terça-feira, 19 de setembro de 2017

Primeiro dia da primeira semana (Conhecimento de si mesmo) - O pecado em nossa vida espiritual


PRIMEIRA SEMANA
(Conhecimento de Si Mesmo)


"Durante a primeira semana dirigirão todas as orações e atos de piedade para alcançar o conhecimento de si mesmos e a contrição dos próprios pecados, tudo fazendo em espírito de humildade" (T.V.D.).
Este período não é a repetição dos doze dias preliminares. Aqui nos concentraremos melhor sobre nós mesmos; depois de fugir ao espírito do mundo, orientaremos nosso esforço à conquista da humildade, virtude absolutamente fundamental da vida cristã, e portanto, com maioria de razão, de todo indispensável aos que almejam pertencer a Nossa Senhora em estado de perfeição mais elevada.
Ademais, queremos ir a Jesus por Maria, a quem consideramos Caminho seguro, curto e suave. Ora, para nos convencermos eficazmente da
necessidade de buscar esta Via Imaculada, nada melhor do que nos inteirarmos profundamente da imensidade de nossa própria miséria e triste condição, tão afastada da grandeza de Deus.
Este exame, enfim, tão penoso para nós, será suavizado por Nossa Senhora, que ameigará, com seu carinho materno, a miséria de nossos pecados, a fim de que não cheguemos aos extremos de irritação contra nós mesmos nem aos desânimos do desespero, mas antes alcancemos a doce paz prometida aos humildes de coração.

ORAÇÕES PARA CADA DIA

Ladainha do Espírito Santo
Ladainha de Nossa Senhora
Saudação a Nossa Senhora


PRIMEIRO DIA (13)
Meditação > O pecado em nossa vida espiritual
PREPARAÇÃO

Elevados às maiores honras pela graça sobrenatural do Batismo, nósnos esquecemos da nobreza dessa linhagem Divina e degeneramos dela. com os nossos pecados. É preciso conhecer a própria miséria, renunciar-nos. E escolher dentre as devoções a Nossa Senhora aquela que nos leve a morrer para nós mesmos, para vivermos em Jesus Cristo e nos salvarmos.

MEDITAÇÃO
Prelúdios

- Represento-me cheio de feridas repelentes e dolorosas. Maria, ao meu lado, estende as mãos para curar minhas chagas.
- Minha Mãe, suave Enfermeira de minhas misérias e dores, ensinai- me a aceitar o tratamento que minha natureza quer repelir, mas que me há de levar a vosso imaculado regaço.


PONTO I
OS NOSSOS PECADOS (Cfr. T.V.D.)

Nossas melhores ações são, de ordinário, manchadas e corrompidas pelo egoísmo que há em nós. Quando se coloca água limpa e clara em um vaso sujo, ou vinho num recipiente azedado por outro vinho, a água pura e o bom vinho se estragam e tomam o mau odor das vasilhas. Assim também quando Deus coloca no vaso de nosso coração, estragado pelo pecado original e atual, suas graças e orvalhos celestes ou o vinho delicioso de seu amor, seus dons são, de ordinário, estragados e manchados pelo mau fermento e fundo perverso que o pecado deixou em nós. E nossas boas ações, mesmo as sublimes, disso se ressentem. Cumpre, logo que nos libertemos de tudo quanto há de mau em nós. De outra sorte, o Senhor, que é infinitamente puro e que detesta soberanamente toda a nódoa, nos lançará de si e não se unirá a nós.
Procuremos pois, conhecer, à luz do Divino Espírito Santo, nosso fundo egoísta, nossa incapacidade para o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância, nossa indignidade de toda graça, nossa iniquidade em todo lugar. O pecado original nos estragou e corrompeu como um fermento mau que corrompe toda a massa. Os pecados atuais que cometemos, mortais ou veniais, perdoados ou não, ainda aumentaram a nossa concupiscência, fraqueza e inconstância e corrupção, deixando em nós tristes vestígios.


