Luís e de Carlos Mago não se sustentava mais, por assim dizer, senão pela cortiça, à árvore católica romana. A vida tinha se retirado das antigas Igrejas dos gauleses.
    Submetidos ao poder civil pelos libertinos galicanos, elas não tinham mais a força, nem mesmo a vontade, de pedir ao Pontífice romano o milagre de uma libertação e de uma ressurreição que somente ele poderia operar; a justiça divina se encarregou de nos punir. As duas maiores chagas que podem esmagar uma nação visitaram a França. A realeza tinha pedido aos prelados cortesãos de 1682 para consagrar, por um decreto maculado pelo cisma, o ateísmo político. Ela ascendeu sobre o patíbulo dirigido pelo ateísmo revolucionário. As Igrejas de França tinham a pretensão de permanecer católicas atacando, reduzindo, desnaturando, a autoridade suprema do Pontífice romano. A França foi destroçada pelo demônio do cisma.
    O galicanismo teológico, consagrando o despotismo dos soberanos, ou o cesarismo, tinha preparado a democracia selvagem que guilhotina a monarquia na pessoa augusta do infortunado Luís XVI.
    Atacando os direitos divinos do Papado, o galicanismo teológico tinha preparado a Constituição civil do Clero que precipitou no cisma a Filha primogênita da Igreja. Et nunc reges intelligite: erudimini qui judicatis terram.
    Mas a França, mais feliz que a Inglaterra, pois ela tinha sido consagrada à Virgem Imaculada, não seria apagada do livro das nações católicas. O Papado veio chorar sobre o túmulo desse novo Lázaro. Ela ouviu, pela boca de Pio VII, a palavra que ressuscita e que devolve a vida: Lazare, veni foras.
    A terra nunca foi testemunha de um espetáculo semelhante. Nunca a voz do Pontífice supremo tinha ressoado no seio das nações com um clareza mais solene. Pio VII, por um ato inigual nos séculos passados, suprime e extingue com um único golpe as 133 sé episcopais da Igreja galicana. Ele as aniquila apesar de seu passado, apesar de sua glória, apesar das liberdades galicanas e apesar dos privilégios adquiridos por concessões canônicas e legítimas.
    O Pontífice imortal ensina à terra que a salvação das nações é a lei suprema: “Há um tempo para destruir e um tempo para edificar”; e que, juiz soberano das necessidades sobrenaturais das nações dadas em herança a Jesus Cristo, o Pontífice romano pode se levantar acima das regras ordinárias e dos costumes constantemente seguidos; que ele sozinho pode modificar ou transformar as condições de existência, de organização, de movimento e de duração das igrejas particulares: que ele pode tudo, em uma palavra, daquilo que o bem espiritual do mundo reivindica.
    A Concordata de 1801, quaisquer que tenham sido os esforços do despotismo imperial para deter ou para destruir seus efeitos, salvou o catolicismo e a civilização na França; talvez mesmo no resto da Europa.
    Ela aniquilou para sempre a Constituição civil do Clero, despedaçou os costumes e as pretensões anti-canônicas das igrejas da França, e destruiu as esperanças cismáticas que a Pequena Igreja se esforçava para despertar e perpetuar em certas províncias.
    O racionalismo teológico acabara de ouvir o sino de sua ruína. O jansenismo recebera o golpe mortal. A seita ímpia que tinha esperado que o último dos reis fosse estrangulado em uma corda trançada com as vísceras do último dos padres, lançou um grito de desesperança. Ela via nossos templos devolvidos ao culto de nossos pais. Roma retomando sua autoridade sobre a Filha primogênita da Igreja. As cerimônias santas de nossos augustos Mistérios reaparecerem nas catedrais e nas igrejas onde os padres e os pontífices da guilhotina tinham inaugurado o culto da deusa Razão, o culto da Natureza, o culto do Fogo, ou seja, o culto dos demônios e do ateísmo.
     Um golpe mais terrível deveria cair sobre o racionalismo teológico. Um ato mais solene que a Concordata de 1801 deveria oferecer ao universo admirado o sentido profundo, o sentido completo das palavras imortais que o Divino Salvador tinha dirigido ao Papado, na pessoa de São Pedro, e que Ele lhe tinha deixado como sua herança mais magnífica: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligardes na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligardes na terra, será desligado nos Céus”.
     Dissemos, meus caros irmãos, que o galicanismo tinha recebido um golpe mortal da mão do imortal Pio VII. Mas o ato pelo qual a autoridade pontifical se emprega em toda sua plenitude e em toda sua magnificência ocorreu em 8 de dezembro do ano da graça de 1854. A proclamação do dogma da Imaculada Conceição da gloriosa Mãe de Deus eleva, com efeito, o poder infalível do Pontífice romano ao seu supremo esplendor no seio da Igreja militante.
    Escutemos o bem aventurado Pontífice que foi predestinado desde sempre para proclamar sobre esta terra o dogma mais caro ao coração da Rainha de toda santidade e de toda virtude.
    “E, conquanto as instâncias a Nós dirigidas a fim de implorar a definição da Imaculada Conceição já nos houvessem demonstrado bastante qual fosse o pensamento de muitíssimos bispos, todavia, a 2 de fevereiro de 1849, enviamos, de Gaeta, uma Encíclica a todos os Veneráveis Irmãos bispos do mundo católico, a fim de que, depois de orarem a Deus, nos fizessem saber, mesmo por escrito, qual era a piedade e devoção dos seus fiéis para com a Imaculada Conceição da Mãe de Deus; o que era que pensavam, especialmente eles — os bispos — da definição em projeto; e, por último, que desejos tinham a exprimir, para que o Nosso supremo juízo pudesse ser manifestado com a maior solenidade possível. 
E, na verdade, foi bastante grande a consolação que experimentamos, quando nos chegaram as respostas dos mesmos Veneráveis Irmãos. De fato, com cartas das quais transparece um incrível, um jubiloso entusiasmo, eles não somente nos confirmaram novamente a sua opinião e devoção pessoal e a do seu clero e dos seus fiéis, mas também, com voto que se pode dizer unânime, pediram-nos que, com o Nosso supremo juízo e autoridade, definamos a Imaculada Conceição da mesma Virgem”.
