terça-feira, 17 de setembro de 2019

Teologia do Corpo - João Paulo II e o Gênesis da confusão


Uma das populares novidades pós-conciliares espalhadas por toda a Igreja atualmente é a Teologia do Corpo, introduzida pelo Papa João Paulo II. 

Para entender melhor o que é a Teologia do Corpo – e como ela se compara ao autêntico ensino católico –, oferecemos a partir da edição de março a abril de 2013 de The Angelus este artigo de Ann Marie Temple. 


João Paulo II e o Gênesis da confusão 

No primeiro capítulo [do Gênesis], a narrativa da criação do homem afirma diretamente, desde o princípio, que o homem foi criado à imagem de Deus como homem e mulher... Nós nos encontramos, portanto, quase no âmago da realidade antropológica, cujo nome é “corpo”, o corpo humano. No entanto, esse âmago não é apenas antropológico, mas também essencialmente teológico. Desde o princípio, a teologia do corpo está ligada à criação do homem à imagem de Deus. João Paulo II, 14 de novembro de 1979, “By Communion of Persons, Man Becomes the Image of God [Pela comunhão das pessoas, o homem se torna a imagem de Deus, em tradução livre]”. 

Devemos entender que, quando as Escrituras disseram, “à imagem de Deus Ele os criou”, acrescentou, “criou-os homem e mulher”, não para implicar que a imagem de Deus veio através da distinção de sexo, mas que a imagem de Deus pertence a ambos os sexos, uma vez que está na mente, em que não há distinção sexual. São Tomás de Aquino, I, Q. 93, A. 6, ad 2 

A excelência do homem consiste no fato de que Deus o fez à sua própria imagem, dando-lhe uma alma intelectual, que o eleva acima dos animais do campo. Santo Agostinho, Interpretação Literal do Gênesis, vi. 12 

A teologia do corpo de João Paulo II oferece uma excelente ilustração de uma bomba-relógio do Vaticano II em vias de detonação. [1] Como Arcebispo da Cracóvia, Karol Wojtyla foi um dos principais arquitetos da Gaudium et Spes; como papa, dedicou 130 audiências gerais, de 1979 a 1984 [que podem ser lidas na íntegra na EWTN], para extrair todo o potencial das palavras que ajudou a moldar. De fato, toda a “catequese” baseia-se explicitamente na interpretação do Gênesis contida na Gaudium et Spes, §12, citada em uma das primeiras audiências do papa, em 14 de novembro de 1979: 

“Deus não criou o homem como um solitário, pois desde o princípio ‘criou-os homem e mulher’. A companhia de um a outro produz a forma primária de comunhão interpessoal. Pois, por sua natureza mais íntima, o homem é um ser social e, a menos que se relacione com os outros, não pode viver nem desenvolver seu potencial”. 

O sistema é internamente coerente: representa a preocupação inicial do Pe. Wojtyla em construir um sistema moral objetivo inerentemente atraente para o homem moderno em sua experiência subjetiva, não apenas imposta por um magistério externo; um sistema advindo da análise holística da pessoa, não da filosofia tomística abstrata. [2] 

A estrutura e todas as implicações do ensino do papa aparecem melhor quando contrastadas com a teologia tradicional a qual ela deveria substituir. A natureza revolucionária do novo sistema se destaca mais ainda se traduzirmos a teologia do corpo para a linguagem do escolasticismo, definindo seus termos comuns. Ao esclarecer a expressão, esperamos lançar luz sobre a “novilíngua” filosófica construída no próprio Vaticano II e, ao mesmo tempo, demonstrar a necessidade vital do realismo tomista como um andaime para a reflexão teológica. De fato, a intenção do papa era fundar um sistema objetivo de ética na relação interpessoal entre homem e mulher; seus princípios e maneira de proceder são tão falhos que efetivamente demolem toda possibilidade de relacionamento entre o homem e Deus. 


O ponto de partida exegético 

Em sua audiência de 5 de setembro de 1979, o papa iniciou sua apresentação sobre a teologia do corpo com a lição de Cristo aos fariseus em Mateus 19. Cristo aponta para o "princípio" como fundamento da ética do casamento, e o papa, em seguida, dedica suas audiências a uma exegese sobre os dois relatos da criação, Gênesis 1: 26-27 e 2: 7-25. 

Eles fornecem os elementos fundadores da teologia do corpo:
  • primeiramente, a noção de homem como pessoa, tanto por sua subjetividade quanto por sua relatividade, isto é, tanto por sua consciência da solidão entre os animais quanto por entrar em uma relação de doação mútua com Eva;
  • em segundo lugar, a noção de que o homem, então, constitui uma pessoa está na imagem de Deus. [3]
O próprio papa chama seu sistema de teologia “do corpo” porque o estabelecimento do homem como pessoa e como imagem de Deus depende de sua estrutura física. A consciência do homem de que ele está sozinho entre os outros animais e o fato de que “só pode descobrir seu verdadeiro eu numa doação sincera de si mesmo” dependem de sua percepção do corpo: primeiro seu corpo, e então o corpo da mulher. [4] Da mesma forma, por seu corpo ele é constatado como imagem de Deus: “Desde o princípio, a teologia do corpo está ligada à criação do homem à imagem de Deus”. [5] 


O ponto de partida filosófico 

Qualquer que seja a sinceridade da exegese do papa, seu uso do Gênesis é um desvio da interpretação tradicional em vários pontos, e parece, por sua vez, uma defesa de seu próprio ponto de partida filosófico. 

É impressionante que a criação do homem como pessoa seja gradual e alcançada pelo conhecimento e ação do homem: 

“Desde o ‘princípio’, essa [consciência da mulher como ‘osso dos meus ossos’] confirma o processo de individuação do homem no mundo”. [6] 

Para Santo Tomás, essa “confirmação do processo de individuação” não tem sentido: um homem individual existe quando uma matéria específica é animada por uma alma humana. A personalidade é inseparável da individualidade do homem: uma pessoa é, para Santo Tomás, “uma substância individual de natureza racional”. Assim, na filosofia tradicional, um homem é uma pessoa ontologicamente, pela estrutura de seu ser; ele não é uma pessoa gradualmente, no desenvolvimento da maturidade de suas ações. 

Por que o papa abandonaria as noções tradicionais do ser e a estrutura da realidade? Porque ele acha que não podemos conhecê-los com tanta certeza quanto Santo Tomás alega que podemos – pelo menos, não com certeza o suficiente para torná-los a base de um sistema moral atraente para o homem moderno. 

Essas definições escolásticas assumem que podemos trespassar e entender a estrutura dos entes concretos ao nosso redor por um processo de abstração e raciocínio; que realmente compreendemos a essência de uma coisa por um conceito extraído da experiência; e que podemos raciocinar e formar conclusões sobre a realidade e sua estrutura com base nesse processo.[7] 

A fenomenologia do papa, ao contrário, sustenta que essa abstração é uma falsificação da realidade, que só podemos descrever levando em consideração todos os elementos de uma experiência; o método fenomenológico visa a uma espécie de intuição simpática da essência de uma coisa e não a uma compreensão conceitual de sua estrutura. 

Enquanto a fenomenologia daria a mesma importância à percepção e à impressão por completo, a abstração nos permitiria discernir os elementos constitutivos de uma coisa e distinguir entre o superior e o inferior, descobrindo uma analogia entre os seres e uma hierarquia de causas. 

