domingo, 29 de outubro de 2017

29 de Outubro - Solenidade de Cristo Rei

      Numa tarde de inverno, quando os flocos de neve flutuavam silenciosamente no ar, caminhavam dois homens pela rua: um professor católico e um jornalista socialista. - Vós, os católicos, dizia o jornalista, queixais vos, de que nós os socialistas atacamos sem cessar a religião católica. Atacar! Não é necessário. Repara naquela cruz... Vês como se vai cobrindo de neve... Está quase completamente coberta ... e a gente passa à direita e à esquerda, corre apressada ao seu trabalho... Quem se preocupa com a cruz coberta de neve? Não é necessário atacá-la, a neve se encarrega de a cobrir pouco a pouco e os homens nem sequer a notam. É a sorte do catolicismo. Ia a dizer, como consequência final. Mas antes de acabar a frase, soprou de uma rua lateral uma forte rajada de vento, revolvendo a neve da rua, arrojando contra o rosto dos transeuntes a neve enregelada e levando ao mesmo tempo o chapéu do socialista... e quando o vendaval amainou, na cruz coberta ele neve, havia reaparecido o rosto de Cristo crucificado, que olhava com suavidade os dois que discutiam.
    - Sim, disse o professor, o pó chega a cobrir, na alma, o rosto de Cristo, mas só até que o furacão se desencadeie contra a humanidade. Uma guerra devastadora. um cataclismo que assola toda uma região... e então a alma, recobrando a sua personalidade, lança-se aos pés de Cristo, buscando entre soluços seu rosto meigo e divino, que o esquecimento ia velando.
     Falamos no capítulo anterior destes acordes lúgubres e soluços da alma. O Papa Pio XI chamou a atenção do mundo para a pavorosa doença que tudo invade. Homens, dizia, vós correis para a morte. A imagem de Cristo está coberta de pó no fundo de vossas almas. O rosto de Cristo empalideceu e chegou quase a desaparecer na sociedade. na rua, na escola. na imprensa, em todas as manifestações da vida individual, familiar e pública.
     Veio o turbilhão da guerra mundial e foi impotente para limpar o pó do rosto de Cristo.
     Então o Papa institui uma nova festa, a festa de Cristo Rei para limpar com ela a sua imagem, coberta de pó em nossas almas.
     No capítulo anterior vimos quão árida é a vida humana quando sacode o suave jugo de Cristo; neste capítulo examinaremos a tríplice origem de tão lastimoso estado: quero mostrar as razões por que o homem moderno não quer aceitar o reinado de Cristo.
    No capítulo anterior vimos quão árida é a vida humana quando sacode o suave jugo de Cristo; neste capítulo examinaremos a tríplice origem de tão lastimoso estado: quero mostrar as razões por que o homem moderno não quer aceitar o reinado de Cristo.

Porque é que os homens modernos repelem a Cristo?