     Assim, o episcopado católico completo, os cardeais da santa Igreja romana, os teólogos consultores, como pela expressão de um voto unânime, suplicam ao Pontífice romano para definir, pelo julgamento supremo de sua autoridade, a Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Assim, o mundo católico, pela voz de seus pastores, avoca o feliz momento onde o sucessor de Pedro, por seu julgamento supremo, pela autoridade infalível que ele toma de Jesus Cristo, imprimirá o selo de uma definição dogmática ao privilégio da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Mãe de Deus.
    Observemos, meus caros irmãos, com o Doutor angélico “que uma nova edição do símbolo torna-se necessária quando novas heresias se levantam, temendo que a fé dos fiéis seja alterada pelos hereges”.
     As heresias do naturalismo, do panteísmo, do progresso pelo culto da matéria; os erros monstruosos que atacam a ordem sobrenatural da graça e o pecado original, tornaram necessária a proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem. Era preciso dar um golpe mortal ao paganismo moderno. Era preciso fazer resplandecer em um fato divinamente marcado pelo sinal do Onipotente, os efeitos mais prodigiosos, e as mais admiráveis criações do Espírito Santo. Era preciso elevar, em uma palavra, à sua suprema magnificência, ou seja, ao esplendor de um dogma definido, a crença universal do privilégio da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Pio IX ofereceu, portanto, ao universo, uma nova edição do símbolo católico. Ele deu não um novo símbolo, mas, em uma nova publicação do símbolo, ele deu ao mundo o sentido definitivo dos textos da Sagrada Escritura, que contém, de um modo mais ou menos explícito, o privilégio revelado da Conceição Imaculada da Santíssima Virgem.
    Pertence ao Pontífice romano dirigir um símbolo de fé? O racionalismo teológico ou o galicanismo
recusa esse poder e esse direito ao Vigário de Jesus Cristo. Mas eis de qual modo o Doutor angélico
coloca por terra, há seiscentos anos, os sofismas temerários do racionalismo galicano:
    “É necessário, diz Santo Tomás de Aquino, publicar uma nova edição do símbolo para evitas os erros que se levantam. Aquele que tem a utoridade de fazer uma nova edição do símbolo, é aquele que pode determinar finalmente as coisas que são de fé, e que devem ser cridas firmemente por todos. Ora, esse poder pertence ao Soberano Pontífice; é para ele que se reportam as questões mais graves e mais difíceis que se levantam na Igreja. Como o vemos (nos decretos dist. 117). Também o Senhor disse a Pedro quando ele o estabeleceu Soberano Pontífice: Eu rezei por ti, afim que tua fé não desfaleça nunca, quando, pois, te converteres, confirma teus irmãos.
    A razão é, continua o santo Doutor, que deve haver apenas uma mesma fé em toda a Igreja, segundo essas palavras do Apóstolo: “É preciso que digais a mesma coisa, e que não haja cismas entre vós.
    O que não poderia se manter, se as questões de fé que se levantam não fossem decididas por aquele que está na cabeça da Igreja inteira; de tal modo que seu sentimento deva ser sustentado inabalavelmente pela própria Igreja. É por isso que há apenas um Soberano Pontífice que tenha o poder de fazer uma nova edição do símbolo, como há apenas ele quem possa fazer todas as outras coisas que competem a toda a Igreja, tais como a convocação de um concílio geral, e outras coisas semelhantes”.
     Respondendo às objeções dirigidas contra esta tese tão evidente, tão concisa, tão forte, da doutrina católica sobre a infalibilidade ensinante e dogmática do Pontífice romano, o Doutor angélico acrescenta:
     “Porque houve homens perversos, que alteraram “para sua perdição”, segundo a expressão de São Pedro, a doutrina dos Apóstolos, as santas escrituras e as outras doutrinas católicas, foi necessário, à medida que os séculos se sucederam, explicar a fé para destruir os erros que se levantavam”.
    O mesmo doutor diz ainda: “Que se o Concílio de Niceia proibiu, sob pena de anátema, fazer um novo símbolo, esta proibição foi feita aos particulares, que não tem o direito de definir as coisas de fé; pois, esta sentença do Concílio de Niceia não remove ao concílio seguinte o poder de fazer uma nova promulgação do símbolo, encerrando à verdade a mesma fé que o precedente, mas mais desenvolvida; ao contrário, todo concílio tem tido cuidado em acrescentar algo ao símbolo decretado pelo concílio precedente, para destruir, por esta adição, as heresias nascentes. Por conseqüência, esse poder pertence ao Soberano Pontífice, visto que cabe a ele convocar os concílios gerais e confirmar suas decisões”.
    Pela definição dogmática da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Mãe de Deus, Pio IX explica e desenvolve a fé católica. Ele oferece, por isso mesmo, uma nova edição do símbolo. Ele esmaga os erros novos. Ele faz tudo isso, diz Santo Tomás de Aquino e toda a Igreja com ele, porque somente ele recebeu o poder de determinar finalmente as coisas que são de fé e que devem ser cridas inabalavelmente por todos”.
    E quando o racionalismo galicano, para evadir-se das luzes formidáveis do ensino católico, opõe ao poder infalível do Pontífice romano a superioridade quimérica do concílio sobre o Papa, ele antecipa algo soberanamente absurdo, visto que, como o ensina Santo Tomás de Aquino e toda a tradição católica com ele, o concílio geral, para poder fazer uma nova edição do símbolo, necessita ser convocado e confirmado pelo Pontífice romano. Ora, aquele que confirma as definições e os decretos dos concílios gerais, longe de ser inferior ao concílio, dá ao concílio geral o que lhe falta, saber: a confirmação suprema, a confirmação infalível, sem a qual não há nem concílio geral, nem decisão dogmática.
    O Concílio de Bâle dirigiu um decreto sobre o privilégio da Conceição imaculada de Maria; e a Imaculada Conceição não era um dogma, mesmo após esta decisão de Bâle. A razão disso é que o decreto do Concílio de Balê, e o próprio Concílio de Bâle, jamais receberam a confirmação final e suprema do Vigário de Jesus Cristo.
