quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Segundo dia da primeira semana (Conhecimento de si mesmo) - Nossos maus hábitos

SEGUNDO DIA 

Meditação - Nossos maus hábitos
PREPARAÇÃO

Os pecados deixaram em nossa alma e em nossa vida terríveis consequências. Enfermidades na inteligência, impando-nos de orgulho ridículo, e tão difícil, todavia, de eliminar. Enfermidades na vontade, mau fermento que corrompe e debilita as nossas tentativas para o exercício das virtudes verdadeiras. É preciso renunciar-nos a nós mesmos e revestir-nos de Maria, a humilde Escrava do Senhor, cheia de todas as graças e dons altíssimos de Deus.

MEDITAÇÃO
Prelúdios

- Qual convalescente de grave doença, debilitado e sem forças, vejo diante de mim a querida figura de Maria estimulando-me gentilmente a aceitar
a cura que Ela me oferece.
- Maria, Enfermeira Celeste de minha alma, ajudai-me a libertar-me dos hábitos maus, triste relíquia dos pecados que nodoaram minha vida.

PONTO I
O ORGULHO DA INTELIGÊNCIA

O pecado original deixou em nossa inteligência uma vulneração de efeitos lastimáveis. Temos dificuldade de entender as coisas de Deus, saber a verdadeira destinação de nossa vida, aceitar a submissão, a docilidade, a obediência a Deus e a seus representantes na terra. E nos inclinamos antes
para as coisas sensíveis, nossa mente como que se entorpece, não sabe ver nas criaturas o Criador, inclina-se a considerar as coisas criadas como finalidade única. Mas, sobretudo, é para nós mesmos que nos orientamos, esquecidos de Deus e de seus direitos, deleitando-nos num amor excessivo e ilegítimo de nós mesmos, na tuteia feroz dos nossos pretensos direitos. E somos soberbos, orgulhosos, cheios de presunção. Não ouvimos nossos irmãos e desprezamos sua colaboração e sua intervenção em nossa vida. E nos parece que a apoucada ciência que adquirimos nos dá direito de afirmar nossas opiniões, impô-las a todos, criticando o próprio piano providencial no governo do mundo... Que cegueira tremenda! Quão pouco nos conhecemos deveras. Humilhemo-nos perante Deus. Sem humildade, nossa inteligência não alcançará nunca seu verdadeiro caminho, seu alimento único, sua glória a recompensa - Deus, a Verdade Suprema!


PONTO II
A DEBILIDADE DA VONTADE

    Ainda mais vulnerada que nossa inteligência, nossa vontade se encontra debilitada em extremo para o exercício das virtudes. Máxime porque, aos pendores que em nós deixou o pecado original acrescentamos inclinações viciosas, fruto dos nossos próprios pecados. E se a falta primeira veio reacender em nossos sentidos a concupiscência que nos inclina para o mal contra os ditames da razão e da Fé, nossos pecados como que trouxeram mais alimento ainda para esse fogo de inferno sempre aceso em nossos sentidos. Como é fraca e imbele nossa força de resistência! Uma triste experiência nos ensina quanto mais facilmente cede nossa vontade à desordem de nossas concupiscências do que aos convites para a elevação difícil das virtudes cristãs...
Como havemos de confiar em nós? Assegurar-nos da perseverança, se ousamos contar com a instabilidade fragÍlima de nossa vontade, que a menor tentação pode atirar no abismo? Não. Não nos iludamos. Reconhecer com humildade ante Deus a miséria de nossas quedas, sem atribuí-las a
circunstâncias exteriores, a tentações irresistíveis, mas confessando-nos pecadores, em extremo perigo de condenar-nos. se Nosso Senhor Jesus Cristo não nos acudir com misericordiosa salvação. Senhor, salva-nos, pois perecemos (Mt 8. 25).


