quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Sermão sobre a festa de Santa Cruz por Pe Antonio Vieira


 SERMÃO DA SANTA CRUZ 




Na Festa dos Soldados. Ano de 1638. Estando na Bahia a Armada Real, com muita da primeira nobreza de ambas as coroas.
Erat homo ex pharisaeis, Nocodemus nomine, princeps Judaeorum. Hic venit ad Jesum nocte, et dixit ei: Rabbi.
Sicut Movses exaltavit serpentem in deserto, ita exaltari oportet Filium hominis[1].



§I

Deixa o autor os benefícios passados da Santa Cruz, por tratar somente dos interesses presentes. O maior interesse que podia ter o Brasil no momento: a vitória de seus inimigos.

Vinte e sete dias faz hoje que com solenidade universal celebrou a Igreja Católica a festa da Santa Cruz. E como se para um mistério tão alto fosse pouco tempo um dia, e pouca celebridade uma festa, a torna hoje a celebrar com repetida veneração esta nossa Igreja. Aquela solenidade primeira e universal, foi um devido reconhecimento e uma agradecida recordação das obrigações antigas, que a nenhuma outra memória, depois de Cristo, as deve o mundo maiores. Estas são as daquele sagrado lenho, que foi a tábua em que do naufrágio de Adão se salvou o gênero humano, e o instrumento gloriosíssimo, com que o Filho de Deus feito homem obrou nossa redenção. E posto que na devida ponderação delas, pudéramos também empregar estes segundo dia, e muitos dias, e sempre ficar devendo, talvez se há de deixar o mais fino pelo mais útil. Bem fora que pudera mais com os homens a memória que a esperança; mas que melhor razão de não ser assim, que ter dito que bem fora? É esta uma fidalguia de corações que se acha em muito raros; e quem prega há de falar para todos. Por esta causa, havendo de dizer hoje alguma coisa da sagrada Cruz, que sempre será muito pouco, deixo os benefícios passados, que lhe devemos agradecer, por tratar somente dos interesses presentes, que da virtude da mesma Cruz, ou de sua onipotência, podemos esperar. O maior interesse, e a mais universal felicidade que hoje podia suceder a este Estado, se consultarmos os desejos e esperanças de todos, e ainda as desesperações de muitos, não há dúvida que é uma vitória última de nossos inimigos, e uma liberdade geral deste, ou cativeiro, ou opressão, que os livres e os cativos todos padecem. Este é o maior interesse que podia ter o Brasil, e este havemos de descobrir hoje na Santa Cruz, cuido que com tanta ocasião no Evangelho como no desejo. A graça não temos que ir longe a buscá-la, porque na Cruz temos cinco fontes delas, e ao pé da Cruz em pé a soberana Intercessora, que no-la alcance. Ave Maria.



§ II

Nicodemos, grande fidalgo e discípulo de Jesus.

Erat homo ex pharisaeis, Nicodemus nomine, princeps Judaeorum. Hic venit ad Jesum nocte, et dixit ei: Rabbi. Sicut Moyses exaltavit serpentem in deserto, ita exaltari oportet Filium hominis (Jo. 3,1 s. 4). - São estas as primeiras e últimas palavras do Evangelho, as quais, posto que tão diferentes na ordem, e tão distantes no lugar, admiravelmente se correspondem e unem no sentido e nos mistérios. Erat homo: havia um homem - diz o evangelista S. João, que, como no mundo há tão poucos homens, bem é que se diga como coisa particular erat homo: havia um homem; chamava-se este homem Nicodemos, e era grande fidalgo:Nicodemus nomine, princeps Judaeorum. -Antes de dizer o cronista sagrado que era fidalgo, disse primeiro que era homem, porque há algumas fidalguias tão endeusadas, que é necessário que nos digam os evangelistas, e que se creia de fé que também estes ídolos de si mesmos são homens. Este homem, pois, este fidalgo, este Nicodemos veio falar com Cristo de noite: Hic venit ad Jesum nocte- e não veio de dia, por medo que tinha do povo: propter metam Judaeorum. De dia contemporizava com o mundo, de noite tratava com Cristo, e mais, não era cristão. Quantos há que se prezam muito de o ser, e os dias e mais as noites, tudo lhes leva o diabo? O fim desta visita, posto que tanto às escuras, não era sem luz, ou desejo dela, porque era para se aconselhar, perguntar e ouvir a doutrina do Mestre divino: Et dixit ei: Rabbi. - Até aqui a primeira parte do nosso tema: quando fortempo, sairá a segunda.