    Pio IX, sucessor legítimo de São Pedro sobre a sé de Roma, possui, portanto, a infalibilidade doutrinal, a infalibilidade dogmática. Somente ele, sobre esta terra agitada por tantas opiniões divergentes, rasgada por tantos erros, atormentada por tantos cismas e por tantas heresias, tem o poder de determinar definitivamente as coisas que são de fé e que devem ser cridas inabalavelmente por toda a Igreja.
    Pio VII, nós observamos, arrancando, suprimindo, extinguindo com seu pleno e supremo poder, as cento e trinta e três sedes episcopais da França, para criar a partir daí um pequeno número de novas, com limites e em condições novas, tinha dado, sem nenhuma dúvida, um golpe formidável ao galicanismo e às suas pretendidas liberdades. Mas a ruína definitiva e completa do sistema galicano, do racionalismo teológico, estava ligada à definição dogmática do privilégio da Conceição Imaculada da Santíssima Virgem.
    É a Pio IX que estava reservada a glória de fulminar, no mesmo golpe, o racionalismo protestante, o racionalismo teológico e o racionalismo pagão, do qual falaremos tão logo.
    Quando Pio IX, do alto da Cátedra pontifical, na presença de cinqüenta e três cardeais, de duzentos bispos e cinqüenta mil fieis, dizia à Augusta e Imaculada Mãe de Deus: Eu pronuncio, eu defino, eu declaro, ó Bem-Aventurada Virgem, que vossa Conceição imaculada é um dogma de fé, e que basta uma dúvida voluntária, plenamente consentida em seu coração, sobre esta verdade definida, para naufragar na fé; quando esse bem aventurado sucessor de São Pedro lançava no mundo esta definição suprema, o divino Filho de Maria dizia, sem dúvida, a Pio IX: “Feliz és tu, ó sucessor de Simão, filho de Barjonas, feliz és tu, porque não foi a carne e o sangue que fizeram esta revelação, mas meu Pai que está nos Céus”, e eu, eu te digo: “Et ego dico tibi: Definindo a Conceição imaculada de minha Bem-Aventurada Mãe, imprimindo-lhe o selo de uma definição dogmática, tu elevas teu julgamento infalível ao seu mais alto grau de poder; imprimes à tua autoridade infalível um caráter de incomparável grandeza. Tu diz a minha Mãe imaculada em sua Conceição, e eu, eu te digo infalível em tua palavra. Tu proclamas a Conceição imaculada de minha gloriosa Mãe como um artigo de fé, e eu, eu proclamo tua decisão infalível como a pedra angular da verdade; como o fundamento inabalável de minha Igreja”.
    Duas coisas não se separarão mais sobre esta terra consolada: a infalibilidade de Pio IX ensinando à Igreja inteira o que ela deve crer, relativo à Conceição da Bem-Aventurada Mãe de Jesus Cristo, e o fato da submissão, da obediência, da fé invencível da Igreja à definição solene revestida por Pio IX.
    Duas coisas se mantêm por um nó de unidade imortal: a palavra infalível de Pio IX e o ato de fé divina, sobrenatural, imutável da Igreja inteira, à esta palavra dogmática descida da Cátedra eterna.
    O decreto dogmático da Imaculada Conceição, mortal ao racionalismo protestante e ao racionalismo teológico, não o é menos ao racionalismo dos livres pensadores.
    Os racionalistas livres pensadores não admitem o elemento sobrenatural, a revelação, a ordem divina da fé e da graça. Eles não reconhecem nem a autoridade de Jesus Cristo, nem a autoridade da Igreja, nem aquela de Deus. Só há, para o racionalismo filosófico, o eu individual. O racionalismo puro é a deificação do eu; é a usurpação sacrílega dos direitos eternos Daquele que, sozinho, do centro de sua imensidão, de sua eternidade, de sua luz e de sua glória, pode e deve dizer: Eu, Ego sum “Eu sou”. E, por esta usurpação satanicamente ímpia, o racionalismo leva seus escravos aos limites extremos do orgulho, da demência, da blasfêmia e do ateísmo.
    A emancipação absoluta da razão posta como o princípio gerador da verdade, precipita os livres pensadores na noite das contradições mais monstruosas. Eles chamam bem o que é mal, e mal o que é bem. A luz será as trevas, e as trevas serão a luz. O erro será a verdade, e a verdade será o erro. Deus será o mal, e o mal será Deus.
    O racionalismo parte desse princípio: não há verdade, senão o que é evidente para a razão; ou, em outros termos, só há verdade na equação entre a razão e o objeto conhecido pela razão. Mas, o que é a equação? A equação, diz Santo Tomás, não é outra coisa senão a luz dos primeiros princípios. A equação é a clara visão de um objeto pela razão; é a visão direta, intuitiva, imediata, pela razão, do objeto que ela contempla. Assim, a razão conhece de uma visão intuitiva, de uma visão de equação, os primeiros princípios da razão natural.
    “Uma coisa é evidente, diz Santo Tomás de Aquino, quando ela é conhecida pelos termos que a enunciam e que a exprimem; quando ela é a mesma identicamente para todos”.
    Dois e dois são quatro. O todo é maior que uma de suas partes. A linha reta é mais curta entre dois pontos dados. Eu existo, eu penso, eu falo, eu ajo, os homens existem, o sol nos ilumina; eis aí verdades evidentes ou verdades de equação.
    A luz dos primeiros princípios é universal, imutável, infalível, irresistível. Eu não sou livre de pensar o contrário do que é evidente pela razão, ou do que a razão natural vê na luz dos primeiros princípios. Eu não sou livre para pensar que dois e dois são seis, dez, etc.; que a linha curva é a mais curta entre dois pontos dados; que uma parte de um todo é maior que o todo em si mesmo; que o ser e o nada são uma mesma coisa; que uma mesma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo; que o bem e o mal são uma mesma coisa, etc., etc.. Eu não sou livre para fechar os olhos à luz dos primeiros princípios. As clarezas da equação me esmagam, me subjugam, são irresistíveis para minha razão. Forçado a crer na verdade dos primeiros princípios, eu não tenho mérito em admiti-los. Qual mérito poderia eu ter ao crer que eu existo, que eu penso, que eu falo, que o sol ilumina, que dois e dois são quatro? Que mérito posso ter ao admitir coisas das quais me é impossível negar a evidência? A luz dos primeiros princípios esclarece fatalmente minha razão, como o atrativo do bem geral arrasta fatalmente minha vontade. Eu posso me enganar em meus conceitos, em meus julgamentos, em meus pensamentos, como eu posso tomar um bem aparente pelo bem real e absoluto. Eu posso usar inadequadamente minha razão, como posso fazer mal uso de minha vontade!