PONTO III
RECURSO A MARIA

    No paraíso, Eva, nossa primeira e infeliz mãe como que anuncia a desgraça de nossa inteligência e de nossa vontade. Porque ela não soube reconhecer a tentação do inimigo, o afastamento de Deus, a ruína que ía induzir sobre todos os seus pobres filhos. E quis sua elevação mentirosa até o trono da Divindade, ouvindo a serpente falar: sereis como deuses (Gn 3, 5). Maria, porém, nossa Mãe verdadeira, porque nos engendra para a vida preciosa da graça e do céu, é nosso remédio e modelo alcandorado. Isenta, por inefável privilégio, da mancha original, plena de graça desde a sua Conceição Imaculada, sua inteligência voa para Deus e se perde na contemplação do infinito. Ela não se detém na consideração de si mesma senão para humilhar-se ante Deus e reconhecer-se sua Escrava: olhou para a baixeza de sua serva (Lc 1, 48).
Compreendido seu dever de elevar-se ao Criador mediante as Criaturas e de tal sorte subiu nessa contemplação que mereceu atingir a mesma Divindade. E foi feita Mãe de Deus e Mãe Nossa. E trouxe sobre todos os seus filhos a reparação da ruina, mercê de seu Primogênito. E nos promete,
com verdade, com humildade, com doce sentimento de afeto maternal, que poderemos deveras “ser como Deus“ pela graça Divina de seu Filho Jesus.
Busquemos Maria, para remédio de nosso orgulho. Ela é a Escrava humilde, que, entretanto todas as gerações hão de bendizer em louvores eternos. Busquemos Maria para medicina de nossa fraqueza. Ela é a Mulher Forte, que pisou a cabeça da serpente infernal. Humildes escravos de amor a Maria, teremos nós também, a glória de vencer o demônio, o subir até Deus.

COLÓQUIO

Mãe bendita e querida, dou-vos graças pela iluminação que me obtendes de Jesus, a fim de que me vá conhecendo sempre mais para me desprezar e desconfiar de mim mesmo. Quanto orguiho e soberba em minha vida! Quanta fraqueza da minha vontade, ainda mesmo quando procuro ocultar-me aos olhos dos outros, e parecer mentirosamente aquilo que não sou! Pois que me preparo para dar-me de todo a vós, Minha Mãe, continuai vosso trabalho de mostrar a meus olhos envergonhados todas as misérias de meu orgulho e de minhas inconfessáveis fraquezas.
Se as relíquias do pecado original turbaram tanto minha mente e assim debilitaram minha vontade, dai-me. Virgem puríssima, a vossa Imaculada Conceição - tão oposta ao pecado original -, para sanar minha inteligência e alentar minhas resoluções de humildade, de perseverança no bem, confiado unicamente na graça onipotente de Jesus Cristo e no carinho abençoado de vosso amparo tutelar!

RAMILHETE

Maria há de mostrar-me o caminho da Sabedoria e conduzir-me nas sendas da Justiça(Pr 4, 11)


SANTO EVANGELHO (Mt 16, 5-12)
O FERMENTO DOS FARISEUS

    Ora, seus discípulos, tendo passado a outra margem do lago, tinham-se esquecido de levar pão. (Jesus) lhes disse: Vede e guardai-vos dos fariseus e dos saduceus. Mas eles discorriam entre si, dizendo: É que não trouxemos pão. Sabendo-o Jesus lhes disse: Homens de pouca fé, porque estais
considerando convosco, por não terdes pão? Ainda não compreendeis, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens, e quantos (foram) os cestos que recolhestes? Q por que não compreendeis que não foi a respeito do pão que eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos Fariseus e dos Saduceus? Então compreenderam que não havia dito se guardassem do fermento dos pães, senão da doutrina dos Fariseus e dos Saduceus.


IMITAÇÃO DE CRISTO (L 2. c. 5)
DESCONFIAR DE NÓS MESMOS

Não devemos confiar demasiado em nós mesmos, porque muitas vezes nos falta a graça e a discrição.
Pouca luz há em nós, e essa depressa a perdemos por nosso descuido.
Muitas vezes não conhecemos quão cegos estamos.
Muitas vezes também obramos mal, e ainda pior nos desculpamos.
Às vezes move-nos a paixão, e cuidamos que é zelo.
Repreendemos nos outros as faltas pequenas, e desculpamos as nossas, posto que mais graves.
Muito depressa sentimos e agravamos o que sofremos aos outros; mas não advertimos quando os outros nos sofrem a nós.
O que bem e retamente examinar suas obras, não terá que julgar severamente as alheias.
O homem de vida interior, antepõe o cuidado de si mesmo a todos os outros cuidados; e com diligência atende a si; com facilidade se abstém de falar dos outros.
Nunca serás homem de vida interior e devoto, se não calares dos outros e tiveres especial cuidado de ti.
Se de todo te ocupares com Deus e contigo, pouco caso farás do que perceberes fora de ti.
Onde estás quando não estás contigo? De que te aproveitou lembrares-te de tudo, se de ti te esqueceste?
Se queres ter paz e união verdadeira com Deus, deves desprezar tudo o mais, para cuidardes de ti só.
Muito aproveitarás se te despires de todo cuidado terreno. Muito afrouxarás, se alguma coisa temporal tiveres em muito.
Não te pareça coisa alguma alta, nem grande, nem aceita, nem agradável, senão Deus só, e o que for de Deus.
Tem por vã qualquer consolação que te vier da criatura. A alma que deveras ama a Deus despreza tudo o que não é de Deus.
Só Deus, eterno, imenso, e que tudo enche, é a consolação da alma e a verdadeira alegria do coração.