PONTO II
NECESSIDADE DE RENUNCIAR-NOS

Assim, havemos de nos renunciar inteiramente. Ao nosso corpo, porque, marcado pelo pecado original, ele é chamado pelo Espírito Santo corpo de pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, somente capaz de pecar, exposto a mil doenças, dia-a-dia sujeito à corrupção, viveiro de enfermidades, de vermes, de morte.
À nossa alma, porque, unida a nosso corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada carne: “tendo toda a carne corrompido seu caminho" (Gn 6,12). Por partilha temos somente a soberba e cegueira do Espírito, o endurecimento do coração, a fraqueza e inconstância da alma, a concupiscência, as paixões revoltadas e as doenças no corpo. Como os animais vis e repelentes, nós somos propensos à lama, invejosos, gulosos, coléricos, preguiçosos, fracos e inconstantes. E nos devemos admirar se nos afirma Jesus que aquele que O quer seguir deve renunciar a si mesmo, odiar sua alma; que aquele que ama sua Alma, perdê-la-á e o que a odeia a salvará? A Sabedoria infinita não nos diz que nos odiemos senão porque sabe quanto somos dignos de ódio. Nada tão digno de amor como Deus, nada tão digno de ódio como nós mesmos.
Havemos de renunciar também às operações de nosso corpo e de nossa alma. Morrer lodos os dias a nós mesmos. Ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se delas não nos servíssemos. A isto chamava São Paulo morrer todos os dias (1 Cor 13,31)
Sem esta renúncia necessária, ser-nos-á impossível viver para Deus.


PONTO II
A DEVOÇÃO A MARIA NOS LEVA
A MORTE DE NÓS MESMOS


A melhor e mais santificadora dentre todas as devoções a Nossa Senhora será, conseqüentemente, a que mais eficazmente nos levar a essa renúncia de nós mesmos e de morte ao nosso egoísmo.
Será a que nos ensina a cumprir a palavra do Evangelho: Se o grão de fermento, caindo na terra, não morrer, ficará sozinho (Jo 12,24). Se, pois, hão morrermos a nós mesmos, e se nossas devoções ainda as mais santas não nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não produziremos fruto nenhum que tenha valor, serão inúteis nossas devoções, todas as nossas obras de justiça serão manchadas por nosso egoísmo e vontade desorientada,
O que fará a Deus voltar sua face aos maiores sacrifícios e mais notáveis ações que possamos realizar. E na hora de nossa morte, nos encontraremos vazios de virtudes e de méritos, não possuindo nem uma fagulha do puro amor que se não comunica senão às almas humildes e cuja vida está oculta com Cristo em Deus (Cl 3,3).
    Todavia, assim como a natureza tem segredos para levar a cabo em pouco tempo, com facilidade e pequeno esforço certas operações naturais, da mesma sorte há segredos na ordem da graça para fazer em pouco tempo, com doçura e facilidade operações sobrenaturais, renunciar-se inteiramente a si mesmo, replenar-se de Deus e atingir a santidade. A prática da escravidão de amor a Nossa Senhora, obrigando-nos a essa renúncia e morte salutares, entregando-nos inteiramente a Maria para que Ela nos afeiçoe à imitação de Jesus, será nossa doce garantia e celeste penhor de santidade.


COLÓQUIO

Mãe Imaculada, tenho os olhos cheios de lágrimas de dor, de contrição e de vergonha de meus pecados! Como me sinto mesquinho e repelente a vossos olhares! Meus pecados me fazem objeto de ódio. Mas vossa bondade me desvela como um objeto de amor! Quero, minha Mãe, entregar-me a
vossos cuidados. Tornai-me puro aos olhos de Jesus, inteiramente despojado de mim mesmo, e ornado suavemente com as jóias de vossa Imaculada Conceição! Aceito o vosso serviço, para que renunciando de todo às minhas misérias possa revestir-me das riquezas de Jesus Cristo.

RAMILHETE

Virgem singular, entre todas suavíssima, libertai-nos de nossas culpas, revesti-nos de vossas virtudes.


SANTO EVANGELHO (Mt 3. 1-12)
PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA

Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizendo; Fazei penitência, porque se aproxima o Reino dos Céus. Porquanto é este de quem falou o profeta Isaías dizendo: preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas. Ora, o mesmo João tinha uma veste de peles de camelo e uma cinta de couro, em tomo dos seus rins; e eram seu alimento gafanhotos e mel silvestre. Então vinha a ter com ele Jerusalém e toda Judéia, e toda a circunvizinhança do Jordão. E confessando os seus pecados, eram por ele batizados no Jordão. Mas vendo que muitos dos Fariseus e dos Saduceus vinham ao seu Batismo, disse-lhes: raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Fazei, pois, dignos frutos de penitência. E não queirais dizer convosco; temos por pai a Abraão; Porque eu vos digo que poderoso é Deus para fazer destas pedras nasçam filhos de Abraão. Porque já o machado está posto à raiz das árvores. Toda árvore, pois, que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu, na verdade, vos batizo em água para (vos trazer à) penitência; porém Aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de Lhe desatar o calçado; Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. Nas suas mãos tem Ele a sua pá, e limpará muito bem a sua eira, e recolherá o seu trigo no celeiro, e as palhas queimá-las-ás num fogo inextinguível.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L I, c. 21,1.4 ex 5)
O CULTIVO DO TEMOR DE DEUS

