quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anunciação - Revista "Ordem Nova" - Vol.1 - nº1


"Não queirais conformar-vos com este século, mas reformai-vos em a novidade do vosso espírito"S. Paulo, aos Rom., XII, 2



"Não queirais conformar-vos com este século". As palavras intimativas do Apóstolo são ainda hoje a declaração de guerra que nós fazemos ao mundo moderno, - a isso que para aí se está desfazendo, cheio de todos os pecados, corroído por todos os vícios e tresandando odores fétidos de podridão.
Corpos podres, estigma miserável da humanidade decaída, arrastando pela terra desolada a sua marcha de forçados da eternidade! Restos do pecado antigo, lepra da matéria que se revoltou contra o Espírito e ficou a sofrer o tropeçar dos séculos, apedrejando os profetas, abafando a voz dos justos, calcando o desespero iluminado dos visionários de Deus, atirando aos céus os braços impotentes que não puderam amparar a derrocada de Babel. E pela caminhada dos tempos, o mal ficou profundo, alastrando como uma maldição maior à negativa dos filhos de Caim, obstinados na farsa macabra de desafiar a justiça divina...



E as almas dormindo; um sono pesado, um sono de cocaína, com visões delirantes conduzindo à região desolada das quimeras mortas... Não há vozes possantes que as restituam a si; não há verdades evidentes que lhes facilitem a razão. Só um chamamento sobrenatural as poderá restituir à sua finalidade. Só a quebra violenta de todos instrumentos que servem à absorção do veneno, só a destruição bárbara de tudo o que contribui para a embriaguez, só ministrando forçosamente contravenenos poderosos, nós conseguiremos extinguir o mal.



Não nos iludamos; esta sociedade que contempla embevecida as suas últimas conquistas científicas, que goza a rebolar-se na comodidade dos “maples” as maravilhas dos aviões e da telefonia sem fio, esta sociedade que procura aflita quatro membros para se atirar às upas na carreira poeirenta do ginete do Progresso, esta sociedade sem senso de moral, feita de novos inconscientes ou pedantes e de velhos dum caquetismo precoce; esta sociedade de judeus ávidos, com um olho sempre no cofre forte e outro na face de Antônio espreitando o momento de lhe tirar as duas onças de carne. Esta sociedade de gente facilmente enriquecida, de filósofos amorais, de literatos pretenciosos ou cabotinos, de moços sem ideias, de mulheres sem pudor e de profissionais sem profissão, de homens cúpidos, gananciosos, ignorantes e cretinos; esta sociedade não ouve verdades que lhe não sejam ditas em voz bem alta, não recebe reclamações que lhe não sejam feitas ao som dos canhões, não atende pedidos senão quando se vê perdida e busca aflita por qualquer preço uma tábua de salvação!

Desapareceram as boas maneiras, foi-se a honra e o cavalheirismo, apenas invocados quando dois sujeitos sem coragem para defrontarem corpo a corpo e arrostarem com a opinião pública, se deliberam arranhar com uns arames aguçados. A magnificência cedeu lugar à perdulariedade, a grandeza foi substituída por ouropéis falsos de companhia de circo; em vez de valentia, a bravata, em vez de direitura imposta pela consciência reta, a conveniência e a oportunidade, - uma coisa muito relativa a que hoje se chama a "seriedade dos negócios".



Homens em quem a dignidade viril cedeu lugar a uma relaxação torpe feita de falsetes na voz e de covardias na alma. Mulheres prostituindo-se, oferecendo os corpos desnudos a quem os quer ver e as almas já sem o perfume da inocência, a quem as quer possuir.

Americanismos soezes, ecos dos batuques dos antepassados da Libéria, exotismos idiotas dum oriente de caixas de charão, fumos dum ópio fabricado nas boticas de Montmartre, toda uma civilização de requintes grotescos e canalhas a perturbar a vida, a atirar de novo à superfície da terra a crápula de Roma do baixo império que o rolar vingador dos bárbaros reduziu a pó!



Indisciplina completa, confusão turbulenta no campo das ciências e da filosofia; perdem-se as elementares noções sobre que deve assentar o conhecimento humano, para se substituírem por outras que uma filosofia falsa, não digna do seu nome, impõe fundada em certos palavrões sonoros.

