sábado, 9 de setembro de 2017

Terceiro dia preparatório (12 dias preliminares) - A tríplice concupiscência

TERCEIRO DIA 

Meditação - A tríplice concupiscência


PREPARAÇÃO

Para fugir do espírito do mundo é preciso conhecê-lo. O Divino Espírito Santo nos diz que o espírito do mundo é uma repugnante concupiscência da carne, que leva a sórdidos gozos sensuais; uma avarenta concupiscência dos olhos, que adora os mesquinhos bens da terra; uma orgulhosa soberba da vida, que idolatra honras imerecidas. O espírito da escravidão marial será nossa resposta à tríplice concupiscência do mundo.


MEDITAÇÃO

Prelúdios
- No mar cheio de procelas de nossa vida terrena, levanto meus olhares e os fixo na Estrela da manhã, meigo Norte, suspirado ideal.
- Estrela de luz e amor, Maria, levai-me pelo vosso roteiro sem escolhos e libertai-me de tantos perigos que ameaçam o meu peregrinar.


PONTO I
O ESPÍRITO DO MUNDO
É CONCUPISCÊNCIA DA CARNE

Deus nos fizera dotados de equilíbrio perfeito. O pecado original destruiu essa harmonia. Agora, o corpo quer dominar o Espírito; e o demônio, príncipe do mundo, trabalha com intensidade feroz para aumentar ainda mais o ardor com que nossa carne reclama as suas satisfações egoístas, contra o império da razão e da fé. Procurando, ainda, causar a desgraça dos irmãos, pela sedução e cumplicidade no pecado. "Sinto em meus membros, confessava São Paulo, uma lei contrária que
se revolta contra a lei do Espírito” (Rm 7, 23).
É difícil libertarmo-nos da concupiscência. Das impurezas, das concessões perigosas à sensualidade, de todas as ocasiões que no mundo nos assaltam os olhos, os ouvidos, todos os nossos sentidos.
Mas eu quero revestir-Lhe da libré de escravo de Maria. O nome Dela é "Virgindade santa e imaculada”. Hei de ser digno de sua virginal castidade. Filho de sua Imaculada Conceição. Para ser seu escravo de amor, vou consagrar-lhe também o meu corpo, com todos os seus sentidos. Vencerei assim a concupiscência da carne.


PONTO II
O ESPÍRITO DO MUNDO
É CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS

O Espírito de Jesus é de inteiro desapego dos bens da terra. O mundo adora as riquezas. Cobiça-as, e não se detém ante nenhuma desordem, para consegui-las. Calca aos pés os direitos sagrados dos homens irmãos, oprimindo-os, roubando-os, enganando-os, para satisfazer as ambições de posse e de lucro. E por isso não se importa com as riquezas sobrenaturais, as únicas verdadeiras. Mas o que se faz escravo das terrenas riquezas, forçosamente abandona Jesus Cristo, porque “ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Tenho pago tributo a esta concupiscência? Procurando os mesquinhos bens da terra, pisando sobre meu próximo, aceitando vender minha consciência para obtê-los? Se já renunciei a eles, acaso não me vejo enredado em pequeninos apegos demasiados, a interesses e coisas de minha propriedade? Não sinto verdadeira dor, quando me vejo privado deles?
Na Consagração que farei a Nossa Senhora, entregar-lhe-ei todos os meus bens, interiores e exteriores. Depositarei tudo em suas mãos, até mesmo meus bens verdadeiros, de ordem espiritual, virtudes e méritos. Como o alcançarei, se tenho o coração colado à terra? Cortarei as amarras, a fim de poder, com a alma livre e desimpedida, depositar tudo o que tenho aos pés de minha Rainha amantíssima, minha Riqueza e meu Tesouro.