Assim, para Santo Tomás, a alma é superior ao corpo – mais nobre, possuindo seu ato de ser e compartilhando-o com o corpo – de modo que o homem é constituído uma pessoa por sua natureza espiritual. O papa, entretanto, especifica nas notas à sua audiência de 14 de novembro de 1979 que: 

“Na concepção dos livros mais antigos da Bíblia, a oposição dualista “corpo-alma” não aparece. Como já apontamos, podemos falar, ao invés, de uma combinação complementar ‘corpo-vida’. O corpo é a expressão da personalidade do homem”. 


Homem: imagem ou traço? 

Essa falha em distinguir explicitamente a alma e suas operações como superiores ao corpo significa que a teologia do corpo redefine a noção do homem como “imagem de Deus”. Assim, a afirmação de Santo Tomás, citando Agostinho, de que o homem é à imagem de Deus apenas por sua mente, não tem lugar em um sistema fenomenológico. O papa deve, portanto, redefinir a “imagem de Deus” num objeto de estudo fenomenológico: é uma imagem, uma representação externa de Deus. Melhor, é uma experiência. A plena consciência do significado do corpo ocorre no mútuo "conhecimento" de homem e mulher; sua união física se torna uma linguagem, expressando a natureza de Deus para o mundo e para eles mesmos: "Essa linguagem do corpo se torna, por assim dizer, uma profecia do corpo".[8] 

O que o papa chama de imagem, Santo Tomás chamaria de mero traço de Deus no mundo material, a forma mais baixa de semelhança. O homem é uma imagem ou semelhança de Deus porque sua alma é capaz de alcançar Deus por sua operação de conhecer e amar: "A mente é a imagem de Deus, na medida em que é capaz Dele e pode ser participante Dele".[9] 

Assim, o homem é capax Dei por sua alma, por natureza, por “criação”, como diz Agostinho. Essa abertura da natureza permite a entrada da graça em sua alma e uma nova maneira de ser “à imagem de Deus” por uma união de virtude teológica: imperfeitamente, como imagem da graça, e perfeitamente, como imagem da glória.[10] Essa união teológica propriamente dita é impossível em uma “teologia do corpo” precisamente porque a alma não é claramente distinguida como sendo, por natureza, o local do encontro com Deus. Também não há possibilidade de distinção entre imagem natural e imagem por graça ou glória. O homem se aproxima de Deus por uma união mais pura com outro humano; ao tornar-se mais plenamente um dom ao outro, ele se assemelha mais a Deus. A recuperação da imagem de Deus e da “inocência do coração” original depende da vida em matrimônio como um dom mútuo.[11] 

O próprio céu e a comunhão dos santos devem ser entendidos em função dessa doação mútua.[12] Na “teologia” do papa, não há espaço para o céu como a satisfação do desejo infinito da alma: 

“A felicidade é o bem perfeito, que acalma completamente o apetite... Agora, o objeto da vontade, isto é, do apetite do homem, é o bem universal; assim como o objeto do intelecto é a verdade universal. Portanto, é evidente que nada pode acalmar a vontade do homem, salvar o bem universal... Portanto, somente Deus pode satisfazer a vontade do homem”.[13] 


A morte da religião 

Esta breve apresentação pode apenas dar uma pista sobre os estragos doutrinários, espirituais e culturais contidos na teologia do corpo. O mecanismo dessa bomba-relógio é, portanto, nuclear; é devastador em seus efeitos, porque age no centro da teologia, substituindo o significado dos termos filosóficos que usa. A estrutura de toda noção é modificada, mas também a ordem do todo: Deus deixa de ser a causa final, o fim de todo ser e ação, aquilo em torno do qual tudo gira, porque o homem foi criado como um “valor particular para si mesmo”,[14] a quem a Gaudium et Spes chama de “a única criatura na terra que Deus desejou por si mesma”. Essa é, em última análise, a “virada antropológica”, a revolução que João Paulo II levou com “máxima seriedade”

A origem da confusão é uma recusa em aceitar o realismo abstrativo de Santo Tomás: se não temos como atingir a estrutura do real, não temos como discernir a alma – não há, portanto, como afirmar de que maneira o homem pode estar unido a Deus. Desejado por si mesmo, o homem permanece sozinho consigo mesmo; privado de uma alma espiritual distinta de seus corpos, homem e mulher não podem se encontrar como imagens iguais de Deus; ensinado a buscar a inocência, mergulhando mais plenamente na carne, o homem deve “viver no Espírito” e “andar no Espírito”, depois de “crucificar sua carne”? [15] 


Sanguis Christi, germinans virgines, salva nos. 



Leitura recomendada 

Em relação às novidades teológicas do Papa João Paulo II, recomendamos esta crítica em três volumes do Pe. Johannes Doermann, Pope John Paul II's Theological Journey to the Prayer Meeting of Religions in Assisi [A jornada teológica do Papa João Paulo II ao Encontro de Assis, em tradução livre]; Parte 2, disponível na Angelus Press: 

Volume 1: Cobre a primeira encíclica de João Paulo II, Redentor Hominis, a pedra angular de sua “Teologia de Assis”. 

Volume 2: Mostra como a encíclica Dives in Misericordia, de João Paulo II, é a segunda parte (com Redemptor Hominis) de sua tese de salvação universal e como isto explica os esforços ecumênicos do papa. Pe. Dormann disseca a encíclica e a contrasta com a doutrina católica tradicional. 

Volume 3: Desvenda a encíclica do Papa sobre o Espírito Santo, Dominum et Vivificantem, em uma análise completa, parágrafo por parágrafo, comparando suas novidades com os ensinamentos perenes da Igreja. Começa com uma fabulosa “chave para a teologia do Papa João Paulo II” de 38 páginas. 



Notas de rodapé 

1 Ver George Weigel, Witness to Hope: The Biography of Pope John Paul II [Testemunha da Esperança: A Biografia do Papa João Paulo II, em tradução livre], 1920-2005 (New York: Harper-Collins, 2005), p. 343: 

Angelo Scola, reitor da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, chega a sugerir que virtualmente todas as teses em teologia – Deus, Cristo, a Trindade, graça, Igreja, sacramentos – poderiam ser vistas sob uma nova luz se os teólogos explorassem em profundidade o rico personalismo implícito na teologia do corpo de João Paulo II... Esses 130 discursos catequéticos, juntos, constituem uma espécie de bomba-relógio teológica que explodiu, com consequências dramáticas, nalgum momento do terceiro milênio da Igreja. Quando isso acontecer, talvez no século XXI, a Teologia do Corpo pode muito bem ser vista como um momento crítico, não apenas na teologia católica, mas na história do pensamento moderno. Por 350 anos, a filosofia ocidental insistiu em começar com o sujeito humano, o sujeito pensante. Karol Wojtyla, filósofo, levou a sério essa “volta ao assunto”; João Paulo II levou isso a sério como teólogo. Ao insistir que o sujeito humano é sempre um sujeito corporificado cuja corporificação é fundamental para sua autocompreensão e relacionamento com o mundo, João Paulo tomou a “virada antropológica” da modernidade com a maior seriedade”. 

A “teologia do corpo” está realmente se tornando a base das aulas de preparação para o matrimônio e até do catecismo nos Estados Unidos e na Europa, particularmente desde a morte de João Paulo II. 

2 Cf. John Paul II’s Crossing the Threshold of Hope [Atravessando o limiar da Esperança, em tradução livre], p. 123: 

“Quando eu era um jovem padre, aprendi a amar o amor humano. Esse foi um dos temas nos quais baseei todo o meu sacerdócio, meu ministério na minha pregação, no confessionário e nos meus escritos. Se alguém realmente ama o amor humano, sente a necessidade premente de se entregar com todas as forças ao serviço do ‘grande amor’”. 