§ III

A primeira boa qualidade que concorria em Nicodemos para o título de vencedor que traz no nome: a nobreza. O sangue nobre, o melhor fiador de Davi na luta com o gigante. Razões da constância da Madalena e da fraqueza dos discípulos na paixão do Senhor Na nobreza está o valor mais certo e mais seguro, mas não são totalmente necessários os altos nascimentos para ter valorosos procedimentos. Por que lembra o anjo a José a descendência de Davi?

Nicodenius nomine. Estes nome Nicodemos diz a glosa ordinária que quer dizer victor populi, o vencedor do povo. Grande título! E se bem repararmos nas qualidades com que o descreve o evangelista, grandes partes tinha Nicodemos para vencedor. Primeiramente era não só nobre, mas da primeira nobreza: princeps Judaeorum - e ser ilustre quem vai à guerra, é levar ametade da vitória ganhada. Não sabe vencer quem não sabe dar o sangue, e mal o pode dar quem o não tem. Quando Davi saiu ao desafio com o gigante, voltou o rosto el-rei Saul para Abner seu capitão-general, e perguntou-lhe: Ex qua stirpe est hic adolescens (1 Rs. 17, 55): de que geração era aquele moço? - Perguntou-lhe pela geração, dizem os rabinos, que refere Abulense, porque tão briosos alentos, e tão animosa resolução de um pastor, pareceu-lhe ao rei que não podiam nascer senão de mais altas raízes. Viu-o atrever-se-á uma empresa tão árdua, viu-o arrojar-se intrepidamente a um perigo tão manifesto, e para julgar se sairia vencedor, quis-se informar se era honrado. Tinha-lhe dito Davi - apertemos mais o ponto - tinha-lhe dito Davi que despedaçava ursos e desqueixava leões; e não se aquieta com tudo isto Saul, pergunta-lhe pela geração: Ex qua stirpe est hic adolescens - porque era melhor fiador de haver de levar ao cabo tão grande empresa o sangue que tivesse herdado dos pais que o que derramava das feras.

Maior prova ainda, quanto vai de mulher a homem, e tão homem. Nota Orígenes, e bem, quão diferentemente se portaram na prisão e morte de Cristo os discípulos e a Madalena. Os discípulos fugiram, a Madalena seguiu-o animosamente até à morte: Discipulis fugientibus, eum ad mortem euntem sequebatur. - Até à morte, disse Orígenes, e se dissera até depois da morte, era o que mais devia ponderar. Mas donde tanta diferença de doze homens a uma mulher? Donde tanto ânimo em uma mulher, e tão pouco valor em tantos homens? Ide às choupanas das praias de Galiléia, e ao castelo de Betânia, e ai achareis o donde. A Madalena, ainda que mulher, e uma, era de ilustre solar, e senhora; os discípulos, posto que homens, e muitos, eram plebeus, e sem nobreza; e onde houve esta ou faltou, ali se luziu ou se perdeu o valor. Outras fraquezas se notaram na Madalena! e porventura nascida da mesma causa. Como era ilustre e senhora, houve de ser cortesã, passou a cortesia a ser cuidado, passaram os cuidados a ser descuidos. Sendo, porém, a Madalena tão nobre por geração, e os discípulos uns pescadores, que com o remo e a rede sustentavam a baixeza da sua fortuna, como naquela ocasião todos perderam a graça, claro está que, deixados à natureza, cada um havia de obrar como quem era. Os discípulos, como gente plebéia, deitaram a fugir; a Madalena como ilustre, posto que mulher, perseverou constante ao lado sempre de seu Senhor. Tanto aproveita o sangue para os animosos procedimentos, que não está o valor nos braços, está nas veias.

Não quero dizer com isto que seja necessário descender dos godos para ser valente, que isso seria contradizer a razão e negar a experiência. A espada que faz a guerra e dá as vitórias não é fabricada de ouro, senão de ferro, não do metal mais resplandecente e ilustre, senão do mais duro e forte. Para ser tão valoroso como Alexandre, não é necessário ser filho de Filipe de Macedônia. O testamento ou morgado de Marte não exclui a rudeza dos nomes nem a vulgaridade dos apelidos. Basta ser Gonçalo e ser Fernandes para ser grão-capitão. Honrada coisa é que a valentia venha por herança, e por continuação de muitas idades; mas talvez pode vir de tão longe que chegue já mui cansada. Quantos do arado subiram ao triunfo, e do triunfo tornaram outra vez laureados ao arado? As lentilhas deram a Roma os Lêntulos, e as favas os Fávios. O campo para eles era campanha, e a agricultura, diz Plínio, arte e exercício militar; porque na ordem com que dispunham as plantas, aprendiam a ordenar e governar os exércitos: Sive illi eadem cura semina tractabant, qua bella; eademque diligentia arva disponebant, qua castra[2]. - Pastor tinha sido o terror dos mesmos romanos, o nosso português Viriato, e tanto que trocou o cajado com o bastão, do seus soldados soube fazer leões, e dos inimigos ovelhas. Assim que, não são totalmente necessários os altos nascimentos para ter valorosos procedimentos.