    Somente Deus vê, na eterna equação de seu Verbo, o infinito e o finito, o absoluto e o relativo, o real e o possível. “Deus é luz, e nele não há trevas”.
    Os anjos e os santos contemplam Deus em uma equação sobrenatural. Eles vêem Deus na luz de sua glória. Eles o vêem na evidência, ou, face a face. Eles não podem mais se separar de Deus. Eles não podem mais se separar da luz infinita assim como do bem infinito; eles vêem Deus nos esplendores da clara visão.
    Os filhos da Igreja vêem as coisas divinas, sobrenaturais e reveladas, na luz da fé. A luz dos princípios da fé católica lhes oferecem a noção sobrenatural das coisas que eles não compreendem, que estão acima da razão e de suas distinções. Apoiados sobre a palavra de Deus e sobre a Igreja “coluna e sustentáculo da verdade”, eles estão tão seguros da realidade divina, sobrenatural, revelada, dos mistérios divinos, como os próprios eleitos, que tem a visão direta e imediata. A luz da graça e a luz da glória fazem conhecer aos filhos da Igreja militante e da Igreja triunfante as mesmas verdades, os mesmos mistérios, com esta diferença, que a luz da fé, dando aos fiéis a infalível certeza da realidade das verdades sobrenaturais e divinas que ela lhes descobre, deixa essas verdades envolvidas para eles em um véu que só se rasga após esta vida; enquanto a luz da glória faz contemplar aos eleitos essas mesmas verdades nos esplendores da clara visão.
    Aqui em baixo, o homem racional vê na luz de uma equação ou de uma evidência imediata, intuitiva, fatal ou necessária, as primeiras verdades, ou os primeiros princípios da razão natural. Mas, fora das primeiras verdades ou dos primeiros princípios da razão natural, eu não tenho a evidência das verdades que daí descolam.
    As verdades que derivam dos primeiros princípios da razão são tanto mais claros para mim, quanto mais se deduzem imediatamente, mais diretamente dos primeiros princípios ou das primeiras verdades da razão. Só há evidência para a razão, nos próprios princípios da razão.
     A noção de Deus, evidente em si, não é evidente para a razão do homem decaído, diz Santo Tomás de Aquino. A noção de Deus, na ordem puramente natural, é menos clara, para a razão humana, que a noção dos primeiros princípios. A razão pode, com a ajuda dos primeiros princípios, demonstrar a existência de Deus; mas os primeiros princípios não se demonstram. Ninguém pode negar a evidência dos primeiros princípios, e a razão pode ser pervertida ao ponto de duvidar da existência de Deus. “O ímpio diz em seu coração: não há Deus!”
    Quando eu faço esse raciocínio: “Há coisas que se movem no mundo; portanto, há um primeiro motor, o qual é Deus”. Esse raciocínio é de uma lógica inabalável. Mas a importância desse raciocínio é evidente, e a conseqüência não o é, para mim, no mesmo grau. Quando eu digo: há seres limitados, finitos, contingentes, sucessivos; portanto, há um ser necessário, o qual é Deus. Eu vejo, na luz da evidência, a importância deste argumento da razão; mas a conseqüência que eu tiro dele não tem a mesma evidência para minha razão.
    Se eu tivesse a evidência da existência de Deus e das verdades naturais, como eu tenho a evidência dos primeiros princípios da razão, eu não teria mais mérito em crer em Deus e nas verdades da ordem natural, como eu não tenho méritos ao admitir os princípios evidentes, ou os primeiros axiomas da razão.
    Usando bem as luzes de minha razão, eu posso chegar ao conhecimento certo de várias verdades da ordem puramente natural; mas fora dos primeiros princípios ou das primeiras verdades da razão, eu não tenho a evidência, ou a equação, de nenhuma verdade desta ordem.
    O erro fundamental do racionalismo é de só admitir como verdade, o que é evidente pela razão. O racionalismo demanda à razão luzes que ela não tem, que ela não pode ter nesta noite da decadência original. A infalibilidade não é mais possível à razão individual do homem, assim como a impecabilidade não é possível à sua vontade.
    A equação colocada pelo naturalismo como o elemento necessário de todas as investigações da razão, de todas as conquistas da filosofia, não é desse mundo. Ela implica, para o racionalismo puro, a dúvida sobre as verdades da ordem presente.
    Pedir à razão as luzes da evidência ou da equação em todas as questões, é querer passar da ordem da visão obscura, fenomenal, falível, à ordem da visão dos anjos e dos santos. É querer conhecer Deus e as coisas como o anjo e os eleitos as conhecem. É querer quebrar o plano providencial de nossa provação; é querer aniquilar o mérito pela liberdade, é cair no suicídio da inteligência.
    Assim, o sensualismo desesperado de nosso tempo pede o bem supremo, o bem infinito, ao naturalismo, e ele termina no culto vergonhoso da sensação.
    O racionalismo protestante pede à Bíblia, interpretada soberanamente pela razão, o símbolo das verdades divinas, das verdades da ordem sobrenatural e revelada, e ele acaba na extinção de todas as verdades, aí compreendido o próprio livro das revelações divinas, para ir se perder e se apagar no racionalismo pagão dos livre pensadores.
    O racionalismo teológico, ou o galicanismo, coloca em questão a infalibilidade dogmática do Pontífice romano. Ele se constitui Juiz dela, e a julga em último recurso, caindo no racionalismo protestante.
     Os sofistas livres pensadores desse tempo descendem, pelo Renascimento, dos sofistas do antigo paganismo. Como eles, e porque eles partem do mesmo princípio, eles não sabem o que é Deus, o que é o universo. Eles ignoram a si mesmos. Eles não conhecem nem sua origem, nem seu destino, nem a lei de seu ser. Deus, o homem, a natureza, a criação, são para os livres pensadores um enigma indecifrável. A dúvida os envolve de todos os lados. Só querendo levantar eles mesmos, eles caem no ceticismo mais incurável e mais desesperado. O orgulho do espírito, ou Satanás, que é o pai do orgulho, lhes faz crer que eles tem em si mesmos o princípio da luz, as raízes da verdade, o critério da certeza, a chama da razão, a pedra angular do edifício intelectual que eles querem edificar; e a noite, a implacável noite de todos os sonhos, de todas as demências, de todas as dúvidas e de todos os erros, os oprime.