Os princípios da teologia do corpo já estão presentes em seu Love and Responsibility [Amor e Responsabilidade, em tradução livre], publicado pela Universidade Católica de Lublin (KUL) em 1960. O próprio livro foi o resultado dos cursos que ele desenvolveu e ensinou na universidade a partir de 1956. Pe. Wojtyla inspirou-se na fenomenologia de Max Scheler em particular. Cf. Weigel, Witness to Hope [Testemunha da Esperança, em tradução livre], pp. 126-130. O papa também aponta para a importância de seu contato com o grupo de jovens "Srodowisko", em Crossing the Threshold of Hope [Atravessando o limiar da Esperança, em tradução livre], p. 208: 

“Quando o amor é responsável, também é verdadeiramente gratuito. Esse é precisamente o ensino que aprendi da encíclica Humanæ Vitae, escrita por meu venerável predecessor Paul VI, e que aprendi mais anteriormente com meus jovens amigos, casados ​​e prestes a se casar, enquanto escrevia Love and Responsibility [Amor e Responsabilidade, em tradução livre]. Como eu disse, eles próprios eram meus professores nesta área” (ênfase no original). 

O título de sua segunda tese de doutorado na Universidade de Cracóvia era “An Evaluation of the Possibility of Constructing a Christian Ethics on the Basis of the System of Max Scheler [Uma avaliação da possibilidade de construir uma ética cristã com base no sistema de Max Scheler, em tradução livre]”. Ele concluiu que a fenomenologia de Scheler era rica em potencial, mas precisava se basear no realismo para impedir sua descida ao “solipsismo”. A ocasião imediata para a apresentação da teologia da catequese corporal foi o desejo de reparar os danos causados ​​pela Humanæ Vitae, que o cardeal Wojtyla considerou um desastre pastoral. Cf. Weigel, pp. 207-210, 334-335 e Yves Semen, La Sexualite selon Jean-Paul II (Paris: Presses de la Renaissance, 2004), pp. 58-59 e 188-90. 

3 Cf. a Audiência de Set. 5, 1979, “The Unity and Indissolubility of Marriage” [A Unidade e Indissolubilidade do Matrimônio, em tradução livre]; Out. 10, 1979, “The Meaning of Man’s Original Solitude” [O significado da solidão original do homem, em tradução livre]; Jan. 9, 1980, “The Nuptial Meaning of the Body” [O significado nupcial do corpo, em tradução livre]; Nov. 14, 1979, “By the Communion of Persons, Man Becomes the Image of God” [Pela comunhão das pessoas, o homem se torna a imagem de Deus, em tradução livre]. Os nomes das audiências foram tomados do site do Vaticano. 

4 Jan. 16, 1980, “The Human Person Becomes a Gift in the Freedom of Love” [A pessoa humana se torna um presente na liberdade do amor, em tradução livre]. Ver também Out. 24, “Man’s Awareness of Being a Person” [A Consciência do homem de ser uma pessoa, em tradução livre]. 

5 Audiência Nov. 14, 1979, “By the Communion of Persons, Man Becomes the Image of God” [Pela comunhão das pessoas, o homem se torna a imagem de Deus, em tradução livre]: 

“Torna-se, de certa forma, também a teologia do sexo, ou melhor, a teologia da masculinidade e da feminilidade, que tem seu ponto de partida aqui no Gênesis... Essa unidade através do corpo – ‘e os dois serão uma só carne’ possui uma dimensão multiforme. Possui uma dimensão ética, como é confirmado pela resposta de Cristo aos fariseus em Mateus 19 (cf. Marcos 10). Também tem uma dimensão sacramental, estritamente teológica, como é provado pelas palavras de São Paulo aos efésios, que também se referem à tradição dos profetas (Oséias, Isaías, Ezequiel). Isso ocorre porque, desde o início, essa unidade que é realizada através do corpo indica não apenas o ‘corpo’, mas também a comunhão ‘encarnada’ de pessoas - communio personarum - e exige essa comunhão”. 

6 Jan. 9, 1980, “The Nuptial Meaning of the Body [O significado nupcial do corpo, em tradução livre].” Também significante é a Audiência de Set. 19, 1979, “The Second Account of Creation: The Subjective Creation of Man [O Segundo Relato da Criação: A Criação Subjetiva do Homem, em tradução livre],” e de Fev. 20, 1980, “Man Enters the World as a Subject of Truth and Love [O homem entra no mundo como sujeito da verdade e do amor, em tradução livre],” o que parece implicar que o sono de Adão elimina a primazia decorrente de ter sido criado primeiro: 

“Em Gênesis 2:23, encontramos a distinção 'is-'issah pela primeira vez. Talvez, portanto, a analogia do sono indique aqui não tanto uma passagem da consciência para o subconsciente, mas um retorno específico ao não-ser (o sono contém um elemento de aniquilação da existência consciente do homem). Isto é, indica um retorno ao momento que precede a criação, que através da iniciativa criativa de Deus, o "homem" solitário pode emergir dela novamente em sua dupla unidade como homem e mulher”. 

7 Ver por exemplo Quaestiones Disputatae de Anima, a. 14. 

8 Ago. 22, 1984. Ver também Fev. 20, 1980 e Nov. 14, 1979. 

9 Ia, q. 93, a. 6. Ver também o De Trinitate de Santo Agostinho, l.14, cap. 8 e cap. 12. 

10 Ia, q. 93, a. 4. 

11 Abril 2, 1980, “Marriage in the Integral Vision of Man [Matrimônio na visão integral do homem, em tradução livre]”: “Aqueles que buscam a realização de sua própria vocação humana e cristã no matrimônio são chamados, antes de tudo, a fazer dessa teologia do corpo... o conteúdo de sua vida e comportamento”. Ver o comentário de Weigel, Witness to Hope [Testemunha da esperança, em tradução livre], Ch. 10, “The Ways of Freedom [Os modos de liberdade, em tradução livre],” segmento entitulado “Marital intimacy as an icon of the interior life of God [A intimidade conjugal como ícone da vida interior de Deus, em tradução livre],” p. 326 ss. 

12 Dez. 16, 1981, “The Words of Christ Concerning the Resurrection Complete the Revelation of the Body [As Palavras de Cristo Sobre a Ressurreição Completam a Revelação do Corpo, em tradução livre]”: 

“Essa realidade [do mundo vindouro] significa a realização verdadeira e definitiva da subjetividade humana e, ao mesmo tempo, a realização definitiva do significado "nupcial" do corpo” (tradução nossa). 

13 Ia-IIae, q. 2, a. 8. 

14 Nov. 14, 1979, “By the Communion of Persons Man Becomes an Image of God [Pela comunhão das pessoas, o homem se torna a imagem de Deus, em tradução livre]”. Ver também o comentário de Weigel em Witness to Hope [Testemunha da esperança, em tradução livre], cap. 10, “The Ways of Freedom [Os modos de liberdade, em tradução livre]”, segmento intitulado, “Marital intimacy as an icon of the interior life of God [A intimidade conjugal como ícone da vida interior de Deus, em tradução livre],” p. 326 ff. 

15 Gal. 5:24, 25.

Extraído de


Tradução: Letícia de Araújo

A ENTRONIZAÇÃO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Iniciamos hoje a postagem de trechos do livro "Jesus Rei de Amor" do Reverendíssimo Padre Mateo Crawley Boevey SS.CC. sobre a prática da Entronização do Sagrado Coração de Jesus. Intentamos, desse modo, dar maior visibilidade a essa devoção e maior glória a Nosso Senhor.



A ENTRONIZAÇÃO

EM QUE CONSISTE - PARTE 1

Vivat Cor Jesu Sacratissimum!
Adveniat Regnum tuum!

Em que consiste

Podemos defini-la: O reconhecimento oficial e social da soberania amorosa do Coração de Jesus sobre a família cristã.