Leitura (Montlort, T.V.D. 173 a 176)
MARIA, PENHOR DE NOSSA PERSEVERANÇA

Esta Devoção à Santíssima Virgem, é meio admirável para perseverar na virtude e ser sempre fiel. Porquanto, de onde vem que a conversão de maior parte dos pecadores não é duradoura? De onde vem que com tanta facilidade se torna a cair no pecado? De onde vem que a maior parte dos
justos, em lugar de adiantar-se de virtude em virtude, e de adquirir novas graças, perdem muitas vezes até o pouco de virtudes e graças que possuíam?
Esta desgraça, vem de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e inconstante, confia em si mesmo, conta com suas próprias forças, e se julga capaz de guardar o tesouro de suas graças, de suas virtudes e de seus merecimentos.
Ora, por esta Devoção , confiamos à Santíssima Virgem tão fiel, tudo o que possuímos; tomamo-la por depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, é em seu poder que nos estejamos, é com sua caridade e misericórdia que contamos, para que Ela consen/e e aumente nossas virtudes e nossos merecimentos, apesar do demônio, do mundo e da carne, que se esforçam de todos os modos para no-los arrebatar. Dizemos-lhe, como um bom filho à sua mãe e como um fiel servo à sua Senhora: Guarda o meu depósito: minha mãe e Senhora, reconheço que, por vossa intercessão, tenho até agora recebido de Deus mais graças do que tenho merecido, e minha triste experiência ensina-me que guardo este tesouro em um vaso muito frágil; sendo demasiadamente fraco e miserável para conservá-lo em mim mesmo, concedei-me esta graça, recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-me por vossa fidelidade e por vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a coberto de meus inimigos.
É o que nos diz São Bernardo em termos formais, para inspirar-nos esta prática. "Quando Maria vos sustenta, não caís; quando vos protege, nada temeis; quando vos conduz, não vos fatigais; quando vos é propícia, chegais ao porto da salvação”. São Boaventura parece ainda dizer o mesmo; "A Santíssima Virgem não só está contida na plenitude dos santos, mas ainda contém e guarda os santos em sua plenitude, para que esta não diminua: impede que se dissipem suas virtudes, que pereçam seus merecimentos, que se percam suas graças, que os prejudique o demônio; impede finalmente que Nosso Senhor Jesus Cristo os castigue, quando pecam".
Maria Santíssima é a Virgem fiel. que por sua fidelidade a Deus repara as perdas causadas pela infidelidade da infiel Eva, e que alcança a fidelidade de Deus e a perseverança àqueles e àquelas que a Ela se prendem. É por isto que um santo a compara a uma âncora firme, que os retém e impede de naufragar no mar agitado deste mundo, onde perecem tantas pessoas por se não terem prendido a Maria Santíssima. “Ligamo-nos à vossa esperança como a uma âncora firme”, é a Ela que os santos mais se agarraram e prenderam os outros, a fim de perseverar na virtude. Bem-aventurados pois e mil vezes bem-aventurados os cristãos que agora se agarram a Ela liei ç inteiramente, como a uma âncora firme e segura! Os esforços da tempestade deste mundo não os poderão submergir nem fazer que percam seus celestes tesouros. Bem-aventurados aqueles e aquelas que nela entram como na arca
de Noé! As águas do dilúvio dos pecados, que afogam tanta gente, não lhe farão mal algum, porque; Aqueles que estão em mim, não hão de pecar, diz Ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos fiéis da infeliz Eva, que se agarram a Maria, à Virgem que permanece sempre fiel e nunca se contradiz; e que ama sempre aqueles que a amam, não só com um amor afetivo, mas com um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por sua grande abundância de graças, de retroceder na virtude e de cair no meio do caminho, perdendo a graça de seu Filho.
Essa boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo o que lhe damos em depósito; e, uma vez que o recebeu a título de depositária, está obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a no-lo consentir, da mesma forma que uma pessoa, em cujas mãos eu tivesse depositado dinheiro, teria obrigação de guardá-lo, de maneira que. se viesse a perdè-lo, mesmo por negligência, seria em toda a justiça responsável por ele. Maria, porém, não deixará que se perca o que lhe confiamos; mais depressa o céu e a terra passariam do que Ela seria negligente e infiel para com os que nela confiam.