    Recordemos a encantadora cena de Belém: os três reis magos adorando a Cristo, oferecendo seus presentes...
    E chegam os «três reis modernos: o estadista, o banqueiro e o industrial. E aproximam-se do berço humilde de Jesus.
    Que cena tão poética! dizem. Não está mal este conjunto: o Menino, os pastores e as ovelhas, a estrela, a palha, o estábulo, a noite de Natal cheia de mistério... Que magnífico quadro se poderia pintar e adaptar ao estilo dum salão da nossa época!
    Sim, é verdade.
    Mas este Menino, é o Filho de Deus vivo, o Verbo encarnado, o senhor e soberano do gênero humano. Ah! isso é outra coisa: não só há lema para um quadro, mas há uma augusta realidade: Cristo, Rei! É Menino, mas também é Legislador! Ama-nos, mas é também nosso Juiz! É amável mas sabe também ser severo!Se é meu Rei. não posso viver tão frivolamente como o fiz até aqui. Então deve ter voz e voto nos meus pensamentos, nos meus projetos, nos meus negócios, nos meus prazeres. Ah! isto é já demasiado. E assim o estábulo, o presépio, a palha encerram um mistério muito duro para nós. Isto não o compreendemos. Não o compreendemos, porque não o queremos compreender. Tememos compreender a simplicidade, a pobreza, a humildade de Cristo em Belém, porque é um protesto contra o nosso modo de viver. Porque se Cristo tem razão, é manifesto que nós não a temos. Não tem razão o nosso orgulho, a nossa ambição desmesurada, a nossa sede de prazeres, a nossa idolatria da terra, o nosso culto ao bezerro de ouro.
     Chegamos ao ponto vital da questão. Porque é que o homem moderno tem medo de reconhecer a Cristo e repele o seu jugo? Porque é que não o queremos?
     Não queremos a Cristo, porque o humilde Infante de Belém condena com severidade o nosso orgulho.
    Não queremos a Cristo porque Ele, sempre pobre, condena a nossa sede de prazeres e gozos materiais da vida. 
    Não queremos a Cristo porque a sua mão levantada, mostrando-nos o céu, é uma condenação à nossa concepção do mundo moderno, a este desprezo insensato dos valores espirituais da alma, ao rendermos culto idolátrico aos bens da terra. Por outras palavras: Se Cristo é nosso Rei, então não podem ser nossos ídolos, 1) nem a razão, 2) nem o prazer, 3) nem o dinheiro.
     1) Se Cristo é nosso Rei e nosso Deus, a razão não pode ser o nosso Deus. Não podemos idolatrar a ciência. Respeitemo-la, sim, mas não a elevemos à categoria de uma divindade. A ciência só, não basta para uma vida digna do homem. O afã exagerado de saber estonteou-nos. E é assim só agora  Ah! Não. Já derrubou o primeiro homem; e desde então para cá a maior parte dos homens prostra-se diante das ideias e opiniões mais estranhas e incompreensíveis, uma vez que levem o rótulo de "científicas".
     Entendamo-nos. Não vão dizer que um professor de Universidade ataca a ciência. De maneira nenhuma. Não; não falo contra a ciência, mas contra a fé cega, contra o culto idolátrico que se lhe presta. Digo somente, e assumo a responsabilidade do que afirmo, que para uma vida humana bem equilibrada, a ciência só não basta.
     Será necessário prová-lo?
     Quando houve tantas escolas, como atualmente? Tantas bibliotecas? Tantos instrumentos de cultura? Nunca ; e contudo, quando houve maior decadência moral que nos nossos dias? A ciência, o livro, a cultura não podem suprir tudo. Não podem ocupar o primeiro lugar. Não foi precisamente o anjo mais sábio, Lúcifer, que se precipitou no mais profundo abismo? E não é verdade. que entre os grandes criminosos se encontram às vezes homens instruídos, cultos e astuciosos?
      Sim ... mas. sabemos construir arranha-céus, sabemos explorar as entranhas da terra e extrair o metal precioso ; sabemos ser avaros, depravados, cair em todos os abismos da imoralidade. mas ser honestos, honrados, perseverantes, viver uma vida feliz e digna de um homem, isso não sabemos. 

      Cristo é nosso Rei! Sabeis o que isto quer dizer? Quer dizer que a alma vale mais do que o corpo, e que a moral é mais preciosa do que a ciência.
      Que a Igreja vale mais que a fábrica. 
      Que a Santa Missa é muito mais sublime que uma peça teatral. 
      Que o homem que ora está mais alto que o que vai a festas mundanas.
      Tudo isto significa a realeza de Cristo. 