Reconhecimento sensível pela instalação definitiva e solene de uma imagem do Sagrado Coração em lugar de honra, e pela inteira oferta do lar por meio do ato de consagração.

Disse o Deus de misericórdia em Paray-le-Monial que, sendo Ele mesmo a fonte de todas as bênçãos, copiosamente as distribuiria onde fosse colocada a imagem de seu Coração, com o fim de ser amada e honrada. (Vida e Obras de Santa Margarida Maria, por Gautey, p. 296).

Disse mais: "Reinarei apesar de meus inimigos e de todos quantos pretendam opor-se".

A Entronização, portanto, não satisfaz apenas este ou aquele pedido do Salvador a Santa Margarida Maria, mas realiza completa e integralmente todos eles, atraindo o cumprimento de todas as promessas esplêndidas que os enriqueceram.

Observe-se que dizemos "realiza integralmente" o conjunto dos pedidos formulados em Paray, porque seu fim supremo, transcendental, não é, nem deve ser, o fomento de umas tantas devoçõezinhas e sim a santificação profunda do lar - segundo o espírito do Sagrado Coração -para que se converta em primeiro trono do Rei divino, trono vivo e de caráter social.

Para transformar e salvar o mundo é imprescindível que o Natal se perpetue, palpitante e permanente, isto é, que Jesus, o Deus Emanuel, seja deveras "Deus conosco", que habite real e efetivamente entre nós, irmãos seus exilados, bem mais fracos que maus...

Não nos enganemos: para em dia mais ou menos próximo chegarmos ao Reinado Social de Jesus Cristo, fazendo-o reconhecido e acatado como Rei soberano, será preciso reconstruir a sociedade moderna desde seus alicerces, reedificá-la nas bases de Nazaré, da família profundamente cristã.

Aquilata-se o valor de um povo pelo valor moral da família. Em santidade ou corrupção, vale um povo o que vale o lar. Regra sem exceção.

Recordo o que me dizia um grande convertido: "Padre, não poderá nunca o Sr. exagerar a importância da Cruzada que prega. Como já lhe disse, os Irmãos da Loja a que tantos anos pertenci não visam outra coisa que descristianizar a família. Isto feito, em parte ou totalmente, fiquem os católicos com suas catedrais, igrejas e capelas. Que importam monumentos de pedra, uma vez conseguido o domínio sobre o santuário do lar?...

Na proporção do êxito desta estratégia sectária tem o inferno assegurada a sua vitória. Assim raciocinei, e agi em consequência, eu mesmo, Padre, enquanto filiado às hostes da maçonaria".

Triste mas eterna a verdade do Evangelho: "Os filhos deste século são mais hábeis na sua geração que os filhos da luz" (Lc 16, 8).

O grande mal, o maior da nossa sociedade, é ter perdido o sentido do divino; mas esse mal há de ter um remédio... Qual? Voltar ao caminho do Evangelho, retornar a Nazaré.

O Senhor, sapientíssimo, quis fundamentar a redenção do mundo sobre a pedra angular da Sagrada Família. Nela, o Verbo, Jesus, nosso Irmão, começou sua obra redentora... E não será de maneira diferente que devemos salvar o mundo moderno. Modelemo-lo pela forma, tão simples quanto sublime, de Nazaré.

Quanto não se falou, com a eloquência dos discursos e das fotografias, sobre as devastações horrendas de igrejas e templos no imenso campo de batalha da Grande Guerra!... Catedrais, mosteiros, capelas, destruídos pela metralha, no inevitável vaivém dos exércitos que se entrechocavam...

Quanto mais espantosa é, porém, a ruína moral da família cristã!

O lar é o templo por excelência, o Tabernáculo três vezes santo. Por muito artísticas e venerandas que possam ser, basílicas e catedrais não salvarão o mundo. Ele será redimido pelas famílias santas, Nazaré divino.

E isto compreende-se.
A família é a fonte da vida, a primeira escola da criança. Por isso queremos tão profundamente embeber o lar de Jesus Cristo e da seiva do seu amor divino, que toda a árvore se mude no próprio Cristo Jesus, em flores e frutos.

Ora, a Entronização, bem compreendida, não é senão Jesus, o Rei de Nazaré à soleira da porta, a pedir o lugar que é seu, que por direito divino lhe corresponde, o mesmo que lhe reservava Betânia, em tempos antigos.

Lugar de honra, porque é Rei (Jo 18, 37), e em dia não longínquo, tendo conquistado com seu amor família por família, reinará sobre todo o conjunto delas, a sociedade.

Lugar de intimidade, no seio do lar, porque quer ser realmente o AMIGO (Cânt 5, 16). Sobretudo por seu Coração, e usando o brando cetro do amor, a sua soberania suave incrementa essa intimidade.

Numa palavra: A Entronização visa perpetuar a convivência com o Jesus do Evangelho, o Emanuel que volta para habitar as tendas dos filhos dos homens.

Mas quão pouco conhecido é Cristo! E por isso, quão pouco amado! A maioria daqueles que se dizem cristãos tem-lhe medo e vive à distância. Diz-lhe, não talvez com os lábios, mas com suas atitudes: "Fica, Senhor, em teu tabernáculo; quanto a nós, viveremos por nossa conta e risco, viveremos nossa vida familiar, sem que te intrometas demasiado intimamente nela... Não te chegues demais, não nos fales, para que não aconteça morrermos de medo" (Ex. 20, 19).

Assim falaram os judeus a Yahweh, e da mesma forma continuam a dirigir-se os filhos a seu Pai e Pastor! Empenhamo-nos em ver em Jesus Salvador, tão manso e acessível, o Yahweh terrível a despejar relâmpagos no Sinai, em vez de fitarmos o Rei de Amor, que acha suas “delícias em estar com os filhos dos homens" (Prov 8, 31).

Aquele que, durante sua vida mortal, comprazia-se em hospedar-se em casa de pecadores (Mt 9, 11) e assistir às bodas de Caná (Jo 2, 2). De mil modos, encantadores e maravilhosos, aprouve-lhe mostrar-nos que o desejo de seu Coração é participar de nossa vida, tal como é, com todos os seus sofrimentos e alegrias. Alegamos nossa indignidade!... Que absurdo! Como se tivesse sido digno Zaqueu a quem a curiosidade, e não outro motivo, pôs no caminho do Salvador... Como se tivessem sido dignas - ou santas - a Cananéia e a Samaritana; santo, Simão o Fariseu, e tantos companheiros nossos na lepra moral, na miséria e maldade...

Não, nenhum deles era digno, mas todos tiveram fé no amor misericordioso do Mestre, e aceitaram com simplicidade a sua condescendência. Felizes desgraçados, cujo infortúnio atraiu e comoveu o coração do Salvador! Em suas casas e em suas almas, com Jesus entrou a felicidade, a paz e a conversão... "Hoje entrou a salvação nesta casa" (Lc 19, 9).

Pretexto farisaico, o respeito!

O Deus de toda majestade, despojando-se de seu esplendor, nos chama e, de braços estendidos, oferece-nos a mão... Chega a ser atrevimento e insolência pretendermos dar-lhe uma lição e, alegando respeito, mantermo-nos à distância, como que a dizer-lhe: "Lembrai-Vos de que sois Deus e Rei; afastai-Vos".

Estão aí para se verem os milhares de pseudo cristãos que apesar da Redenção pretendem servir ao Redentor abrindo vales entre si e Ele, erguendo montanhas, cavando abismos. E isto, sempre por respeito!

