quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A ENTRONIZAÇÃO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


A ENTRONIZAÇÃO

EM QUE CONSISTE – PARTE 2

Vivat Cor Jesu Sacratissimum!
Adveniat Regnum tuum!

Apreciai uma cena que me atrevo a chamar evangélica, embora não a encontremos textualmente no Evangelho. Intitulemo-la "As quatro primeiras visitas de Jesus a Betânia". Se me ledes com o coração, ao terminar, direis num movimento de amor: "Se não a moldura, pelo menos a tela deve ter sido uma feliz realidade... Alguma coisa disto, e talvez grande parte, deve ter ocorrido em Betânia".

Quando, pela primeira vez, chegou Jesus a Betânia, foi recebido por Lázaro e Marta (Maria era ainda a ovelhinha errante e extraviada) com certa reserva, não de todo isenta de legítima curiosidade. Ver de perto o famoso Nazareno, cujos prodígios comentavam-se por toda parte, beijar-lhe a mão, ouvi-Lo na intimidade... Quem será ele? Um Rabi? Um Profeta?... Lázaro e Marta sentiram-se sem dúvida lisonjeados com tanta honra, mas, ao mesmo tempo, intrigava-lhes tal personagem... Escutavam-no atentos, ainda que a certa distância. Julgavam e admiravam-no com as inevitáveis reservas. No entanto, algo de misterioso, de inefável que emanava de toda a sua Pessoa comovera secretamente e conquistara, nos dois irmãos, a fibra mais delicada. Por isso, já no limiar da porta, embargados por uma emoção jamais sentida, ao despedirem-se de Jesus, disseram os dois a uma voz, com tremor denunciante do amor que despertava: "Mestre, regressa a Betânia, não nos vás esquecer".

E Jesus, com um sorriso que permitia adivinhar um reflexo do céu de seu Coração, prometeu retornar...

Chega a Betânia pela segunda vez.

Quase uma festa. Flores e expectativa. Lázaro e Marta comovem-se ao sentir que se aproxima de Betânia o adorável Nazareno. Impacientes, saem a esperá-Lo. Alegram-se realmente ao vê-Lo... 
O respeito é muito maior que por ocasião da primeira visita, pois já desponta o amor. Desta vez, não se contentam mais com escutá-Lo extasiados: há confiança bastante para interrogá-Lo... A palestra é quase familiar, com tonalidades de expansão e alegria. "Como é simples e bom o Mestre, comentam, que Majestade doce e avassaladora! Seu olhar reanima e ilumina, suas palavras transformam, seu Coração arrebata... Todos os amores da terra têm o sabor do fel quando se há provado de perto suas palpitações divinas!"

Desta vez, à partida, Lázaro e Marta a custo logravam reprimir o soluço que lhes apertava a garganta.

A uma voz, suplicaram os dois com o coração nos lábios, simplesmente humildes: "Será difícil acostumarmo-nos de hoje em diante a viver sem Ti; volta, Senhor, considera Tua esta casa, considera-nos amigos Teus!"

E Jesus, comovido, respondeu-lhes: "Serei vosso Amigo, voltarei sim, e, já que me amais, Betânia será o oásis do meu Coração".

Que explosão de júbilo, que festa de amor o regresso de Nosso Senhor a Betânia pela terceira vez! A esta chamemos a visita e a acolhida da Entronização. Com que impaciência tinham contado Lázaro e Marta as horas e -os dias! Que nostalgia, que solidão insuportável tornara-se Betânia desde a palavra de Jesus: "Regressarei, como Amigo". Já nada lhes dá paz, nada tem o dom de fazê-los sorrir. O único sonho dourado, ou melhor, a única realidade é Ele. Desde que se despediu viviam sem viver. Jesus arrebatara-lhes -os corações.

Por fim, eis que chega o Desejado! Abalam ao seu encontro, caem-lhe aos pés chorando de felicidade, beijam as mãos divinas. E em meio de uma verdadeira ovação de carinhos, de ternura, chamando-O com santa ousadia "Amigo", introduzem-no onde não se recebe senão um íntimo do lar.

Achegam-se logo, sem nenhum temor, falam com a santa familiaridade dos seus discípulos, conversam com a feliz intimidade, o desafogo de quem se sente adivinhado, compreendido, amado. E Jesus escutava, e a cada resposta, a cada olhar ou sorriso ia penetrando até o profundo da alma dos seus amigos...

De repente, no ardor maior desse diálogo de celestial intimidade, faz-se o silêncio... Jesus cala, Lázaro aproxima-se mais do Mestre e, apoiando seu rosto nos joelhos do Amigo divino, rompe num soluço.

- Por que choras? Pergunta Nosso Senhor.
- Tu sabes de tudo, responde Lázaro.
- Sim, sei de tudo, mas já que somos amigos de fato, fala, confia-Me tua alma toda inteira.

E, enquanto Marta esconde entre as mãos o rosto enrubescido e chora em silêncio, Lázaro diz: "Mestre, somos dois, mas éramos três nesta casa. Maria, nossa irmã, cobriu-nos de tristeza e vergonha, chamam-na "a Madalena"! Tanto a queremos e, hoje, é a desonra de Betânia. Jesus, se és nosso Amigo, devolve-nos Maria sã, salva e aformoseada!"

Jesus, depois de chorar com seus amigos, afirma com voz entrecortada: "Vossa irmã voltará, viverá, e Betânia será feliz!" Ao despedir-se nessa tarde, já fora do umbral, abençoando seus dois amigos, repete-lhes Nosso Senhor: "Maria tornará ao redil, amigos queridos, voltará, para glória de meu Pai e minha!"

O Evangelho conta o resto: a ressurreição da pecadora, quebrando aos pés de Jesus, como símbolo de seu coração arrependido, o frasco de alabastro, cujos bálsamos preciosos ungem os pés e os cabelos do seu Redentor.

Quando o Senhor visitou seus amigos pela quarta vez, a primeira a sair-lhe ao encontro cantando o hosana foi Maria Madalena, a ressuscitada de Betânia. Desde então, nesse lar ditoso apesar dos espinhos, nesse santuário refeito pelo Príncipe da Paz, o Rei de Amor, viveram novamente por muitos anos os três, inseparáveis como outrora. O Coração de Jesus era, porém, o centro e o traço de união entre os três irmãos.

Bem conhecia o Senhor o sofrimento amaríssimo que abatia esse lar. Para remediá-lo, porém, espera que os aflitos chorem sobre Seu peito e Lhe confiem a sua tribulação.

Esperou tornar-se Rei-Amigo de Betânia e só aí, em retribuição do amor, da amizade e da confiança, operou o milagre.

Insisto: estas cenas não se encontram no Evangelho, mas, não é verdade que algo parecido e certamente mais belo ainda deve ter ocorrido nesse lar afortunado? Não é verdade que dessa forma concebeis a beleza da Entronização?

Por que estranhar, portanto, que o Rei de Betânia, imutável nas suas ternuras, confirme diariamente com maravilhas e prodígios o que acabamos de assegurar sobre a confiança dos verdadeiramente afeiçoados ao Coração de Jesus?

Feliz o lar que Lhe diz ao recebê-Lo: Mane nobiscum, "fica conosco" (Lc 24, 29) e que, assim dizendo, parece cerrar as portas por trás de Jesus, aprisionando-O com grilhões de amor.

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