sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Quarto dia da primeira semana (Conhecer a si mesmo) - O abismo do nosso nada

QUARTO DIA 

Meditação - O abismo do nosso nada

PREPARAÇÃO

Depois de meditarmos sobre os nossos pecados, maus hábitos e péssimas conseqúèncias destes em nossa vida, para conseguir melhor conhecimento de nós mesmos, consideraremos o abismo de nosso nada, a nossa fragilidade e a nossa ignorância, que nos põem como paralíticos entrevados, de todo incapazes de qualquer bondade. À luz da grandeza de Nossa Senhora, melhor aprenderemos a imensidade de nossa miséria, e nos desprezaremos, confiando doravante somente em Deus, por Maria.

MEDITAÇÃO

Prelúdios
- Sou como um paralítico inerme, que desconhece mesmo a extensão de sua incapacidade. Maria, a meu lado, como uma virtude que brota de
Jesus Cristo para me curar.
- Mãe amável, Virtude de Jesus para minha cura, fazei-me atento à vossa admoestação, graça de luz para minha mente entenebrecida.

PONTO I
O NOSSO NADA

Deus é aquele que é. Nós somos aquilo que não é. Viemos do nada. Só Deus é, desde toda a eternidade. Antes éramos nada, ninguém nos conhecia. Não ocupávamos pensamento de ninguém. Foi este Nada que Deus quis criar, misericordiosamente, para seu serviço, sua glória, para felicidade nossa. Deus nos conserva a cada momento. Em cada parcela, ainda mínima do nosso ser. A cada ação nossa, no corpo ou na alma. Não podemos viver senão em Deus, somente Nele nos movemos e somos (At 17,28).
Comparar-nos a Deus? Àquele que tudo criou e conserva. Autor da imensidade do universo, das maravilhas da ordem espiritual, a tudo presente com sua dominadora onipotência, com sua presença vigilante, com sua previdência inefável, na tranqúilidade imóvel de sua onipresença e de sua
eternidade... Como nos temos atrevido a levantar-se em face de Deus? Não pode Ele
aniquilar-nos com um só ato de sua vontade, não mais nos conservando no ser que DelE exclusivamente nós temos? Sim. Tudo quanto há de positivo,de ser, em nós, é de Deus, mantido por Deus... Que fica, pois, para nós, orgulhosos míseros, senão o nada, o vazio, o não ser?



PONTO II
A NOSSA FRAGILIDADE

É frágil o nosso corpo, sujeito a todas as enfermidades e fraquezas. Um nada em nossa alimentação, no ar que nos cerca, no veículo que nos transporta, pode causar-nos a doença, a invalidez, a morte. É frágil o nosso Espírito que depende do corpo. Um pequeno acidente, uma alteração de nervos, um traumatismo qualquer pode arruinar num momento toda a nossa ciência, o saber penosamente adquirido e de que tanto nos orgulhamos, o equilíbrio mesmo de nossa personalidade... É frágil a estima que de nós têm os outros. Uma calúnia maldosa, ou o conhecimento de alguma ação má que cuidadosamente ocultávamos, uma palavra zombeteira, um remoque suspicaz, quantas vezes nos faz descer de todo no conceito de nossos irmãos...
Qual é o conceito de honra entre os homens? Quanto vale? Quanto tempo dura? São fragílimos os bens materiais que acaso possuíssemos. Uma guerra, uma perturbação dos negócios, um erro de administração, tudo nos pode levar. Há a inveja dos outros, os ladrões, o tempo... É frágil nossa vida espiritual também. A cada momento podemos cometer um pecado mortal. Todos os nossos passos trazem a maldita possibilidade de nos afastarem de Deus. Dentro em nós sempre há o incêndio das paixões. Fora, toda a tempestade suscitada pelo gênio do mal... Como ainda confiaremos em nós? Em nossas forças? Em nossas possibilidades?