Mas o que só quero dizer é que na nobreza está o valor mais certo e mais seguro. O que não é nobre, pode ser valoroso, o nobre tem obrigação de o ser: e vai muito do que posso por liberdade ao que devo por natureza. As águias não geram pombas; e se alguma vez a natureza produzisse um tal monstros pomba se animaria a ser águia, por não degenerar dos que a geraram. Não há espora para a ousadia, nem freio para o temor, como a memória do próprio nascimento, se é de generosas raízes. Estava temeroso S. José, e temeroso com razão, porque era matéria de honra; apareceu-lhe um anjo, e disse-lhe: Joseph, fili David, noli timere (Mt. 1, 20): José, Filho de Davi, não temas. - A descendência de Davi podia estar tão escurecida da memória de José quanto vai do cetro real aos instrumentos mecânicos que ele manejava; mas quando o anjo o exorta a que não tema, lembra-lhe que é da geração de Davi, porque, como diz o douto Palácio, com nenhuma outra consideração mais eficazmente lhe podia tirar o temor que com a memória de que era descendente de um homem que nunca soube temer. O mesmo Cristo, Redentor nosso, quando houve de tirar a capa para entrar naquela última batalha, em que venceu a morte e o inferno, diz o evangelista S. João que se lembrou primeiro de quem era e donde vinha: Sciens quia a Deo exivit, et ad Deum vadit, ponit vestimenta sua[3]. - Lembrou-se da geração altíssima de que procedia, lembrou-se de que era Filho do Monarca universal de todo o criado, e como entrou com esta lembrança na batalha, ainda que o amor da vida lhe fez seus protestos no Horto, por fim pelejou animosissimamente, e posto que com tanto sangue triunfou e venceu. Eis aqui, senhores, quão bem fundadas temos as esperanças da vitória que havemos mister, e esta é a primeira boa qualidade que concorria em Nicodemos para o título de vencedor que traz no nome: Victor populi.



§ IV

A segunda boa qualidade de Nicodemos: tratar com Jesus de noite. Por que deu Deus a Josué um dia tão grande, como o em que venceu aos madianitas? Que dia podem esperar de Deus quem dá as noites ao diabo? Por que foge Davi do rosto de Absalão? Instruções de S. Isidoro Pelusiota a um príncipe desejoso de vencer seus inimigos. Razões da derrota de Josué em. Hai depois da vitória de Jericó.

A segunda boa qualidade, e muito melhor que a passada, é a que logo se segue: et venit ad Jesum node: que veio Nicodemos a tratar com Jesus de noite. Os dias fê-los Deus para nós, as noites para si; os dias para as ocupações do corpo, as noites para os retiros da alma; os dias para o exterior e visível, e por isso claros, as noites para o interior e invisível, e por isso escuras. Assim repartia Nicodemos o tempo. Os dias dava-os às obrigações do ofício, como pessoa pública; e para satisfazer às mesmas obrigações com acerto e bom sucesso, gastava as noites com Deus. Oh! se a nossa milícia, e os cabos maiores e menores dela seguissem estes exemplo em parte das noites, que confiadamente me atreveria eu a lhe prometer que para o feliz e desejado fim de tantas prevenções e aparatos bélicos, não faltaria Deus em lhe dar um bom dia!

Nenhum general teve neste mundo maior nem melhor dia, que Josué governador das armas de Israel na conquista da terra dos Cananeus. Deu batalha aos madianitas, rotos já e fugitivos quando o sol precipitava a se esconder no ocaso; e para que pudesse prosseguir e acabar a vitória, como se o sol fora soldado seu, mandou-lhe Josué que parasse, e parou ou fez alto o sol. Diz a História Sagrada que nem antes nem depois houve tão grande dia: Non fuit antea nec postea tam longa dies (Jos. 10, 14) — grande na duração, grande na vitória, grande no império