     A Providência divina preparou um remédio misericordioso à esta epidemia do racionalismo moderno, no decreto dogmático da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Mãe do Homem Deus.
     Esse dogma de salvação faz duas coisas para arrancar as nações modernas do sensualismo pagão de nosso tempo. Ele dá, em primeiro lugar, um golpe terrível no naturalismo, no panteísmo, no culto da matéria, fazendo resplandecer o dogma desconhecido da graça, colocando em evidência as mais maravilhosas criações do Espírito Santo no mundo sobrenatural.
     O dogma da Imaculada Conceição, proclamado com tanto estrondo e uma tão grande magnificência, escava, em segundo lugar, um abismo entre o culto da Virgem Imaculada e entre a herança funesta do luxo pagão, dos teatros pagãos, das artes pagãs, das danças pagãs, dos livros licenciosos, dos adornos indecentes, de todas essas luxúrias, em uma palavra, que o rio impuro do Renascimento derramou sobre a Europa, e que uma mulher cristã só pode se permitir, desertando do estandarte imaculado da Rainha de toda virtude, para se enrolar sob a bandeira impura do sensualismo.
     O decreto dogmático da Imaculada Conceição caí como um peso esmagador sobre o racionalismo protestante, pois, se, de um lado, ele torna patente a nudez, a profunda anarquia, a miséria irremediável das seitas bíblicas, ele faz resplandecer, de outro lado, a unidade miraculosa da Igreja e a fé invencível, inextirpável, das nações católicas por todos os ensinos do Vigário de Jesus Cristo.
     Esse mesmo decreto é mortal ao racionalismo galicano, pois ele eleva à sua última magnificência a autoridade infalível e o poder supremo do Pontífice romano; pois ele torna evidente para todo o universo esta grande lei da sabedoria eterna, que fez do Papado, e somente do Papado, o órgão infalível, o oráculo permanente, sobre a terra, da verdade, da justiça e do direito.
    O dogma da Imaculada Conceição, solenemente definido pelo imortal Pio IX, torna-se, enfim, uma tábua de salvação para os pobres náufragos, que as tempestades do individualismo filosófico lançaram sobre o oceano sem fundo do ceticismo.O dogma da Imaculada Conceição, solenemente definido pelo imortal Pio IX, torna-se, enfim, uma tábua de salvação para os pobres náufragos, que as tempestades do individualismo filosófico lançaram sobre o oceano sem fundo do ceticismo.
     Dois fatos brilhantes como o sol, grandes como o universo, retumbantes como os ruídos do trovão, se erguem diante dos livres pensadores. O Pontífice romano afirma dogmaticamente ou divinamente a Conceição imaculada da mais humilde das filhas de Adão, e o universo católico crê, com uma fé inabalável, invencível, universal, que Deus falou pela boca do Pontífice romano.
    O papa declara, da parte de Deus, que a Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria é um dogma da fé católica, que faz parte das revelações divinas. O papa diz à terra, que uma dúvida, que uma única dúvida, realmente e plenamente consentida nas profundezas da alma, bastaria, no futuro, para excluir do Reino dos céus aquele que se tornar culpável dela. Ora, à esta afirmação solene, à esta proclamação deslumbrante, o episcopado católico completo, o sacerdócio católico inteiro, o corpo inteiro dos fiéis, respondem por uma obediência imediata, interna, irrevocável, invencível. Eles respondem sem serem ouvidos, sem terem podido ser ouvidos. Eles respondem de todos os pontos do globo que a palavra de Pio IX é a voz de Deus; que a fé de Pio IX é sua fé, e que a Eternidade fluirá antes que o inferno possa sacudir em sua consciência as convicções dogmáticas que acabam de brotar com o decreto descido da cátedra pontifical.
    Jamais um golpe de trovão com esta força passou sobre os desertos da dúvida. Jamais as ruínas do ceticismo foram sacudidas, abaladas, desenraizadas com esta profundidade. Jamais a verdade brilhou, no seio das trevas humanas, com uma magnificência semelhante e com características mais arrebatadoras, mais encantadoras, mais irresistíveis.
    O fato da proclamação dogmática da Conceição Imaculada da Bem-Aventurada Mãe de Jesus Cristo, é um fato do qual ninguém pode colocar em dúvida a existência e a realidade. Todo o universo o conhece. Todo o universo ouviu falar dele. Todo o universo sabe que ele aconteceu. A dúvida sobre o fato realizado desta definição dogmática não é possível. A negação de um fato semelhante seria um ato de loucura e de estupidez consumada.
    Mas a submissão imediata, a fé espontânea e invencível da Igreja católica à esta definição suprema, é um fato de mesma natureza que o precedente. Este ato de obediência católica sacudiu o mundo inteiro. Ele se produziu de um extremo ao outro da terra, por uma explosão, por uma manifestação solene tão geral, tão plena de entusiasmo, tão universalmente retumbante, que não é possível duvidar disso um único instante.
    Do que ele trata, contudo? Trata-se de fazer crer dogmaticamente a um milhar de bispos, a quatrocentos mil padres, a duzentas milhões de almas, no seio das quais se encontra tudo o que há de maior pela inteligência, pelo gênio, pela ciência, pelo caráter, pela sabedoria, pela retidão e pela santidade, que uma humilde filha de Adão, saída de uma raça decaída, degradada, profanada pelo pecado original, não recebeu nada desta infecção.