PONTO III
A NOSSA IGNORÂNCIA

Na ordem natural, que sabemos? Como nossa ciência é apoucada e cheia de imperfeições e defeitos! Não diríamos melhor que sabemos somente que nada sabemos? Triste relíquia do pecado original é nossa preguiça e inconstância, que nos impede aplicar-nos sobretudo, às verdades de ordem mais excelsa. E fazemos de nossos conhecimentos de ciências materiais toda a orgulhosa bagagem de nosso saber, e pretendemos até ser essa a única ciência... Que degradação de nossa mente! Em ordem sobrenatural, quantas vezes as luzes penetrantes da Revelação deslumbram nossa acanhada capacidade! É, porque orgulhosos, talvez as deformamos, resultando para nossa alma angústias e temores penosos, que nos tolhem o progresso para Deus. Por nossa culpa, ignoramos nossas más tendências, nossos defeitos. Não reconhecê-los, quando outros carinhosamente no-los admoestam...
Como é imensa a nossa ignorância! E porque, apesar de tudo, nos julgamos sábios, conhecedores de assuntos humanos e divinos, decidimos sem hesitar todas as questões, obrigamos todos a que perfilhem nossas opiniões infalíveis... Quanta loucura! Que ridículo!



COLÓQUIO

Mãe Poderosa, cuja fragilidade humana foi tão vencedoramente fortifícacja pela Onipotência Divina Encarnada em vós, eu vos agradeço. Nesta preparação para minha entrega total a vosso carinho, surpreendo-me ao ver-me tão distante de vossa riqueza e de vossa virtude. Confesso o abismo do meu nada, pasmo de minha fragilidade, deploro em lágrimas minha ignorância de todas as coisas. Elevo meu olhar para vós, a contemplar o esplendor de graça com que Oeus vos revestiu, a fortaleza inabalável com que vos confirmou em graça, a Divina Sabedoria com que iluminou vossa inteligência. Virgem Poderosa, foi a humildade com que vos curvastes ante o Onipotente na atitude de pequenina Escrava, que vos mereceu tesouros tão altos. Fazei-me o dom dessa humildade que me obtenha não confiar jamais em mim mesmo, para me apoiar somente na força de Deus e na certeza do vosso amor fiel!


RAMILHETE

Maria, Mãe do Verbo Encarnado, é a única for entre espinhos, sem espinhos de miséria, fragilidade e ignorância.


SANTO EVANGELHO (Jo 5,2-9)
O PARALÍTICO DA PISCINA PROBÁTICA

Ora, havia em Jerusalém uma piscina probática, em hebraico Betsaida, com cinco pórticos. Nestes jazia uma multidão de enfermos, de cegos, de coxos, dos que tinham os membros ressecados, à espera do movimento da água. Porque um Anjo do Senhor descia, em certo tempo, ao tanque e movia-se a água. E aquele que primeiro entrasse na piscina depois do movimento da água, ficava curado. Achava-se ai também um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitado, e sabendo que de há muito estava enfermo, disse-lhe Jesus; Queres ficar são? Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho homem algum que me lance na piscina quando a água é movida; porque enquanto eu vou, desce outro primeiro do que eu. Disse-lhe Jesus;
Levanta-te, toma o teu leito, e anda. No mesmo instante ficou são aquele homem; e tomou o seu leito e começou a caminhar.

Imitação de cristo (L I. cap.2)
HUMILDE SENTIR DE SI MESMO

Todos os homens naturalmente desejam saber. Mas, que aproveita a ciência sem o temor de Deus?
por certo melhor é o rústico humilde que serve a Deus, que o soberbo fílósofo que, deixando de conhecer a si mesmo, observa os movimentos do céu.
Aquele que bem se conhece tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos.
Se eu soubesse quanto há no mundo, e não tivesse caridade, de que me aproveitaria diante de Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?
Não tenhas demasiado desejo de saber, porque nele acharás grande distração e engano.
Os doutos gostam de ser tidos e aplaudidos por tais.
Muitas coisas há que o sabê-las pouco ou nada aproveita à alma, e muito louco é quem atende a outras coisas mais que as que sen/em para a sua salvação.
As muitas palavras não enchem a alma; mas a boa vida lhe dá refrigério, e a consciência pura causa grande confiança em Deus.
Quanto mais e melhor souberes, com tanto maior rigor serás julgado se não viveres santamente.
Por isso não te desvaneças por alguma arte ou ciência; mas teme antes o conhecimento que dela adquiriste.
Se te parece que sabes muito e o entendes muito bem, tem por certo que é muito mais o que ignoras.
“Não presumas de alta Sabedoria, mas confessa tua ignorância” (Rm11,20).
Porque te queres ter em mais que os outros, achando-se muitos mais doutos e sábios na lei de Deus que tu?
Se queres saber e aprender alguma coisa proveitosamente, deseja que não te conheçam nem te estimem.
O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é altíssima e utilíssima lição.
Grande Sabedoria e perfeição é pensar cada um sempre bem e favoravelmente dos outros, e ter-se e reputar-se em nada.
Se vires alguém pecar publicamente ou cometer culpa grave, não te deves julgar por melhor; porque não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem.
Todos somos fracos; mas a ninguém tenhas por mais fraco do que a ti.