do general, e mais na obediência do mesmo Deus à voz de um homem: Obediente Deo voci hominis. Mas, por que deu Deus a Josué um tal dia? Porque o tal Josué dava a Deus as noites. Antes de dar principio a toda aquela conquista nos arrabaldes da cidade de Jericó, saiu Josué de noite ao campo a orar, como costumava, quando subitamente viu diante de si um vulto armado de armas brancas, com a espada desembainhada na mão. Noster es, an adversariorum?Sois nosso, ou dos contrários? — perguntou, sem o perturbar a visão, e S. Miguel, que era o armado, respondeu: — Eu sou o príncipe dos exércitos de Deus, que em seu nome vos venho assistir e ajudar, para que em tudo o que empreenderdes sejais vencedor. — Que muito, logo, que Deus desse um dia tão grande, e tantos outros dias, a quem assim os partia com Deus? Maior visão foi a do nosso primeiro Afonso, na noite daquele dia em que amanheceu rei, pois viu e ouvirão Senhor dos anjos, que de sua boca lhe deu o título, e lhe assegurou o reino. Mas, que fazia então o valoroso e devoto príncipe? Vigiava e orava na sua tenda, e na história sagrada de Gedeão, como em espelho, se estava vendo a si, e lendo a sua mesma vitória.

