segunda-feira, 14 de maio de 2018

A reforma deve começar pela reconstituição da família

Nostine, quod omne quod est, tamdiu manere atque subsistere solet,quandiu sit unum, sed interire atque dissolvi pariter, quando unun esse desieriet?

     "Não são as vitórias dos militares, diz Funk-Brentano, nem os sucessos dos diplomatas, nem mesmo as concepções dos estaditas que conservam a propriedade e a grandeza das nações - e sobretudo que podem devolvê-las quando perdidas - é a força de suas virtudes morais". Essa convicção, formada no seu espírito pelo estudo aprofundado de diversas civilizações, é a conclusão do seu livro La Civilisation et ses lois.
     É ilusão perigosa crer que um homem, seja ele um gênio, possa, da noite para o dia, tirar-nos da situação em que nos encontramos e devolver à França sua antiga grandeza. A queda é profunda demais, e data de muito tempo: começou há vários séculos. Esse homem poderia apenas levantar-nos e recolocar-nos no caminho. Ora, não há outra via de salvação senão aquela das virtudes, das virtudes morais e sociais, que se encontram na origem de todas as sociedades, propiciando-lhes o nascimento, e em seguida, construindo sua prosperidade através da concórdia e do auxílio mútuo.
     Também não é suficiente que se obtenha dos indivíduos, por mais numerosos que sejam, a prática dessas virtudes; é preciso que elas sejam incorporadas às instituições. As virtudes particulares passam com os homens que as praticam. As nações são seres permanentes. Se as virtudes são o seu sustentáculo e fundamento, devem ser perpetuadas, e essa perpetuidade só pode ser encontrada nas instituições estáveis.
     A primeira dessas instituições, a mais fundamental, aquela que é de criação divina, é a família. A família, dissemos, é a célula orgânica do corpo social. É nela que se encontra o centro das virtudes morais e sociais; é dela que as vimos espraiar-se e penetrar com sua força todos os organismos sociais e o próprio Estado.
     Passou-se dessa maneira com todos os povos que chegaram a uma civilização.
     Ora, a família não existe mais na França. Esta afirmação poderá surpreender; mas ela espanta apenas aqueles que, vendo nosso país no seu estado atual, jamais tiveram ideia do que ele era outrora e do que ele deve ser.
     Em tempos idos, a família francesa, como a família da sociedade antiga, constituía um todo denso e homogêneo, que se governava com inteira independência relativamente ao Estado, sob a autoridade absoluta de seu chefe natural, o pai, e na via das tradições e dos costumes legados por seus ancestrais. [...]
     É que não temos mais na França, acerca da família, a ideia que dela se tinha outrora, a ideia de que dela tiveram todos os povos que vivem e que progridem. Nós não a percebemos senão como ela é na presente geração. Ela não forma mais em nosso pensamento, e mesmo na realidade, com as gerações precedentes e as gerações subsequentes, esse homogêneo e solidário que atravessa os tempos com sua viva unidade.
[...]
     Os franceses eram felizes e prósperos quando a família estava solidamente constituída entre eles, quando o espírito de família animava a sociedade inteira, o governo do país, da província e da cidade, e presidia as relações das classes entre si.
     Hoje, a família existe entre nós somente no estado elementar. Reconstituí-la é obra fundamental, sem a qual toda tentativa de renovação será estéril. Jamais a sociedade será regenerada, se a família não o for em primeiro lugar.


O espírito familiar, no lar, na cidade e no estado 
Mons. Henri Delassus