      2) Outro motivo leva o homem moderno a rejeitar a Cristo. Combate-o porque não quer ouvir a condenação fulminante... contra a moda. Se Cristo é nosso Rei, a moda não pode ser o nosso ídolo. Onde reina Cristo não pode reinar a frivolidade, onde reina Cristo não é lícito vestir-se, dançar e divertir-se como o faz. o homem moderno superficial e frívolo.
     Que tem que ver a Igreja com a moda? murmuram alguns. Por que razão, com que direito se imiscui nestas questões? Que mal tem em que o cabelo das mulheres seja curto ou comprido. que as saias tenham mais ou menos cinco centímetros?
     Não tratemos esta questão dum modo tão superficial. O tomar a Igreja posição nestas contendas, tem uma causa muito mais profunda.
     Sabeis de que se trata?
     Trata-se daquela grave doença que se chama laicismo, daquela epidemia que desterra a Cristo, trata-se do paganismo moderno, a que aludiu Pio
      O que esta pretende às ocultas é expulsar o Cristianismo do maior número possível de lugares, é tirar a Cristo cada vez mais vassalos.
     Não se trata pois de uma só alma, de uma só família, mas de uma questão transcendental e decisiva, a saber: de que em toda a vida social. Em todas as nossas manifestações exteriores tenhamos ou não o olhar posto em Cristo. Sim, esta é que é a grande questão.
     Ciência, filosofia, política, diplomacia. maçonaria, literatura, arte, legislação ... tudo, tudo isto intentou já combater o Cristianismo. Mas em vão. Todos os inimigos coligados não foram capazes de desterrar a Cristo. Então, lançou-se mão de nova arma: a vaidade da mulher. Vedes já as profundas raízes da questão? Trata-se de desencadear a guerra contra Cristo. Admito que a maioria das mulheres, quando se inclinam diante da moda, não sabem que são instrumentos de uma traidora campanha. Ignoram que o paganismo quer instalar-se outra vez na sociedade. Paganismo é o vestido transparente, paganismo é o baile indecoroso. A frivolidade espantosa das praias, o veneno dos cinemas, o luxo exorbitante... tudo isto é paganismo.
     Esta é a razão por que se combate a realeza de Cristo. Não aceitamos a Cristo Rei, porque Ele é a condenação do nosso moderno paganismo.

     3) Há ainda outro motivo por que o homem moderno repele a realeza de Cristo. É que a realeza de Cristo condena toda a viela materialista e terrena. Se Cristo é nosso Rei, o dinheiro não pode ser nosso ídolo.
     No paganismo antigo, o ouro e o prazer recebiam honras de divindade. Mas, ao ecoar nas campinas de Belém o cântico do Glória, o trono destes ídolos desmoronou-se. Mas agora, de novo, o dinheiro, o ouro recuperou o seu antigo culto.
     Estudemos a lição dos últimos anos. À medida que nos íamos esquecendo de Cristo, esquecíamos também os valores espirituais e culturais. Não pressentimos todos o perigo? Não sentimos todos que aqui há alguma coisa abalada? Ousaríamos afirmar que tudo corre perfeitamente bem?
     Ao mesmo tempo que sábios exímios, artistas insignes lutam com a fome e não têm trabalho, morre um artista de cinema, Rodolfo Valentino, e os jornais de todo o mundo anunciam que tinha oito automóveis, doze cães, cinquenta pares de sapatos e duas mil camisas. Isto está bem?
     Donzelas honradas de uma vida irrepreensível, estudam, trabalham e não conseguem casar-se; e uma rapariga moderna atravessa nadando o canal da Mancha e logo recebe setecentas propostas de casamento. Isto está bem?
     É da praxe que um campeão de box receba por cada sessão de luta a soma equivalente aos honorários de um juiz ou de um professor durante seis meses. Está bem?
     O cristianismo ensina o privilégio do espírito, a aristocracia da inteligência e hoje esta aristocracia é substituída pela aristocracia da musculatura.
     Onde reina Cristo, a alma é superior à matéria e é por isso que hoje se renega a realeza de Cristo, porque são muitos os homens... que não têm alma; que não têm tempo para a ter.