Que dirão aqui muitos capitães com nome de cristãos, ou sejam dos menores, ou também — que pode ser — dos maiores? Que dias podem esperar de Deus, se dão as noites ao diabo? Gastar as noites com Dalila, e de dia ser Sansão, ainda que seja levar vitória pelos cabelos, só por milagre será possível. Fugiu Davi de seu filho Absalão, e a frase com que o diz a Escritura é que fugiu do seu rosto: Cum fugeret a facie Absalom (SI. 3, 1): — Não lhe pode fazer rosto, nem esperá-lo de cara a cara: voltou as costas, e pôs-se em fugida. Vede quem foge, e de quem. Foge de um rapaz aquele que em menor idade que a sua matava gigantes; foge acompanhado de três legiões de soldados, que o mesmo texto chama fortíssimos, aquele que só alcançou vitórias que grandíssimos exércitos não puderam vencer. E quem visse a Davi, não retirar-se por modo honesto, senão fugir tão descomposta e declaradamente, se lhe perguntasse de quem fugia e por que, que responderia Davi? Creio que assim como não teve rosto para aguardar, assim não teria boca para responder. Mas responde por ele Santo Ambrósio: Fugit, David a facie Absalom: Foge de Absalão Davi, aquele que por nome e por antonomásia era o valente: David, idest, manu fortis. — E por quê? Quia peccatum ilium imbellem fecit: Porque o seu pecado, de valente o fez fraco, de animoso o fez covarde, de guerreiro e belicoso o fez imbele. — Olhou para uma mulher que não era sua, entrou Josué à conquista da Terra de Promissão, com tão felizes princípios que a cidade de Jericó, que era uma das mais fortes fronteiras daquela dilatada província, ao tocar somente das trombetas israelíticas, como se os muros foram racionais, começaram a tremer, as pedras a se desencaixar, as ameias a cair, e tudo em um instante esteve por terra. Alcançada esta milagrosa vitória, com universal terror e assombro dos palestinos, marchou o exército para Hai, outra cidade além do Jordão, e, sabido pelos exploradores que bastavam dois mil homens para a render, mandou o prudente capitão que fossem três mil. Foram, e apenas tinham intentado o assalto, quando voltaram fugindo com as mãos nos cabelos, mas não voltaram todos, porque muitos ficaram mortos no campo. Que vos parece que faria Josué neste caso? Rasga as vestiduras, prostra-se por terra diante de Deus: — Senhor, Senhor, que é isto que vejo, que novidade, que castigo? Não é Vossa Majestade a que me mandou fazer esta guerra? Não é vossa infalível verdade a que me prometeu que venceria? Pois como, seguro eu da mesma promessa, vejo agora fugir os meus soldados, e que antes de pelejar tornam os que puderam tornar, desbaratados e vencidos, com tanta afronta e infâmia deste povo vosso? Utinam ut coepimus, mansissemus trans Jordanen (Jos. 7, 7)! Ó quanto melhor nos fora não ter passado o Jordão! — Quanto melhor nos fora não ter posto os pés nesta terra, pois nela havíamos de perder a honra, e se haviam de frustrar assim nossas esperanças! Isto dizia Josué, e o diziam e lamentavam todos os anciãos do povo, com as cabeças cobertas de cinza, quando Deus apareceu ao general, e respondeu à sua queixa desta maneira: Peccavit Israel, et praevaricatus est pactum meum. Nec poterit stare contra hostes suos, eosque fugiet (Jos. 7, 11 s): Josué, pecou o povo, e por isso foram vencidos os teus soldados; e desengana-te, que assim como agora fugiram estes três mil, assim hão de fugir todos, se os mandares continuar a conquista. — Pareceu-me neste passo, e assim parecerá a todos, que teriam os israelitas levantado outro ídolo, como no deserto, ou cometido universalmente algum sacrilégio não menos horrendo, porque um castigo tão súbito e tão extraordinário não podia cair senão sobre algum pecado atrocíssimo, e esse muito geral, em que todos fossem cúmplices, Lede, porém, o texto, e achareis que em todo aquele grande povo não tinha havido outro pecado mais que um furto de um soldado chamado Acã, o qual se aproveitara de alguma coisa dos despojos de Jericó, Cristo, era para o consultar e ouvir como Mestre. Mestre era também Nicodemos: Tu magister es in Israel[4] — e nesta reflexão de, sendo mestre, vir buscar outro Mestre, consistia o ser bem fundado, e não vão, o nome que tinha. O maior perigo e perdição da guerra é cuidarem os doutores desta arte que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo que discorrendo, e mais acompanhados dos que sós. Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt — diz o grande político Cassiodoro: que sempre foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo. — Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos que era mestre e príncipe, nestes dois resvaladeiros está certo o precipício e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada que uma ciência presumida. A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu que respondera estas palavras: Consilii, eloquentia et art imperatoria: Com os conselhos, com a eloqüência, e com a arte de governar exércitos No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho, porque o conselho é a arte das artes, e a alma e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há de fazer, o conselho delibera quando, como e por quem. Vegécio dispôs os sítios e batalhas de longe, o conselheiro tem diante dos olhos o exército inimigo e o próprio, os capitães, os soldados, o número, a nação, as armas, e até a ocasião do terreno, do sol e do vento, que se não vêem senão de perto. Os levitas que quiseram imitar as façanhas dos Macabeus, porque pelejaram sem conselho, perderam em um dia o que eles, com prudente e bem aconselhado valor, tinham ganhado em muitos. Se algum capitão pudera escusar o conselho, era o gênio de Alexandre, formado pela natureza para conquistar e vencer. Mas nem a sua arte, nem a sua fortuna o lisonjeou de maneira que não antepusesse o conselho a ambas. O que desigualou o poder pode-o suprir a arte, o que errou a mesma arte pode-o emendar a fortuna; mas o que se intentou sem conselho, ainda que o favoreça o caso, nunca é vitória. A que alcançou de si mesmo Alexandre, essa lhe deu suo didicit quam perniciosum ducibus sit aliena non segui consilia: Este foi o desastrado fim de Holofernes, o qual, enfim, aprendeu em sua própria cabeça, posto que tarde, quão fatal e perniciosa coisa seja aos capitães não querer tomar conselho. — Não é razão que saiba vencer quem se não sabe convencer da razão; e foi justo castigo do céu que perdesse a cabeça, quem se não quis governar senão por sua cabeça. Quanto melhor lhe estivera a Holofernes haver seguido o conselho de Aquior! Mas porque se não quis sujeitar ao bom parecer de um homem prudente, permitiu Deus se sujeitasse tanto ao bem parecer de uma mulher inimiga, que por ela ficasse o seu exército desbaratado e vencido, e ele sem honra e sem vida. Tudo se perdeu neste caso, e só o fruto do bom conselho se não perdeu, porque, se não aproveitou a quem foi dado, rendeu muito a quem o deu. Todos os cabos do exército de Holofernes, ou morreram ou foram vencidos, e só Aquior ficou vivo e triunfante, e não só vivo temporalmente, mas vivo para toda a eternidade, porque recebeu a fé do verdadeiro Deus, cuja causa defendera. Aprendam pois destes funesto e formidável exemplo os generais dos exércitos a não desprezar, mas venerar e seguir os conselhos de quem lhos pode dar; e nós reconheçamos quão bem assentava sobre a docilidade de Nicodemos o nome victor populi, pois, sendo letrado, vinha consultar e ouvir, e, sendo mestre, aprender de quem o podia ensinar: Et dixit ei; Rabbi.



§ VI

A ousadia, qualidade que faltava a Nicodemos para fazer verdadeiro o nome que tinha de vencedor. Por que pede Davi a Deus, não que o livre dos exércitos de seus inimigos, senão de que o seu coração o tema? Os efeitos maravilhosos da Cruz, para dar ânimo e valor contra os inimigos. Por que Elias, fugindo com medo da morte ameaçada por Jesabel, troca subitamente de pensamentos, e começa a chamar pela morte? O cálix rejeitado no Horto e pedido no Calvário. A Santa Cruz, remédio para animar a fraqueza, e fortalecer a pusilanimidade de Nicodemos e José de Arimatéia.