LEITURA (Montfort. T.V.D.)
A VERDADEIRA DEVOÇÃO,
REMÉDIO DOS NOSSOS MALES

Meu irmão, ficai certo de que. se fordes fiel às práticas interiores de Devoção que vos indicarei: Pelas luzes que o Espírito Santo vos há de dar por Maria, sua cara esposa, conhecereis vossa maldade, corrupção e incapacidade para o pedir, que é só de Deus. autor da natureza ou da graça; e como conseqüência de tal conhecimento, chegareis a desprezar-vos e a pensardes em vós com horror. A humilde Virgem Maria vos fará participar de sua profunda humildade, e fará com que vos desprezeis e ameis o desprezo, sem desprezardes os outros. A Santíssima Virgem far-vos-á participante de sua Fé, maior na tena de que a fé dos Patriarcas, Apóstolos e todos os santos. Agora que reina nos
céus. Ela não tem mais esta fé, pois vê claramente todas as coisas em Deus. pela luz da glória; entretanto com o assentimento do Altíssimo, não a perdeu ao entrar na glória, guardou-a, a fim de conservá-la na Igreja militante para seus mais fiéis servos.
Quanto mais conseguirdes a benevolência desta augusta Princesa e Virgem fiel, mais fé pura haverá no vosso procedimento: uma fé pura, que vos levará a praticardes todas as ações só pelo motivo de amor; mas uma ié firme e inalterável, como um rochedo, que fará empreender e realizar grandes coisas para Deus e para a salvação dos irmãos, sem hesitar; enfim, fé que será vosso farol, vossa vida Divina, vosso tesouro da Divina Sabedoria, e vossa arma poderosíssima, da qual vos servireis para iluminar aqueles que estão nas trevas da sombra da morte.
Esta Mãe do belo amor tirará de vosso coração os escrúpulos e temores servis e desregrados; abri-lo-á e dilatá-fo-á, para que avanceis na senda dos mandamentos de seu Divino Filho, com a santa liberdade dos filhos de Deus, facilitando vossa marcha com o puro amor, cujo tesouro Ela possui: destarte não vos deixareis levar tanto pelo temor de Deus, mas pelo amor. Haveis de considerá-lo como vosso bom Pai, a quem procurareis agradar constantemente; se por desgraça chegardes a ofendê-Lo, humilhar-vos-eis imedíatamente em sua presença; e Lhe pedireis humildemente perdão: mas Lhe estendereis a mão com simplicidade, e levantar-vos-eis amorosamente, sem perturbação, sem inquietação; e continuareis a caminhar em sua presença, sem desânimo.
A Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e nela: porque não será mais por vós mesmo que vos aproximareis de Deus, mas sempre por esta boa Mãe; porque, tendo-lhe dado todos os méritos e satisfações, para que de tudo disponha à vontade, por sua parte vos comunicará suas virtudes e revestirá de seus merecimentos; de modo que podereis dizer a Deus com toda a confiança: “Eis aqui Maria, vossa serva: faça-se em mim segundo vossa palavra"; E porque, havendo-vos consagrado a Ela totalmente, em corpo e alma. Ela que ó generosa com os generosos, há de dar-se a vós em troca, de modo maravilhoso, mas verdadeiro: de sorte aue podereis dizer-lhe afoitamente: “eu sou vosso, ó Santíssima Virgem, saivai-me”' ou, como já disse o discípulo amado: “eu vos considero, ó Mãe Santíssima, como todo o meu tesouro".
 A alma da Santíssima Virgem se vos comunicará para glorificar ao senhor; seu Espírito substituirá o vosso para regozijar-se em Deus, uma vez que sejais fiel às práticas desta Devoção.
Ah! Quando virá o tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana de todos os corações, para submetê-los inteiramente ao império de seu grande e único Jesus? Quando será que as almas hão de respirar tanto Maria, como os corpos respiram o ar? Então hão de suceder coisas maravilhosas neste pobre mundo. Quando chegará esse tempo feliz e esse século de Maria, em que as almas, perdendo-se no abismo de seu interior, tomar-se-ão cópias vivas de Maria, para amarem e glorificarem a Jesus Cristo?