PONTO III
O ESPÍRITO DO MUNDO É SOBERBA DA VIDA

Jesus Cristo é a personificação da humildade. "Ele se aniquilou, tomando a forma de escravo” (Ef 2, 7). Convida-nos a imitá-lo, “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29). O espírito do mundo é diametralmente oposto e ensina a soberba e o orgulho. Desde o Paraíso, o demônio insuflou aos nossos primeiros pais esse vício hediondo. A soberba fora o pecado de satã e conseguiu que fosse também o pecado original da humanidade. Pecado original, vício capital. O primeiro, o maior obstáculo ao amor de Deus em nosso coração. Porque nós nos amamos, não queremos amar a Deus. Todo o combate de nossa vida cristã será essa luta contra nosso egoísta
e orgulhoso amor próprio. Somente progredimos na medida em que nos renunciamos para que cresça em nós o amor de Deus.
Renúncia tão difícil... Temos medo de nos despersonalizar, de abdicar ‘nossos direitos”, aceitar os direitos dos outros, os direitos de Deus! Mas, renúncia tão necessária para nos colocar na ordem essencial das coisas, para desterrar de nossa alma a diabólica soberba.
Não é em nós essa soberba a raiz de todas as misérias? De nossas faltas de caridade, de obediência, de mansidão, de todas as injustiças e exploração de nosso próximo? E ainda assim, não costumamos desculpar nossos vícios e defeitos, enganando-nos a nós mesmos?

Nossa Consagração a Maria vai fazer-nos escravos de amor. Humildes e pequeninos. Renunciaremos à nossa vontade, colocando mesmo nas mãos de Nossa Senhora nossa honra e nossa fama, a fim de que somente Ela nos defenda, como quiser, para glória de Deus. E compreenderemos que a glória de Deus se faz algumas vezes com a humilhação nossa.


COLÓQUIO

Mãe e Senhora amadíssima, envergonho-me ante vós, de minha condição tão miserável. Rogai a Jesus me perdoe meus pecados, que agora detesto de todo o coração. Revesti-me, Virgem puríssima, de vossa Imaculada Conceição, para que não me nodoem mais as trevas da impureza. Dai-me vosso coração unicamente, minha Mãe-Riqueza, para que eu me enoje dos bens caducos da terra. Doce Escrava do Senhor fazei-me vosso escravo amoroso e fiel!


RAMILHETE

Deus olha para a humildade - da alma, da carne, da vida. “Olhou para a humildade de sua serva" (Lc 1, 48).


SANTO EVANGELHO (Mt 17. 24-27).
RENUNCIAR-SE PARA GANHAR O CÉU

Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á, e o que perder a sua alma por amor de mim, acha-la-á. Porquanto, de que aproveitará ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma; ou que troca fará o homem para recobrar a sua alma? O Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um a paga, segundo as suas obras.

IMITAÇÃO DE CRISTO (LXV, c. XIII. 4)
CONFIANÇA EM DEUS NAS TENTAÇÕES

Quem somente evita as ocasiões exteriores, e não arranca o mal pela raiz, pouco aproveitará; antes lhe tomarão mais depressa as tentações, e se achará pior que dantes.
Ajudando Deus, melhor as vencerás pouco a pouco, com paciência e bom ânimo, do que com teu próprio esforço e fadiga.

Toma muitas vezes conselho na tentação, e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado, antes procura consolá-lo como quisera ser consolado.
O princípio de toda tentação ó a inconstância de ânimo e a pouca confiança em Deus.
Assim como as ondas lançam duma parte para a outra a nau a que falta o leme, assim as tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante no seu propósito.
O fogo prova o ferro, e a tentação o justo. Muitas vezes não sabemos o que podemos; mas a tentação mostra-nos o que somos.
Devemos, pois, vigiar principalmente no princípio da tentação; porque mais facilmente se vence o inimigo quando não o deixamos passar da porta da alma e lhe saímos ao encontro logo que bale.
Donde veio a dizer um poeta;
“Resiste no princípio;
Tarde chega o remédio,
Se já, por longo tempo
O mal raízes lançou”(Ovídio).

Porque, primeiramente se oferece um simples pensamento, depois a importuna imaginação, logo o deleite, daí a nada o movimento torpe e finalmente o consentimento.
E assim pouco a pouco entra o maligno inimigo, e se apodera de tudo, porque se lhe não resistiu no princípio. E quanto mais preguiçoso for o homem em resistir-lhe, tanto se fará cada dia mais fraco, e o inimigo contra ele mais poderoso. Alguns padecem graves tentações no princípio de sua conversão, outros no fim, muitos quase por toda vida.
Alguns são tentados brandamente, segundo a Sabedoria e a equidade da Divina Providência que pondera o estado e os méritos dos homens, e tudo ordena para a salvação de seus escolhidos.
Por isso não devemos desconfiar quando formos tentados; mas antes rogar a Deus com maior fervor que seja servido de nos ajudar em toda a tribulação; porque, segundo o dito de São Paulo. “Nos dará o auxílio junto com a tentação para que lhe possamos resistir” (1 Cor 10, 13). “Humilhemos, pois, nossas almas debaixo da mão de Deus, em toda tribulação e tentação, porque Ele há de salvar e engrandecer os humildes de Espírito” (1 Pd 5, 6).