Temos visto as três boas e necessárias qualidades que concorriam em Nicodemos para o nome que tinha de vencedor victor populi: nobreza de sangue, Ruperto: Confugit ad vivifici crucis lignum, illic mortem ambit[5]. — Aquela árvore, a cujo tronco se arrimou Elias, era figura da árvore da Cruz; e tanto que fugiu para ela, logo não temeu a morte de que fugia, antes a desafiou. É certo que a sombra das árvores também têm virtude, ou nociva, ou saudável, de que traz os exemplos Plínio, e a virtude da sombra da Cruz é desassombrar os ânimos, e lançar deles todo o temor. Por isso o profeta, temeroso e fugitivo tanto que se pôs à sombra daquela sagrada árvore, logo ficou tão animoso e intrépido que, voltando o rosto para a mesma morte de que ia fugindo, a provocou e chamou por ela: Petivit animae suae ut moreretur Mas, para que é pedir testemunhos à sombra, se na realidade da mesma Cruz os temos mais evidentes? Chega Cristo, nosso Redentor, ao Horto, e, representando-se-lhe vivamente a afrontosíssima morte e os tormentos excessivos que na última batalha daquela noite e dia lhe estavam aparelhados para padecer, não só os evangelistas confessam que temeu pavorosamente: Coepit taedere et pavere (Mc. 14, 33) — mas o mesmo Senhor, com instâncias três vezes repetidas, pediu e tornou a pedir ao Padre, que por qualquer modo possível o livrasse de beber aquele cálix: Pater; si possibile est, transeat a me calix iste[6]. —Tanta era a repugnância e horror com que naturalmente, como homem, lhe tinha penetrado o coração, quase prostradas todas as forças do ânimo à imaginação somente daquele terrível combate. Chegado, porém, à hora em que passando do Horto ao Calvário, e pregado o mesmo Senhor na cruz, bebeu efetivamente, não outro, senão o mesmo cálix que tanto tinha temido e repugnado, vendo que já se esgotava de todo, protestou em alta voz que tinha sede de mais: Sitio (Jo. 19, 28). — E de que mais era esta sede? Do mesmo licor amargoso e mortal de que vira cheio no Horto o mesmo cálix. De mais crueldades, de mais penas, de mais afrontas, de mais tormentos. S. Lourenço justiniano: Sitit tique, et inebriatus amaritudine adhuc duriora sustinere desidert.— Como se dissera — continua o mesmo santo: — Si haec quae tolero pauca videntur adde flagellum flagello, appone vulnera vulneribus, lacera, ure, confige, percute, occide: universo haec, et majora toto desiderio sitio[7].

Mas aqui entra a dúvida ou admiração de S. Bernardo, falando com o mesmo Cristo. Quid est hoc? Antequam gustes, o bone Jesu, petis calicem omnino auferri, et postquam ebibisti, sitis[8]? Que mudança é esta tão súbita, ó bom Jesus? Antes de beber o cálix temíeis tanto chegar a bebê-lo, que pedistes uma e três vezes ao Padre que por todos os meios possíveis vos livrasse dele; e agora, que o tendes já bebido, e quase esgotado, tendes sede de mais? — Onde estão aquelas repugnâncias, aquelas agonias, aqueles temores e horrores tão apertados, que vos obrigaram a o reclamar com tantas instâncias? — Estão e ficaram no Horto, e em toda a parte onde não havia cruz; porém, no Calvário, onde o mesmo Cristo foi pregado e levantado nela, a virtude da mesma cruz, ou por eficácia e efeito ou por doutrina e exemplo, lhe infundiu ao mesmo Senhor tal ânimo, tal valor, tal fortaleza, que os mesmos tormentos, que imaginados repugnava e temia, padecidos lhe causavam sede, e ardentíssimos desejos de padecer muito mais. Disse por efeito ou por exemplo, porque esta virtude de infundir ânimo e valor, parece que Cristo era o que a podia comunicar à Cruz, e não a Cruz a Cristo, Mas lembremo-nos que quando Deus lutou com Jacó, os braços de Deus comunicavam aos braços de Jacó o valor, e o mesmo valor recebido nos braços de Jacó tornava depois em resistências aos braços de Deus. Da mesma maneira os braços de Cristo pregados nos braços da Cruz: os de Cristo comunicavam aos da Cruz o valor, e o mesmo valor reciprocamente se podia outra vez receber nos de Cristo, tão capaz agora de receber a fortaleza, como no Horto o fora de admitir o temor. Mas quando não fosse por eficácia e efeito, para que entendêssemos e soubéssemos, os que somos membros do mesmo Cristo, que o remédio e o antídoto mais eficaz de todos os temores é a virtude da sua Cruz.

