sábado, 16 de setembro de 2017

Décimo dia preparatório (12 dias preliminares) - O Inferno

DÉCIMO DIA
Meditação - Inferno

PREPARAÇÃO

Para dois grandes caminhos terrivelmente definitivos abre a augusta porta do Juízo. A meditação sobre o Inferno me encherá de salutar horror ao pecado e ao espírito do mundo, para confirmar-me na eleição da Divina Sabedoria e da Escravidão de amor à Maria! Naquele lugar de tormentos, o grande tormento é a perda de Deus e do amor de Maria. Meditar seriamente sobre o
inferno é meio seguro de o evitar.

MEDITAÇÃO

Prelúdios
- o abismo infernal abre-se ante meus pés trêmulos, Maria me estende solícitamente as mãos para me reter.
- Rainha dos céus e da terra, que alcançais estender vosso onipotente domínio até as regiões da morte eterna, penetrai-me de temor e de tremor ante o castigo terrível com que Deus deixa que se punam os escravos do egoísmo e do mundo.

PONTO I
AS PENAS DOS SENTIDOS

Muitas pessoas perderam os sentidos e mesmo morreram de espanto à vista de coisas horrorosas, ou apenas com a imaginação ou receio delas.
Que há de ser, pois, da visão dos tormentos do inferno e da presença nefanda do demônio, cuja suprema beleza a ira justiceira de Deus transmudou em hedionda disformidade?
E ouvir os prantos, os clamores e rugidos, as blasfêmias dos condenados, as lamentações sem remédio, os gritos de desespero, os estertores de agonias que a morte jamais virá terminar...
E o cheiro infecto de tantas podridões, o gosto amaríssimo das coisas mais imundas, o tormento a espicaçar todos os membros do corpo!
A sede, o fogo, as trevas, a imortalidade, todas as legiões de demônios, as injúrias dos cúmplices, agora herdeiros do mesmo desespero, a eternidade dos tormentos, sim, a eternidade...

PONTO II
AS AFLIÇÕES INTERIORES

Se ainda neste mundo, a imaginação sói acrescentar os sofrimentos, duplicá-los mesmo, - que será no inferno, onde todo o terror que ela conceber estará justificado de sobejo pela mais espantosa realidade?
E a memória, ao recordar não o bem ilusório da terra, tão fugaz que não deixou traços, mas o bem verdadeiro que poderia e que deveria ser partilha do infeliz condenado, e que agora nunca mais poderá alcançar?
Que fará, então, no inferno todo o exército das paixões más, cujo exercício ainda era impedido na terra pela sociedade, pelo ambiente ao menos na aparência honesto, do mundo, da família, - e que prorrompe em caudal desfrenado de revoltas, de ódios, raivas, desesperos, medos e horrores, quase
estraçalhando o pobre réprobo, mergulhado em todos os tormentos exteriores e interiores...
A vontade, antes livre de amar a Deus, aferrada agora nas maldições, violentada para sempre na tendência mais profunda de sua natureza, para o bem, para o Bem infinito, agora tão remoto, irremediavelmente perdido...