O respeito, em sua essência, é amor e não etiqueta, pelo menos em relação a Jesus. Por vontade Sua explícita, o respeito não é distância, uma vez que Ele já a suprimiu com a Encarnação e a Eucaristia.
Suprimindo-a, exigiu dos cristãos, no entanto, uma adoração muito mais perfeita que aquela que lhe tributavam os judeus, tremendo e às léguas. Quantos não são os cristãos batizados na pele, judeus de alma, em perpétuo temor exagerado que, se ouvissem Jesus falar-lhes e chamá-los "filioli", filhinhos, "amici mei", meus amigos, morreriam não de emoção e de amor, mas de espanto!

Quanto a mim, deixai-me repetir à saciedade "Calem-se em boa hora todos os Moisés e Profetas... Calem-se os homens cujas vozes por suaves que pareçam sufocam-me... Calem as criaturas o seu canto de rouxinol, que a minha alma anseia por ouvir-Te a Ti, Jesus, só a Ti que tens palavras de vida eterna e de amor... Deixa-me ouvir-Te para que possa pregar-Te a Ti, Jesus, autêntico Amor dos amores, Filho de Deus vivo e Filho de Maria!"

Ouvi-me: Detesto mil vezes mais um jansenista que cem protestantes, e ainda mais que um incrédulo. 
Lembro-me de um senhor que se tinha por católico como ninguém e que me dizia: "Eu, Padre, colocar em minha sala um Coração de Jesus? Nunca! Que falta de respeito! Não faltava mais nada!"

Que faria este ardoroso católico, se tivesse visto com seus próprios olhos o Rei dos reis lado a lado com pecadores a procurar, Ele mesmo, a confiança, a intimidade familiar em publicanos e outros que tais, gente muito pouco recomendável e ilustre, sem dúvida?

Quantas vezes esses respeitos não passam de camuflagens do respeito humano e também da soberba!...

Como se Aquele, a quem convidaram os noivos de Caná para as suas bodas, não fosse sentir-se honrado e em lugar seu, numa sala que se diz cristã! Não é Ele, porventura, o Rei dos reis?

Triste realidade: depois de vinte séculos de cristianismo, o Amor não é amado, não é amado, absolutamente!

Não se prega bastante o amor de Jesus Cristo e, no entanto, esta Sua caridade não é um sentimento doentio. Amor é labareda, amar é vida, e que vida!

E isto tudo se deve, em parte ao menos, à falta de leitura, à falta ainda maior de meditação do Evangelho, onde de cada página ressalta um só anelo divino: a intimidade familiar com o homem.

Acaso temeram a Jesus aqueles pequeninos da Galiléia, que se lançaram nos seus braços, enlevaram-se com Seu olhar e descansaram sobre seu Coração? E quando, à força, viam-se arrancados deste ninho, depressa a ele tornavam, atraídos, imantados, pelo peito d'O Mestre.

Como pretender vê-Lo conhecido, amado com paixão divina, se nosso Cristianismo -e nossa piedade não se fundamentam em aproximação e intimidade? Como amá-Lo com santa e deliciosa embriaguez se o contemplamos desfigurado e à distância? E, no entanto, quem, depois de contemplar Tua beleza, não estimará tudo o mais em tristeza e desventura?

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Breve instrução sobre o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo




Os grandes privilégios do Escapulário

No dia 16 de julho de 1251, São Simão Stock suplicava à Nossa Senhora ajuda para evitar a extinção da Ordem Carmelitana, da qual era o Prior Geral. Enquanto ele rezava “Flor do Carmelo, vide florida. Esplendor do Céu, Virgem Mãe incomparável. Doce Mãe, mas sempre virgem. Sede propícia aos carmelitas. Ó Estrela do mar”, A Virgem apareceu-lhe, trazendo o Escapulário nas mãos e disse: “Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de paz para sempre”.

O Escapulário

O escapulário deve ser de tecido de pura lã, marrom. Não pode assim ser de feltro, algodão ou de tecidos sintéticos. O cordão, entretanto, pode ser de outro tecido e cor.
Ele deve ser usado ao pescoço de maneira que parte caia sobre o peito e sobre as costas. Não pode ser usado pendurado em outra parte do corpo, como pulseira, por exemplo, ou amarrado em alguma peça de roupa.

O Privilégio Sabatino

Além da promessa feita por Nossa Senhora a São Simão Stock, Nossa Senhora promete ao Papa João XXII em 1322: “Se entre os religiosos ou confrades, quando morrerem se acharem alguns cujos pecados tiverem merecido o purgatório, eu descerei como terna Mãe no meio deles, no purgatório, no sábado que seguir a sua morte, livrarei aqueles que eu lá encontrar e os levarei à Montanha Santa, à feliz morada da vida eterna”. No entanto, Nossa Senhora impõe algumas condições para receber o privilégio sabatino:
1-      Que tenham levado durante a vida o escapulário;
2-      Que tenham guardado a castidade de seu estado;
3-      Rezado o Ofício Parvo de Nossa Senhora, ou se não puderam rezá-lo, que hajam observado os jejuns da Igreja e abstido de carne nas quartas e sábados.
Mais tarde a Igreja permitiu que ao impor o escapulário o sacerdote pudesse comutar a 3ª obrigação (a reza do ofício parvo ou abstinência), em outra prática de piedade designada ao fiel.

Como receber e usar o Escapulário

1-      O Escapulário deve ser de lã marrom, podendo conter ou não imagens e bordados. Excluindo o uso dos escapulários de metal, plástico ou papel.
2-      O Escapulário deve ser abençoado e imposto pelo mesmo sacerdote.
3-      Essa benção e imposição valem para toda a vida, portanto, basta recebê-lo uma vez.
4-      Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.
5-      Quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não é necessária outra imposição.
6-      Uma vez recebido, ele deve ser usado sempre no pescoço, em todas as ocasiões, mesmo enquanto a pessoa dorme.
7-      Se o Escapulário lhe for retirado contra a vontade do fiel, esse não perde os benefícios das promessas de Nossa Senhora.
8-      O Papa São Pio X autorizou substituir o Escapulário por uma única medalha que tenha de um lado o Sagrado Coração de Jesus e do outro uma imagem de Nossa Senhora do Carmo. Porém a imposição deve ser feita SEMPRE com o escapulário de tecido.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

AVANÇO E TRAIÇÃO / ADVANCE AND BETRAYAL - 05/06/1984 - SOBRE AS TRAIÇÕES SEDEVACANTISTAS


"Devido ao fato de que muitos dentre nós conhecem pouco da história do sedevacantismo, apresentamos o que Dom Williamson já escrevia sobre eles em 1984. As atitudes dos sedevacantistas são extremamente graves e os brasileiros têm obrigação de conhecer para resistir aos lobos que querem invadir os apriscos do Cristo Rei e lhe roubar as almas. Mas o principal culpado é a Roma neomodernista e neoprotestante e o concílio Vaticano II, como me lembrou Dom Williamson há poucos dias."

+ Dom Tomás de Aquino, OSB


Volume 1: The Ridgefield Letters (p. 31 a 38)

#13

5 de junho de 1984

Avanço e traição




Por Sua Excelência Reverendíssima
Dom Richard Nelson Williamson



Em maio, a visita do Arcebispo Lefebvre aos Estados Unidos desencadeou outra tremenda batalha entre Jesus Cristo e Satanás, seu eterno adversário! Desta batalha vieram boas e más notícias. Comecemos pelas boas!

Em primeiro lugar, a Fraternidade tem um novo padre americano, Pe. John Hogan de Michigan. Sua Excelência, o Arcebispo Lefebvre, de 78 anos, chegou da Europa no dia 10 de maio e deu a tonsura ou ordens menores a doze seminaristas no sábado pela manhã; em 12 de maio, crismou aproximadamente 50 crianças e adultos à tarde; e deu ordens maiores aos seminaristas mais antigos no domingo pela manhã, dia 13 de maio.