    Trata-se de fazer crer dogmaticamente ao universo, que a Conceição Imaculada da Bem Aventurada Virgem Maria não é somente uma crença piedosa, uma crença permitida, autorizada na Igreja, mas um dogma revelado, um dogma de uma certeza divina, sobrenatural, igual à certeza divinamente enraizada no seio das nações católicas, dos dogmas da Trindade, da Encarnação, de todos os dogmas, enfim, do símbolo católico. O papa acaba de dizer ao universo: Crereis na Imaculada
Conceição da Santíssima Virgem; crereis com uma fé sobrenatural e divina. Crereis nela por todos
os poderes da alma. Crereis como se o próprio Deus vos a ensinasse de sua boca divina. Crereis sob a pena de perdição eterna. E o episcopado católico, e o mundo católico, responde ao Pontífice romano: Nós nos despojamos de todo pensamento contrário ao vosso ensinamento. Juramos, por tudo o que há de mais sagrado no Céu e sobre a terra, de vos obedecer como a Deus. Tomamos o céu e a terra por testemunhas de que a sombra de uma dúvida jamais abalará em nossas almas as certezas divinas que vosso decreto supremo acaba de plantar, enraizar, eternizar.
     A palavra dogmática que Pio IX fez ouvir ao mundo, e a fé divina que esta palavra criou nas entranhas do universo católico, realizam um dos mais esplendidos prodígios da Onipotência.
    Esses dois fatos implicam a ação viva, a ação palpável da mão de Deus. Como explicar, com efeito, sem um milagre da Onipotência, esses dois fenômenos? Como explicar esse milagre da unidade na obediência, da unidade na abnegação, da unidade na mesma fé, da unidade no amor?
     O racionalismo protestante e o racionalismo filosófico são incapazes de atar dois espíritos, de rebitá-los a uma mesma opinião, não digo para sempre, mas por um dia. E eis uma palavra descida dos lábios do Pontífice supremo que ata, com um nó eterno, duzentas milhões de inteligências; que as ata e que as rebita para sempre em uma verdade incompreensível para a razão. Eis duzentos milhões de católicos, bispos, padres, simples fiéis, prontos a morrer antes que repudiar a fé que os une e que os arrastam à palavra dogmática do Pontífice romano.
     Que pensaria de um homem sentado sobre um rochedo, no meio do oceano, e que, somente por sua vontade imprimiria à todas as torrentes, a cada onda deste imenso vaso, uma mesma direção, um mesmo movimento, uma mesma obediência, uma mesma lei de submissão harmoniosa, somente durante um quarto de século? Tomá-lo-íamos por um taumaturgo. Ora, Pio IX, do alto deste rochedo eterno, sobre o qual estão sentados todos os sucessores de São Pedro, do alto deste rochedo divino, contra o qual, há dois mil anos, se quebram todas as ondas e todas as tempestades vindas dos abismos do inferno, Pio IX manda as duzentas milhões de almas de crer no mistério incompreensível que ele lhes revela, de viver na fé desse mistério insondável, de perseverar nele até a morte, de vivê-lo, mesmo ao preço de todos os sacrifícios; de morrer antes que trair a fé que sua palavra lhes inspira: e Pio IX é obedecido.
    Dizemos sem hesitar: fora da visão imediata da verdade, a qual constitui a felicidade dos eleitos; fora da evidência dos primeiros princípios, o qual subjuga insensivelmente a razão, não há nada de mais brilhante que o fato miraculoso que contemplamos nesse momento.
    O dogma definido da Imaculada Conceição e a obediência católica do universo ao decreto pontifical elevam a verdade desse grau à seu esplendor supremo, no seio da humanidade!
    A visão de um fato miraculoso (a ressurreição de Lázaro, por exemplo) não conduz fatalmente, necessariamente, a razão daqueles que são testemunhas dele, pois, fora da visão dos bem aventurados, e fora da luz dos primeiros princípios, uma resistência obstinada, uma resistência diabólica, ainda é possível.
    A ressurreição de Lázaro, cuja multidão de judeus foram testemunhas, e que todos os judeus puderam verificar, devia convencê-los da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que era o autor desta ressurreição.
    A ressurreição de Lázaro era, para os judeus, um esforço miraculoso, uma última tentativa da caridade de Jesus Cristo, para conduzi-los à fé de sua divindade, sem violentar sua liberdade, sem lhes retirar o mérito de sua submissão e de sua obediência. Mas o orgulho satânico dos Escribas e dos Fariseus, o ciúmes que os queimava diante de Jesus, os cegaram de tal modo, que eles fecharam os olhos ao esplendor estridente dos prodígios dos quais eles tinham sido testemunhas; e eis porque esses judeus infelizes, fascinados pelo espírito de inveja, de ciúmes, ódio e obstinação infernal, se diziam uns aos outros: “é preciso matar Lázaro, pois, se nós o deixarmos viver, todo mundo crerá em Jesus”. Como se matando Lázaro, eles pudessem matar ao mesmo tempo o poder Daquele que acabara de ressuscitar Lázaro. “Cegos, lhes dizia Santo Agostinho, ele ressuscitou Lázaro, morto há quatro dias. Ora, quem o impedirá de ressuscitá-lo novamente, quando o matardes? Pois bem! vocês o matareis ele mesmo, e quando vocês o tiverem matado, ele se ressuscitará”.
    Havia entre os judeus, homens de boa fé, e homens satânicos. Os primeiros, após ter visto os milagres de Jesus, diziam: “Este é realmente o Filho de Deus, o Cristo, o Messias esperado por nossos pais”; e os segundos, possuídos pelo espírito de trevas, entregues às inspirações satânicas do inferno, diziam: “É preciso matar este homem, sem o que os romanos virão destruir Jerusalém”.
    O racionalismo desse tempo contém dois tipos de livres pensadores. Uns mais infelizes, que estão pervertidos, mas buscam a verdade, desejam encontrar a verdade. Esses pobres espíritos, dignos de uma imensa piedade, tem, no fato da obediência católica à definição suprema da Imaculada Conceição, um sinal celeste, um sinal miraculoso da verdade divina, falando pela boca do Vigário de Jesus Cristo. Testemunhas da afirmação solene e dogmática de Pio IX, e da submissão invencível do episcopado, do clero e do mundo católico à esta grande, à esta afirmação infalível, eles dirão: “O dedo de Deus está aí”. Digitus Dei est hic. Eles crerão que aí onde se manifesta uma unidade parecida, uma obediência parecida, um acordo parecido, se revela a ação imediata da Onipotência.