PONTO III
A PERDA DE DEUS E DE MARIA

Mas o tormento maior, o inferno do inferno, será a perda de Deus!
Quando unida ao corpo da terra, a alma não conhece bem tudo o que representa Deus para ela. Porque os sentidos demasiado a solicitam e aliciam. Mas quando desprendida dos laços mortais, entregue ao pendor irresistível de sua natureza, ela se atira com sofreguidão para o Objetivo único que a pode satisfazer e vivificar... E quando a justiça inexorável de Deus, castigando uma vida que jamais quis voltar-se para o Bem verdadeiro no uso de sua liberdade, negar-se a acolhê-la, furtando-se aos seus anelos ansiosos de contemplação e de posse, então esse será o pior dos tormentos, a mais
infernal das mortes...
Ah! A lembrança dos anos visitados da graça de Deus, a primeira comunhão, as lições de palavras e de exemplos, os mesmos sofrimentos e penas da terra, buscando comover e despertar a consciência endurecida, todos os desprezados auxílios divinos para o cumprimento dos próprios deveres... tudo tornado em pecados, pelo abuso, endurecimento no mal, incêndio das paixões, chasqueios às coisas santas, risadas satânicas aos bons conselhos e pias admoestações!
Tudo afastava de Deus, a Suprema Formosura, o Amor dos amores! O réprobo bem o sabia. E o aceitou livremente, conscientemente... O tormento de recordar Maria... o primeiro amor a tão doce Mãe, cedo abandonada; a ingratidão com que se deixou sua Devoção, tão cheia de confiança e de pureza; a frieza de coração com que se voltou as costas à piedade mariana, à suavidade do Terço, à beleza encantadora das imagens de Maria, ao convite do Espírito Santo para ser escravo de amor de Nossa Senhora...

COLÓQUIO


Minha Mãe, Amada com todas as fibras de meu ser, com todas as vibrações de meu coração, não me deixeis perecer! É no vosso regaço; a esconder trêmulo minha cabeça no vosso seio materno, que vou terminar esta meditação terrível, mas necessária para minha salvação. Não! Não quero apartar-me de vós. Quero que seja para mim também, no céu, vossa beleza, vosso carinho, e vosso encanto. Mortificarei meu corpo e meus sentidos, todas as minhas potências, entregando-me estreitamente algemado a vosso único e exclusivo serviço de amor. Guardarei meus olhos de todas as belezas terrenas, para ver vossa formosura. Reservarei meus carinhos, para que vo- los possa entregar virginalmente, no paraíso, onde me inebriareis com um oceano de ternura que não posso agora vislumbrar sequer. E acima de tudo, vós me conduzireis a Jesus, ao bendito fruto vosso; para que no abismo insondável de seu Coração eu me despenhe, para sempre, na bem-aventurada visão, na inefável posse de Deus!

RAMILHETE

Maria, fostes Imaculada porque Mãe do Redentor de nossos crimes. Apressai-vos, pois, em socorrer aos míseros, a cuja miséria deveis a felicidade de vossa Pureza!

SANTO EVANGELHO (Mt 22, 1-14)
O BANQUETE E A VESTE NUPCIAL

E respondendo Jesus, falou-lhes novamente em parábolas, dizendo; o Reino de Deus é semelhante a um rei, que fez as núpcias de seu filho. E ordenou aos seus servos que chamassem os convidados para as núpcias. Mas eles recusaram vir. Enviou de novo outros servos, dizendo: Dizei aos convidados; eis que está preparado o meu banquete, os meus touros e os animais cevados já estão mortos, e tudo está pronto: vinde às núpcias. Mas eles desprezaram {o convite) e se foram, um para sua casa de campo; outro para os seus negócios; outros, porém, lançaram mãos dos servos que ele enviara e, depois de os haverem ultrajado, os mataram. Mas o rei ouvindo isto, exasperou-se. E tendo feito marchar os seus exércitos, acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo às cidades deles. Então disse aos seus servos:
As núpcias, com efeito, estão preparadas; mas os que estavam convidados não foram dignos de tomar parte no banquete; ide, pois, às saídas das ruas, e a quantos achardes convidai-os para as núpcias. E tendo saído os seu servos pelas ruas, reuniram a quantos encontraram, maus e bons. E ficou cheia de convidados a sala do banquete, para as núpcias. Entrou depois o rei para ver os que estavam à mesa, e viu ali um homem que não estava vestido com veste nupcial. E disse-lhe: Amigo: como entraste aqui, não tendo veste nupcial? Mas ele emudeceu. Então disse o rei a seus ministros: Atai-o, de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes. Porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos.