Sofrem deste mal as ciências positivas, invadidas por um materialismo torpe; sofrem dele, num grau altíssimo, as ciências sociais que são completamente transtornadas e falseadas pelas ideologias concebidas por desvairadas imaginações; enfim, a própria filosofia deixando de ser a "ancilla theologiae", enveredando por caminhos tortuosos, entronizando a razão para divinizar o homem, - chegou ao momento mais grave duma crise que tem fatalmente de resolver-se, negando-se a si mesma, confundindo tudo e falindo estrondosamente, louca como o pobre Zaratrusta que é bem a sua personificação, o Anticristo que no auge do delírio, assinava as suas últimas cartas - o Crucificado!



Será preciso que apontemos o drama que se desenrola pelo mundo afora no governo dos povos? Será preciso que revivamos mais uma vez essa tragédia baixa, sem grandeza e com cenas de mágica-bufa que tem sido a democracia com as suas mentiras danosas e sangrentas - o sufrágio universal, a soberania nacional, o parlamentarismo, a opinião pública? Para quê nova exibição do seu culto do Supremo Arquiteto, dos seus conselheiros do Constitucionalismo, veneráveis incrustações impantes de cordura e mais dos "supremos magistrados" do barrete frígio, moderados poderes moderadores, lamparinas frouxas que o azeite das maiorias alimenta mal e deixa consumir no morrão?...



Quem em face deste quadro, - das famílias dissolvidas, dos governos impotentes e corruptos caminhando para a anarquia, dos homens mais do que nunca pervertidos, da vida artificializada, da matéria triunfante, da razão falseada - quem em face de tudo isto, desde que tenha uma alma sensível e uma inteligência clara, se recusará a ouvir as palavras do Apóstolo: "Não queirais conformar-vos com este século"?


...


- "Sou homem", - dizia Terencio, o comico. "Sou homem e não julgo alheio à minha personalidade nada do que é humano". Se pensarmos bem, os sinais que nós vemos manifestarem-se pelo mundo fora de reação contra o que é moderno, não são mais do que consequências da revolta do homem contra o anti-humanismo desta civilização da máquina que tem por seus patronos o ouro, a carne e o poder.

    Anti-humano sim, consideramos nós esse liberalismo estúpido que se apossou de todas as camadas sociais, querendo quebrar todas as disciplinas, negando a força do sangue, a voz dos antepassados, pondo de parte a tradição; repudiando as regras espirituais e querendo que a alma se guie ao sabor do seu mesmo imperativo e a razão fique à mercê das regras que a si mesma queira conceder; finalmente, aborrecendo a hierarquia e o poder e buscando uma fórmula pela qual a tirania se justifique pela soberania dos oprimidos. Ridículos e risiveis os libertadores! Superiores a eles, sem se importarem com as suas declarações verborraicas, os seus gestos de bacharéis, os seus raciocínios que pretendem ser engenhosos e não passam afinal de grosseiros sofismas ou de alucinações sonâmbulas, as leis da natureza permanecem inalteráveis, as verdades eternas não deixam de o ser - e o mundo continua a sua marcha no Universo, e a ordem divina continua a realizar-se, pronta porém, a fazer-nos pagar caro a sua violação. "Natura medicatrix": - A natureza resolve muitas vezes por si as doenças que nela surgem. Não duvidem os liberais: as suas arremetidas violentas contra a ordem natural das coisas hão de ser tão ineficazes como a pedra que se atira a uma estrela. E quando, extenuados, julgarem ter derrogado a ordem do universo, mais forte e mais equilibrada ela surgirá, deixando-os tão esmagados como ficaria o homem que na praia sobre uma cova na areia julgasse ter bebido o Oceano e depois se erguesse e deparasse com os olhos brilhantes de triunfo, a imensidade sonora das vagas...
    Mas,

    Entre ceux que j'aspire a ne pas voir souvent
    je compte des premiers ces amples personnages
    ces doctes et ces forts, qui, pleins de verbiages
    vont la tête en arrière et le ventre en avant

    Je les trouve partout gonflés du même vent;
    ils savent qu'ils sont gros, ils savent qu'ils sont sages
    et fiers de tant peser, épanchant des adages
    estiment de nul prix tout autre être vivant...