Foi uma bela cerimônia, diante de um altar-mor verdadeiramente impressionante, posto (bem a tempo!) por diversos dedicados seminaristas e leigos dentro da nova igreja. Do lado de fora, o sol luzia brilhantemente para dar as boas-vindas a cerca de 500 visitantes de todo os Estados Unidos e Canadá. Segundo vários comentários feitos pessoalmente, e também frequentemente por carta, muitos estavam profundamente impressionados e tocados pela majestade e beleza do catolicismo tradicional. Em uma de suas mais nobres cerimônias, a de ordenação sacerdotal, que festa para os olhos! Que elevação para a alma! Que esperança para o futuro!

O Superior Geral da Fraternidade, Pe. Franz Schmidberger, e o Superior do mais novo Distrito da Fraternidade, Pe. François Laisney, também estavam presentes como diácono e subdiácono da missa de ordenação, acompanhando o Arcebispo. Imediatamente após a cerimônia, ambos partiram para Michigan, onde eu gostaria que muitos dos nossos pudessem ter visitado nossa igreja, o santuário de São José, em Armada. Eles ficariam maravilhosamente edificados em ver doze padres, a maioria – mas não todos – da Fraternidade, fazendo um retiro em silêncio, por alguns dias, sob a direção do Pe. Schmidberger. Eles vieram de todas as partes dos Estados Unidos e Canadá, uniram-se humildemente em oração para buscar a Deus e prosseguir em comum o árduo trabalho de salvar almas. Que esperança para o futuro! Estes sacerdotes não estão lutando por si mesmos. Mais ainda, eles têm um pai no sacerdócio, um fiel e corajoso bispo da Igreja Católica Romana! O Arcebispo Lefebvre visitou-os no meio do retiro, depois de administrar a crisma numa capela não pertencente à Fraternidade em Pittsburgh, e estava pronto para falar longamente com cada um que quisesse vê-lo. Este é o retrato de um quadro católico atrativo e singular: o bispo entre seus sacerdotes, os sacerdotes ao redor de seu bispo.

De lá, o Arcebispo partiu para Minnesota, onde crismou aproximadamente 80 almas. Aqui, apesar de ter pintado um quadro sóbrio sobre a situação obscura em Roma, as pessoas se sentiam obviamente elevadas e tremendamente encorajadas por sua visita. Sua Excelência, então, partiu para St. Mary’s, Kansas, onde passou três felizes dias crismando, conversando com vários leigos que estavam auxiliando o Pe. de la Tour (o qual administra este importante estabelecimento educacional), e celebrando uma missa solene pontifical no sábado pela manhã. Uma pequena resenha está na publicação deste mês do The Angelus. Ele retornou a Nova Iorque para, dois dias após, voltar à Europa. Antes de partir, o Arcebispo disse que estava muito feliz com o espírito da Fraternidade, visto tê-la encontrado florescente no seminário, em St. Mary’s, e nos vários centros da Fraternidade que visitou.

Pe. Schmidberger, que chegou aos Estados Unidos no dia 10 de maio, passará um mês aqui até o dia 11 de junho, fazendo um longo e exaustivo tour por todo o país para se familiarizar diretamente com muitos dos empreendimentos da Fraternidade, o melhor método de construir sobre firmes alicerces a obra futura da Fraternidade neste país. Na metade de seu tour, ele está sendo acompanhado pelo novo superior na América, Pe. Laisney, cuja juventude, energia e inteligência prometem torná-lo uma grande aquisição para que a obra da Fraternidade nos Estados Unidos dê um passo importante a frente. Dos meados de junho em diante, é provável que ele permaneça (ao menos provisoriamente) em Dickinson, Texas, que se torna temporariamente um quartel-general para toda a Fraternidade nos Estados Unidos.

Por último – e talvez o mais importante –, Pe. Schmidberger está ansiosamente planejando estabelecer nos Estados Unidos um mosteiro para freiras que orem e se sacrifiquem, com a ajuda da Madre Marie-Christiane, atualmente a responsável por três carmelos florescentes na Europa ligados à Fraternidade São Pio X. Ele tem desejado ardentemente que ela venha aos Estados Unidos inspecionar dois possíveis locais para um quarto carmelo!

Madre Marie-Christiane, irmã de sangue do Arcebispo Lefebvre e freira carmelita há 56 anos, tem desejado, desde há um ano e meio, uma fundação nos Estados Unidos. A experiência direta de Pe. Schmidberger com a necessidade urgente de santas orações para atrair a graça de Deus sobre os Estados Unidos levou-o a apressar o anseio de longa data da irmã. Rezemos para que surta efeito!

Toda esta obra de construção e reconstrução por meio da Fraternidade é uma resistência ao demônio, a qual ele não iria deixar em paz. Sua reação não tardou!

Numa noite de domingo, no dia 20 de maio, quando o Arcebispo voltou ao seminário bem tarde da noite, vindo do Kansas, um tanto cansado pela viagem, mal ele pôs o pé para fora do carro, recebeu uma intimação para comparecer a um tribunal civil, num processo para expulsar a Fraternidade da propriedade do seminário aqui em Connecticut, processo esse aberto pelos padres Cekada, Dolan, Jenkins, Kelly e Sanborn. Os que estavam presentes notaram, e não se esquecerão jamais, o semblante de dor na face do Arcebispo que, é bom lembrar, era o pai no sacerdócio, destes padres. Até o momento, de acordo com o Antigo Código de Direito Canônico, qualquer um que citar civilmente [citar civilmente consiste levar em alguém diante de um juiz civil – NT] um bispo católico, antes de um julgamento canônico, incorre em excomunhão automática (1341). Então, de acordo com o único Código de Direito Canônico que eles mesmos [os padres que abriram o processo contra Dom Lefebvre – NT] reconhecem, estes cinco padres estão excomungados!

Alguns dias depois, eis um acontecimento que não surpreenderia nenhum católico familiarizado com a passagem do Evangelho sobre a traição a Nosso Senhor, mas que, não obstante, causou profundo choque, sofrimento e escândalo para muitos deles: dos quatro padres recém-ordenados, que livremente pediram e receberam a ordenação sacerdotal na Fraternidade Sacerdotal São Pio X pelas mãos de seu fundador, o Arcebispo Lefebvre, depois de, na véspera, livremente prestarem solene juramento de fidelidade a seus superiores, com as mãos postas sobre os Evangelhos, dois, na tempestuosa noite do dia 23 de maio, em meio a relâmpagos e chuva torrencial, saíram do seminário e se uniram a nove sacerdotes que haviam desertado no ano anterior e, dois dias depois, um terceiro, já ausente, anunciou que estava fazendo o mesmo. E era noite.

Alguns fatos ressaltarão a natureza deste ato. Primeiramente, agora sabemos que bem pouco tempo depois da deserção dos nove [sacerdotes] um ano atrás, estes três, de fato, disseram a alguém que eles tinham a intenção de mentir para alcançarem o sacerdócio. Certamente, depois de um ano inteiro, suas palavras e ações no seminário tinham o caráter de persuadir a todos, sacerdotes, seminaristas, e mesmo visitantes, de que eles seriam leais à Fraternidade. Eles viveram, por um ano inteiro, mentindo?

Em segundo lugar, na véspera de suas ordenações, de acordo com os requisitos necessários da Santa Madre Igreja, todos os três fizeram um solene Juramento de Fidelidade no altar de Deus, com suas mãos tocando os Evangelhos diante do Santíssimo Sacramento no tabernáculo aberto, jurando, entre outras coisas, que respeitosamente obedeceriam a seus superiores na Fraternidade São Pio X. O texto completo deste juramento e as assinaturas dos três acompanham esta carta.