    O fato brilhante, o fato dominador da obediência do universo à voz do Pontífice romano, torna-se, para os espíritos dóceis e de boa fé, uma tábua de salvação que pode salvá-los do naufrágio, e reconduzi-los, à sombra das bênçãos da Virgem Imaculada, no seio da Igreja.
    Quantos aos liberais pervertidos, sem esperança de retorno, e que uma obstinação infernal petrifica no ódio de Jesus Cristo, no ódio da Virgem Imaculada, no ódio da Igreja e do Pontífice romano, estes não abrirão os olhos à luz que acaba de brilhar sobre o universo.
    Filhos de Belial, eles continuarão a marchar em sua via. Filhos do pai e do rei dos soberbos, eles escureceram sua inteligência, afim que a luz da verdade não penetre aí. Arrastados ao ódio ciumento que Lúcifer porta ao Cristo Deus, ao Cristo Rei, e a tudo o que lhe pertencem, eles dirão como os Escribas e os Fariseus, testemunhas da ressurreição de Lázaro: “É preciso matar o Papado; é preciso destruir a Igreja; é preciso edificar sobre suas ruínas o culto da carne, o culto da razão, o culto de Satanás, nosso pai, nosso mestre e nosso rei. E, então, somente então, seremos mestres desse mundo, reinaremos livremente sobre esse mundo, seremos os reis e os deuses desse mundo... Et dicebant: occidamus eum, et habebimus haereditatem ejus.
     Não nos perturbemos. O ódio incurável, invencível, eterno que Satanás porta a Jesus Cristo, à divina Mãe de Jesus Cristo e ao Papado, passou na alma aos filhos perdidos do sensualismo e do racionalismo pagão desse tempo. Um milhão de excomungados jurou a ruína da soberania temporal do Pontífice rei. Um milhão de excomungados trabalha, com uma raiva verdadeiramente satânica, para destruir o Papado. As ameaças do cisma, as tentativas de cisma, provam que a ruína da soberania temporal do Papa é apenas um encaminhamento à destruição de seu poder espiritual.
    Os racionalistas excomungados, os livres pensadores, que estão unidos pelos juramentos mais execráveis e que sonham com a derrubada do Papado, carregam um ódio diabólico a Pio IX. Como explicar esse fenômeno? Qual mal lhes fez Pio IX? Quem há de mais inofensivo, de mais rico em mansidão, que o Vigário atual Daquele que é chamado: O Cordeiro dominador da terra24? A guerra implacável, habilmente ímpia e satanicamente hipócrita, do qual Pio IX é o objeto, tem sua origem, sua única origem, na proclamação dogmática da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Mãe de Deus.
    Que fez o Pontífice supremo por esta definição solene?
    Pio IX, por esta declaração dogmática, elevou o culto da Bem-Aventurada Maria à suas últimas magnificências. Ele colocou, pelo mesmo decreto, o selo dos últimos esplendores à divindade de Jesus Cristo e ao poder infalível do Papado! Ora, fazendo resplandecer em um grau supremo as glórias de Jesus Cristo, as glórias de sua divina Mãe e as glórias do Papado, Pio IX dá um golpe mortal, o golpe mais esmagador no inimigo pessoal do Cristo, no inimigo pessoal da augusta Mãe do Cristo, no inimigo pessoal do Vigário do Cristo, ou seja, em Lúcifer.
    Pio IX exalta a divindade de Jesus Cristo em uma medida que ultrapassa toda medida, e que parece, além do mais, instransponível aqui em baixo. Como assim? Definindo dogmaticamente a Conceição Imaculada da Santíssima Virgem, o Pontífice bem aventurado revela à terra o prodígio mais fascinante da graça do divino Redentor.
     Ele diz e faz crer ao mundo, como um dogma de fé, que a graça divina, cuja fonte está em Jesus Cristo, foi tão poderosa, que ela preservou a Santíssima Mãe de Deus dos ultrajes comuns, e das feridas originais do pecado de Adão. Sem o dogma definido da Imaculada Conceição, a terra não conheceria, não teria jamais conhecido o mais profundo segredo das misericórdias divinas. Jamais ele teria conhecido dogmaticamente o prodígio mais maravilhoso da graça, a eficácia suprema, a criação por excelência da graça de Jesus Cristo. Esse decreto se manteria no estado da crença piedosa e da simples opinião. Pio IX é, portanto, o porta-voz, o apóstolo sublime das glórias do Homem-Deus. Pio IX é, portanto, o pregador por excelência das últimas magnificências da graça que regenera, e da graça que santifica.
    Pio IX, nos o demonstramos, fez para a glória da Virgem Imaculada, tudo o que era possível se fazer no seio da Igreja militante. Ele atacou, ele venceu, por esta definição solene, o naturalismo pagão e o satanismo que é seu pai.
    Pio IX, enfim, pela definição dogmática do privilégio da Imaculada Conceição, canoniza o grande atributo da infalibilidade insinuante do Pontífice romano. Ele elevou esta infalibilidade à altura própria do dogma que ele definiu. Se Pio IX, com efeito, não gozasse do privilégio miraculoso da infalibilidade dogmática, como ele poderia determinar um dogma da crença piedosa da Imaculada Conceição? Como Pio IX poderia decidir, finalmente, por um julgamento supremo, o que a Igreja inteira deveria crer, e crer com uma fé divina e inquebrantável, relativo à Conceição Imaculada da Bem-Aventurada Mãe Deus? Pio IX dá ao universo uma nova edição do símbolo. Ele faz um novo símbolo no sentido do qual fala São Tomás de Aquino (2a 2a, q.I. art.10). Ora, agindo assim, Pio IX imprime o selo de um esplendor incomparável na infalibilidade ensinante e dogmática dos Pontífices romanos. Aí, e somente aí, se encontra o nó do mistério satânico do qual somos testemunhas. Aí se encontra o segredo deste ódio imenso, dessas contravenções diabólicas contra o Papado.
    Pio IX se tornou o inimigo pessoal de Lúcifer, pois ele dá em Lúcifer o golpe mais pesado, mais esmagador, mais desesperado. Pio IX é o inimigo pessoal de Lúcifer, pois ele eleva à sua suprema magnificência a glória de Jesus Cristo, a glória da divina Mãe de Jesus Cristo, a glória do Vigário de Jesus Cristo. Pio IX, por esse triplo apostolado, se tornou digno de partilhar o ódio que Satanás traz contra Jesus Cristo e à sua Mãe Imaculada. E, eis porque Satanás prepara, pelas mãos daqueles dos quais ele é o chefe, o Calvário sobre o qual ele se prometeu imolar o bem aventurado Pontífice que o pregou, ele mesmo, no cadafalso de uma desonra eterna e de uma suplício eterno.
