terça-feira, 17 de setembro de 2019

A ENTRONIZAÇÃO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Iniciamos hoje a postagem de trechos do livro "Jesus Rei de Amor" do Reverendíssimo Padre Mateo Crawley Boevey SS.CC. sobre a prática da Entronização do Sagrado Coração de Jesus. Intentamos, desse modo, dar maior visibilidade a essa devoção e maior glória a Nosso Senhor.



A ENTRONIZAÇÃO

EM QUE CONSISTE - PARTE 1

Vivat Cor Jesu Sacratissimum!
Adveniat Regnum tuum!

Em que consiste

Podemos defini-la: O reconhecimento oficial e social da soberania amorosa do Coração de Jesus sobre a família cristã.

Reconhecimento sensível pela instalação definitiva e solene de uma imagem do Sagrado Coração em lugar de honra, e pela inteira oferta do lar por meio do ato de consagração.

Disse o Deus de misericórdia em Paray-le-Monial que, sendo Ele mesmo a fonte de todas as bênçãos, copiosamente as distribuiria onde fosse colocada a imagem de seu Coração, com o fim de ser amada e honrada. (Vida e Obras de Santa Margarida Maria, por Gautey, p. 296).

Disse mais: "Reinarei apesar de meus inimigos e de todos quantos pretendam opor-se".

A Entronização, portanto, não satisfaz apenas este ou aquele pedido do Salvador a Santa Margarida Maria, mas realiza completa e integralmente todos eles, atraindo o cumprimento de todas as promessas esplêndidas que os enriqueceram.

Observe-se que dizemos "realiza integralmente" o conjunto dos pedidos formulados em Paray, porque seu fim supremo, transcendental, não é, nem deve ser, o fomento de umas tantas devoçõezinhas e sim a santificação profunda do lar - segundo o espírito do Sagrado Coração -para que se converta em primeiro trono do Rei divino, trono vivo e de caráter social.

Para transformar e salvar o mundo é imprescindível que o Natal se perpetue, palpitante e permanente, isto é, que Jesus, o Deus Emanuel, seja deveras "Deus conosco", que habite real e efetivamente entre nós, irmãos seus exilados, bem mais fracos que maus...

Não nos enganemos: para em dia mais ou menos próximo chegarmos ao Reinado Social de Jesus Cristo, fazendo-o reconhecido e acatado como Rei soberano, será preciso reconstruir a sociedade moderna desde seus alicerces, reedificá-la nas bases de Nazaré, da família profundamente cristã.

Aquilata-se o valor de um povo pelo valor moral da família. Em santidade ou corrupção, vale um povo o que vale o lar. Regra sem exceção.

Recordo o que me dizia um grande convertido: "Padre, não poderá nunca o Sr. exagerar a importância da Cruzada que prega. Como já lhe disse, os Irmãos da Loja a que tantos anos pertenci não visam outra coisa que descristianizar a família. Isto feito, em parte ou totalmente, fiquem os católicos com suas catedrais, igrejas e capelas. Que importam monumentos de pedra, uma vez conseguido o domínio sobre o santuário do lar?...

Na proporção do êxito desta estratégia sectária tem o inferno assegurada a sua vitória. Assim raciocinei, e agi em consequência, eu mesmo, Padre, enquanto filiado às hostes da maçonaria".

Triste mas eterna a verdade do Evangelho: "Os filhos deste século são mais hábeis na sua geração que os filhos da luz" (Lc 16, 8).

O grande mal, o maior da nossa sociedade, é ter perdido o sentido do divino; mas esse mal há de ter um remédio... Qual? Voltar ao caminho do Evangelho, retornar a Nazaré.

O Senhor, sapientíssimo, quis fundamentar a redenção do mundo sobre a pedra angular da Sagrada Família. Nela, o Verbo, Jesus, nosso Irmão, começou sua obra redentora... E não será de maneira diferente que devemos salvar o mundo moderno. Modelemo-lo pela forma, tão simples quanto sublime, de Nazaré.

Quanto não se falou, com a eloquência dos discursos e das fotografias, sobre as devastações horrendas de igrejas e templos no imenso campo de batalha da Grande Guerra!... Catedrais, mosteiros, capelas, destruídos pela metralha, no inevitável vaivém dos exércitos que se entrechocavam...

Quanto mais espantosa é, porém, a ruína moral da família cristã!

O lar é o templo por excelência, o Tabernáculo três vezes santo. Por muito artísticas e venerandas que possam ser, basílicas e catedrais não salvarão o mundo. Ele será redimido pelas famílias santas, Nazaré divino.

E isto compreende-se.
A família é a fonte da vida, a primeira escola da criança. Por isso queremos tão profundamente embeber o lar de Jesus Cristo e da seiva do seu amor divino, que toda a árvore se mude no próprio Cristo Jesus, em flores e frutos.

Ora, a Entronização, bem compreendida, não é senão Jesus, o Rei de Nazaré à soleira da porta, a pedir o lugar que é seu, que por direito divino lhe corresponde, o mesmo que lhe reservava Betânia, em tempos antigos.

Lugar de honra, porque é Rei (Jo 18, 37), e em dia não longínquo, tendo conquistado com seu amor família por família, reinará sobre todo o conjunto delas, a sociedade.

Lugar de intimidade, no seio do lar, porque quer ser realmente o AMIGO (Cânt 5, 16). Sobretudo por seu Coração, e usando o brando cetro do amor, a sua soberania suave incrementa essa intimidade.

Numa palavra: A Entronização visa perpetuar a convivência com o Jesus do Evangelho, o Emanuel que volta para habitar as tendas dos filhos dos homens.