As alterações feitas no texto por um deles sugerem que ele não estava à vontade; e, de fato, para fazer tal juramento, cada um deve ter encontrado, ou recebido de alguém, uma maneira de justificar ou tornar razoável, para si mesmos e para os outros, o que fizeram. Entretanto, em terceiro lugar, se diante de Deus cometeram perjúrio, terem recebido as ordens sacras em tal estado terá sido um grave sacrilégio.

Em quarto lugar, ao fim da cerimônia tradicional de ordenação, cada um colocou sua mão entre as mãos do Arcebispo, que lhes perguntou em latim “Prometes-me a mim e aos meus sucessores reverência e obediência?” Cada um respondeu claramente “Promitto”, que quer dizer “Eu prometo”.

Em quinto lugar, a ruptura (ao menos aparente), após dez dias, destas promessas e juramentos solenes, vista em conjunto com todas as outras circunstâncias da última deserção, causou e continuará a causar um terrível escândalo para os católicos, não somente àqueles ligados à Tradição, que sustentaram financeiramente e ajudaram os três [citados sacerdotes – NT], porque confiaram que eles seguiriam ao Arcebispo Lefebvre em defesa da Fé, mas também a muitos outros que ainda não se ligaram à Tradição e que erroneamente, mas de modo compreensível, dirão que se a Tradição fomenta este tipo de deslealdade, não querem nada com ela.

À guisa de comentário a estes fatos, cremos que três citações no momento sejam suficientes. No dia 27 de maio deste ano, Pe. Sanborn disse no púlpito em Traverse City, Michigan, “Estou muito contente em anunciar que três dos quatro sacerdotes, que foram ordenados pelo Arcebispo Lefebvre em 13 de maio, decidiram se juntar a nós. Isto me alegra porque os formei, e nem todos os frutos de meu trabalho como reitor do seminário foram perdidos.” (Pe. Sanborn compreendeu que frutos ele reivindica serem seus?)

No dia 28 de abril do ano passado, pouco tempo depois da separação entre a Fraternidade e os nove sacerdotes, o Arcebispo Lefebvre disse no seminário a todos os seminaristas, inclusive a estes três que desertaram há pouco tempo:

Espero que façam a escolha certa. Mas devem escolher, [pois] se concordam com a posição, a atitude e a orientação do Pe. Kelly, então sigam-no. Se pensam que Monsenhor Lefebvre está correto, então sigam a atitude de “Monseigneur” [Este é o modo de chamar Dom Lefebvre na língua francesa – NT] e da Fraternidade. Mas vocês devem ser claros… honestos. Não digam: Ficarei em silêncio até depois da minha ordenação. Isto é errado! Deus sabe! É uma mentira diante de Deus… não diante de mim. Eu não sou nada. Mas diante de Deus! Os senhores não podem fazer isso! Foi exatamente isto que o Pe. Dolan disse, “Eu soube ficar quieto até minha ordenação.” Não consigo compreendê-lo fazendo isso! Um futuro padre fazendo isto??

E no dia 30 de maio deste ano, um dos três últimos desertores, quando uma senhora censurou-o dizendo que um golpe como este que deram poderia ter matado o Arcebispo, replicou, “Ah, ele já está com 78 anos mesmo. Veja, sou grato a ele, porque sem ele eu não seria sacerdote”.

As pessoas podem se perguntar porque algo assim aconteceria dentro de um seminário, e se o mesmo não acontecerá novamente. A resposta é que Jesus viu as profundezas do coração do homem (João 6, 65-71), e mesmo assim preferiu permitir que um Apóstolo fosse infiel. Quanto aos sacerdotes de Jesus, só podemos perscrutar os corações humanos “tão longe quanto a fragilidade humana nos permita conhecer” (palavras do próprio rito de ordenação). Caso contrário, se chega a um ponto de desconfiança, no qual o serviço de Deus para de funcionar e um seminário católico já não consegue mais operar, porque a caridade “tudo crê e tudo espera” (I Cor. 13,7). Entretanto, estamos de olhos abertos, e um seminarista já foi convidado a se retirar, desde a deserção, pois, sob questionamento, ele confessou que compartilhava claramente o modo de pensar dos desertores.

Para fortificar sua fé, o seminário e o santuário St. Joseph, novamente neste verão, estão oferecendo alguns dias com os grandes Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Aproveitem esta incomparável oportunidade para fortalecer sua vida espiritual, que é mais importante do que qualquer outra coisa. De nossa parte, com o auxílio de Deus, nem a Fraternidade nem o seminário sairão de seu curso, mas a despeito destas experiências, ou mesmo por causa delas, ambos prosperarão como a Deus aprouver. Nosso próximo projeto é a abertura de outra missão em Long Island, onde muitos católicos encontram-se em perigo.

Que a vontade santíssima e imperscrutável de Deus seja sempre adorada, e que sua Mãe Santíssima, a Virgem fidelíssima, um dia nos obtenha, nestes tempos infiéis, as graças da fidelidade e da lealdade!



“Letters From the Rector of St. Thomas Aquinas Seminary”, Volume 1: The Ridgefield Letters (p. 31 to 38). Tradução do texto original em inglês (que se encontra abaixo).

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Volume 1: The Ridgefield Letters (p. 31 to 38)

#13
June 5, 1984
Advance – and Betrayal

By His Excellency
Richard Nelson Williamson

Archbishop Lefebvre’s May visit to the United States unleashed another tremendous battle between Jesus Christ and Satan, his undying adversary! From this battle flowed good news and bad news. Let us start the good news!

Firstly, the Society has a new American priest, Fr. John Hogan from Michigan. His Grace, Archbishop Lefebvre, 78 years old, arrived from Europe on May 10 and gave tonsure or minor orders to twelve seminarians on Saturday morning, May 12, confirmation to nearly fifty children and adults in the afternoon, and major orders to the senior seminarians on Sunday morning, May 13.

It was a beautiful ceremony in front of the very impressive high altar put together (just in time!) inside the new church by a number of hardworking seminarians and lay-workers. Outside, the sun shone brilliantly to welcome some five hundred visitors coming from all over the United States and Canada. From various comments made in person and also frequently by mail, many were deeply impressed and moved by the majesty and beauty of Catholic traditionalism at its finest. In one of its noblest ceremonies, that of an ordination to the priesthood, what a feast for the eyes! What an uplift for the soul! What a hope for the future!

The Society’s Superior General, Fr. Franz Schmidberger, and the Society’s newest District Superior, Fr. François Laisney (pronounced Lay-nay), were also present as deacon and subdeacon of the ordination Mass, flanking the Archbishop. Immediately after the ceremony, both of them left for Michigan where I wish many of our people could have visited our church, St. Joseph’s Shrine in Armada. They would have been marvelously edified by the sight of over a dozen priests, mostly, but not all, from the Society, making a silent retreat for several days under Fr. Schmidberger. They came from all over the United States and Canada, united humbly in prayer to seek God and to pursue in common the arduous work of saving souls. What a hope for the future! Those priests are not fighting by themselves. Moreover, they have a father in the priesthood, a faithful and courageous bishop of the Roman Catholic Church! Archbishop Lefebvre visited them in the middle of their retreat after giving confirmation at a non-Society chapel in Pittsburgh, and he was able to talk at length to each of them who wished to see him. It makes an attractive and uniquely Catholic picture: the bishop amidst his priests, the priests around their bishop.