Sendo, pois, tão poderosa e eficaz a virtude da Santa Cruz para tirar temores e dar ânimo e valor, vendo Cristo a Nicodemos tão tímido e desanimado, que até em matérias que tocava à fé não ousava a se declarar intrepidamente, traz-lhe à memória o milagre da serpente de Moisés, e o mistério e figura da Cruz: Sicut Mosses exaltavit serpentem in deserto, ita exaltari oportet Filium hominis — para com estes sagrado sinal animar sua fraqueza, e fortalecer sua pusilanimidade. Assim foi e se viu com admirável experiência, tanto no mesmo Nicodemos, como em seu companheiro Joseph ab Arimathea, ambos discípulos do mesmo Senhor, mas ocultos por medo dos judeus. De ambos notam e ponderam os evangelistas uma diferença digna de suma admiração. De José diz o evangelista S. Marcos que ousadamente entrou a Pilatos, e lhe pediu o corpo do Senhor: Audacter introivit ad Pilatum et petiit corpus Jesus (Mc. 15, 43) — e diz ousadamente, porque dantes com medo do povo, nem para dar indícios de que era seu discípulo tinha ousadia. De Nicodemos diz o evangelista S. João que trouxera grande cópia de espécies aromáticas para ungir o mesmo corpo defunto, e que este era aquele Nicodemos que dantes buscava ao Senhor de noite: Qui venerat ad Jesum nocte primam (Jo. 19, 39). E nota que dantes vinha de noite — nocte primam— porque agora, sem o medo que também tinha do povo, veio de dia, antecipando-se à noite do Parasceves, em que não era lícito sepultar. Lembra-me a este propósito que na morte de S. Paulo, primeiro ermitão, vendo-se Santo Antão Abade sem remédio de lhe dar sepultura, saíram do deserto dois leões, os quais com as unhas lhe cavaram e abriram uma cova capaz do santo corpo. Tais se mostraram nesta ocasião José e Nicodemos: ambos eram ovelhas de Cristo, mas ovelhas fracas e pusilânimes, e que por isso fugiam e se escondi am com medo dos lobos: propter metum Judaeorum —porém, agora como dois leões bravos e animosos, sem medo nem respeito dos príncipes dos sacerdotes, nem de toda Jerusalém, nem de toda Judéia, publicamente, e à vista de todos, não só trataram de dar sepultura a seu Mestre e Senhor, mas de que fosse a mais decente e honorífica com que naquele tempo se costumavam embalsamar os defuntos de maior autoridade e veneração. Pois, se dantes eram ovelhas fracas e tímidas, quem os fez agora leões tão animosos e intrépidos? Se dantes não tinham atrevimento para se confessar por discípulos de Cristo quando estava vivo e livre, como agora não temem, quando tantos maiores motivos tinham de temer, depois de condenado e morto em uma cruz? Por isso mesmo. Porque dantes não havia Cruz de Cristo, e depois de crucificado sim. Divinamente Teofilato, dizendo do nosso Nicodemos o que igualmente mereceram ambos: Nocte venit ad Jesum propter metum Judaeorum, sed post crucem multum officii et liberalitatis impendit .  Notai muito a palavra sed post crucem. Quereis saber por que dantes temia tanto Nicodemos, e agora nada teme? É porque antes de Cristo ser crucificado não havia cruz, post crucem. Antes da cruz, era tímido ç covarde; depois da cruz já é valente, animoso e intrépido, porque essa é a virtude mais que humana, esses são os efeitos prodigiosos e admiráveis daquele sagrado troféu de nossa redenção: dar ânimo, dar brio, dar valor contra os inimigos, contra os perigos, contra a mesma morte, e contra tudo o que na vida e depois dela pode causar temor.



§ VII

Quais as armas com que o rei do Céu arma os seus soldados? Como restaurou o Bom Ladrão a famosíssima praça que Adão com tanta fraqueza perdera? Conclusão.