    Sim! São anti-humanos esses burgueses asquerosos que tranquila e comodamente se instalaram na vida e que agora a vêem passar, só perturbados pela leitura sobressaltada nos jornais das cotações da bolsa e das alterações da ordem pública, que amam só o imediato, Sanchos Panças sem a coragem de irem atrás dos D. Quixotes, raciocinando pelo critério da simplicidade, - "homens práticos" se dizem - racionalistas ignorantes ou católicos com medo do Inferno, (disfarçado, já se vê, para não parecer mal), que respeitam todas as opiniões e não são pelo que eles chamam os exageros - est modus in rebus! - que fazem concessões nos dogmas e restrições na crença. Gente sem fé, sem ideal, sem elevação, preocupada apenas com as suas doenças gástricas e só desejando que não perturbem o aconchego do cobertor de papa e da botija elétrica; funcionários públicos que nunca souberam o que fosse auto-iniciativa, assegurado o ordenado certo, mal puderam acolher-se à sombra protetora do Estado, - espécie de ama recém-chegada da província - que diferente da burguesia que nós queremos formada de elites, classe social bem definida mas ativamente colaboradora das classes inferiores quer nos mestres, quer na finança, quer na burocracia, classe de dirigentes próximos orientada e dirigida superiormente pelo escol intelectual e moral da nação - a nobreza rural, a Igreja, a tradição e a inteligência!

    E que diremos desses pretensos intelectuais que para ai pululam - dos poetas de nervos aguçados no deleite das sinfonias mórbidas, dos prosadores sem probidade moral nem artística, todos os que fazem "arte pela arte" ou "arte pela vida" sem saberem o que é a vida! E esses jornalistas obscenos que relatam todas as porcarias passionais, todas as misérias que o crime revela numa sociedade decadente, com copiosos pormenores, revelações sensacionais e tiradas românticas duma pretensão impossível e dum mau gosto inultrapassável? A solidariedade que entre si mantêm todos estes mestres cantores a que nem sequer faltam canções da primavera aparentando mocidade e frescura, a solicitude com se defendem, o carinho com que se amparam, a satisfação com que mutuamente encobrem as suas faltas sem se importarem com a justiça e pondo acima de tudo a camaradagem, é um sintoma que não ilude da qualidade casta.

     Esses jornais de grande circulação, baluarte da opinião pública e do bom-senso, que de vez em quando apelam para as energias da raça do meio dos anúncios dos criadas a servir e dos concursos de cegádas, gente cordata, amiga de Deus e do diabo, ao serviço de quem dá mais e satisfazendo à lista os gostos perversos do público, esses magazines que se ocupam de futilidades ridículas, que servem de albergue a modernismos falidos e que ilustram a história com a grande, a sensacional "documentação gráfica", essas revistas que nos dão páginas semanais de pornografia, - merecem-nos o mais fundo, o mais sentido desprezo!


    Contra eles nunca é bastante a nossa indignação! Nunca são demasiadas as nossas invectívas! Nunca são tão brutais como deviam ser, as nossas palavras violentas!

    "Sou homem", confessava o cómico. O humano protesta contra o anti-humano. A nossa é a revolta humanista em face do tudo o que contra a nossa humanidade se ergue. A Ordem Nova é a ordem humana, a ordem natural, a ordem divina, a única ordem.

     De todos os lados bocas sequiosas procuram dessedentar-se; de todos os lados inteligências procuram a verdade; de todos os lados almas inquietas buscam o Bem: é o humano a manifestar-se.

     Mas assim como se tenta matar a sede com vinhos esquisitos, esquecidas as nascentes de água puríssimas, assim como as complicações da civilização vieram dar requintes novos à satisfação das necessidades primárias da vida, - assim as inteligências cansadas de materialismo se lançam num falso e ilusório espiritualismo e as almas sem verem claramente o Supremo Bem, se ficam em princípios vagos de altruísmo, humanitarismo, solidariedade...

   Há uma sede intensa de sobrenatural; busca-se o espírito ativa e febrilmente. Pois não o demonstra toda a vida que se passa à margem da Igreja Católica, desde as mesas do espiritismo e as sociedades teosóficas até à moderna psicanálise, a tentativa dum médico austríaco para achar as razões da nossa vida moral no fundo sombrio do inconsciente?

    Por outro lado é ainda um grito da humanidade o regresso às disciplinas tradicionais que por esse mundo se vai notando. Por toda a parte o clamor se ergue pedindo um chefe. Entoa-se pela Europa afora o elogio da Autoridade. Reconhecida a gravidade do momento requere-se que no cortejo que passa o chefe seja precedido do fascio símbolo da justiça, no qual o machado simboliza o jus vitae, et necis.