IMITAÇÃO DE CRISTO (L I. c. XXIV, 3. 4, 6)
OS SUPLÍCIOS DO INFERNO

Que outra coisa há de consumir aquele fogo senão teus pecados?
Quanto mais te perdoas agora a ti mesmo e segues os apetites da carne, tanto mais fortemente serás depois atormentado, e tanto mais tenha ajuntas para te queimar.
No que o homem mais peca, nisso mais severamente será castigado. Ali, os preguiçosos serão picados com aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados com fome e sede.
Ali, os luxuriosos e dados aos deleites serão abrasados com ardente pez e fétido enxofre; e os invejosos uivarão de dor como cães raivosos. Não há vício que não tenha seu particular tormento. Ali, os soberbos estarão cheios de confusão, e os avarentos serão oprimidos com miserável necessidade.
Ali, será mais penoso passar uma hora de suplício, que aqui cem anos de áspera penitência.
Ali, não há sossego nem consolação para os condenados; mas aqui, às vezes, cessam os trabalhos e se goza da consolação dos amigos.
Tem agora cuidado e dor de teus pecados para que, no dia do juízo, estejas seguro com os bem-aventurados.
Aprenda agora a padecer o pouco, para que então sejas livre de muito. Prova primeiro neste mundo o que poderás sofrer no outro. Se agora tão pouco podes sofrer, como poderás depois sofrer os tormentos eternos? Se agora uma pequena moléstia te faz tão impaciente, que fará então no inferno?
Na verdade, não podes ter dois gozos; deleitar-te neste mundo e reinar depois com Cristo no céu. Se até agora tivesses vivido em honras e deleites e te chegasse à morte, que te aproveitaria tudo isto?
Logo, tudo é vaidade, exceto o amor e serviço somente a Deus. Porque os que amam a Deus de todo o seu coração, não temem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno; porque o perfeito amor faz ter perfeito acesso a Deus.
Mas quem se deleita ainda em pecado, não admira que tema a morte e o juízo.
Bom é, contudo, que se ainda o amor de Deus nos não desvia do mal,nos refreie ao menos o temor do inferno. Porém, aquele que despreza o temor de Deus, não poderá perseverar muito tempo no bem, antes muito depressa cairá nos laços do demônio. 