Mas quão pouco conhecido é Cristo! E por isso, quão pouco amado! A maioria daqueles que se dizem cristãos tem-lhe medo e vive à distância. Diz-lhe, não talvez com os lábios, mas com suas atitudes: "Fica, Senhor, em teu tabernáculo; quanto a nós, viveremos por nossa conta e risco, viveremos nossa vida familiar, sem que te intrometas demasiado intimamente nela... Não te chegues demais, não nos fales, para que não aconteça morrermos de medo" (Ex. 20, 19).

Assim falaram os judeus a Yahweh, e da mesma forma continuam a dirigir-se os filhos a seu Pai e Pastor! Empenhamo-nos em ver em Jesus Salvador, tão manso e acessível, o Yahweh terrível a despejar relâmpagos no Sinai, em vez de fitarmos o Rei de Amor, que acha suas “delícias em estar com os filhos dos homens" (Prov 8, 31).

Aquele que, durante sua vida mortal, comprazia-se em hospedar-se em casa de pecadores (Mt 9, 11) e assistir às bodas de Caná (Jo 2, 2). De mil modos, encantadores e maravilhosos, aprouve-lhe mostrar-nos que o desejo de seu Coração é participar de nossa vida, tal como é, com todos os seus sofrimentos e alegrias. Alegamos nossa indignidade!... Que absurdo! Como se tivesse sido digno Zaqueu a quem a curiosidade, e não outro motivo, pôs no caminho do Salvador... Como se tivessem sido dignas - ou santas - a Cananéia e a Samaritana; santo, Simão o Fariseu, e tantos companheiros nossos na lepra moral, na miséria e maldade...

Não, nenhum deles era digno, mas todos tiveram fé no amor misericordioso do Mestre, e aceitaram com simplicidade a sua condescendência. Felizes desgraçados, cujo infortúnio atraiu e comoveu o coração do Salvador! Em suas casas e em suas almas, com Jesus entrou a felicidade, a paz e a conversão... "Hoje entrou a salvação nesta casa" (Lc 19, 9).

Pretexto farisaico, o respeito!

O Deus de toda majestade, despojando-se de seu esplendor, nos chama e, de braços estendidos, oferece-nos a mão... Chega a ser atrevimento e insolência pretendermos dar-lhe uma lição e, alegando respeito, mantermo-nos à distância, como que a dizer-lhe: "Lembrai-Vos de que sois Deus e Rei; afastai-Vos".

Estão aí para se verem os milhares de pseudo cristãos que apesar da Redenção pretendem servir ao Redentor abrindo vales entre si e Ele, erguendo montanhas, cavando abismos. E isto, sempre por respeito!

O respeito, em sua essência, é amor e não etiqueta, pelo menos em relação a Jesus. Por vontade Sua explícita, o respeito não é distância, uma vez que Ele já a suprimiu com a Encarnação e a Eucaristia.
Suprimindo-a, exigiu dos cristãos, no entanto, uma adoração muito mais perfeita que aquela que lhe tributavam os judeus, tremendo e às léguas. Quantos não são os cristãos batizados na pele, judeus de alma, em perpétuo temor exagerado que, se ouvissem Jesus falar-lhes e chamá-los "filioli", filhinhos, "amici mei", meus amigos, morreriam não de emoção e de amor, mas de espanto!

Quanto a mim, deixai-me repetir à saciedade "Calem-se em boa hora todos os Moisés e Profetas... Calem-se os homens cujas vozes por suaves que pareçam sufocam-me... Calem as criaturas o seu canto de rouxinol, que a minha alma anseia por ouvir-Te a Ti, Jesus, só a Ti que tens palavras de vida eterna e de amor... Deixa-me ouvir-Te para que possa pregar-Te a Ti, Jesus, autêntico Amor dos amores, Filho de Deus vivo e Filho de Maria!"

Ouvi-me: Detesto mil vezes mais um jansenista que cem protestantes, e ainda mais que um incrédulo. 
Lembro-me de um senhor que se tinha por católico como ninguém e que me dizia: "Eu, Padre, colocar em minha sala um Coração de Jesus? Nunca! Que falta de respeito! Não faltava mais nada!"

Que faria este ardoroso católico, se tivesse visto com seus próprios olhos o Rei dos reis lado a lado com pecadores a procurar, Ele mesmo, a confiança, a intimidade familiar em publicanos e outros que tais, gente muito pouco recomendável e ilustre, sem dúvida?

Quantas vezes esses respeitos não passam de camuflagens do respeito humano e também da soberba!...

Como se Aquele, a quem convidaram os noivos de Caná para as suas bodas, não fosse sentir-se honrado e em lugar seu, numa sala que se diz cristã! Não é Ele, porventura, o Rei dos reis?

Triste realidade: depois de vinte séculos de cristianismo, o Amor não é amado, não é amado, absolutamente!

Não se prega bastante o amor de Jesus Cristo e, no entanto, esta Sua caridade não é um sentimento doentio. Amor é labareda, amar é vida, e que vida!

E isto tudo se deve, em parte ao menos, à falta de leitura, à falta ainda maior de meditação do Evangelho, onde de cada página ressalta um só anelo divino: a intimidade familiar com o homem.

Acaso temeram a Jesus aqueles pequeninos da Galiléia, que se lançaram nos seus braços, enlevaram-se com Seu olhar e descansaram sobre seu Coração? E quando, à força, viam-se arrancados deste ninho, depressa a ele tornavam, atraídos, imantados, pelo peito d'O Mestre.

Como pretender vê-Lo conhecido, amado com paixão divina, se nosso Cristianismo -e nossa piedade não se fundamentam em aproximação e intimidade? Como amá-Lo com santa e deliciosa embriaguez se o contemplamos desfigurado e à distância? E, no entanto, quem, depois de contemplar Tua beleza, não estimará tudo o mais em tristeza e desventura?

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