    É também em nome do que é humano que nós nos proclamamos católicos e monárquicos, - colocados já nos dois termos da evolução espiritual da humanidade que acorda do seu sono profundo!
    Monárquicos somos e bom é que claramente fique assente que o somos de uma forma integral e completa. Somos contra-revolucionários e vemos na reação o único remédio para nosso mal. Monárquicos, não que nos contentemos com um Rei que reine e não governe, mas porque queremos um Rei que reine e tenha a obrigação de governar, um Rei que governe embora não administre, que seja verdadeiramente o chefe, chefe econômico, chefe político, chefe nacional. Um Rei que com seu poder concentrando, rodeado pelas suas elites, assistido pelos conselhos técnicos, aconselhado pelas Cortes-gerais, seja, parafraseando a frase de Maurras - o chefe das repúblicas portuguesas.

    Monárquicos porque somos nacionalistas: queremos, não um regresso ao passado, mas um demorado olhar a consultá-lo sobre a direção dos nossos passos para o Futuro, queremos que a nação se una num mesmo ideal coletivo e que todas as forças nacionais, nas letras, nas artes, nas ciências, nas indústrias e nos campos, - se congreguem servindo esse ideal, tendo por fito aquela "nacionalização integralista" que Fialho lastimava que os escritores do século passado desconhecessem quase completamente.

    Mas não é a tradição que nos leva à profissão de fé católica: não! Mais alto do que a voz dos mortos, ouvimos nós a voz de Cristo. E neste momento de ansiedade e inquietação, sem querer, os nossos olhos buscam a cidade eterna esperando dela a lição inspirada que nos orientará.

    Não nos satisfazem essas soluções meio-termo que se propõem à grave crise que atravessamos.
São ilusórias satisfações ao anseio enorme que se sente no mundo e que só podem satisfazer aqueles cuja sede é de fácil extinção, os que não tem coragem para ir mais longe e os que entendem que se deve pôr à margem, adotando atitudes que uma estética convencional lhes aconselha e olhando o mundo indiferentemente com uma impassibilidade rebuscada de super-homens.

    "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" são as palavras do Senhor. E só na sua doutrina nós encontraremos toda a paz e toda a certeza de que as nossas almas estão carecidas e que as nossas inteligências estão suplicando.

    Mais alta do que a névoa de morte que anestesia as almas uma claridade de infinito acorda nos corações doloridos dos homens a saudade de Deus.

    A melancolia indefinida dos que não tem esperança, a dor morta dos que se perderam da verdade, a fome dos pobres e dos desgraçados, o desespero surdo dos que se obstinam em negar a Deus, - toda essa mancha sombria estremece e oscila ao contato irresistível dum vento novo, dum vento eterno, sopro divino que agitou o caos, separando a luz das trevas e arrancando ao Nada o assombro do Infinito!

    Que a estrela alta dos tempos bíblicos se não afaste dos olhos ansiosos dos que não esqueceram ainda a paisagem inefável que no dia sobre todos triste da queda o homem foi forçado a abandonar. Uma saudade sem fim atravessa os séculos; viveu a angústia indisível dos tempos abandonados da graça que a voz dos Profetas animava de longe em longe; arrastou-se desde o cativeiro do povo eleito numa esperança baldada até à terra da Promissão. Cria novo alento quando a estrela de elém anunciou aos homens a vinda do Redentor; agora o caminho ilumina-se: é uma vereda de sonho aberta pelos passos doloridos do Filho de Deus que enfim reconduz a humanidade ao paraíso perdido.

    É o momento supremo: começa mais desesperada, mais bárbara, mais cruel, a luta entre a Matéria e o Espírito iniciada com o grito da rebelião dos anjos, e que, neste momento, no limiar rasgado donde o amor do Pai nos chama ansioso por encontrar de novo os filhos transviados, atinge o auge da crise.

    Duelo entre a Verdade e o Mal, eco da primeira luta que chega até nós ampliado pela ressonância dos tempos, - que a Graça de Deus descça do alto em nossas almas, as tempere na firmeza dos bronzes eternos contra os quais se quebram as potências tenebrosas, concedendo-nos a força viril para detonar o Erro e para, como o Arcanjo, o prostra vencido a Seus pés!