Esta só qualidade, quarta e última, era a que faltava a Nicodemos para ser Nicodemos, isto é, para fazer verdadeiro o nome que tinha de vencedor: victor populi. Assim que, senhores meus, e soldados de Cristo, se naquele sagrado lenho, se naquele gloriosíssimo instrumento de suas vitórias tem depositado o Senhor dos exércitos a fortaleza cristã, e vinculado o triunfador do mundo o valor católico, armem-se todos os que querem vencer, armem-se todos os que têm obrigação de pelejar com o sinal sagrado da Santa Cruz, e em fé de tão invencíveis armas bem nos podemos prometer segura a vitória. Quando o mesmo Filho de Deus, atinado só da humanidade de que se vestira, veio restaurar o mundo e restituir à sua obediência o gênero humano, que debaixo da tirania do demônio se lhe tinha rebelado, o bando que mandou lançar, para que se alistassem os que quisessem debaixo das suas bandeiras, dizia assim: Si quis vult venire post me, tollat crucem suam, et sequatur me: Todo o que me quiser acompanhar nesta guerra, tome ao ombro a sua cruz, e siga-me. — Vide quomodo militem suam Rex caelorum armet: Vede diz S. João Antioqueno as armas com que o Rei do céu arma os seus soldados: Non dedit scutum, non galeam, non thoracem, sed quod his omnibus firmius ac valientius est, praesidium a cruce, et symbolum victoriae: Não os arma com escudos nos braços, nem com murriões na cabeça, nem com peitos fortes sobre o coração; mas arma-os com uma arma mais firme, mais forte e mais invencível que todas, que é a Cruz, na qual levam juntamente a defensa para a guerra, e o sinal da vitória: Praesidium a Cruce, et symbolum victoriae. Com estas armas, pois, se armem, e nestas armas ponham toda a confiança os nossos valorosos soldados, e se se fiarem também das que são próprias do braço português, fiem-se mais das cruzes que dos fios da espada. De um soldado português disse um poeta também nosso, que levava.
Nos fios da espada que meneia A vida própria, e a morte alheia.Mas isto, por quê? Porque as cruzes estão perto dos punhos.Tenham logo por certo e certíssimo todos os que assim armados, ou entrarem nas batalhas, ou assaltarem os muros, ou assediarem as cidades, que não haverá nem soldados tão valentes, nem cabos tão experimentados, nem fortalezas tão inexpugnáveis, nem inimigos, enfim, tão obstinados, que se lhes, não rendam, A praça mais forte e mais bem presidiada que nunca houve nem haverá foi o paraíso terreal, depois de lançado dele Adão, porque estava guarnecida de querubins, soldados imortais, todos com armas de fogo, que foram as primeiras que houve no mundo: e haverá quem se atreva a investir, e possa entrar por força esta praça? Sim. E quem? Um homem. E com que exércitos? Só. E com que armas? Despido. Pois um homem, só, e despido, há de entrar e render o paraíso defendido de querubins com armas de fogo? Sim, outra vez, se a Cruz lhe der o valor, e desde a Cruz fizer a investida. Divinamente S. Crisóstomo, falando do Bom Ladrão: Fecit latro de Cruce impetum, et intravit paradisum romphaea flammea circumdatum: Acometeu o ladrão desde a sua cruz, e, fazendo dela escada, assaltou as muralhas do paraíso, e por mais que estavam defendidas de querubins e espadas de fogo, os querubins, as espadas e o fogo, nada lhe pode resistir, e foi o primeiro que vitorioso e triunfante restaurou a famosíssima e felicíssima praça, que Adão com tanta fraqueza perdera. Não sei, nem posso dizer mais. E se uma Cruz nas costas dá tanto valor e fortaleza, onde tantos trazem a cruz nos peitos, e todos a podem levar no coração, quem haverá na empresa presente que possa desesperar da vitória? Assim como antigamente, mostrando Deus a Constantino o sinal da Cruz no céu, lhe disse: In hoc signo vinces[9] — o mesmo está dizendo ao invicto general das nossas armas. Este sinal do céu seja o farol que sigam as armadas no mar, e este o estandarte real que levem diante dos olhos os exércitos na terra, para que, vencedores em um e outro elemento, os vivos levantem os troféus neste mundo, e os mortos — que não há vencer sem morrer — logrem os triunfos da constância no outro, exaltados todos pela virtude da Santa Cruz, como o mesmo Redentor foi exaltado nela: Sict Moyses exaltavit serpentem in deserto, ita exaltari oportet Filiam hominis[10].




Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística




[1] Havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senhor entre os judeus. Este uma noite veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi.
- Como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do homem (Jo. 3.1 s, 14).

[2] Plinius, lib. 8, cap. 3.

[3] Sabendo que ele saíra de Deus e ia para Deus, depôs suas vestiduras (Jo. 13, 3 s).

[4] Tu és mestre em Israel (Jo. 3, 10).

[5] Rupert. in lib. Reg. lib. 5, cap. 10.

[6] Pai, se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26, 39).

[7] Laurent Justin de triumph. Christi agone, cap. 18.

[8] S. Bernard. de passion. cap. 3.

[9] Neste sinal vencerás.

[10] Como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do homem (Jo. 3, 14).