    O dogma da Imaculada Conceição, plantado na consciência do universo católico por Pio IX, se tornou a bandeira vitoriosa sob a qual se enrolam para sempre todos os adoradores de Jesus Cristo, todos os Apóstolos, e todos os discípulos da graça e da divindade de Jesus Cristo.
    Esse dogma de salvação e de misericórdia é a bandeira à sombra da qual se colocam todos os servos da Bem-Aventurada Mãe de Jesus Cristo, todos os pregadores, todos os propagadores de suas glórias e de sua santidade.
    Esse dogma, enfim, é a bandeira sagrada sob a qual combatem e combaterão, até a morte, todos os servos devotados da soberania espiritual e temporal do Papado.
     Satanás o compreendeu; daí, os ruídos espantosos que ele faz escutar desde a definição dogmática da Imaculada Conceição da Santíssima Mãe de Deus; daí os imensos esforços da serpente antiga para reunir, sob sua lúgubre e sangrenta bandeira, todos os inimigos da divindade de Jesus Cristo, todos os inimigos do culto da Virgem Imaculada, todos os inimigos do duplo poder do Vigário de Jesus Cristo.
     Com quem estará a vitória? A vitória estará com Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela estará com a divina Mãe de Jesus Cristo. Ela estará com a Igreja de Jesus Cristo.
     Que combate ademais em uma guerra dura há dezoito séculos? Onde estão aqueles que tentaram derrubar o trono de Jesus Cristo, o trono da divina Mãe de Jesus Cristo, o trono do Vigário de Jesus Cristo? A glória do Homem-Deus e a glória da augusta Mãe de Deus estão envolvidas na luta que sustenta Pio IX. A palavra do Cristo, as promessas divinas que Ele deixou em herança ao Papado, estão engajadas nesta luta. E quem é suficientemente forte para vencer Aquele que derrubou os reis ímpios e os perseguidores da Igreja como vasos de argila? Quem é suficientemente forte para vencer a Virgem poderosa que esmagou todas as heresias? Quem é suficientemente forte para contradizer o Verbo eterno? Quem é suficientemente forte para lhe dizer: as promessas que fizestes ao Papado não se cumprirão!?
     Infelizes! Mil vezes infelizes aqueles que, fascinados pelo orgulho do poder, embriagados pelo vinho da luxúria, ou incendiados pelo fel do ódio, se colocam ao serviço da antiga serpente! Infelizes são aqueles que tentam arrancar de seu fundamento divino, a pedra sobre o qual o Papado está assentado! Porque está escrito: “Todos aqueles que se chocarem contra esta pedra, se quebraram; e todos aqueles sobre quem cairá esta pedra, serão esmagados”.
    Quando o dogma da Redenção desceu sobre o mundo, o mundo não se suportava mais. O culto da carne, o culto da razão e o culto dos demônios, cobriam o universo. Contudo, mal três séculos tinham se passado desde a primeira publicação do Evangelho, e já o império de Satanás se estalava por toda parte.
    O inimigo eterno do Homem-Deus tentou reconquistar, por um esforço supremo, o terreno que ele tinha perdido na luta. Ele gerou Diocleciano e seu feroz coadjutor. Ele colocou na alma dos dois monstros coroados, todo o ódio que ele carrega contra o Cristo e seus adoradores. As fogueiras, os cavaletes, as rodas armadas com pontas e navalhas; o ferro, o fogo, todos os tipos de suplício foram postos em jogo, e foram utilizados contra os discípulos de um Deus morto sobre a cruz. O império romano, tornado um açougue, um abatedouro, um ossuário, pareceu ameaçado de ser transformado em um deserto. A coluna de bronze que deveria eternizar o triunfo dos dois carrascos da Igreja, iria ser erigida sobre a tumba do cristianismo vencido. Ora, tudo isso se passava na véspera do dia em que deveria brilhar o mais maravilhoso triunfo da Igreja sobre o velho paganismo.
     Uma luz ofuscante apareceu no céu. O lábaro da vitória, encimado por uma cruz e carregado pelos anjos, transforma-se na bandeira das legiões romanas. Constantino, primeiro discípulo-rei do divino crucificado, faz a religião de Jesus Cristo subir sobre o trono dos Césares; e a cruz na qual estava atadas os mais vis escravos, transforma no mais esplendido ornamento do diadema dos imperadores e dos reis cristãos.
    O que Diocleciano, inspirado por Satanás, tinha tentado contra o Cristo, os inimigos da Igreja tentam realizar contra o Papado.
    “É preciso que Pio IX se vá de Roma e o catolicismo com ele”, dizem os dioclecianos da astúcia e os conspiradores da apostasia. O cisma, a heresia, a civilização pagão da Roma dos Césares ou da Roma dos Brutus, devem substituir esta velha instituição do Papado que teve seu tempo, e que não pode mais se adaptar às necessidades e às luzes da sociedade moderna...
    Esses desejos execráveis ressoaram nos jornais, cujo príncipe das trevas fez os porta-vozes da impiedade; mas aqueles que conceberam esses pensamentos infernais não os verão se cumprir.
    Assentado sobre um trono fortalecido contra todos os abalos, o Papado viverá muito mais tempo que aqueles que sonham com sua ruína.
    Cinquenta Papas tiveram o destino que a Revolução prepara a Pio IX. Mas o Papado é eterno. Ele deve viver muito mais tempo para fazer os funerais de todos seus perseguidores. O passado lhe responde sobre o futuro; e os séculos, passando diante de seu trono indestrutível, o saúdam rei da eternidade!!...
    Pio IX, pelo dogma da Imaculada Conceição, entregou Satanás ao poder da Mulher divina, e esta mulher invencível lhe esmagou a cabeça.
     Dominus omnipotens nocuit eum, et tradidit eum in manus feminae, et confodit eum.




O Culto da Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus - Abbé Théodore Combalot