Se queres fazer algum progresso, consen/a-te no temor de Deus, e não queiras ser demasiadamente livre; mas com serenidade refreia todos os teus sentidos, e não te deixes levar de vã alegria.
Dá-te à compunção do coração e acharás Devoção. A compunção causa muitos bens, que a dissipação costuma perder em breve.
É para admirar que o homem possa alegrar-se alguma vez perfeitamente nesta vida considerando-a como um desterro, e pensando nos muitos perigos de sua alma...
Conhece que és indigno da consolação Divina, e merecedor de muitas tribulações.
Quando o Homem tem perfeita compunção, logo lhe é pesado e amargo todo o mundo.
O justo acha sempre matéria bastante para afligir-se e chorar; porque, ou se considere a si mesmo, ou pense em seu próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações.
E quando mais atentamente se considera, tanto mais profunda é sua dor.
Matéria de justa dor e estranhável compunção são os nossos pecados e vícios, aos quais tão miseravelmente estamos presos que raramente podemos contemplar as coisas do céu.
Se mais amiúde pensasses em tua morte que em viver largo tempo, não duvido que te emendaria com mais fervor.
Se também de todo o coração pensaras nas penas futuras do inferno ou do purgatório, creio que de bom grado sofrerias qualquer trabalho e dor, e não temerias nenhuma austeridade; porém, como estas coisas nos não entram no coração, e amamos sempre o regalo, ficamos frios e preguiçosos.



LEITURA (Montfort, Amour de la Sagesse Etemelle, pág. 78 ss)
DESGRAÇA DO HOMEM AO PERDER A SABEDORIA

A onipotência e doçura da Eterna Sabedoria brilharam na Criação, na beleza e ordem do universo, mas muito mais na formação do homem. Ele é a obra prima da Sabedoria, imagem viva de sua beleza e perfeições,receptáculo de suas graças, tesouro admirável de suas riquezas, substituto
de Deus na terra (Sb 9, 2).
Para glória desta bela e poderosa Artífice, seria mister aqui explicar a beleza e excelência originárias que Dela recebeu o homem, em sua criação. Mas o pecado que ele perpetrou, e cujas trevas se estenderam até mim, de tal sorte me obscureceram o entendimento que delas não posso falar senão
de maneira muito imperfeita.
A Sabedoria fez, por assim dizer, cópias e expressões luminosas do seu entendimento, de sua memória, de sua vontade, e deu-as ao homem, para que fosse vivo retrato da Divindade. Acendeu-lhe no coração um incêndio de puro amor de Deus, formou-lhe um corpo luminoso, e nele encerrou como em um compêndio, as diversas perfeições dos anjos, dos animais e das outras criaturas.
Tudo no homem era sem trevas, beleza sem defeito, pureza sem nódoa, ordem sem desvios, nenhuma imperfeição, mancha alguma. Por apanágio, tinha a luz da Sabedoria no Espírito, e conhecia perfeitamente seu Criador e as criaturas. Com a graça de Deus na alma, era inocente e agradável aos olhos do Altíssimo. No seu corpo, a imortalidade. O puro amor de Deus no coração, sem temor da morte, amava a Deus puramente, por amor Dele mesmo. Era enfim, tão Divino, que vivia constantemente fora de si, transportado em Deus, sem nenhuma paixão que combater, sem nenhum inimigo que vencer. Ó liberalidade da Sabedoria Eterna para com o homem!
Ó venturoso estado de inocência!
Mas, aí, desgraça das desgraças! Eis que este vaso Divino se parte em mil pedaços. A linda estrela caí. O belo sol se cobre de lama. O homem peca, e em seu pecado, perde a Sabedoria, a inocência, a beleza, a imortalidade. Perde todos os bens que recebera e é avassalado por uma onda de males. Agora tem o Espírito entenebrecido e nada vê. O coração gélido em face de Deus, já não O ama. A alma negra de pecados; as paixões desordenadas. É atacado pelas criaturas, que lhe movem guerra. Eis o homem, num instante tornado o escravo dos demônios, objeto da cólera de Deus, vítima dos infernos!
A si mesmo se vê tão horrendo que vai ocultar-se de vergonha. É um maldito, condenado à morte. Expulso do paraíso terrestre, sem lugar no céu, vai levar, sem esperança de ventura, uma vida infeliz sobre a terra amaldiçoada. Morrer como criminoso, e depois da morte, ser condenado, como os demônios, ele e todos os seus filhos!