FALSAS DEVOÇÕES A MARIA
QUE NÃO NOS SALVARÃO

Encontro sete espécies de falsas devoções à Santíssima Virgem, a saber:
1) os devotos críticos; 
2) os devotos escrupulosos; 
3) os devotos exteriores;
4) os devotos presunçosos; 
5) os devotos inconstantes; 
6) os devotos hipócritas; 
7) os devotos interesseiros.
Os devotos críticos são, em geral, sábios, orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que tém no fundo alguma Devoção à Santíssima Virgem, mas que criticam quase todas as práticas de piedade que as pessoas simples rendem em toda a simplicidade e santidade a essa boa Mãe, porque não lhes agradam a fantasia.
Esta espécie de falsos devotos e de pessoas orgulhosas e mundanas é muito temível; prejudicam extremamente a Devoção a Nossa Senhora e afastam Dela muita gente, de um modo deplorável, sob pretexto de destruir os abusos.
Os devotos escrupulosos são pessoas que temem desonrar o Filho, honrando a Mãe, abaixar um, elevando a outra. Não podem sofrer que se dêem à Santíssima Virgem louvores justíssimos que lhe foram conferidos pelos Santos Padres; têm grande pesar de ver que há mais gente diante de um altar de Maria Santíssima que diante do Santíssimo Sacramento, como se uma Devoção fosse contrária à outra, como se aqueles que oram à Virgem Santíssima não orassem a Jesus Cristo por Ela! Não querem que se fale tanto dessa augusta Soberana, que se recorra a ela tantas vezes.
A Santa Igreja, com o Espírito Santo bendiz a Santíssima Virgem em primeiro lugar, e Jesus Cristo em segundo: bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus. Não que a Santíssima Virgem seja mais que Jesus Cristo, ou igual a ele: isto seria uma heresia intolerável; mas é que, para bendizer mais perfeitamente a Jesus Cristo, é preciso primeiro bendizer a Maria. Digamos, pois, com todos os verdadeiros devotos de Maria Santíssima, em oposição a esses falsos devotos escrupulosos: Ó Maria, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.
Os devotos exteriores são pessoas que fazem consistir em práticas exteriores toda a sua piedade para com Maria; que só apreciam o exterior da Devoção à Santíssima Virgem, porque não têm Espírito interior; que dizem muitos terços à pressa, ouvem muitas missas sem atenção, vão às procissões
sem Devoção, alistam-se em todas as confrarias sem corrigir sua vida, sem fazer violência às suas paixões, e sem imitar as virtudes dessa Virgem Sacrossanta. Só gostam do sensível da Devoção, sem apreciar o sólido; se não têm consolações sensíveis em suas práticas, pensam que nada mais fazem, desacoroçoam, abandonam tudo, ou fazem tudo sem regra e aos bocados. O mundo está cheio desta espécie de devotos exteriores, e são os que mais criticam as pessoas de oração que se aplicam ao interior como ao essencial, sem desprezar o exterior de modéstia que sempre acompanha a Verdadeira Devoção. Os devotos presunçosos são pecadores entregues às suas paixões, ou amantes do mundo, que sob o belo nome de cristãos e de devotos de Nossa Senhora, escondem ou o orgulho ou a ira, a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou o costume de praguejar, ou a maledicência, ou a injustiça, etc; que dormem em paz no meio dos seus maus hábitos, sem fazer grande violência para corrigir-se, sob pretexto de que são devotos à Santíssima Virgem, que se embalam com a esperança de que Deus lhes perdoará; que não morrerão sem confissão e que não serão condenados, porque rezam o terço, jejuam aos sábados, porque pertencem à confraria do Rosário ou do Escapulário, ou a outra de suas congregações, porque trazem o pequeno hábito ou a pequena cadeia da Santíssima Virgem, etc.
Os devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem por intervalos; ora são fervorosos, ora tíbios; agora parecem prontos a tudo por seu serviço, e daqui a pouco não são mais os mesmos. Começam por abraçar todas as devoções à Santíssima Virgem; alistam-se em todas as confrarias, mas não lhes cumprem as regras com fidelidade; mudam como a lua, e Maria Santíssima põe-nos sob os pés com o crescente, porque são volúveis e indignos de ser contados entre os servos dessa Virgem fiel, os quais têm por quinhão a fidelidade e a constância.
Há ainda outros falsos devotos a Maria Santíssima, que são os devotos hipócritas, que dissimulam seus pecados e maus hábitos sob o manto dessa Virgem fiel, a fim de passar aos olhos dos homens pelo que não são. Existem fínalmente devotos interesseiros, que só recorrem a Nossa Senhora para ganhar algum processo, evitar algum perigo, sarar de uma enfermidade, ou por qualquer outra necessidade semelhante, sem o que a esqueceriam; tanto uns como outros são falsos devotos, que não subsistem diante de Deus e de sua Mãe Santíssima.
Tomemos, pois, muito cuidado para não sermos do número dos devotos críticos, que nada crêem e tudo criticam; dos devotos escrupulosos, que temem ser demasiadamente devotos à Virgem Santíssima, em respeito a Jesus Cristo; dos devotos presunçosos, que, a pretexto de sua falsa Devoção a Nossa Senhora, jazem no meio de seus pecados; dos devotos inconstantes, que, por volubilidade, mudam suas práticas de Devoção, ou as deixam inteiramente à menor tentação; dos devotos hipócritas, que se alistam nas confrarias e trazem as insígnias da Santíssima Virgem para passarem por bons; e finalmente dos devotos interesseiros, que só recorrem a Maria Santíssima para serem livres dos males do corpo ou obter bens temporais.