From there, the Archbishop went on to Minnesota where he administered confirmation to nearly 80 souls. Here, although he gave a sobering picture of the dark situation in Rome, the people were obviously uplifted and tremendously encouraged by his visit. His Grace then went on to St. Mary’s, Kansas, were he spent three happy days administering confirmation, talking to various laymen who are helping Fr. de la Tour to run his major educational establishment, and holding a Pontifical High Mass on Saturday morning. A full picture-story is in this month’s issue of The Angelus. He returned to New York for two more days before going back to Europe. Before leaving, the Archbishop said that he was very happy with the spirit of the Society such as he now found it flourishing at the seminary, at St. Mary’s, and in the various centers of the Society which he visited.

Fr. Schmidberger, who arrived in the United States on May 10, is spending over a month here until June 11, making a long and exhausting tour all around the United States, so as to make himself directly familiar with many of the Society’s endeavors, the better to build upon firm foundations for the future work of the Society in this country. For half of his tour, he is being accompanied by the new superior in America, Fr. Laisney, whose youth, energy and intelligence promise to make him a great acquisition for taking the Society’s work in the United States a major step forward. From the middle of June onwards, he is likely to settle (at least provisionally) in Dickinson, Texas, which becomes temporary headquarters for the whole Society in the United States.

Last – and most important – Fr. Schmidberger is anxiously making plans to stablish a cloister for praying and sacrificing nuns in the United States, with the help of Mother Marie-Christiane, presently head of three Carmels which are flourishing in Europe, attached to the Society of St. Pius X. He has been eager for her to come to the United States to inspect two possible locations for a fourth Carmel!

Mother Marie-Christiane, a natural sister of Archbishop Lefebvre and Carmelite nun herself for 56 years, has for the last year and half been wishing for a foundation in the United States. Fr. Schmidberger’s direct experience of the urgent need for holy prayer to draw down God’s grace in the United States has prompted him to expedite her longstanding aspiration. Let us pray it come to fruition!

All this work of building and rebuilding by the Society constitutes a resistance to the devil which he could not leave in peace. His reaction was not slow in coming!

On Sunday night, May 20, when the Archbishop arrived back at the seminary at a late hour from Kansas, somewhat tired and travel-weary, no sooner had he stepped out of the can than he was served with a civil court summons in a suit to evict the Society from the seminary property here in Connecticut, a suit filed by Fathers Cekada, Dolan, Jenkins, Kelly and Sanborn. Those standing by noticed and will not easily forget the look of pain on the face of the Archbishop, who it must be remembered was their Father in the priesthood. Now according to the old Code of Canon Law, anyone citing a Catholic bishop before a civil judge incurs automatic excommunication (canon 1341). Hence, according to the only Code of Canon Law which they themselves recognize, these five priests are excommunicated!

Then a few days later, an event which should have taken by surprise no Catholic familiar with the Gospel story of the betrayal of Our Lord, but which has nevertheless caused deep shock and heartache and scandal to countless Catholics: of the four newly ordained priests who had freely requested and received ordination within the Society of St. Pius X at the hands of its founder, Archbishop Lefebvre, after freely taking on the evening before with their hand on the Gospels a solemn oath of fidelity to their superiors, two of the four, on the stormy afternoon of May 23, amidst flashes of lightning and torrents of rain, walked out of the seminary and went to join the nine priests who defected last year, and two days later a third, already absent, announced that he was doing the same. And it was night.

A few facts will highlight the nature of this deed. Firstly, we now know that very soon after the defection of the Nine one year ago, these three actually told someone that they intended to lie low in order to get the priesthood. Certainly, over the course of one whole year their words and actions in the seminary were of a nature to persuade everyone, priests, seminarians and even visitors from outside, that they would be loyal to the Society. Did they for one whole year live a lie?

Secondly, on the very eve of their ordination, in accordance with the traditional requirements of Mother Church, all three took a solemn Oath of Fidelity at the altar of God, with their hand touching the Gospels before the Blessed Sacrament in the opened tabernacle, swearing amongst other things that they would respectfully obey their superiors in the Society of St. Pius X. The complete text of this oath and the signatures of all three are enclosed with this letter.

The alterations made to the text by one of them suggest he was not at ease, and indeed to swear such an oath at all each of them must have found, or been given, a way of justifying or rationalizing to himself and to others what he did. However, if before God they here committed perjury, then their receiving of holy orders in such a state will have been, thirdly, a grave sacrilege.

Fourthly, towards the end of the traditional ordination ceremony, each of the three placed his hands between the hands of the Archbishop, for the Archbishop to ask him in Latin, “Do you promise to me and my successors reverence and obedience?” Each of the three answered distinctly, “Promitto, meaning “I promise”.

Fifthly, the at least apparent breaking, within ten days, of these solemn oaths and promises, taken together with all the other circumstances of this latest defection, has caused and will continue to cause a terrible scandal to Catholics, not only to those attached to Tradition who supported and assisted these three because they trusted them to follow Archbishop Lefebvre in defense of the Faith, but also to countless others not yet attached to Tradition who will wrongly but understandably say that if Tradition fosters such disloyalty, then they want none of it.

By way of comment upon these facts, let three quotations for the moment suffice. On May 27 of this year, Fr. Sanborn said from the pulpit in Traverse City, Michigan, “I am very pleased to announce three of the four priests who were ordained by Archbishop Lefebvre on May 13th have decided to come with us. This makes me very happy because I trained them, and so not all the fruits of my labor as rector of the seminary were lost.” (Does Fr. Sanborn realize what fruits he is laying claim to?)

On April 28 of last year, just after the split between the Society and the Nine, Archbishop Lefebvre said at the seminary to all the seminarians, including the three who have just defected:

I hope you will make the good choice. But you must choose. If you agree with the position and attitude and orientation of Fr. Kelly, then follow Fr. Kelly. If you think Mgr. Lefebvre is right, then follow the attitude of Monseigneur and the Fraternity. But you must be clear… honest. Do not say: I will be silent until after my ordination. That is wrong! God knows that! That is a lie before God… not before me. I am nothing. But before God! You cannot do that! That is precisely what Fr. Dolan said, i.e., “I knew how to keep quiet until my ordination”. I cannot understand him doing that! A future priest doing that??

And on May 30 of this year, one of the three latest defectors, when reproached by a lady that such a blow as these actions of their might have killed the Archbishop, replied, “Oh, he’s 78 years old anyway. Mark you, I’m grateful to him, because without him I wouldn’t be a priest.”

People might ask how such a thing could happen inside a seminary, and whether the same will not happen again. The answer is that Jesus saw to the very depths of the human heart (John 6:65, 71), but still chose to allow an Apostle to be unfaithful. As for Jesus’ priests, we can only see into human hearts, in the words of the ordination rite itself, “as far as human frailty allows us to know.” Also there comes a point of mistrust at which the service of God seizes up and a Catholic seminary can no longer operate, because charity “believes all things and hope all things” (I Cor. 13:7). However we are keeping our eyes open, and one seminarian has already been asked to leave since the defection, who under questioning clearly shared the defectors’ way of think.

To fortify your Faith, the seminary and St. Joseph’s Shrine are again this summer offering several courses of St. Ignatius’ great Spiritual Exercises. Make use of this unique opportunity to strengthen your spiritual life, which is more important than anything else. For our part, with the help of God, neither the Society nor the seminary will be shaken off course, but despite these trials or even because of them, both Society and seminary will thrive as God wills. Our next project is the opening of another mission on Long Island, where many Catholics are in distress.

May God’s most Holy and Unsearchable Will be always adored, and may His Blessed Mother, Virgin most Faithful, ever obtain for us in these faithless times the graces of fidelity and loyalty!