LEITURA (Montíort, Amour de la Sagesse Etemelle, pág. 263)
ESPÍRITO DE MORTIFICAÇÃO,
NECESSÁRIO PARA OBTER A SABEDORIA

A Sabedoria, diz o Espírito Santo, não se encontra junto aos que vivem comodamente, e dão a seus sentidos e paixões quanto eles desejam, (Jó 28,13) - porquanto os que andam segundo a carne não podem agradar a Deus (Rm 8, 8) e a Sabedoria da carne é inimiga de Deus (Rm 8, 7). "Meu Espírito
não permanecerá no homem, porque o homem é carnal” (Gn 6, 3).
Todos os que são de Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscência, trazem sempre a mortificação de Jesus em seus corpos, fazem violência a si mesmos, levam sua cruz todos os dias, e enfim morreram para serem sepultados em Jesus Cristo (Lc 9, 23; Rm 4, 4, 8; 2 Cor 4. 10; Gl 5, 24). Estas palavras do Espírito Santo mostram, mais claramente do que a luz do dia, que para possuir a Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, é preciso praticar a mortificação, a renúncia ao mundo e a si mesmo.
Não imagineis que esta Sabedoria, mais pura que os raios do sol, entre numa alma e num corpo manchados pelos prazeres dos sentidos. Não penseis que ela confiará seu repouso, sua paz inefável aos que amam as companhias mundanas e as vaidades. Eu darei o escondido maná aos que venceram o mundo e a si mesmos (Apc 2,17).
Esta amável Soberana, embora por sua Luz infinita conheça e distinga todas as coisas imediatamente, procura, todavia, quem é digno dela (Sb 6,17). Procura, porque o número deles é tão exíguo que com dificuldade ela os encontra bastante desapegados do mundo, assás mortificados e interiores para serem dignos Dela, dignos de sua pessoa e dos tesouros de sua aliança.
A Sabedoria não pede, para comunicar-se, uma semi-mortificação, uma renúncia de alguns dias, mas uma mortificação universal e contínua, corajosa e discreta.

A fim de possuir a Sabedoria:
1 - Cumpre ou deixar realmente os bens do mundo, como o fizeram os Apóstolos, os discípulos, os primeiros cristãos e os religiosos, - o que constitui o meio mais rápido, mais seguro e melhor de possuir a Sabedoria; ou pelo menos, é mister desapegar o coração dos bens, e possuí-los como se não
foram possuídos, sem solicitude para consegui-los, sem inquietações para conservá-los, sem queixas ou impaciências ao perdê-los, - o que é bem difícil para se executar.

2 - Cumpre não se conformar com a atitude dos mundanos, seja no vestuário seja nos móveis, seja nas casas, seja nas refeições ou outras atividades na vida (Rm 12,2). Esta prática é mais necessária do que o imaginamos.

3 - Cumpre não acreditar nem obedecer às máximas do mundo, não pensar, falar e agir como o fazem os mundanos. Porque eles têm doutrina tão adversa à da Sabedoria Encarnada, como as trevas à luz, e a morte à vida. Ponderai-lhes os sentimentos e expressões: pensam e falam mal de todas as grandes verdades. Sim, não mentem abertamente; mas disfarçam as mentiras sob as aparências da verdade; crêem não mentir, e, todavia, mentem. Não ensinam abertamente o pecado, mas o chamam virtude, honra, decência, ou coisa indiferente e sem importância. É nesta habilidade, aprendida do demônio para dissimular a deformidade do pecado e da mentira, que consiste a malícia de que fala São João: Todo o mundo está penetrado de malícia (IJo 5,19), agora mais do que nunca.

4 - Cumpre, o mais possível, fugir da companhia dos homens, não só dos mundanos, perniciosos ou perigosos, mas até das pessoas devotas, quando sua conversação é inútil e faz perder tempo. Quem deseja tornar-se sábio e perfeito, ponha por obra as três áureas palavras que disse a Santo
Arsênio a Eterna Sabedoria: “Fugi, escondei-vos, calai-vos!” Fugi quanto possível à companhia dos homens, como faziam os grandes santos (Imit. Cristo, L. I. 20,1). "Esteja vossa vida escondida com Jesus Cristo em Deus” (Cl 3,3).
Guardai, enfim, o silêncio com os homens, para vos entreterdes com a Sabedoria: “Um homem silencioso é um homem sábio” (Eclo 20,5).